Eu nunca tinha ouvido direito o arrulho dos pombos urbanos. Criaturas arredias, costumamos manter uma distância respeitosa em locais públicos. Mas eles encontraram um recesso nas colunas do prédio, ao lado da janela do quarto, para descansar. E eu enfim pude prestar atenção.
Há gru-grus curtos, rotineiros, de sala de estar. Uns grus mais longos, como perguntas. Há duetos de gru-gru-guaque-guaques desafiantes quando outros pombos pousam no esconderijo. E uns lamentos que duram vários segundos, sobretudo ao amanhecer. Eu não sabia que pombos uivavam.
Não li a respeito de sua gramática. Não me ajudaria a entender muita coisa; aprenderia, por exemplo, que um gru-u como o das corujas pode ser sinal de problemas cardíacos, mas jamais chegaria ao inescrutável coração do pombo.
De qualquer modo, fiquei com os arrulhos na cabeça. Decidi fazer um cocar. Falei com P. a respeito. Abri a janela e procurei penas grandes, como vemos nos cálamos de antigamente ou nas fotos de banco de imagem. Mas só havia penas pequenininhas. Acho que se sentem confortáveis ali.
Vim para a serra com os pombos na cabeça, pensando no que significaria fazer um cocar, desses que podemos de fato colocar na cabeça. Se eu vestisse um cocar de pombos e publicasse nas redes sociais. Nas minhas habilidades de artesão. No poema "Um boi vê os homens" do Drummond. Na impossibilidade de ser pombo para além dos exercícios de ator e das filosofias francesas. P. ficou na capital. Decidi deixar o devir para os filósofos que envelheceram sem maldade.
Um dia ela tropeçou na cornucópia. A cada esquina, uma pena de pombo, duas, penas enormes, cor de asfalto, que ela foi colecionando para mim. Encontrei uma caminhando nas montanhas, onde quase não há pombos, mas a perdi. As penas se davam a ela e somente a ela. Hoje, quando estamos andando pela cidade, ainda encontramos várias penas, o que não deixa de ser bem esquisito.
Victor Heringer