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já dizia o saramago
que
«Há situações na vida em que já tanto nos dá perder por dez como perder por cem, o que queremos é conhecer rapidamente a última soma do desastre, para depois, se tal for possível não voltarmos a pensar mais no assunto.»
«Há situações na vida em que já tanto nos dá perder por dez como perder por cem, o que queremos é conhecer rapidamente a última soma do desastre, para depois, se tal for possível não voltarmos a pensar mais no assunto.»
coisas explicáveis que não carecem de explicação
Provavelmente, a próxima vez que ouvires falar de mim
será quando te disserem que morri
e que morri por minhas próprias mãos
(isso acontece).
Isso acontece do outro lado da ternura,
onde ela é demasiada e coisa rara,
vermelha e branca, ou seja, côr de rosa
quase transparente.
São coisas explicáveis e que não carecem de explicação
(já não),
como os incêndios, a fadiga extrema
ou o cheiro agreste da benzina.
São coisas da natureza dos comboios que passam
a alta velocidade
sem se importarem com os ratos e as flores
que nos carris fazem a sua lida.
É a morte,
uma coisa que tudo simplifica.
Miguel Martins
será quando te disserem que morri
e que morri por minhas próprias mãos
(isso acontece).
Isso acontece do outro lado da ternura,
onde ela é demasiada e coisa rara,
vermelha e branca, ou seja, côr de rosa
quase transparente.
São coisas explicáveis e que não carecem de explicação
(já não),
como os incêndios, a fadiga extrema
ou o cheiro agreste da benzina.
São coisas da natureza dos comboios que passam
a alta velocidade
sem se importarem com os ratos e as flores
que nos carris fazem a sua lida.
É a morte,
uma coisa que tudo simplifica.
Miguel Martins
se eu fosse um vídeo
where's this going to? / can I follow through? / or just follow you, for a while
maratona
Tu corres a meu lado
na direcção contrária.
Qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.
José Miguel Silva
na direcção contrária.
Qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.
José Miguel Silva
quando acordares
Quando acordares, já eu terei partido há muito tempo
com o meu fardo de lágrimas e o meu manto vermelho
de feridas. Mas, se perguntares, hão-de dizer-te
que não fui eu que parti, mas tu que me deixaste
ir; e de contar-te que, ao passar pela tua janela,
não desfitei o caminho, nem chamei pelo teu nome,
mas que a minha respiração ainda empurrou
o calor das tochas na direcção do teu rosto,
para que não sentisses frio o resto da noite.
Quando acordares, não acharás diferença no quarto
senão que o teu silêncio te parecerá maior que o mundo -
pois dentro de mim estarás então gritando tudo
o que nunca te ouvi e protegendo, assim, as minhas
memórias. Mas, se perguntares, hão-de dizer-te
que é, afinal, o meu silêncio que lamentas,
só que lembrares a minha voz não a trará de volta.
Quando acordares, já eu terei rasgado estradas
entre as pedras rugosas das encostas e ferido
os braços nos espinheiros assanhados dos cumes,
como um rio avançando cegamente pela montanha.
Mas, se perguntares, hão-de dizer-te que só viram
o mar - e que o mar é tão imenso
que esconde as cicatrizes de todos os caminhos.
Por isso, não acordes nem perguntes. Quem parte
assim, com um fardo de lágrimas e um manto
vermelho de feridas, parte para sempre.
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida
com o meu fardo de lágrimas e o meu manto vermelho
de feridas. Mas, se perguntares, hão-de dizer-te
que não fui eu que parti, mas tu que me deixaste
ir; e de contar-te que, ao passar pela tua janela,
não desfitei o caminho, nem chamei pelo teu nome,
mas que a minha respiração ainda empurrou
o calor das tochas na direcção do teu rosto,
para que não sentisses frio o resto da noite.
Quando acordares, não acharás diferença no quarto
senão que o teu silêncio te parecerá maior que o mundo -
pois dentro de mim estarás então gritando tudo
o que nunca te ouvi e protegendo, assim, as minhas
memórias. Mas, se perguntares, hão-de dizer-te
que é, afinal, o meu silêncio que lamentas,
só que lembrares a minha voz não a trará de volta.
Quando acordares, já eu terei rasgado estradas
entre as pedras rugosas das encostas e ferido
os braços nos espinheiros assanhados dos cumes,
como um rio avançando cegamente pela montanha.
