Era uma vez um cão todo amarelo. Na rua, os cães com quem ele brincava faziam muita troça dele. Chamavam-lhe «o ovo estrelado», «o ovo mole», o «carro eléctrico», «o icterício» e outros mimos. Todos os dias, o cão chegava a casa a chorar. A mãe reparou na tamanha tristeza e perguntou-lhe pela razão dela. Quando, entre soluços, o filho a informou, a mãe encorajou-o. O que fazia falar os outros era a inveja, toda a gente prefere os louros, ele era o mais bonito de todos os cães das redondezas.
No dia seguinte, o cão amarelo voltou ufano. Aos habituais insultos retorquiu com a opinião da mãe. Foi o fim da macacada. Além de o achincalharem a ele, achincalharam-lhe a mãe. Devia ser bonita a gema de ovo, a margarina velha, a amarelona.
Desesperado, o animal nem sequer ousou voltar para casa, à noite. Sentou-se em cima de uma pedrinha, a chorar, a chorar muito. Até que passou um elefante que meteu conversa com ele e quis saber da razão das lágrimas. Quando o cão amarelo contou a sua desdita, o elefante perguntou se já lhe tinham falado do Cão Godard. Que não, respondeu o coitadinho. O Cão Godard - explicou o elefante - era um cão de gosto infalível, que pintava todos os cães do mundo com as cores mais belas. Morava muito longe, mas o elefante levá-lo-ia até ele. E o Cão Godard escolheria a mais bela das cores, fazendo regressar o cão amarelo mais lindo do que as coisas lindas. O cão aceitou logo o convite do elefante. Pulou para as costas dele e seguiram viagem.
Três dias e três noites percorreram montes e vales, até chegar a uma montanha muito alta e distante onde dezenas de cães formavam duas extensas filas, à direita e à esquerda de um trono, no topo de uma elevação, em que se sentava o Cão Godard. Os da fila do lado direito vinham a descer e eram, todos, belíssimos. Eram cães que o Cão Godard acabara de pintar, com cores diferentes mas igualmente admiráveis. Os da fila do lado esquerdo iam a subir e eram feiíssimos. Eram os cães que o Cão Godard se preparava para pintar.
O elefante pousou no solo o cão amarelo e este, cabisbaixo, ocupou o seu lugar na fila do lado esquerdo, aguardando a sua vez. Não aguardou muito tempo. Do alto do trono, o Cão Godard olhou-o e levantou-se de um salto. «Em verdade, em verdade vos digo» - bradou, atroando aos ares - «que nunca, até hoje, vi cão mais belo. Já pintei cães da cor da dança, já pintei cães da cor da música, já pintei cães da cor da poesia, já pintei cães da cor da pintura. Mas nunca consegui pintar um cão da cor do cinema. O cão amarelo, que ali vejo, é o cão da cor do cinema. Eu te baptizo: Cão Nicholas Ray».
O cão ficou muito espantado. Contou os enxovalhos que sofrera, disse que vinha ali para mudar de cor. Logo o Cão Godard gritou irado: «São cães neo-realistas os teus amigos. Não percebem nada de nada de nada. Eu te digo, ó cão, que tu és o mais belo dos cães. Mais belo do que o cão amarelo só o cão amarelo, só tu que agora baptizo como Cão Nicholas Ray». A estas palavras, todos os outros cães rebentaram numa ovação. Todos lhe queriam mexer, todos o queriam cheirar, todos o queriam lamber, todos o queriam beijar.
Mas o cão desconfiava ainda. Como é que os outros cães, os cães da terra dele, o iriam acreditar? O Cão Godard veio então até ele, e, com brandos movimentos, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, escreveu na barriga do cão: «O cão amarelo é o mais belo dos cães. Mais belo do que o cão amarelo só o cão amarelo. A tua beleza é a ausência da beleza. O cão amarelo, como o sol, obriga-nos a fechar os olhos. A beleza cega. Porque a beleza é o cão amarelo. E por isso o cão amarelo é o Cão Nicholas Ray. Porque o cinema é Nicholas Ray». E, havendo terminado, assinou: «Cão Godard».
Orgulhosíssimo, radiantíssimo, o cão amarelo agradeceu ao Cão Godard e, entre palmas e bravos, voltou a subir para as costas do elefante, que a custo continha as lágrimas.
Três dias e três noites durou também a viagem de regresso. De noite, chegaram a casa, onde o elefante e o cão se despediram. A mãe esperava-o em enorme ansiedade. O filho contou-lhe então o sucedido. «Vês» - disse a mãe - «vês como eu tinha razão? Agora já acreditas e em mim não acreditaste. Mas desculpo-te: que é uma mãe ao lado do Cão Godard?»
Ao outro dia, o cão amarelo acordou contentíssimo. Comeu à pressa o osso matinal e foi ter com os amigos. Receberam-no ainda pior, se possível: «Olha, o ovo estrelado, nós a julgar que já tinhas desaparecido. Vai-te embora carro eléctrico, vai-te embora cão tinhoso, bicho feioso». «Sou tinhoso? Sou feio?», respondeu seguríssimo o jovem cão, «então leiam aqui». E deitou-se de costas, de barriga para o ar. Os cães nem podiam acreditar no que liam. Todo o seu mundo vacilava. Afinal o cão amarelo era o mais belo dos cães.
Suplicaram-lhe então que os levasse até ao monte do Cão Godard, para que o Cão Godard os pintasse a todos da mesma cor ou, pelo menos, de cor tão parecida quanto possível. Mas o elefante recusou-se a refazer o percurso. «Então vocês foram maus e fizeram troça do cão amarelo e agora querem ser como ele? Não os levo, não. E, mesmo que os levasse, o Cão Godard não os pintava e, horrorizado com o vosso mau gosto, mandava afastá-los como malditos que são.»
Daí em diante, o cão amarelo chamado Cão Ray ou Cão Rei, passou a ser o ídolo de todos os cães da vizinhança. E viveu feliz o resto dos seus dias.
João Bénard da Costa,
Os Filmes da Minha Vida
sabes que se os neo-realistas vissem isto riam-se muito, muitíssimo. mas dás-te ao trabalho de passar tudo, tudinho, mesmo que à mão, mãozinha, porque sem isto o teu blog não fazia sentido algum, algunzinho