© Kaye Blegvad
dentro, fora, morto, vivo
- Sabias que os desconfiados e os mortos têm uma coisa em comum? São calados.
O problema, o verdadeiro problema, é que não consigo apesar de tudo convencer-me a mim próprio de que não estou espiritualmente morto. Muito francamente, as provas são esmagadoras, se essa maneira de estar morto implica a capacidade de apenas comunicar com o passado, a incapacidade de comunicar com o presente.
- Estás num beco sem saída?
- Queres dizer que não tenho potencialidades? Tenho, tenho potencialidades, claro. Sabes a impressão que me dá? É como aqueles tesouros inúteis dos galeões espanhóis afundados. Nunca mais virão à superfície. Todos os meus dias, Mark, são vividos tendo diante dos olhos o meu próprio tesouro afundado. Está no meu canto, algures. Está tudo no meu canto.
Ouve - Eu sei que o canto é uma necessidade, uma evidente partícula da vida, um todo dentro de um todo, se quiseres, mas eu sei que tenho de morrer de certo modo para sair dele. Alguma coisa tem de morrer. Pode ser que eu esteja a emergir. Não estou morto dentro dele, em todo o caso. Podes dizer que eu estava morto e vivo em momentos sucessivos. Dentro, fora. Dentro, fora, morto, vivo. Há pessoas que chamariam a isso um período interessante.
Harold Pinter, Os Anões
O problema, o verdadeiro problema, é que não consigo apesar de tudo convencer-me a mim próprio de que não estou espiritualmente morto. Muito francamente, as provas são esmagadoras, se essa maneira de estar morto implica a capacidade de apenas comunicar com o passado, a incapacidade de comunicar com o presente.
- Estás num beco sem saída?
- Queres dizer que não tenho potencialidades? Tenho, tenho potencialidades, claro. Sabes a impressão que me dá? É como aqueles tesouros inúteis dos galeões espanhóis afundados. Nunca mais virão à superfície. Todos os meus dias, Mark, são vividos tendo diante dos olhos o meu próprio tesouro afundado. Está no meu canto, algures. Está tudo no meu canto.
Ouve - Eu sei que o canto é uma necessidade, uma evidente partícula da vida, um todo dentro de um todo, se quiseres, mas eu sei que tenho de morrer de certo modo para sair dele. Alguma coisa tem de morrer. Pode ser que eu esteja a emergir. Não estou morto dentro dele, em todo o caso. Podes dizer que eu estava morto e vivo em momentos sucessivos. Dentro, fora. Dentro, fora, morto, vivo. Há pessoas que chamariam a isso um período interessante.
Harold Pinter, Os Anões
não é noite nem manhã
Seja noite escura ou haja luz, não há nenhuma obstrução. Tenho a minha cela. Tenho o meu compartimento. Está tudo organizado, tudo no seu lugar, não se cometeu nenhum erro. Estou aconchegado. Não há nenhum esconderijo. Não é noite nem manhã. Não há nenhuma armadilha, apenas esta postura, entre dois estranhos, aqui está o meu dispositivo, aqui está a minha instalação, quando estou em casa, quando estou só, não é preciso combinar, tenho os meus aliados, tenho os meus objectos, tenho o meu gato, tenho o meu tapete, tenho o meu território, isto é o meu reino, não há traição, não há confiança, não há viagem, ninguém fura o meu flanco.
Harold Pinter, Os Anões
Harold Pinter, Os Anões
uma luz que parece velada ou distorcida
Os pedaços da vida, o papel rasgado e o cordel com que se fez o embrulho, transformaram-se em anos e os anos em passado. Sabes que há uma luz a alumiar-te, atrás de ti, mas não é suficientemente brilhante para iluminar tudo por que no passado esperaste. É uma luz que parece velada ou distorcida por um tecido desconhecido. Muito do que foi para ti uma sólida muralha de convicções deixou de te aparecer, agora, nas noites más ou na doença ou tão só na fraqueza, como uma coisa a que possas encostar-te. E então quase nem consegues encontrar o teu lugar no tempo. Tudo quanto jurarias que aconteceu, só o voltarás a encontrar se tiveres a energia necessária e fores capaz de cavar com força, e isso faz dores nos pés e nas costas, e tens medo de nem sempre haver lá no fundo algo que encontrar.
