Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luis José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego… Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma…) também já por cá passaram…) Viram? É horrível!… A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho… Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:
Peço uma esmola.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
duros querubins
Se os cisnes trocassem com as criancinhas e viessem patinar no seu andar baloiçado para o jardim, as criancinhas podiam (sem o perigo de em tal convívio aprenderem a grasnar) passear então no lago, o que lhes era um prazer, julgavam. As que soubessem nadar ou tivessem bóia adequada à cintura, vogavam. As outras iam logo ao fundo e nunca mais ninguém as via porque o lago tem um abismo que dá para a vala comum. Por isso, às vezes, quando os cisnes sobem a terra, muitas muitas criancinhas descem ao fundo, vão parar à Lagoa de Óbidos pelos esgotos da cidade e dali ao vasto mar. Se meninas, transformam-se em sereias; se rapazes, em rochas modeladas, em duros querubins.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
a função mais peçonhenta que se possa suportar
Eu tinha todo o cuidado com as criancinhas: se alguma caía no chão e começasse a berrar, deixava-a estar assim porque um bicho humano (a menos que se não magoe aleije de todo ou muito) deve saber cair e levantar-se sozinho. Este um método fundamentado na minha experiência de adulto e que ali aplicava, pedagogicamente: ninguém dá nada a ninguém e a mão que se estende solícita para nos erguer da valeta pode muito bem ser uma garra (e que pretende? na altura da aflição nunca o poderemos saber logo) ou um carcereiro (várias espécies deles; eu também já fui, por exemplo, da Irene) que é a função mais peçonhenta que se possa suportar.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
até mesmo os mortos deixam para a frente surpresas
Tenho para mim e desde há muito duas máximas: não confiar inteiramente em ninguém, estar sempre de atalaia, e comigo mais, porque donde elas menos se esperam é que as traições surgem; outra: não desesperar de vez, não arrumar as pessoas, porque até mesmo os mortos deixam para a frente surpresas, actos ocultados mas exemplares da humanidade.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
um deixa-andar, um tanto-faz
a velhice por dentro ou por fora é uma segunda infância tristonha e (às vezes) agreste. A infância que se recupera uma inesperada rememória (ou uma outra vida paralela e tão intensa como a no dia-a-dia?) de tudo e de nós como o fomos no nosso melhor e quando tudo nos parecia fácil. Assim mesmo. Eu cá acho. Em qualquer caso, porém, um certo desinteresse ou fastio pelo (nosso) presente dagora, um desfasamento peculiar, um deixa-andar, um tanto-faz.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
o que entendo por amar alguém
E aqui aproveito para lhes expor em breve parêntese o que entendo por amar alguém
Pode talvez chamar-se a teoria que tento praticar e o fundamental não é ter teorias todas as temos é tê-las e praticá-las que aí é que esta a grande gaita, uma teoria masoquista do amor, marimbando-me.
É assim: se amas, deseja para a pessoa amada o melhor, olha bem para ela e procura saber o que ela quer precisa deseja ama e procura dar-lho, tanto quanto possas anulando-te, desaparecendo da vida dela, sentindo-a viver feliz longe de ti e sabendo e chorando. É muito chato isto e às vezes, insuportável de aturar, é um caminho debilitante para o suicídio. O contrário disto, que também já fui e sem remorsos nenhuns, é o vampiro. Já deixei para trás, porém, muitas vítimas e se não me arrependo não quero não desejaria fazer mais.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Pode talvez chamar-se a teoria que tento praticar e o fundamental não é ter teorias todas as temos é tê-las e praticá-las que aí é que esta a grande gaita, uma teoria masoquista do amor, marimbando-me.
É assim: se amas, deseja para a pessoa amada o melhor, olha bem para ela e procura saber o que ela quer precisa deseja ama e procura dar-lho, tanto quanto possas anulando-te, desaparecendo da vida dela, sentindo-a viver feliz longe de ti e sabendo e chorando. É muito chato isto e às vezes, insuportável de aturar, é um caminho debilitante para o suicídio. O contrário disto, que também já fui e sem remorsos nenhuns, é o vampiro. Já deixei para trás, porém, muitas vítimas e se não me arrependo não quero não desejaria fazer mais.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
bolor na alma
O tempo sara tudo, diz-se. Mentira. E reles. Não sara nada. Nem se sabe bem ao certo quando sara, isto é, quando começa a criar bolor na alma.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
dormindo, suspirando, gemendo
Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.
É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.
(...)
Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!
Luiz Pacheco, Comunidade
É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.
(...)
Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!
Luiz Pacheco, Comunidade
liberdade imediata
Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. As vezes, muitas vezes, beijos e abraços.
As vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau, génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas ? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores na Avenida! E deixem-me que lhes diga: se é precisa a maior vigilância com as maganas das lêndeas e as brincalhonas pulguitas (especialmente daquelas pequeninas, estilo terroristas, são mesmo uns amores!), a graça que tem a Irene na caça à bicharada, desporto conceituado nas brenhas beirãs onde a fui escolher, e como se alegra dizendo «era uma verdadeira toira !» ou «esta tinha o rabo branco, eram duas às cavalitas», o que só demonstra que na classe agrária, enquanto não chega o dia do tractor e da reforma, a educação feminina quedou nessas prendas doméstico-venatórias do olho atento, dedos que nem setas, unhas como guilhotinas.
