OLHAS PARA MIM,

um punhado de ossos
arrumado num saco de plástico preto,
dor e pedagogia, papo seco
agarrado a uma lembrança.

Tens nojo do contorno oleoso
que o meu cabelo dá ao teu passado.
Acusas-me de misturar whisky com coca-cola.
Queres os livros de volta.

Está tudo certo.
Mas deverias ter medo,
sei lá, apanhar uma doença qualquer,
alimentar um próspero tumor.

Com esta caneta,
esventrei príncipes e porcos
acreditando que era com a barriga que pensavam.
Sonhei de mais. Jurei em falso.
O horizonte fechou-se,
lentamente,
como uma cicatriz do espaço.
O sol e a melancolia
fazem crescer agora, à minha volta,
um girassol de chumbo.
O verão
insiste em amadurecer na minha pança,
as suas abóboras para pintar.
Tudo certo.
Aguardo hoje em paz - não é assim que se faz? -
a alegria da reforma,
como o alívio estrondoso de uma catástrofe,
sentado e bêbado,
ou apenas quieto e envergonhado,
no topo de um poste de electricidade.

Ao longe, as luzes da marginal
tiritam uma ópera astral,
enquanto o mijo me aquece as pernas
O que posso fazer, Gabi?
Sou um pássaro noctívago,
tenho os olhos maiores que o meu cérebro.


Golgona Anghel, COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO

é sábado e eu

Acordo em forma de cubo de gelo.
A minha cabeça é uma cúpula de cristal,
onde o Mourinho decidiu introduzir
no último minuto do jogo,
uma vuvuzela.
No intervalo, sou levada num trenó
por uma horda de cães da Sibéria.
Perco um chinelo pelo caminho.
Fico sem bateria no telemóvel.
E no momento preciso em que consigo,
por fim, segurar as rédeas
e encontrar um horóscopo
no bolso do pijama,
resolvem tocar à campainha e fico
minutos a fio a tentar perceber
como é que funciona o raio do intercomunicador.
Passo o ponto alto do dia agarrada aos botões,
sem saber, no fim, o que é que queriam:
a leitura do gás ou a dica da semana.


Golgona Anghel, COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO

daqui ninguém sai com fome

EM VEZ DE CONTINUAREM A CUSPIR,
enxaguem a baba,
metam os sapatinhos de vela
o colarinho branco,
e olhem fixamente para a câmara:
podem dizer mal de mim,
mas sorriam.
Não desperdicem
as últimas três gotas de Chanel nº 5
que o ódio vos borrifou nos pulsos.
Usem sempre as melhores cartas,
citem-me,
sejam lordes quando espetam a navalha.

Eu sei quem são,
conheço o vosso cheiro.
Eu também ganho as minhas medalhas
em lares, creches e hospitais.
Podem, se quiserem,
ir ao céu,
mas isso não implica que encontrem Deus.

Agora não façam de mim
este bicho exótico
apanhado, de surpresa,
enquanto preparava um cocktail
molotov no penico
do seu habitat natural.
Não me cortem as garras,
nem me domestiquem a cama.
Se não conseguem encontrar a saída,
se acertaram em cheio,
neste buraco vazio,
fiquem e lavem-se!
Daqui ninguém sai com fome.


Golgona Anghel, COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO

como será a tua cara hoje

O desastre gosta de tomar
a forma das tuas pernas
para envolver-me melhor.

Reparo nas minhas unhas roídas nos cantos,
na pele infectada,
nos dentes amarelados,
no lixo acumulado no quarto
e pergunto-me:
como será a tua cara hoje,
enquanto o teu cabelo liso e louro
continua a tecer-me um casulo dourado
desde a altura do Natal,
dentro da minha arca congeladora?


Golgona Anghel, COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO

como se me tivesse despistado

(...)

