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«como afastar osgas das paredes»

outra vez?! este blog reduz-se a osgas e all bran. mnhami mnhami

pessoas do meu sitemeter

«ja nao vivo sem all bran»

mas o que é que se passa convosco e os cereais??

mas não existem alturas certas para amar, pois não?


entrevistas a Deleuze por Claire Parnet, 1988-1989

ao homem dos meus sonhos

vem, pergunta-me se gosto de laranjas, canta-me o lili marleen ao ouvido, mas até lá, espera por mim

Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo as horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.


José Miguel Silva

não acredito na morte porque acredito que quando alguém morre foi apenas dar uma volta pela cidade

vezes por ano celebramos o aniversário dos mortos
miramos os seus retratos, mas vemo-nos a nós
num espelho tão cruel quanto carinhoso
mais velhos um ano, eles, e nós
mais próximos do nosso último retrato
oh sim, fazemos anos nos mesmos dias

happy birthday, parabéns
pode-se continuar morrendo pela eternidade


Bénédicte Houart

neste dia da mulher



oiçam o viegas. com muito amor

vamos fazer limpeza, mas geral

Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.


Amalia Bautista

para assim dormirmos melhor. até amanhã

Maria Cristina

Maria Cristina é sem-abrigo. Vive numa rua da baixa da cidade, perto do Teatro Nacional. Considera essa rua sua e, sempre que há estreias no teatro, incomoda-a os carros estacionados no passeio. Para além desta rua, pouca coisa tem Maria Cristina: uma corneta, roupa e papel, repartidos por quatro sacos de plástico. Em noite de estreias no teatro, Maria Cristina gosta de tocar a corneta. Acredita que só depois do seu contributo, o espectáculo pode começar.

(...)

ENTRETANTO NA RUA DE MARIA CRISTINA...

Além de compôr música erudita para uma corneta, Maria Cristina passa parte do tempo a contar as pedras da calçada da sua rua. - Pode alguma dia uma pedra ir embora? E se isso acontecer, cabe uma pedra no espaço de outra? - questiona-se amiúde. Por entre o debate das respostas, Maria Cristina confirma diariamente os 523 quadrados irregulares de calcário branco. Um a um. O fim desta actividade é celebrada a coçar-se. Maria Cristina coça-se e sorri e sorri à medida que se coça: o prurido da felicidade adensa a vontade em comichão.

(...)

ENTRETANTO NA RUA DE MARIA CRISTINA...

Mais do que fazer música com a corneta e contar as pedras da calçada da sua rua, Maria Cristina espreita duas molduras que repartiu pelo mesmo número de bolsos das calças. No Inverno, vê somente a moldura do bolso esquerdo: na fotografia, aparece a imagem a cores de uma Maria Cristina sorridente (os dentes na cara), vestida com uma t-shirt de manga cava. No Verão, a imagem muda como o bolso: Maria Cristina observa com atenção uma moldura que se revela a preto e branco (sem dentes nem cara), vestida com um grosso casaco de lã. Maria Cristina tem saudades do Verão, quando o tempo está frio e chuvoso, e do Inverno, quando o sol está quente e vigoroso.



Mário C. Brum, Discinesia em Eco

(para o que eu havia de estar guardada)

se eu fosse um vídeo




and they know just what we do / that we toss and turn at night / they're waiting to make their moves on us / the stars are out tonight

tenho 22 anos e estou cansada

Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.

Este tempo
de fatos novos,
de Imperadores.


Antonio Orihuela

muito

Nunca pensei a música como uma companhia pequena, assim de redor. Foi sempre uma presença central, essencial, interior. E as vozes, porque as vozes são as pessoas a transformarem-se inteiras num instrumento, o único instrumento com coração pulmões, sonho e medo, foram o que mais me marcou. As vozes que carregam cada palavra num som até então inédito. Cada um de nós, até os que parecem apenas gralhas, temos vozes únicas que podem conter maravilha. E o virtuosismo também não me interessa. Interessa-me o genuíno. Mesmo a falha.

