wonderland of malice


Malice in Wonderland, Vince Collins, 1982

as dobras da colcha de seda

Descanso. Ser hóspede, por fim. Não satisfazer sempre os próprios desejos com mísero sustento. Não lançar a mão a tudo com gesto hostil; por uma vez deixar que tudo aconteça e saber: o que acontece é por bem. Também o ânimo precisa de estender-se de vez em quando ao comprido e enrolar-se em si próprio nas dobras de colchas de seda. Não ser sempre soldado.


Rainer Maria Rilke, A balada da vida e da morte do alferes Christoph Rilke

dias melhores

A mulher espera as noites e também os dias,
esperta o lume enquanto, esperta a espera.
Há umas quantas coisas que a prendem, coisas
que arrecadou para a vida e já não servem.
Quem serve é ela e serve a Deus desfiando o rosário
pelos que já lá estão.
Por aqui vai-se indo, vai-se levando a vida
para o outro lado enquanto se esperam dias melhores,
dias mecânicos, a labuta dos músculos, a cabeça em paz
e a noite cansada, os pensamentos cansados,
o sofrimento cansado só quer estender o corpo
até de manhã. Quando mal nunca pior,
o café quente, o pão acabado de fazer
como se fosse cedo e as mãos na sua azáfama
pudessem fazer os dias gloriosos as noites luminosas
com que sonhou e já não servem. Agora só a espera
e as coisas que foi arrecadando para a morte.


Rosa Alice Branco

behind doors

© Aino Kannisto

mulher: anatomia

A anatomia da mulher é intercadência ou cissão de árvore. Os seus seios, como dois pomos sazonais inaugurados no hemisfério do dorso, principiam-se com o acúleo do peito lactente no cedro da minha boca. O seio esquerdo tumesce cerúleo de tão azul, o diâmetro recua esfriado na bainha das nervuras. Os seus músculos textualizam-se de forma e som, hirtos, despedaçam a elasticidade cervical dos meus vértices. A pele gradua-se num esmalte vítreo de luz, fixa-se nas cavilhas que lhe prendem a argamassa à semelhança de um rosto. Na mulher, o físico verbaliza-se no desarranjo dos nervos, na mulher, a geometria é descontínua se a matéria se desfaz magra de resina. A anatomia da mulher é perfloração ou fissão de pedra. Os seus seios, como dois seixos salmourados nos ferros do peito, incham-se de sal na sucção dos meus beiços. A anatomia da mulher é aceleração de corpo subida à altura da expectativa mais distante. Mas a sua fisionomia é táctil, não possui matriz ou molde, enxuga-se na terra e só da terra o musgo lhe devolve outro princípio de mulher.


Alice Turvo, in A Sul de Nenhum Norte

mulher: osso

A constituição da mulher é desconstrução de corpo, amor dividido em dois terços longos de osso, homem ou mulher intervalado nos tecidos da substância maior. O amor liquefaz-se nas estalactites da sua boca, suspenso no calcário da saliva, interpõe-se entre o eco e a claridade húmida da língua. Os seus maxilares movem-se como guindastes, a seco, mastigam os molares em cacos de tensão. A precisão textual de cada osso é atemporal, macera-se de dentes cerrados. O cálcio arde-lhe de vermelho se o amor se alarga em massa inflamável. À mulher, outra mulher cabe-lhe na ruptura das vértebras, caule que perfura o novelo inferior do pulmão. À mulher, outra mulher cabe-lhe no abcesso do peito, metal alcalino de degustação salina. Ao amor, essa mulher chega-lhe hermética, deposta de tendões que lhe segurem a carne na vertical. À palavra, pouco lhe importa o epicentro da sílaba ou a cerâmica da tónica. Ao amor, nunca lhe satisfaz a fractura do fonema ou a dentição do silêncio. No amor, a mulher vaza inteira se a serradura lhe lacera as dobradiças do corpo. Porque na mulher, o amor não é ruído seco ou opaco, é arritmia surda no ventrículo mais defeso.