Lillian Hellman, Talvez
Lillian Hellman, Talvez
na erva alta do verão
No meu caso, esqueci-me muitas vezes do que era importante, do que me importava mais, do que me fez tomar atitudes que alteraram a minha vida. E então, com o tempo, as pessoas e as razões perderam-se na erva alta do Verão. Tenho tentado explicar isto muitas vezes às pessoas que ficam sentidas por me esquecer delas mas elas não compreendem nem eu ouso esperar que compreendam. Não é agradável os outros esquecerem-se de nós. Hoje isso já não me afecta assim tanto, mas alterou a vida e levou consigo pedaços de coisas em que acreditava e que gostaria de ter outra vez.
Lillian Hellman, Talvez
Lillian Hellman, Talvez
faltam muitas peças
Estendi-me durante um bocado e penso que adormeci, porque, quando acordei, o mundo parecia ter desaparecido. Estava com uma disposição que não tem nome pois não é disposição nenhuma mas aquele desespero enorme que leva as pessoas doidas a matar gatos ou a asfixiar bebés que choram.
Não sei. Desci ao rés-do-chão, fiz café, bebi-o e peguei no telefone.
Não sei por que escolhi o Carter Cameron. Mas mandei este telegrama para o número dele, que é a única maneira de o enviar:
FALTAM MUITAS PEÇAS TANTO NO TEMPO
COMO NO ESPAÇO NÃO FAZ MAL EXCEPTO
SE ME DIZ RESPEITO MAS QUANDO ME DIZ
RESPEITO DESEJO QUE NÃO SEJAM PRETAS
O MEU INSTINTO REPITO INSTINTO REPITO
INSTINTO REPITO INSTINTO É QUE AS TUAS
SÃO PRETAS
Lillian Hellman, Talvez
Não sei. Desci ao rés-do-chão, fiz café, bebi-o e peguei no telefone.
Não sei por que escolhi o Carter Cameron. Mas mandei este telegrama para o número dele, que é a única maneira de o enviar:
FALTAM MUITAS PEÇAS TANTO NO TEMPO
COMO NO ESPAÇO NÃO FAZ MAL EXCEPTO
SE ME DIZ RESPEITO MAS QUANDO ME DIZ
RESPEITO DESEJO QUE NÃO SEJAM PRETAS
O MEU INSTINTO REPITO INSTINTO REPITO
INSTINTO REPITO INSTINTO É QUE AS TUAS
SÃO PRETAS
Lillian Hellman, Talvez
indispensável era evitar ter-te
Dizia que ao chegar se olhares e me não vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido
Ruy Belo
Poemas de Ruy Belo ditos por Luís Miguel Cintra
com unhas e dentes
Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.
Luis Filipe Parrado, ENTRE A CARNE E O OSSO
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.
Luis Filipe Parrado, ENTRE A CARNE E O OSSO
poema
Tua boca
é um dia estreito
cheio de moscas
De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.
Pedro Oom, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
é um dia estreito
cheio de moscas
De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.
Pedro Oom, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
como um oceano
Tu és meu
pássaro do deserto
cinzento com mil portas
silenciosas e translúcidas.
Tu és meu
a todo o comprimento
do sol
e afogas-me como um oceano.
Artur do Cruzeiro Seixas, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
pássaro do deserto
cinzento com mil portas
silenciosas e translúcidas.
Tu és meu
a todo o comprimento
do sol
e afogas-me como um oceano.
Artur do Cruzeiro Seixas, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
a meu favor
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
Alexandre O'Neill, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
Alexandre O'Neill, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
rêve oublié
Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti
Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna
Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo
Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada
Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro
E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.
António Maria Lisboa, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti
Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna
Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo
Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada
Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro
E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.
António Maria Lisboa, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
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