Quem não ama Nina Simone quando ela prolonga uma nota e aquilo lhe sai tudo desafinado e sem fôlego? É linda. Perfeita quando teve de ser perfeita. Humana e única quando falhou. Sempre intensa. Sou todo da Billie Holiday. Voz de bicho magoado, sem grande escala, mas alma para todo o tamanho de um prédio e não para o tamanho pequenino de uma mulher. Sou todo da Billie Holiday e só vou acreditar em deus se me prometerem que ela me aguarda num lugar qualquer, pousada numa nuvem a beber um vinho bom, a sorrir aos pássaros que sobem ali para aprenderem a cantar.


valter hugo mãe no Jornal de Letras do quinzenário que passou

branca de neve despede-se dos sete anões

Prometo escrever-vos, lenços que se perdem no horizonte, risos que empalidecem, rostos que caem sem peso sobre a erva húmida, onde as aranhas tecem agora as suas teias azuis. Na casa do bosque estalam, de noite, as velhas madeiras, o vento agita coçados cortinados, entra apenas a lua através das gretas. Os espelhos silenciosos, agora, que grotescos!, envenenados pentes, maçãs, malefícios, que cheiro a lugar fechado!, agora, que grotescos!. Terei saudades vossas, nunca vos esquecerei. Lenços que se perdem no horizonte. Ao longe ouvem-se pancadas secas, uma após outra as árvores sucumbem. Está à venda o jardim das cerejeiras.

Leopoldo María Panero

dos pequenos grandes consolos

e as duas resmungando as suas vidas até caírem extenuadas de sono, já muito mais tarde do que poderiam imaginar. seguramente não lhes faltaria conversa para ficarem acordadas, e isso provava o quanto se atiravam aos ouvidos uma da outra, relatadas de todos os anseios e defeitos sem segredo, constantemente reaproximadas numa amizade de sempre e para sempre.


valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores


fifteen ways to stay alive

1. Offer the wolves your arm only from the elbow down. Leave tourniquet space. Do not offer them your calves. Do not offer them your side. Do not let them near your femoral artery, your jugular. Give them only your arm.

2. Wear chapstick when kissing the bomb.

3. Pretend you don’t know English.

4. Pretend you never met her.

5. Offer the bomb to the wolves. Offer the wolves to the zombies.

6. Only insert a clean knife into your chest. Rusty ones will cause tetanus. Or infection.

7. Don’t inhale.

8. Realize that this love was not your trainwreck, was not the truck that flattened you, was not your Waterloo, did not cause massive hemorrhaging from a rusty knife. That love is still to come.

9. Use a rusty knife to cut through most of the noose in a strategic place so that it breaks when your weight is on it.

10. Practice desperate pleas for attention, louder calls for help. Learn them in English, French, Spanish: May Day, Aidez-Moi, Ayúdeme.

11. Don’t kiss trainwrecks. Don’t kiss knives. Don’t kiss.

12. Pretend you made up the zombies, and only superheroes exist.

13. Pretend there is no kryptonite.

14. Pretend there was no love so sweet that you would have died for it, pretend that it does not belong to someone else now, pretend like your heart depends on it because it does. Pretend there is no wreck — you watched the train go by and felt the air brush your face and that was it. Another train passing. You do not need trains. You can fly. You are a superhero. And there is no kryptonite.

15. Forget her name.


Daphne Gottlieb

este blog tem anti-depressivos


17 fois Cécile Cassard, Christophe Honoré, 2002


romain duris, amén

when i grow old

When I am an old woman I shall wear purple
With a red hat which doesn't go, and doesn't suit me.
And I shall spend my pension on brandy and summer gloves
And satin sandals, and say we've no money for butter.
I shall sit down on the pavement when I'm tired
And gobble up samples in shops and press alarm bells
And run my stick along the public railings
And make up for the sobriety of my youth.
I shall go out in slippers in the rain
And pick flowers in other people's gardens
And learn to spit.

You can wear terrible shirts and grow more fat
And eat three pounds of sausages at a go
Or only bread and pickle for a week
And hoard pens and pencils and beermats and things in boxes.

But now we must have clothes that keep us dry
And pay our rent and not swear in the street
And set a good example for the children.
We must have friends to dinner and read the papers.

But maybe I ought to practice a little now?
So people who know me are not too shocked and surprised
When suddenly I am old, and start to wear purple.