Alice Turvo, in A Sul de Nenhum Norte

despair


Despair, Alex Prager, 2010

mulher: vagar

O vagar da mulher é dissemelhante do vagar dos homens e das coisas. O vagar da mulher contrai cada pretérito à milésima, ocupando cada milímetro pela sexagésima parte do segundo mais breve. O vagar de qualquer mulher dilata-se em mil partes desiguais a um todo. A mulher não executa a presença desmembrada das coisas, sem antes as invocar como domicílio próprio. A mulher segura de frente os edifícios caiados na tijoleira das costas, suporta as urbes fixas no eixo dos seus pulsos, faísca pelas luminárias ausentes de centelhas já extintas. O vagar da mulher nunca descuida a largura do antecedente, sem antes se esvaziar na obsessão intermitente do perímetro do verbo mais presente. A mulher é, igualmente e inteiramente mais mulher, na suspensão variável dos homens e das coisas. Os seus ângulos flectem-se na equidade ímpar das esperas. As suas mãos inclinam-se no ponto equidistante do vazio. A mulher cumpre o tempo a tempo inteiro, sem suprimir a duração menor da unidade. O vagar de cada mulher é célere e voluntário, e em tudo se apressa à lentidão demorada de um vaso caído.


Alice Turvo, in A Sul de Nenhum Norte

mulher: que não outra mulher

Há uma mulher dentro de mim que não é gramática decomposta nem acento circunflexo. Não é metáfora exagerada, nem vegetação espessa no limite da vírgula. Não é anáfora suada, nem rigor maiúsculo no recuo do parágrafo. Há uma mulher dentro de mim que não é periferia nem superfície transversal. Essa mulher que não outra mulher, esmaga-me as telhas no tecto da boca. Tenho-a calada e encavalitada debaixo das palavras mais fáceis de carcomer. Tenho-a cansada e regrada por cima das feridas menos custosas de sarar. Mas essa mulher que dentro de mim não me permite outra habitação que não esta, não me serena a vontade áspera de romper a madeira dos braços, de moer do úmero a lasca e da acha articular outro galho maior. Há uma mulher dentro de mim que não me reconhece como sua. Há uma mulher dentro de mim que míngua encolhida no cavo do medo. Há uma mulher dentro de mim que ama uma mulher insuficiente de si mesma.


Alice Turvo, in A Sul de Nenhum Norte

a linha do universo

Tudo cai, em constante proporção directa
à neve que se acumula no fundo;
Os Oceanos transbordaram, claros
Farinha para bolos e Tortas
De mel; As minhas abelhas
Vestem o pijama e dizem
Boa Noite - Até amanhã
Tenho medo porque o tempo existe;
Ás vezes por ser inventado, outras
Porque tudo cai - Até a Chuva
E palavras num poema
Cantado pela manhã turbulenta

Estou com dificuldades a acordar
Mas não receio a cidade a ruir,
Vamos brincar para os escombros.
Por baixo das pedras vive
Uma mulher que pintou a vagina de negro:
Está de luto pela Globalização
- Já ninguém deseja comer mais
Deste Pão, que Ronald Mcdonald
Distribui pelos fieis.

Tudo cai, amor,
Vamos cair também - De cabeça
Acordaremos assentes no fim do Universo.


Lígia Reyes, in A Sul de Nenhum Norte

real love

Meu amor madre-pérola,
Olha-nos, a desfazermos
Em ponto caramelo o corpo
Em nostalgia e folhas de Outono -
Rash-Rash - Como queimávamos os pés
Nesses passeios ínfimos
Pelas avenidas de uma cidade
Que chora um Rio: Descosíamos
Os botões, alinhavados às palavras
Da poesia e construíamos pontes.
Vamos remar a favor do mármore,
Não tenhas medo: Mil suicídios
Aconteceram quando eu parti,
E agora sobram cartas para lermos
Até ao fim da vida. Juntos
Venceremos o flogisto, acolheremos
Patriamente a vitória da cinzas,
Manjaremos tenras asas de fénix
Até nos esgotarmos num jardim belo
E uma chávena de chá ao fim da tarde.


Lígia Reyes, in A Sul de Nenhum Norte

se eu fosse um vídeo




my what big eyes you have / my what big hands you have / my what hot breath you have / my what sharp teeth you have 

a minha saia

A minha saia é debruada de
dentes brancos
— saia rodada com pregas
e esconderijos que se abrem
sobre os precipícios da infância

É uma saia alta como janelas
remendada pelas mãos cuidadosas dos amantes

Debaixo da minha saia há
uma caixa com botões e olhos
que encontrei no leito seco dos caminhos
há um girassol que me aquece
o farelo e o sal dos ossos
há uma colmeia e o crescente negro
da sombra a roçar os joelhos

Há o riso dos velhos

Som de cordas, velas de moinho,
fábulas e exércitos balançam
dentro da minha saia
quando danço

Debaixo da minha saia há também casas
onde recolho o vento, e delas se avista
o pescoço curvo de dois bois mansos
alisando o pasto

Rodo o corpo e a minha saia aponta para o sul
baixo-a para desenhar círculos na poeira
ergo-a para atravessar o rio
na hora em que
a maré sobe
sobe
sobe
sobe


Ana Duarte

the wolves

The wolves had tended her because they knew she was an imperfect wolf; we secluded her in animal privacy out of fear of her imperfection because it showed us what we might have been.