Luiz Pacheco, Comunidade
As vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau, génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas ? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores na Avenida! E deixem-me que lhes diga: se é precisa a maior vigilância com as maganas das lêndeas e as brincalhonas pulguitas (especialmente daquelas pequeninas, estilo terroristas, são mesmo uns amores!), a graça que tem a Irene na caça à bicharada, desporto conceituado nas brenhas beirãs onde a fui escolher, e como se alegra dizendo «era uma verdadeira toira !» ou «esta tinha o rabo branco, eram duas às cavalitas», o que só demonstra que na classe agrária, enquanto não chega o dia do tractor e da reforma, a educação feminina quedou nessas prendas doméstico-venatórias do olho atento, dedos que nem setas, unhas como guilhotinas.
Luiz Pacheco, Comunidade
as mulheres
Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)
Luiz Pacheco, Comunidade
Luiz Pacheco, Comunidade
ódio ao corpo
Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.
Luiz Pacheco, Comunidade
Luiz Pacheco, Comunidade
um invisível espinho
O General Loewenhielm alcançara tudo o que tinha ambicionado na vida, e era a admiração e a inveja de todos. Só ele sabia de uma coisa singular, que abalava a sua própria existência: ele não era completamente feliz. Alguma coisa falhara, algures na sua vida, e ele cuidadosamente analisava todo o seu ser espiritual como quem apalpa um dedo para saber onde está cravado um invisível espinho.
Karen Blixen, Histórias do Destino / A Festa de Babette e outros contos
Karen Blixen, Histórias do Destino / A Festa de Babette e outros contos
os salgueiros
Contrariamente ao que tínhamos previsto, o vento não se foi embora com o Sol. Parecia mesmo aumentar com a escuridão, uivando à nossa volta e abanando os salgueiros como se fossem palha. Sons curiosos acompanhavam-no por vezes, como se se tratasse de tiros de canhão, à medida que os mesmos se pareciam abater sobre as águas e sobre a ilha, em golpes de uma enorme força. Fez-me pensar nos ruídos que um planeta deverá fazer, se os pudéssemos ouvir, enquanto se desloca pelo espaço.
Contos de Algernon Blackwood
Contos de Algernon Blackwood
não me chateiem
JONAS Não estou sozinho. Estou aqui deitado há quatro dias. Ela continua a querer trazer-me comida, mas eu não quero comer nada. Não quero comer nem beber. Desde quarta-feira que decidi deixar de comer. E NINGUÉM ME VAI FAZER MUDAR DE IDEIAS! (pausa)
Eles continuam a bater à porta. Não param de bater na puta da porta. Mas eu não respondo. Nada do que há lá fora me interessa. Até podiam pôr ali em cima da porta uma palavra a dizer: “HOMENS”! Porque lá fora só há merda. É a grande pia do mundo. É verdade, é tão verdade como respirar, tão claro como água… foda-se, começa-se a baralhar as coisas quando se está uns dias sem comer, não é? As ideias rasgam-se, vão umas contra as outras. A cabeça parece que rebenta e então começa-se a vomitar tudo cá para fora. Mas é aí que eu quero chegar. Quero vomitar, quero pôr tudo cá para fora. É por isso que estou a fazer greve de fome. Foda-se, estou a ficar todo seco. Tenho a garganta apertada. (olha em volta) Merda! Isto é um filme ou sou eu? (ri-se de si próprio) Uma casa de loucos, este ano de 1988. Cheio de merda. Não há empregos. Roubaram-me o meu. Ficaram com o meu futuro. Foi um assalto, um verdadeiro assalto. Mas agora já não me ralo. Caguei. Sei que estou fodido. (ouve-se bater à porta com força)
VOZ DO PAI Está aqui a Clara. Queres vê-la ou não?
JONAS Não me chateiem.
Jim Cartwright, Road
Eles continuam a bater à porta. Não param de bater na puta da porta. Mas eu não respondo. Nada do que há lá fora me interessa. Até podiam pôr ali em cima da porta uma palavra a dizer: “HOMENS”! Porque lá fora só há merda. É a grande pia do mundo. É verdade, é tão verdade como respirar, tão claro como água… foda-se, começa-se a baralhar as coisas quando se está uns dias sem comer, não é? As ideias rasgam-se, vão umas contra as outras. A cabeça parece que rebenta e então começa-se a vomitar tudo cá para fora. Mas é aí que eu quero chegar. Quero vomitar, quero pôr tudo cá para fora. É por isso que estou a fazer greve de fome. Foda-se, estou a ficar todo seco. Tenho a garganta apertada. (olha em volta) Merda! Isto é um filme ou sou eu? (ri-se de si próprio) Uma casa de loucos, este ano de 1988. Cheio de merda. Não há empregos. Roubaram-me o meu. Ficaram com o meu futuro. Foi um assalto, um verdadeiro assalto. Mas agora já não me ralo. Caguei. Sei que estou fodido. (ouve-se bater à porta com força)
VOZ DO PAI Está aqui a Clara. Queres vê-la ou não?
JONAS Não me chateiem.
Jim Cartwright, Road
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