my cats
I know. I know.
they are limited, have different
needs and
concerns.
but I watch and learn from them.
I like the little they know,
which is so
much.
they complain but never
worry,
they walk with a surprising dignity.
they sleep with a direct simplicity that
humans just can’t
understand.
their eyes are more
beautiful than our eyes.
and they can sleep 20 hours
a day
without
hesitation or
remorse.
when I am feeling
low
all I have to do is
watch my cats
and my
courage
returns.
I study these
creatures.
they are my
teachers.
Charles Bukowski
they are limited, have different
needs and
concerns.
but I watch and learn from them.
I like the little they know,
which is so
much.
they complain but never
worry,
they walk with a surprising dignity.
they sleep with a direct simplicity that
humans just can’t
understand.
their eyes are more
beautiful than our eyes.
and they can sleep 20 hours
a day
without
hesitation or
remorse.
when I am feeling
low
all I have to do is
watch my cats
and my
courage
returns.
I study these
creatures.
they are my
teachers.
Charles Bukowski
estranha tipografia
Escrevi: "na obscura caverna do nosso nascimento".
O tipógrafo compôs "taberna", e parece melhor:
mas nisso reside a razão do riso,
pois na página a seguir vem "morte" por "sorte".
Talvez também a palavra de Deus fosse "distracção"
e em nossa estranha tipografia apareça "destruição"
– e é isso que é intolerável.
Malcom Lowry, trad. Herberto Hélder
O tipógrafo compôs "taberna", e parece melhor:
mas nisso reside a razão do riso,
pois na página a seguir vem "morte" por "sorte".
Talvez também a palavra de Deus fosse "distracção"
e em nossa estranha tipografia apareça "destruição"
– e é isso que é intolerável.
Malcom Lowry, trad. Herberto Hélder
ser poeta
(…) – Assim tão mau é ser poeta? – replicou Preciosa.
- Mau não é – disse o pajem - , mas ser poeta somente não o considero muito bom. Deve usar-se a poesia como jóia preciosa que o dono não traz todos os dias, nem mostra a toda a gente, nem a cada passo, mas só quando convém e há razão para mostrá-la. (…)
Miguel de Cervantes
- Mau não é – disse o pajem - , mas ser poeta somente não o considero muito bom. Deve usar-se a poesia como jóia preciosa que o dono não traz todos os dias, nem mostra a toda a gente, nem a cada passo, mas só quando convém e há razão para mostrá-la. (…)
Miguel de Cervantes
o coração do que existe
não me entregues,
tristíssima meia-noite,
ao impuro meio-dia branco
Alejandra Pizarnik, 30 Poemas
tristíssima meia-noite,
ao impuro meio-dia branco
Alejandra Pizarnik, 30 Poemas
a propósito dos cocktails mundanos
Outrora, uma amiga dizia-me que o interesse dos cocktails mundanos é encontrar pessoas que não temos interesse em ver; é o que se passa comigo com a rádio: divirto-me a escutar música que não tenho o desejo de ouvir. Mas é um prazer que não me retém durante muito tempo. Prefiro voltar aos meus discos.
Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir
Are there not still fireflies
Are there not still four-leaf clovers
Is not our land still beautiful
Our fields not full of armed enemies
Our cities never bombed to oblivion
Never occupied by iron armies
speaking iron tongues
Are not our warriors still valiant
ready to defend us
Are not our senators still wearing fine togas
Are we not still a great people
Is this not still a free country
Are not our fields still ours
our gardens still full of flowers
our ships with full cargoes
Why then do some still fear
the barbarians are coming
coming coming
in their huddled masses
(What is that sound that fills the ear
drumming drumming?)
Is not Rome still Rome
Is not Los Angeles still Los Angeles
Are these really the last days of the Roman Empire
Is not beauty still beauty
And truth still truth
Are there not still poets
Are there not still lovers
Are there not still mothers
sisters and brothers
Is there not still a full moon
once a month
Are there not still fireflies
Are there not still stars at night
Can we not still see them
in bowl of night
signalling to us
our so-called manifest destinies?