Angela Carter, Wolf-Alice

grief


Grief, Erwin Olaf, 2007

indecifrável - 1

Nem tudo foi dito, mas basta,
não são precisas mais palavras.
No silêncio cai sobre nós a
realidade, com todo o seu peso,
o seu mistério; e não o queremos
decifrar, com palavras sobretudo
não o queremos explicar. O que
não foi dito pertence-nos como
o destino inconfessável, como os
ossos dos joelhos, as dores de
cabeça ao fim da tarde quando
sopra o vento rude que vem do
deserto. Todos os destinos são
exemplares e é impossível
amarrá-los. As palavras nascem
do medo ou do tédio, talvez
do horror ao vazio. À toa
queremos entrar no edifício do
sentido, a casa estranha. E
entramos. Mas todos os destinos
são apenas uma versão caseira
da insensatez da existência.
Calar-se não é morrer. Na
sepultura do silêncio esconde-se,
discreta, a dignidade.


João Camilo, in A Sul de Nenhum Norte

boring

a inclinação para o amor. nas mulheres
a inteligência, evidentemente.
a linguagem não permite verbalizar tudo.
a mim só a cumplicidade me afecta. a
paixão que sentem por nós. mais uma.
aborreço-me, já disse. acaba tudo no lixo,
não é verdade? acumulou-se o tédio e a
pressão. alguma coisa se perdeu no minucioso
processo. alguns filmes tiveram uma profunda
intenção amorosa. não foi enquanto a idolatrava,
juro. batem tão perto um do outro os corações.
dói-me a cabeça. cansa-me ter de telefonar.
como ser assimilado pela linguagem? como
viver sem a literatura? é criminoso. odeio
ter copos e pratos. há cura para os males
que nos afligem? palavreado. em silêncio, sim,
em silêncio. detesto fazer as malas, arrumar livros.
dissimulada, santa, escorraçada. não quero
mudar de casa, já disse. onde fica à espera
de sair o que não encontrou uma porta ou uma
janela? o tédio do passado. lê-se nos olhos das
pessoas. memórias que não me interessam. e no
sofá de coiro preto, lembras-te? é uma questão,
no entanto, de nos sentirmos mais ou menos
antecipadamente abandonados. entre nós
e quem nos ama não há nada a escolher. fica-se
só por acaso. estou farto. não se pode arriscar.
eu sempre escolhi a mulher que devia. forçosamente,
alguma coisa se deteriorou. garfos e facas. oiço
música se me apetecer. gosto de alguma pintura.
gosto de trabalhar. há uma semana que estou
constipado. ilusões, só ilusões. já não sei se
dependo do que me impede de pensar. a percepção
tem influência em mim. amam-nos, não nos veneram.
nunca a desprezei. desse modo, quero dizer.
dependo do futuro? das montanhas e dos rios?
não há solução. não tenho força para me abandonar.
ninguém ama ninguém. ninguém. o amor é invisível.
o facto de vir a expirar o indizível, transforma-o? o
peso da censura. o que é que me fascina mais? o
telefone, ah o telefone, incessantemente. onde
estaríamos neste momento se? os corações a
amputar com uma faca. para cortarem a água, a
luz, o gás, sim, é isso. e para quê tanta canseira?
para quê ter mesas, cadeiras, camas? para onde
vai o remorso? pode dizer-se que temos saudades
do futuro? pode quando muito adivinhar-se,
pressentir-se, inventar-se. podia estar-me nas
tintas para tudo o que me vai acontecendo. porque
é que me incomodo a incomodar-me com tantas
perguntas? porque é que não paro de fumar?
porque estou sentado diante do computador a
escrever há horas? porque não temos saudades
do futuro? preciso de sair de casa. quando me
lembro disso. há alguma coisa lá fora que se
possa presenciar? estamos sós. reconstruction.
reconstruir sem parar. os buracos negros da
culpa. recordo algumas pessoas que foram
simpáticas comigo. no rosto pode sofrer-se
tudo isso. e nota-se. talvez. não a adorei sempre.
se eu não estivesse tão constipado. se eu não
fosse tímido, algumas hipóteses transformavam-se
em sucesso ou em fracasso. se eu soubesse, ah
se fosse possível. sei que sou amado. sem
terem, que eu saiba, razão particular para me
odiarem. ser feliz é ter falhado na vida, eu sei.
seria despropositado perceber o que se passa.
sim, sei e não sei tudo isso. só ela me conheceu,
penso eu de vez em quando. só me deixaram o
tédio como solução. a indiferença é enorme,
já se sabe. o que não se pode dizer. tantas
caixas de cartão para encher. tenho uma
pontaria afinada para escolher a mulher
que um dia deixará de me amar. todos os dias
penso no assunto. não é por falta de competência.
um amor inconfessável. e que nós temos de ignorar.
um dia. mas não me leva a desistir. uma catástrofe
abateu-se sobre a minha vida. veementemente,
ignorante ainda, espero pelo único acontecimento: o
amor. uma vez mais, a milésima. maldita gripe que. vou
cansar-me a pôr em ordem o que está desarrumado. whisky
em garrafas meias ou quase cheias. indícios e tanto pó.


