constança

Quando Constança ria, espalhava-se em redor dela uma onda de alegria; não de uma alegria frenética mas calma, funda e apaziguante.
As gargalhadas da rapariga soavam, de vez em quando, em casa, no quintal, no jardim e eram inconfundíveis. O seu sorriso era real e autêntico. Os seres humanos surpreendidos de encontrarem a verdadeira alegria, na sua forma primitiva, entravam por instantes dentro do seu âmbito, repousando todos os pesares.


Graça Pina de Morais, A Origem

maria da soledade

Maria da Soledade tinha dezassete anos. Ao olhar para ela, a primeira impressão que se sentia era a de espanto, pela sua beleza invulgar, mas atentando melhor, descobria-se na fisionomia da menina uma expressão vaga, muito pueril, quase idiota. No entanto nunca a sua cara daria a sensação de imbecilidade porque possuía algo de comovente que fazia sofrer.


Graça Pina de Morais, A Origem

maria clara

Em todas as recordações da adolescência de João domina a figura da tia Maria Clara, estendida na sua cadeira na varanda sobre o vale: não tem ar de uma mulher doente ou sequer preguiçosa; completa a harmonia da paisagem, a harmonia da vida na velha casa.


Graça Pina de Morais, A Origem

moisés

Moisés, numa dessas noites silenciosas e rescendentes, teve uma crise violenta de saudades de Maria Clara. Estava só, sentado num banco, o cotovelo apoiado sobre a mesa de pau da cozinha da sua sórdida habitação. Levantou-se, espreguiçou-se um momento estendendo os braços, depois foi até ao canto da cozinha, pegou na arma caçadeira, encostou o cano da espingarda a uma das têmporas e comprimiu o gatilho. Antes de disparar limitou-se a pedir a Deus que fizesse feliz a irmã. Não pensou em si, não teve nenhuma visão tumultuosa da sua existência (visão tão frequente em quase todo o ser humano quando sente o fim aproximar-se), não viu, no futuro, as consequências da sua morte, nem se deleitou a imaginar os que amava, chorando, cheios de amor, o seu desaparecimento.


Graça Pina de Morais, A Origem

andorinha

Como era a Andorinha? Dir-se-ia que não tinha alma e que nunca viria a tê-la: era uma criatura que Deus enviara à terra para a alegria dos olhos de quem a fixasse. Todos os gestos dela pareciam impensados e sem significado; não se poderia imaginar Andorinha imóvel, reflectindo. O movimento fazia parte dela, andava, ou melhor, corria quase constantemente. Tinha o raciocínio vivo, rápido e profundo - mas só repentinamente; depois deixava de pensar. Entusiasmava-se com tudo o que tivesse beleza.
Era fútil e sincera. A futilidade da Andorinha foi a única admitida e apreciada até ali, na casa.


Graça Pina de Morais, A Origem

joão

Como é que João, fechado dentro das paredes da casa, nascido numa longínqua povoação entre montanhas, surgira assim diferente com todos os estigmas da geração actual? Era como se no rodar cíclico da vida da humanidade, todo o homem, por mais escondido e livre de influências que estivesse, trouxesse a marca, a alma de uma época. João trazia consigo a alma do seu tempo.

A futilidade de Andorinha, o sentido estético agudo da pequena saltimbanca, com a sua atracção irresistível pela beleza e a repulsa pela fealdade, também existiam em João. Andorinha vivera como uma força da natureza, transportando em si uma desumanidade sem culpa e deixara ao filho esse mesmo elemento desumano, contra o qual João havia de lutar durante toda a vida.
Mas a herança de Leonardo também o atingira; um fogo sombrio, misterioso e forte, ardia nos olhos escuros e profundos da criança.

Sobre João caiu todo o generoso amor que aquelas mulheres tinham necessidade de dar, mas, por mais generoso que esse amor fosse, uma atmosfera sufocante rodeava a criança.

A criança tinha tudo quanto queria; era alegre e simultaneamente infeliz porque os dois estados de alma não são contraditórios. Era infeliz porque assim nascera e estava destinada a subir um inútil calvário.

Quando João procura recordar-se da sua infância, nada encontra, a não ser um grande dia sereno, onde o tempo não existia.

Em todas as casas, em todas as terras, teve sempre a sensação de estar de passagem, de ser um viajante que de um momento para o outro vai partir.