Mas, se perguntares, hão-de dizer-te que só viram
o mar - e que o mar é tão imenso
que esconde as cicatrizes de todos os caminhos.
Por isso, não acordes nem perguntes. Quem parte
assim, com um fardo de lágrimas e um manto
vermelho de feridas, parte para sempre.
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida
what makes nancy so great
Sid Vicious lists off his girlfriend Nancy Spungen's best attributes
just months before he allegedly stabs her to death, 1978
os rostos náufragos
A substância do deserto é a do mar, que dele difere apenas pelo grau de apuramento. O mar surge no termo dum processo em que o deserto é uma das fases ou, mais concretamente, a sua cristalização. Se se atender a que o lugar onde esse apuramento se produz é o nosso espírito, não poderão causar qualquer estranheza factos como, por exemplo, o de a presença do deserto ser notada por quem, como os marinheiros, tenha um íntimo contacto com o mar.
O que eu do mar conheço, devo-o contudo, mais do que a qualquer outra experiência, a corpos onde a nitidez das suas águas ultrapassa muitas vezes a dos próprios traços fisionómicos; não raro, basta uma leve carícia, ou outro contacto ainda mais discreto, para sentir como são avassaladoras essas águas, à superfície das quais parecem prestes a afundar-se os rostos náufragos.
Não obstante, também já eu me apercebi da clandestina presença do deserto, o que me leva a compará-lo àquela roupa que persiste em irromper na pele de quem por isso nunca por completo se consegue desnudar.
Luís Miguel Nava, O Céu Sob as Entranhas
O que eu do mar conheço, devo-o contudo, mais do que a qualquer outra experiência, a corpos onde a nitidez das suas águas ultrapassa muitas vezes a dos próprios traços fisionómicos; não raro, basta uma leve carícia, ou outro contacto ainda mais discreto, para sentir como são avassaladoras essas águas, à superfície das quais parecem prestes a afundar-se os rostos náufragos.
Não obstante, também já eu me apercebi da clandestina presença do deserto, o que me leva a compará-lo àquela roupa que persiste em irromper na pele de quem por isso nunca por completo se consegue desnudar.
Luís Miguel Nava, O Céu Sob as Entranhas
insónia
Fechou os olhos, procurando adicionar à escuridão do quarto a escuridão suplementar das suas entranhas. Agradou-lhe a ideia de que, através desse simples gesto, pudesse homogeneizar o exterior e o interior, como se as trevas em que o aposento mergulhava e as que dentro de si assim se desprendiam fossem de uma só e mesma natureza e, por uma progressiva porosidade do seu corpo, circulassem em ambos os sentidos até por completo lhe anularem os limites. De certa forma deixava de ter corpo, ou pelo menos um corpo exterior, e o que a ele se atinha quando havia luz podia agora reduzir-se a um núcleo ou expandir-se em círculos que só não abarcavam sucessivamente o quarto, o apartamento, o prédio, o bairro, porque no escuro nada disso chega a ter sentido. A única referência era, de quando em quando, o longínquo motor de um camião ou o apito de um comboio na linha de Sintra. Esse ruído, que em seu entender constituía o modo de a distância se exprimir, proporcionava-lhe então um incomensurável prazer, que tanto podia advir de, na sequência da transformação que as trevas haviam provocado no seu corpo, o ouvido se ter aproximado do coração, como de, graças à assimilação que essas mesmas trevas haviam produzido entre o interior e o exterior, esses ruídos lhe chegarem como vindos de dentro de si próprio, de dentro desse coração a que os sentidos pareciam encostar-se, e, mediante uma identificação entre o espaço e o tempo a que a escuridão também era propícia, se lhe apresentarem como provenientes duma época remota, tão distante do presente como da sua cama o inimaginável troço de estrada ou de linha férrea donde a espaços irrompiam.
Luís Miguel Nava, O Céu sob as Entranhas
Luís Miguel Nava, O Céu sob as Entranhas
relatório do medo
Depois é um ritmo, uma libertação. Encho folhas de papel com essa trama subtil e exasperada feita de memória, a atentas expensas de esquecimento. É o relatório do medo lido ao inverso.
Herberto Hélder, Photomaton & Vox
Herberto Hélder, Photomaton & Vox
um ser (a)normal
Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.
Herberto Hélder, Photomaton & Vox
Herberto Hélder, Photomaton & Vox
eu não estou
A esta hora em que a noite é uma seringa partida. A esta hora em que os pulmões são de seda e o sangue circula muito devagar. Eu não estou.