Acontece-me isto com Onetti, digo-te,
ponho-me a falar de literatura,
quero ser o papagaio de Flaubert,
a anaconda de Saint-Exupéry,
ou, ao menos, o cordeiro de Jan van Eyck.
Mas de cordeiros estão os céus e os supermercados cheios.

Invento, por isso, um território comercial um pouco mais original,
actualizo os equipamentos,
gravo o texto de atendimento ao público.
Preparo-me para ser um autómato,
esta máquina de vender cigarros na pastelaria da tua esquina.
Nem acredito que tenhas passado por aqui,
sua vadia,
e não tenhas metido nenhuma moeda
na minha boca.


Golgona Anghel, COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO

annabel lee

O REMOTO REI DOS CORVOS,
Edgar Allan Poe,
deixa cair do seu bico,
no centro de uma biblioteca,
os restos de uma musa.
Cansados de tanta melancolia,
os ratos montam à sua volta um circo.

«Annabel Lee», «Annabel Lee»,
guincham os bichos,
repartindo os ossos entre si.

Mostram os dentes,
esticam-lhe a pele.
Sabem que o poema
não tem outro precursor
a não ser a fome,
nem outro seguidor
a não ser o crime


Golgona Anghel, COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO

loneliness

Há refrões que não são fáceis de aprender:
Here comes loneliness.
Foi essa, desde o início, a nossa história.

Que passos te levam
ou não levam agora aos mesmos
bares, a portas fechadas,
àqueles de quem nem pudeste despedir-te?

Procuras uma resposta,
a forca simples de um olhar.
Mas é demasiado tarde,
canções

que fingindo a vida nos sepultam.


Walkmen, José Miguel Silva e Manuel de Freitas

so goodnight

Não posso dizer que tenha aprendido grande coisa
nos últimos, digamos, duzentos anos.
Há muitas perguntas que vão perdendo altura
à medida que as penas tombam e também
as garras já não prendem como soíam.
Depois de ter visto de que palha são enchidos
os príncipes felizes, já não saio de casa
sem levar comigo uma carteira de fósforos.
Agora tenho mais tempo morto, só de cinco
em cinco anos compro uma pilha nova
para o relógio. Em vez de cortar os pulsos
cortei a linha do telefone. Já não acordo de noite
para lhe perguntar porque não tocas.
E o que mais me custa, no fim de contas,
é dar razão a Confúcio quando afirma:
quanto mais te ergues para Deus mais ele
de ti se afasta, deixando-te sozinho
a arrumar a casa. Mas estes chineses,
na filosofia moral como no ténis de mesa,
acabam sempre por levar a taça,
e por esta altura da minha queda já concedo
que seja o silêncio a condição natural
para uma ave sem nome que Setembro chamou

e que há duzentos anos não aprende nada.


Walkmen, José Miguel Silva e Manuel de Freitas

no way back

«Como sair daqui?» Perguntas bem, amigo.
Diógenes diria «à catanada, vivamente»,
Lichtenberg «à gargalhada», se o conheço.
Thomas Bernhard proporia «num rectângulo
de tábuas» e Machado que o caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse «rastejando».
Diderot aventaria
«pela rua do liceu», Tcheckov «pela viela
mais escura, à tua esquerda». Séneca diria,
muito sonso, «pelo passeio das Virtudes»,
Vaneigem «pelo jardim das Belas-Artes».
Bashô responderia (e eu com ele) «é muito cedo,

fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa».


Walkmen, José Miguel Silva e Manuel de Freitas

victims of the dance

Era antes da Internet: um recanto
do Blitz onde se expunham ou partilhavam
(des)prazeres, um improvisado conjunto
de referências que nos pudesse
aproximar de alguém,
nem que fosse de nós próprios.

Estávamos, como sempre, demasiado sós,
entregues a províncias e desgostos
incomuns, mesmo quando batiam certo
os nomes, os sinais de alarme que
- entre ninguém e ninguém -
desbravavam uma espécie de caminho.