As suas feições, porém, saltaricavam de uns para os outros: tomado de uma amizade excessiva por um colega qualquer, nem ele sabia porquê, envolvia o objecto do seu afecto numa simpatia esfuziante. Depois cansava-se e mudava de afeição. Encontrava dentro de si uma enorme dificuldade em manter qualquer convivência: nas amizades só apreciava o entusiasmo inicial.

Aborrecia-se nos jogos turbulentos dos recreios e raramente se associava a essas brincadeiras, não porque se sentisse de uma classe superior à dos colegas - dentro do seu coração sempre existira o sentimento de que os homens eram iguais - mas porque já nessa idade a solidão começava a querer apertar imperceptivelmente o seu círculo intransponível à volta da alma da criança.

O menino «sabia-se» demais, «sentia-se» demais; invejava a despreocupação, a simplicidade convicta com que os outros brincavam.

Um tédio de homem adulto devastava a alma da criança, e o tédio não depende da vida que o homem leva, é uma sina, uma desgraça, a pior doença que pode acometer a alma humana. João perdera a naturalidade. Atrás de si, atento e perscrutador, um duplo de si mesmo observava-o, e esse duplo terrível tornava inútil cada conversa, cada frase, cada reacção. O seu ser palpitava, enjaulado, dentro da apertada armadura terrena que é concedida a cada homem.

Conservava vivos na sua alma todos aquele que amara, mas não tinha necessidade deles: deixava-os para trás.

Durante dias e dias tristezas terríveis e sem motivo espalhavam-se nos traços do menino. Não valia a pena mexer-se, nada valia a pena: não queria viver mas também não queria morrer. Sentia-se paralisado como um rato numa armadilha.

Quando fez quinze anos, chorou. «Estava velho, já não tinha mais nada a fazer no mundo.»

Pensava tanto em si que esquecera a vida da Casa. Inerte, inclinado sobre si mesmo, tudo o que era exterior se tornara absurdo e irreal e essa sensação de estranheza fazia-o sofrer.

Fumava. Lera em alguns livros que a mais terrível realidade é sempre melhor do que o clima trágico, idealizado por uma imaginação angustiada. Talvez fosse verdade. Não sentia absolutamente nada. É estranho: o que mais o afligia e espantava, era a ausência total de sofrimento. Talvez ele fosse um monstro.

Sentia-se ausente de si mesmo e isso dava-lhe uma tranquilidade espantosa.


Graça Pina de Morais, A Origem

catarina

O corpo de Catarina possuía a perfeição e a pureza da adolescência e havia nele uma espécie de espiritualidade comovente, que chegava a angustiar, por se sentir quanto era transitória.

Acontecera a Catarina o que acontece a um grande número de mulheres honestas, sensuais e sem imaginação: apaixonara-se pelo primeiro rapaz que a beijara. Pouco se importava que João a entendesse ou não, mas ela é que não o compreendia, e senti-lo longe fazia-a sofrer. Exasperava-se contra o mundo turbilhonante e desconhecido que existia na cabeça dele. Não era só por sensualidade que desejava os abraços, os beijos, os longos silêncios inquietantes em que os olhos perturbados de ambos se encontravam: era porque só assim ele estava perto.

Quando à noite, sozinha no quarto, relembrava o rapaz, eram precisamente as enfadonhas tardes de leitura que recordava com mais ternura, como uma mãe que se enternece sobretudo com os disparates de um filho querido. Esta maneira de pensar é terrivelmente feminina: assim como uma mulher superior, apaixonada por um homem vulgar, acha graça e encanto às idiotices e vulgaridades desse homem, também Catarina, apaixonada por aquele adolescente semicaótico e desconhecido, descobria prazer nas longas horas em que, constrangida, ouvia falar de assuntos que para ela não tinham realidade.


Graça Pina de Morais, A Origem

ana joaquina

Ana Joaquina era magra, pequena e pálida; nos seus olhos cinzentos, miúdos e sem pestanas, luzia, invariavelmente, um brilho frio e duro. Tinha, contudo, qualidades. Era um objecto de casa, estava presa àquelas paredes, gastava toda a energia em servir aqueles que amava, porque se o seu ódio era apaixonado e terrível, também o amor tinha nela um carácter exagerado e fervoroso. Fora dos filhos da casa não gostava de mais ninguém.


Graça Pina de Morais, A Origem

o dr. eduardo

O Dr. Eduardo vinha todos os dias, não porque os seus serviços pudessem ser úteis, mas porque um estranho sentimento o prendia à bela agonizante, um sentimento doentio que parecia despropositado no homem que João classificara de vulgar. Era com uma mistura de medo e espanto assombrado que assistia à destruição de uma tão maravilhosa obra do Criador. Cedia à atracção ancestral e atávica que todo o ser humano sente por aquilo que é impossível e que vai acabar.