Lawrence Ferlinghetti
Is not our land still beautiful
Our fields not full of armed enemies
Our cities never bombed to oblivion
Never occupied by iron armies
speaking iron tongues
Are not our warriors still valiant
ready to defend us
Are not our senators still wearing fine togas
Are we not still a great people
Is this not still a free country
Are not our fields still ours
our gardens still full of flowers
our ships with full cargoes
Why then do some still fear
the barbarians are coming
coming coming
in their huddled masses
(What is that sound that fills the ear
drumming drumming?)
Is not Rome still Rome
Is not Los Angeles still Los Angeles
Are these really the last days of the Roman Empire
Is not beauty still beauty
And truth still truth
Are there not still poets
Are there not still lovers
Are there not still mothers
sisters and brothers
Is there not still a full moon
once a month
Are there not still fireflies
Are there not still stars at night
Can we not still see them
in bowl of night
signalling to us
our so-called manifest destinies?
Lawrence Ferlinghetti
à meia-luz,
no sono rarefeito deste licor, escrevo-te de cigarro nos dedos, atropelando as páginas embriagadas. é cirúrgico o amor que se instala por dentro dos lençóis, toda a cama a céu aberto como um peito. adormeceste assim, insinuando-te como uma boca junto das minhas palavras mais fechadas. não sei se esta febre é rasgada dos lábios que se colam à narrativa do teu corpo ou se bebo se não com todo o medo. acendo outro cigarro porque a manhã ainda tarda neste cinzeiro antigo. Fumo muito quando dormes assim, como um incêndio carpindo as faúlhas do tempo.
Nuno Araújo
Nuno Araújo
...Nunca mais nos veremos?
Perguntei com a estupidez de quando não há perguntas a fazer. Mas ao mesmo tempo, por baixo da minha insensatez, eu sentia o impulso absurdo de recuperar uma irrealidade perdida. Nunca mais?... E imprevistamente era aí que eu repousava, na tua face, na imagem final do meu desassossego.
Virgílio Ferreira
Virgílio Ferreira
um molusco indefeso e vulnerável
Também quiseste
ser a concha, ter
um abrigo seguro
na pérgula
das águas. E foste
apenas um molusco
indefeso e vulnerável
a todos
os engodos e a todos
os anzóis.
Albano Martins
ser a concha, ter
um abrigo seguro
na pérgula
das águas. E foste
apenas um molusco
indefeso e vulnerável
a todos
os engodos e a todos
os anzóis.
Albano Martins
homesickness
It is a curious emotion, this certain homesickness I have in mind… It is no simple longing for the home town or country of our birth. The emotion is Janus-faced: we are torn between a nostalgia for the familiar and an urge for the foreign and strange. As often as not, we are homesick most for the places we have never known.
Carson McCullers
Carson McCullers
deitada na minha cama
Estou no meu quarto. Deitada na minha cama. A luz está acesa. Oiço música. Penso em ti mas não é em ti. É um tu abstracto porque a tua ausência é uma lesão incurável que se imaterializa com o tempo. Por fim adormeço. Quando acordo de manhã sinto-me feliz por ter conseguido dormir.
Ana Hatherly
Ana Hatherly
mas deixa-me reparar um pouco
Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa-me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase-silêncio desabrigado e informe.
Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo-nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual - um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.
Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagess de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar-nos-á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há-de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
- do lado mais esquivo da morte.
Mas bastam-me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.
Manuel de Freitas, Os Infernos Artificiais
mas deixa-me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase-silêncio desabrigado e informe.
Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo-nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual - um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.
Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagess de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar-nos-á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há-de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
- do lado mais esquivo da morte.
Mas bastam-me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.
Manuel de Freitas, Os Infernos Artificiais
return from ruin
BWV 988
Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações Goldberg
Não sei, não quero saber, não faço ideia.
Eu, que da arte nada quero,
estou há vários meses sem escrever
um poema. Mas agora, aqui,
sou trespassado por uma cama
demasiado larga e pelo olhar
negro do gato que se apieda, talvez,
de mim. De uma certa ideia de mim
que acorda às quatro da manhã
para a mais ampla noção de vazio.
Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato
a servir fixo de remorso
nas dobras sujas dos lençóis.
Esses, apenas, que não procuram
de rastos a certeza de outro dia.
O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico.
É tudo - sabes? - tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida,
não deveria ser exactamente assim.
Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.
E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino - uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
Mas li demasiados livros, fumo
pelo menos três maços e não me
parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).