A noite é uma especiaria que acende os corpos.
Há três dias que durmo desordenadamente. Transpiro e acordo e vejo casas que são desdobramentos da minha própria casa. A verdade é que preciso de ti para um poema. Preciso que te passeies por uma dessas casas, que te sentes, que te deites. Preciso olhar para ti durante 27 segundos.
A solidão é um serviço misterioso. Reunimo-nos para prestar contas do nosso desaparecimento e por vezes agarramos um braço como se pretendêssemos instalá-lo, de repente e para sempre, na nossa ternura.
Todos os meus silêncios são uma criança que espreita. Todas as minhas faltas são uma criança entusiasmada. Todos os meus poemas são crianças mudas que gesticulam.
Todos os dias saio para a decisão de um amor sem protagonista. Encosto-me às paragens de autocarro e aceno subitamente a alguém que passa. Por vezes retribuem-me o gesto e ficamos ambos sem saber se por graça, se por um escuro reduto de uma franqueza cada vez mais rara. Tens tempo para um estranho? A que horas me poderias dizer o teu nome? Conheço uma igreja que ardeu, conheço outra que é muito muito pequena. Escuta, no meio desse teu deserto, ao passar a caravana do luxo, será que és capaz de suplicar: água?
Preciso de ti para um poema. Ofereço-te em troca o meu auto-retrato sincero. Tenho quarenta livros prontos para serem lidos. Tenho uma estratégia infalível para implementar a primavera. Tenho a segurança de um corpo cheio de insónias, pele de galinha, súbitos arrepios, termómetros para novecentas febres, saliva muito devagar, pés descalços, arrebatamentos incomunicáveis, fins de noite numa garrafa de vinho, estilhaços de quatrocentos orgasmos, comoções, paixões flagrantes, primeiros cuidados para jovens suicidas, lâmpadas que se queimaram nas minhas próprias mãos.
Sou um pintor. Trago sangue para os vossos olhos. Tenho artérias que se descosem e me cospem dentro de mim mesmo. Preciso de muita paciência, de todas as mulheres do mundo. Durmo sobre a cama profana da minha escuridão. Contagio e deixo-me contagiar pela peste dos bairros pequenos. Não suporto muita luz, não sei o que é uma avenida. Esquina, sou qualquer coisa que o espanto torce. Sou viciado no álcool dos corpos que se difundem. Bebo das vossas bocas o que não pode ser visto. Pinto para me esquecer do que não pode ser visto. Pinto com os materiais clandestinos do meu amor. Não projecto nada na minha tela. Eu sou a tela. Eu sou a luta das cores por um diafragma de beleza. Sou um pintor. Mereço morrer como pintor. Não mereço que me prendam. Mereço todas as minhas paixões. Mereço todas as minhas paixões.
Vasco Gato, A prisão e paixão de Egon Schiele
A noite é uma especiaria que acende os corpos.
Há três dias que durmo desordenadamente. Transpiro e acordo e vejo casas que são desdobramentos da minha própria casa. A verdade é que preciso de ti para um poema. Preciso que te passeies por uma dessas casas, que te sentes, que te deites. Preciso olhar para ti durante 27 segundos.
A solidão é um serviço misterioso. Reunimo-nos para prestar contas do nosso desaparecimento e por vezes agarramos um braço como se pretendêssemos instalá-lo, de repente e para sempre, na nossa ternura.
Todos os meus silêncios são uma criança que espreita. Todas as minhas faltas são uma criança entusiasmada. Todos os meus poemas são crianças mudas que gesticulam.
Todos os dias saio para a decisão de um amor sem protagonista. Encosto-me às paragens de autocarro e aceno subitamente a alguém que passa. Por vezes retribuem-me o gesto e ficamos ambos sem saber se por graça, se por um escuro reduto de uma franqueza cada vez mais rara. Tens tempo para um estranho? A que horas me poderias dizer o teu nome? Conheço uma igreja que ardeu, conheço outra que é muito muito pequena. Escuta, no meio desse teu deserto, ao passar a caravana do luxo, será que és capaz de suplicar: água?