Por isso, também, vinha todos os dias até ao Outeiro porque lá, sob a ameaça da morte, a vida palpitava com uma intensidade lancinante.

Mas, aos poucos, o ambiente apaixonado que rodeava a moribunda foi-se infiltrando no espírito do Dr. Eduardo e este, esquecido do papel que tinha de desempenhar, começou a sentir os mesmos sobressaltos, o mesmo desvario da gente da Casa.


Graça Pina de Morais, A Origem

o padre josé

Na tarde em que o Padre José foi à Casa, João levou-o até ao quarto da tia. Maria Clara tinha adormecido. O Padre José transpôs a porta do quarto com a sua expressão tímida, os seus gestos desajeitados, e disse baixinho a João:
   - Não a acorde, por favor. Posso vê-la dormir durante um bocadinho?

Quanto tempo estiveram assim em silêncio, ouvindo apenas a respiração da doente, ligados por um sentimento comum e indefinível!?... Uma espécie de paz transitória suspendera-se sobre o medo e a dor. De onde vinha essa paz? Da mulher adormecida? Da tarde rosada que morria? Daquele homem que afinal era um desconhecido e chorava com os olhos abertos e ingénuos?


Graça Pina de Morais, A Origem

se eu fosse um vídeo

um poema para mim

O brilho do teu sorriso, é o pôr do sol de Monet
e o grito de Bacon,

o som que emana da tua boca,
é o cantar da sereia,
que me envolve nos teus longos e escuros cabelos
como de um mar revolto se tratasse.

Olho para os teus olhos castanhos,
são duas pérolas negras,
cuja profundidade é o céu nocturno sem estrelas,

que embala o mundo.


Man(u)el Tavares, para o dia 7/7

como um bálsamo sobre a cidade evanescente

Demorou-se lá uma semana, correndo as ruas onde os passos de ambos tinham ressoado juntos, na noite de Novembro, e visitando os lugares escusos aonde tinha ido no automóvel branco. Do mesmo modo que a casa dela sempre lhe tinha parecido mais alegre e misteriosa que as outras casas assim a ideia que ele fazia da cidade - embora ausente dela a Daisy - lhe parecia penetrada de uma melancólica beleza.
Saiu dali com a impressão de que se tivesse procurado mais e melhor a poderia ter encontrado - de que a deixava atrás de si. Na carruagem-salão (voltava sem um centavo de seu) abafava-se. Foi até à plataforma aberta e sentou-se numa cadeira dobradiça, a ver fugir a estação e as traseiras de casas desconhecidas. Depois perpassaram campos e subúrbios, com um eléctrico amarelo a correr a par do comboio por um minuto, cheio de pessoas que talvez algum dia tivessem entrevisto a pálida magia do rosto dela ao longo de uma rua de acaso...
Entrando numa curva, o comboio fugia agora do sol, que, ao descer para o horizonte, parecia derramar-se como um bálsamo sobre a cidade evanescente, onde ela tinha respirado. Gatsby estendeu a mão num gesto de desespero, como se quisesse agarrar um sopro desse ar, guardar uma relíquia dos lugares que ela tinha para sempre embelezado para ele. Mas tudo corria agora demasiado depressa aos seus olhos turvos, e ele percebeu que tinha perdido a primeira fase da partida, a mais fresca e a melhor - para sempre.


F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

touch of evil

Touch of Evil, Alex Prager

o adorável inimigo

Aqui há dias fui à Baixa comprar sapatos. Ia cheia de pequeninos - e grandes - rancores contra o homem, o adorável inimigo. «Entro numa sapataria cheia de mulheres. Mulheres a comprarem, mulheres a venderem. Mulheres a «grasnarem». A empurrarem. A incomodarem. Gritando tanto, regateando tanto, maçando tanto, que o compreendi. Fui dali a correr sentar-me no café, onde elas não gostam de entrar». Homens casados com mulheres como as da sapataria, aqui fica a minha solidariedade.


Vera Lagoa, Bisbilhotices...

a madrugada ou a noite triste tocadas em trompete

do disco Entre nós e as palavras, Os Poetas, 1997

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Herberto Hélder

morrer de vez em quando

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma


Paulo Leminski

poemário daqui

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