lunar dance

© Tanya Zommer

carta sem metáforas

Não quero ser pintura, preciso que me peguem e que o tudo,
que alguns poetas falam, seja muito pouco.


Ana Tinoco

rain

a symphony orchestra.


Charles Bukowski

letters to dead people

© Letters to Dead People (aqui)

o mais belo espectáculo de horror

somos nós


António José Forte

imersa no silêncio

Cabia imersa no silêncio a tua presença,
como a esposa no tálamo ou uma noite
de verão. Cabia imensa como uma ferida
aberta numa mão fechada.


José Rui Teixeira

It's another night

Drunk and weeping. It’s another night
at the live-in opera, and I figure
it’s going to turn out badly for me.
The dead next door accept their salutations,
their salted notes, the drawn-out wailing.
It’s we the living who must run for cover,
meaning me. Mortality’s the ABC of it,
and after that comes lechery and lying.
And, oh, how to piece together a life
from this scandal and confusion, as if
the gods were inhabiting us or cohabiting
with us, just for the music’s sake.


Harvey Shapiro, The Sights Along the Harbor

turkish delight

Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.


Judith Herzberg

In the desert

I saw a creature, naked, bestial,
Who, squatting upon the ground,
Held his heart in his hands,
And ate of it.
I said: "Is it good, friend?"
"It is bitter – bitter," he answered;
"But I like it
Because it is bitter,
And because it is my heart."


Stephen Crane

le cochon danseur

Le cochon danseur, 1907

leis no coração do caos

Se urdimos leis no coração do caos, foi para as pernas não tropeçarem uma na outra, foi para que os braços não enrolassem o pescoço, foi para que o destino ficasse mais longe.


Henrique Manuel Bento Fialho

os amantes sem dinheiro

Vem beber café comigo
prometo não largar a tua mão
quando fugirmos sem pagar a conta


Bruno Sousa Villar

~~



Amores Perros, Alejandro González Iñárritu, 2000

é alarmante

ser-se acariciado quando se espera ser ferido.


Bernard-Marie Koltès, Na Solidão dos Campos de Algodão

não é vergonha nenhuma

esquecer à noite aquilo que iremos recordar de manhã; a noite é o momento do esquecimento, da confusão, do desejo tão aquecido que se transforma em vapor. No entanto a manhã recolhe-o como uma grande nuvem sobre a cama, e seria idiota não prever à noite a chuva da manhã.


Bernard-Marie Koltès, Na Solidão dos Campos de Algodão

o mundo era uma áspera

inexactidão fugindo-lhe, ou então uma espuma a desfazer-se,
ou então algum sarro em cada página.


Vasco Graça Moura

se eu fosse um vídeo




every minute alone, every day spent at home/ every point of return, every thought and concern/ every moment that pass, every piece of my heart/ every point of return, every running towards the top

sábados

Embora eu nunca tivesse conseguido aprender como se vive aos sábados, se é que existe uma maneira específica de atravessá-los.


Fernando Caio de Abreu

try a little tenderness


Pretty in Pink, Howard Deutch, 1986

68 sonhos

Subo a um andar alto, acompanhada de alguém. Abre-se uma porta e surgem criaturas que me parecem encarnar o cúmulo da perversidade. Tentam aliciar-me. Caminho por uma espécie de largo corredor exterior, em arcadas, dando sobre o mar. Tudo intensamente colorido, lembrando uma paisagem de Chirico. O chão do corredor, porém, é de comida.


Ana Hatherly

mecânico coração

forçando o coração a ganhar foles, deitar fumo, substituir o sangue por óleo, verter para os outros orgãos como dentro de um motor, tendo radiador, ventoinhas, estruturas inoxidáveis no caminho do esqueleto, propolsores, tubos comunicantes, roldanas, anilhas e parafusos, mecanismos dentados como a ferrarem-se impiedosamente uns nos outros e para sempre, visores perfeitos para o futuro coberto de ouro, já muito mais fácil de existir.


valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores

to live with you to die with me

Lolita, Stanley Kubrick, 1962

assunto outonal

O cogumelo é uma questão outonal, como a salsicha, pelas mesmas razões que também são assunto outonal o toucinho, o feijão branco e a melancolia.


Josep Pla

eu também existo

- [...]o facto de tu seres tu não significa que eu não te inventei.
- Eu também existo.
- Também. Também existes e eu também te inventei. «Também» é uma boa palavra a lembrar. Tu também não existes como tu sozinha.