Conheci, em suma, dezenas de pessoas.
Às cartas seguia-se fatalmente o rosto,
surpresa por vezes dolorosa (outras vezes não).
Ninguém, de qualquer modo, queria ser ninguém.
Antes presentes ou futuros poetas, romancistas,
compositores, artistas plásticos, timoneiros.

Se nenhum deles, a acreditar no Google, deixou cadastro
cultural foi porque a vida, ou nem sequer a vida,
sabotou as adolescências de que fui breve testemunha.
E não ignoro que este vestígio incerto vale menos
do que o silêncio com que me escreviam

há quase vinte anos. Quando não havia e-mail.


Walkmen, José Miguel Silva e Manuel de Freitas


«Nada nos salva desta porra triste.»

Jorge de Sena

my love what shall I do if you die?

© Niki de Saint Phalle 

I shall buy a beautiful dress and mourn over you
I shall cry a lake of tears
I shall build you a fantastic monument for your tomb
and then I shall look for someone new

a incompreensão dos dias da corja

olha como é a injustiça que te atira à sarjeta
passam-te três carros e meio por cima
e ainda te levantas com um sorriso
aprendeste a coxear em tom sexy
só à espera desse instante
depois segues toda mulher, disfarçada
em ligaduras de primeiro grau

seguirás em frente com os princípios e
os fins

serás refeita e praticada universalmente,
como uma bíblia,
nesta cozinha onde sugas as lágrimas
a lavar a loiça com palha de aço


Cláudia R. Sampaio, OS DIAS DA CORJA, do lado esquerdo

atropelamento

Quando eles dizem
"morreu rebentada por dentro"
querem dizer
que o coração se moveu do esquerdo
ao lado direito do peito
que o impacto se sentiu no pulmão
onde o coração entrou e ficou escondido
palpável à língua
Que o fígado acidulado por um último jantar
se lançou em espuma contra as costas
e negra da noite ao avesso
a caixa torácica perdeu o abaule
o orgulho
as flores como pétalas de osso quebraram
por todo o dentro de cinco sentidos
Em todo o caso o corpo
ficou incólume
sentado na estrada
desviado apenas do lugar
onde esteve o baque da alma


Andreia C. Faria, Flúor

FIRST KISS

FIRST KISS, Tatia Pilieva for WREN, 2014

eu fujo da vida

Os sentimentos atrasam,
as paixões atrasam,
as instituições atrasam,
está tudo a mais, nesse demais sempre a pesar sobre a existência, ela própria uma ideia a mais

(...)

Porque sou eu quem fere e destrói, parte, dá,
escolhe, decide, reparte,
e todo o corpo é inanimado,
na origem absolutamente inanimado,
e não há corpo nem espírito,
qualquer apelo errante de vida,
nada a não ser o silêncio e a morte
tuberosa da meia-noite,
revista de antes, da outra vida,
mas por agora acabou-se,
o peso caído do impossível
que pesa aí dia e noite
já não pesará mais antes de entrar
a inenarrável cacofonia
dos seres em perpétua insurreição
enfrentados por aquele que parte, dá e reparte.
Eu não reparto, eu fujo
da vida.


Antonin Artaud, trad. Ernesto Sampaio

tua alma o um que são dois quando dois são um


Lavoisier, Pessoa

Porta pra tudo!
Ponte pra tudo!
Estrada pra tudo!
Tua alma omnívora,
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
Pum! pum! pum! pum! pum!
PUM!


 Fernando Pessoa, Saudação a Walt Whitman

do not love too long

Sweetheart, do not love too long:
I loved long and long,
And grew to be out of fashion
Like an old song.

All through the years of our youth
Neither could have known
Their own thought from the other's,
We were so much at one.

But O, in a minute he changed --
O do not love too long,
Or you will grow out of fashion
Like an old song.


William Butler Yeats

poemário daqui

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