Jenny Joseph, Warning


(isto é a coisa mais bonita de sempre. como é que ponho corações aqui?)

ladies and gentlemen, good evening

Estás a começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: “Estou a ler! Não quero que me incomodem!”. Não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita: “Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!” Ou se não quiseres não digas nada; esperemos que te deixem em paz.
Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido.
É claro que a posição ideal para ler nunca se consegue arranjar. Dantes lia-se de pé, diante de uma estante. As pessoas estavam habituadas a ficar de pé. Era assim que se repousava quando se estava cansado de andar a cavalo. A cavalo ninguém se lembrou alguma vez de ler; e no entanto agora essa de ler sobre o arção, com o livro pousado nas crinas do cavalo, se calhar até preso às orelhas com um adereço especial, é ideia que achas atraente. De pés nos estribos devia-se ficar com muita comodidade para ler; ter os pés soerguidos é primeira condição para desfrutar da leitura.
Bem, afinal de que estás à espera? Estende as pernas, estica também os pés numa almofada, em duas almofadas, nos braços do sofá, nas orelhas da poltrona, na mesinha de chá, na secretária, no piano, no mapa-mundo. Descalça primeiro os sapatos. Mas só se quiseres ficar de pés soerguidos, senão torna a calçá-los. E agora não fiques para aí de sapatos numa mão e livro na outra.
Regula a luz de modo a não te cansar a vista. Fá-lo já, porque assim que estiveres mergulhado na leitura, nem penses em mexer-te. Arranja-te de maneira a que a página não fique na sombra, um emaranhado de letras negras sobre fundo cinzento, uniformes como uma ninhada de ratos; mas tem cuidado para que não lhe bata de chapa uma luz demasiado forte e que não se reflicta no branco cru do papel roendo as sombras dos caracteres como um meio-dia do Sul. Tenta prever tudo o que puder evitar-te o interromper da leitura. Os cigarros ao alcance da mão, se fumares, e o cinzeiro. Que mais é que falta? Tens de ir fazer chichi? Bem, tu é que sabes.
Não é por esperares alguma coisa especial deste livro em especial. És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada. Há muitos, mais jovens que tu mas também menos jovens, que vivem na expectativa de experiências extraordinárias; dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, do que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. Foi esta a conclusão a que chegaste, tanto na vida pessoal, como nas questões gerais e até mesmo mundiais. E com os livros? É isso, exactamente porque o excluíste em todos os outros campos, achas que é justo concederes-te ainda este prazer juvenil da expectativa num sector bem circunscrito como é o dos livros, onde as coisas te podem correr mal ou correr bem, mas o risco de decepção não é grave.

(...)

Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante

dieta

© Ernesto Timor


Deitei-me sem jantar, naquela noite
sonhei que te comia o coração.
Suponho que seria pela fome.
Enquanto devorava aquela fruta
- era doce e amarga ao mesmo tempo -
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e pálidos que nunca.
Suponho que seria pela morte.

Amalia Bautista

exclamações

olha! meio-dia! horas de apanhar o autocarro! tanta
gente! gente por todo o lado! todos tão espremidos!
curtido! aquele fulano! que trombil! e que pescoço!
setenta e cinco centímetros! pelo menos! e o galão!
o galão! não o tinha visto! o galão! é o mais curti-
do! esta agora! o galão! à volta do chapéu! um galão!
curtido! curtido a valer! ó p'ra ele a mandar vir!
o tipo do galão! com o sujeito do lado! e o que lhe
diz! o outro! tinha-o pisado! vão desatar à estalada!
de certeza! parece que não! parece que sim! ó, dá-
-lhe! dá-lhe! dá-lhe uma mordidela no olho! vá lá!
força! então, caraças! não pode ser! meteu o rabo
entre as pernas! o tipo! do pescoço comprido! com o
galão! e é p'ra um lugar vago que ele corre! olha,
olha! o fulano!
ora esta! sim, senhor! não! não estou enganado! é
mesmo ele! ali! na cour de rome! em frente da estação
de sain-lazare! a andar de um lado pró o outro! com
outro tipo! e então o que o outro lhe diz! que ele
devia acrescentar um botão! pois! um botão ao sobre-
tudo! ao sobretudo!

Raymond Queneau

poemário daqui

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