João Camilo, in A Sul de Nenhum Norte

café mojo

Falar de cães ou da tarde de sol,
o tédio. Aonde ir morrer? Onde
esconder o cadáver da rapariga
de rosto impassível, tão branco
sempre, pureza, restos de pecados?
Confessa-te, ó mortal idílio da
juventude, ó. Não. Sonhos de
glória. Aplausos. Parvos. Se.
Bullshit. You motherfucker. Petit
con. Fantasma. Tanta dedicação.
Leave me alone. E a ópera, as
árias. Insistentes. Tu lembras-te?
De mim? E daquele pedaço de
paisagem com arbustos, ao sol?
Travagem brusca. Sem emoção.
Uma adolescente curiosa. Hey.
Blow job? Às oito. Nas escadas.
Traz o manual de filosofia. Sim?
Paixões. Úteis. Cem dólares. Uma
noite de hotel. Tinhas música e
havia champanhe. E os caracóis?
Do púbis nojento.You bastards
you are destroying the planet.
Lágrimas, crocodilos, a rata,
a serpente do paraíso. Corria
o rio nas minhas veias inchadas.
O herói do filme, o foragido do
crucifixo perseguia. Quem? E
tu silencioso. Morto. Imbecil.
O destino, rodas de borracha
silenciosas nos corredores do
hospital. As minhas pobres
entranhas. Deixaste-me lá, foste
à tua vida. Tão longe já. Veloz.
E a bruma, o deserto, o quadro
do pintor desconhecido. Azul
e vermelho. Primária, pecadora.
O único livro que eu podia ler.
E tu, tu queimaste-me no fogo
do meu delírio ardente. Eu deixei.
O amor, o amor, foda-se. Sorri
para a máquina fotográfica, anjo.
Nesse colchão de penas tão
usado, encardido. Nunca saí
de onde estou. Tu não virás e
eu. Quero lá saber. Fuck. Eu
não, eu juro. Eu em Espanha.
Inalterável sempre por dentro.
Perseguir o destino. De costas
viradas para o Inverno. A única
maçã verde. Morder nela. A minha
fome, a sede. Laranja caída da
árvore. Podridão. Fedor. Tentei,
não consegui. Bolor. Não a pude
abrir, onde estava a chave? Dá-
-me a tua mão fria. Os teus dedos
inesquecíveis. Intactos ainda.
Cidades tão desertas, túmulos
de paixões por terminar. Acabar
comigo e com os ideais de uma
existência luxuosa à beira-mar.
Infanticídios. Sangue inocente.
And you don't even remember
what happened. Poor you. You.
Tontinha das borbulhas. Do ódio,
sim, da incompreensão. Nada sei.
Nada direi. Nada confessaremos.
Luzes nas esquinas, reflexos,
nevoeiro, calçadas húmidas.
Gritos. Silêncio negro. Poço
sem fundo do aguilhão da dor.
Promessas. Masturba-te, é o que.
Incitam-te. Convidam. Abanava ao
vento. Naquela romaria de aldeia
cantavam, dançavam. As sombras.
E tu onde estavas, esquecida de mim,
a delirar de novo? Tu sabes que sem
mim. Não, não consegues. Tenta.
A amante infiel em casa bordava.
Tonta. Clara linda como o sol. Ó
mãe, infância incompreendida.
Na sombra, cantavas. Dócil. Sem
saberes a importância, o alcance.
Um dia. Mas não. Basta-te a ti
mesmo. Não contes. Ninguém.
As cores, ar, sussurros, beira-mar.
A medida, o metro, a regra, a lei.
O rosto rubro do terror. Sujo. E.
Algazarra popular. Embarcaste,
depois arrependeste-te. Rio acima,
rio abaixo. Ventre pútrido, infamado.
Inflamações. As bocas sorriam. Vi os
dentes brancos. De joelhos nus, tu ias.
Eu excitava-me com as minhas pernas
arrumadas no caixão, dentro das calças
para sempre mal vincadas. E tu nunca,
tu nunca confessarias que me tinhas
conhecido, traído. Tiveste vergonha
das minhas mãos, tu, pútrida donzela.
Do meu rosto. Do meu corpo. Tu. A que.
Meditaste? Ranho verde. Vendida. E eu.
Olhava. Chuva. O oceano, ondas
murmurando ao longe, nas estrelas.
Ou nas estradas. Ou nos comboios da
ordem falsamente restabelecida. Tudo é
ensaio, simulação, divulgação do erro.
And here we go again. Passar-te, ó puta,