E, porém, há nisto uma simplicidade
atroz. A demorada asfixia
das veias, percutindo a noite, a certeza
óbvia de que não estás aqui.
Que música, sequer, me redimiria
agora? Vou morrer assim,
de costas para os espelhos. A sabê-lo.
Deve ser isso, a dor.
O cancro da manhã infiltrando-se
pela janela, como se eu pudesse
num mundo adiado, palco já sem mim.
Ou o olhar que te viu e deixou
de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.
A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.
Em vez disso, os órgãos acomodam-se
ao suplício dos minutos, desagregam-se
E bastarias tu - ou ninguém, porque
ninguém basta. É um erro - mas gostamos
tanto - pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.
E é estranho, no mínimo, que o mundo
saiba acontecer, apesar. O silêncio desta dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.
Não será este o último poema, por mais
que o julgues ou sintas (e os versos,
para ti, foram sempre sentimentos vãos).
Acordarás sinistro, quase vertical,
para as tabernas disponíveis.
Dizem que abusas. Talvez.
Como explicar-lhes, a esta hora,
que nessa retórica gasta
comprometes a vida toda?
Nunca te leram - ou mal. E o grito
permanece incólume no susto da manhã,
nas paredes mais escuras que encontrares.
O mais estranho não é a literatura,
o solene esgar da poesia.
Mais estranho, sempre, é sobreviver
a isto, fingir que não, sorrir.
Enquanto o olhar negro negro
de um gato testemunha a tua morte
e se despede melhor do que tu
da música e dos dias e da música.
Qualquer coisa assim.
Manuel de Freitas, A Última Porta
Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações Goldberg
Não sei, não quero saber, não faço ideia.
Eu, que da arte nada quero,
estou há vários meses sem escrever
um poema. Mas agora, aqui,
sou trespassado por uma cama
demasiado larga e pelo olhar
negro do gato que se apieda, talvez,
de mim. De uma certa ideia de mim
que acorda às quatro da manhã
para a mais ampla noção de vazio.
Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato
a servir fixo de remorso
nas dobras sujas dos lençóis.
Esses, apenas, que não procuram
de rastos a certeza de outro dia.
O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico.
É tudo - sabes? - tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida,
não deveria ser exactamente assim.
Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.
E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino - uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
Mas li demasiados livros, fumo
pelo menos três maços e não me
parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).
E, porém, há nisto uma simplicidade
atroz. A demorada asfixia
das veias, percutindo a noite, a certeza
óbvia de que não estás aqui.
Que música, sequer, me redimiria
agora? Vou morrer assim,
de costas para os espelhos. A sabê-lo.
Deve ser isso, a dor.
O cancro da manhã infiltrando-se
pela janela, como se eu pudesse
num mundo adiado, palco já sem mim.
Ou o olhar que te viu e deixou
de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.
A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.
Em vez disso, os órgãos acomodam-se
ao suplício dos minutos, desagregam-se
E bastarias tu - ou ninguém, porque
ninguém basta. É um erro - mas gostamos
tanto - pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.
E é estranho, no mínimo, que o mundo
saiba acontecer, apesar. O silêncio desta dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.
Não será este o último poema, por mais
que o julgues ou sintas (e os versos,
para ti, foram sempre sentimentos vãos).
Acordarás sinistro, quase vertical,
para as tabernas disponíveis.
Dizem que abusas. Talvez.
Como explicar-lhes, a esta hora,
que nessa retórica gasta
comprometes a vida toda?
Nunca te leram - ou mal. E o grito
permanece incólume no susto da manhã,
nas paredes mais escuras que encontrares.
O mais estranho não é a literatura,
o solene esgar da poesia.
Mais estranho, sempre, é sobreviver
a isto, fingir que não, sorrir.
Enquanto o olhar negro negro
de um gato testemunha a tua morte
e se despede melhor do que tu
da música e dos dias e da música.
Qualquer coisa assim.
Manuel de Freitas, A Última Porta
apenas um autocarro por dia
As informações eram claras:
o que tornava o regresso duvidoso.
Mas parece-me agora natural
que a Boa Morte seja inacessível,
em tudo tão diferente do teu corpo.
Não se pode acreditar num mapa,
numa vida. Apagam-se, como levadas
secas, todas as palavras que escrevi.
Manuel de Freitas, A Última Porta
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Pierre Reverdy
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