Philip Roth

achas que podes não morrer antes

vou buscar o meu coração, guardei-o aqui
algures e, por ti, tenho a certeza, vale a
pena voltar a encontrá-lo e correr todos os
riscos de novo

cuidado com o cão, não morde, mas é
pesado e pode tirar-te o fôlego com as
patas no peito e depois vou querer
beijar-te

achas que podes não morrer antes

há champanhe e bolo de chocolate


valter hugo mãe, folclore íntimo

o vento agita as sombras

na minha mão, lança-me
vultos, um nome em chamas, versos
afiados contra os dedos.
sempre pressenti a distância mínima
entre o poema e o medo
de não saber regressar a casa.


Renata Correia Botelho

se eu fosse um vídeo

I read somewhere

     just waking up can kill you.


Elizabeth Ross Taylor

com a minha mão na tua boca

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.


Julio Cortázar, O Jogo do Mundo

and bad again

Ghost World, Terry Zwigoff, 2001

na cama

quando me chego não percebes
que nada me deixa dormir
senão a proximidade do teu corpo
numa lenta água de barragem
que se encalha como um navio
sobre ondas cada vez maiores
que se fazem da inquietação
de um calor que se orvalha
entre cada pedaço que te toca
ah e pedir-te pedir-te até à exaustão
uma noite repetidamente lenta


Sofia Crespo, Um pássaro na Ponta da Língua

the history of melancholia

includes all of us.


Charles Bukowski

se eu fosse um vídeo




this is not about love / 'cause I am not in love / in fact I can't stop falling out

o poema

A primeira vez que entrei num poema não fechei a porta. O poema apanhou tudo. Nunca mais pude sair.


Vasco Gato

assim te invento

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.


Maria Teresa Horta

cut the world

© Elene Usdin

ardes-me

Ardes-me no peito onde a custo
o meu amor perpassa, e vai até
às loucuras do corpo
e às agruras da alma.
Ardes-me no minuto, no segundo,
na hora amaciada por olhos entrevistos,
ardes-me no sangue obstruído
e na certeza muda que me diz
que o coração existe.


Pedro Tamen, Canto da Minha Nudez

some people never go crazy

me, sometimes I'll lie down behind the couch
for 3 or 4 days.
they'll find me there.
it's Cherub, they'll say, and
they pour wine down my throat
rub my chest
sprinkle me with oils.


Charles Bukowski

se eu fosse um vídeo

volta a fechar a porta

volta a fechar a porta, não há nada para ti lá fora
e está frio, tens reumatismo, dói-te a cabeça,
não faz sentido sequer que
tentes chegar às luzes esbatidas da marginal, ainda
que seja só ao lado menos percorrido pelos banhistas

volta a fechar a porta e talvez durmas, está um
agradável silêncio no prédio, tenho a certeza de que
reparaste nisso


valter hugo mãe, folclore íntimo

entre muitas outras coisas,

tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. sozinho não o podia fazer.


Franz Kafka

you don't have to walk that good



esta merda parte-me sempre o coração

ó caralho

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Concerteza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!

Ó caralho!


Joaquim Pessoa

nos dias tristes

nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso

nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.


Filipa Leal

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adília Lopes Adolfo Casais Monteiro Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tinoco André Tomé Andreia C. Faria Angélica Freitas Ângelo de Lima Aníbal Fernandes António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bénédicte Houart Bruno Béu Bruno Sousa Villar Camilo Castelo Branco Carlos Alberto Machado Carlos de Oliveira Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Soares Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio de Andrade Eugénio Lisboa Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira gil t. sousa Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Hélia Correia Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Serrado João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Manuel Ribeiro João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge de Sena Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Mário Silva José Miguel Silva José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça Judith Teixeira Leitão de Barros Luís Miguel Nava Luís Quintais Luiza Neto Jorge Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Manuel Fúria Manuel Gusmão Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Ângela Alvim Maria Azenha Maria do Rosário Pedreira Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Mário Cesariny Mário Contumélias Mário de Sá-Carneiro Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário-Henrique Leiria Marta Chaves Matilde Campilho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Cóias Rui Costa Rui Knopfli Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Costa Sebastião Alba Sílvio Mendes Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Tiago Gomes valter hugo mãe Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno

poemário dali

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