a ferro. Embalsamar-te, que te amassem
no futuro, pernas bem abertas no colchão,
todas as. Todas as. Pagarias assim. Mas não.
Vidros partidos. Marcas? Que resíduos dos
meus dedos na tua pele se infectaram?
Tantos rostos. Se elas. Se eu. Sorri. Se
tu. Don’t flatter me, please. Your legs,
your beautiful legs esmigalhando-se
again contra o lençol das cortinas que
para atenuar a mancha nós. Oh. Sem
remorso. Sem. Sem recordação. Que
fizeste? Vem comigo. Estás talvez não
sei se perdoada por engano. Imagino.
Anda. Mexe-te. Abana-te. As pérolas
dos colares na varanda de madeira
do teu pescoço. Eu: não sei cantar.
Não sei ouvir. E o dia esplendoroso
ria-se da minha pena, da ausência
intrigante dos meus pensamentos.
Se não me odiassem. Se tu. Ninguém
regressa, nunca. O cão entre as mesas
do café abanava o rabo. Ser sem alma.
Amamos nas auto-estradas, assassinamos
a todas as horas de expediente normal.
A oposição nunca cairá. Infortúnios.
O alcance dos sonhos. Salva-me. E o
cão. Minúsculo, ridículo. Ela dava-lhe
beijinhos no focinho, chamava-lhe filho.
E eu tão só, nós tão sós. Milagres da
natureza morta. Uma história que se
possa resumir, recontar, recolher ou
queimar na vela do barco que pelas
ilhas ia ao sabor do vento. Correntes
de prata ligavam-nos ao fundo do mar.
Acenar. Olá. E a perdição e as vogais
poluídas pela tua garganta de cadela.
Não, eu não tenho pecados a confessar.
Não, nem remorsos, nem projécteis, nem
vapores de água arrefecidos na bruma
secreta das noites de vício, irrecuperáveis.
Quero emendá-las. Quero renegá-las. Eu
sei lá. O que quero. O que sinto. A dor.


João Camilo, in A Sul de Nenhum Norte

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adília Lopes Adolfo Casais Monteiro Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tinoco André Tomé Andreia C. Faria Angélica Freitas Ângelo de Lima Aníbal Fernandes António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bénédicte Houart Bruno Béu Bruno Sousa Villar Camilo Castelo Branco Carlos Alberto Machado Carlos de Oliveira Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Soares Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio de Andrade Eugénio Lisboa Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira gil t. sousa Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Hélia Correia Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Serrado João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Manuel Ribeiro João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge de Sena Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Mário Silva José Miguel Silva José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça Judith Teixeira Leitão de Barros Luís Miguel Nava Luís Quintais Luiza Neto Jorge Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Manuel Fúria Manuel Gusmão Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Ângela Alvim Maria Azenha Maria do Rosário Pedreira Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Mário Cesariny Mário Contumélias Mário de Sá-Carneiro Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário-Henrique Leiria Marta Chaves Matilde Campilho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Cóias Rui Costa Rui Knopfli Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Costa Sebastião Alba Sílvio Mendes Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Tiago Gomes valter hugo mãe Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno

poemário dali

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