Preciso de ti para um poema. Ofereço-te em troca o meu auto-retrato sincero. Tenho quarenta livros prontos para serem lidos. Tenho uma estratégia infalível para implementar a primavera. Tenho a segurança de um corpo cheio de insónias, pele de galinha, súbitos arrepios, termómetros para novecentas febres, saliva muito devagar, pés descalços, arrebatamentos incomunicáveis, fins de noite numa garrafa de vinho, estilhaços de quatrocentos orgasmos, comoções, paixões flagrantes, primeiros cuidados para jovens suicidas, lâmpadas que se queimaram nas minhas próprias mãos.
Sou um pintor. Trago sangue para os vossos olhos. Tenho artérias que se descosem e me cospem dentro de mim mesmo. Preciso de muita paciência, de todas as mulheres do mundo. Durmo sobre a cama profana da minha escuridão. Contagio e deixo-me contagiar pela peste dos bairros pequenos. Não suporto muita luz, não sei o que é uma avenida. Esquina, sou qualquer coisa que o espanto torce. Sou viciado no álcool dos corpos que se difundem. Bebo das vossas bocas o que não pode ser visto. Pinto para me esquecer do que não pode ser visto. Pinto com os materiais clandestinos do meu amor. Não projecto nada na minha tela. Eu sou a tela. Eu sou a luta das cores por um diafragma de beleza. Sou um pintor. Mereço morrer como pintor. Não mereço que me prendam. Mereço todas as minhas paixões. Mereço todas as minhas paixões.
Vasco Gato, A prisão e paixão de Egon Schiele
deixa, isto já passa
- Passa-se alguma coisa consigo? - Perguntei com precaução.
- Passa-se - disse ele - que me arrependo de tudo, de tudo, arrependo-me de tudo, mas não se preocupe porque já me passa.
Juan José Millás, Os Objectos Chamam-nos
- Passa-se - disse ele - que me arrependo de tudo, de tudo, arrependo-me de tudo, mas não se preocupe porque já me passa.
Juan José Millás, Os Objectos Chamam-nos
sozinho
Sozinho levantado. Sozinho sentado. Sozinho deitado. Sozinho na velocidade que não existe, no minuto que não existe, no espaço que não existe, no tempo que não existe, na eternidade que não existe, no nada que não existe, no vazio cheio de lama. Sozinho num bloco de quartzo ignóbil, num icebergue em viagem. Sozinho com a solidão que não é só uma. Com a lua que foi sem ser. Com os seus passos que não existem. Com este tição que se devora e arde ao meio e se devora e arde num sonho que nem sequer é um sonho. Sozinho com o sono do condenado à morte.
Jean Cocteau, Tanta Coisa Por Dizer
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Julian Barnes .
Julio Cortázar .
Karen Blixen .
Kate Chopin .
Katherine Mansfield .
Kurt Vonnegut .
Lázaro Covadlo .
Lillian Hellman .
Luís de Sttau Monteiro .
Luís Miguel Nava .
Luiz Pacheco .
Lydia Davis .
Lygia Fagundes Telles .
Malcolm Lowry .
Manuel Hermínio Monteiro .
Manuel Jorge Marmelo .
Marcel Proust .
Margaret Atwood .
Marguerite Duras .
Marguerite Yourcenar .
Marina Tsvetáeva .
Mário C. Brum .
Mário-Henrique Leiria .
Mark Lindquist .
Marquis de Sade .
Max Aub .
Miguel Castro Henriques .
Miguel Esteves Cardoso .
Miguel Martins .
Milan Kundera .
Natalia Ginzburg .
Neil Gaiman .
Nick Cave .
Norman Rush .
Orhan Pamuk .
Oscar Wilde .
Paul Auster .
Paulo Rodrigues Ferreira .
Pedro Mexia .
Penelope Fitzgerald .
Pierre Louÿs .
Rainer Maria Rilke .
Rainer Werner Fassbinder .
Raul Brandão .
Ray Bradbury .
Rebecca West .
Regina Guimarães .
Richard Yates .
Roland Barthes .
Roland Topor .
Rolf Dieter Brinkmann .
Rui Nunes .
S. E. Hinton .
Sam Shepard .
Samuel Beckett .
Sarah Kane .
Sebastian Barry .
Shirley Jackson .
Stig Dagerman .
Susan Sontag .
Susana Moreira Marques .
Sylvia Plath .
Tennessee Williams .
Teresa Veiga .
Tom Baker .
Truman Capote .
valter hugo mãe .
Vasco Gato .
Vera Lagoa .
Vergílio Ferreira .
Virginia Woolf .
Vladimir Nabokov .
William Faulkner .
Woody Allen .
Yasunari Kawabata .
Yukio Mishima .

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