O importante era mesmo
isso: não ver nada.
Acreditar na água;
saber que ela estava ali,
límpida, intensa, viva.
Por pouco tempo, como nós.
Manuel de Freitas
fórmula
Um tanto de tédio,
um tanto de placidez,
um tanto de irritação
- às vezes penso ter encontrado
um rumo onde evito
empreender no que a vida
tem de sórdido, de enganoso,
de incómodo, de cansaço.
Dura pouco: a vida teima
em estar certa e provar
que estou errado.
José Alberto Oliveira
um tanto de placidez,
um tanto de irritação
- às vezes penso ter encontrado
um rumo onde evito
empreender no que a vida
tem de sórdido, de enganoso,
de incómodo, de cansaço.
Dura pouco: a vida teima
em estar certa e provar
que estou errado.
José Alberto Oliveira
estátuas de domingo
O jardim (em) que mais amei
não tinha tratados de botânica
nem estátuas de domingo.
Cabia todo no trautear suave,
quase gemido, do banco ao lado
e tinha a tristeza prosaica de
meia dúzia de pombas desinspiradas
pelas mesmas migalhas.
Os miúdos eram os de sempre,
o futuro à exacta distância
da bola que passava logo a outro,
assustados com a responsabilidade
dessa posse demasiado leve.
Só a fonte parecia calar-se
para nos ouvir e os pássaros
tinham um jeito caprichoso de roçar
cada cabelo teu para te mostrarem
as asas de renda em contraluz.
O único dia em que lá regressei sem ti
foi como saber outra vez que ia morrer.
Os céus não se rasgaram, ninguém se calou
para me deixar passar, nem secara
a fonte subitamente ao centro.
Ainda insisti num banco com vista
para o nosso, sem folhas a cair ou pássaros
que me emprestassem o consolo
impossível da sua sombra. Mas o sol
era agora uma arma descarregada,
contra a qual já não precisava
da muralha do teu corpo e tive
a certeza absurda de que tudo
iria continuar sem nós, e eu sem ti.
Era apenas questão de evitar o jardim
do mesmo modo que pago para fugir
à morte, escolhendo trajectos que me façam doer
todos os músculos, excepto o do coração.
Inês Dias
não tinha tratados de botânica
nem estátuas de domingo.
Cabia todo no trautear suave,
quase gemido, do banco ao lado
e tinha a tristeza prosaica de
meia dúzia de pombas desinspiradas
pelas mesmas migalhas.
Os miúdos eram os de sempre,
o futuro à exacta distância
da bola que passava logo a outro,
assustados com a responsabilidade
dessa posse demasiado leve.
Só a fonte parecia calar-se
para nos ouvir e os pássaros
tinham um jeito caprichoso de roçar
cada cabelo teu para te mostrarem
as asas de renda em contraluz.
O único dia em que lá regressei sem ti
foi como saber outra vez que ia morrer.
Os céus não se rasgaram, ninguém se calou
para me deixar passar, nem secara
a fonte subitamente ao centro.
Ainda insisti num banco com vista
para o nosso, sem folhas a cair ou pássaros
que me emprestassem o consolo
impossível da sua sombra. Mas o sol
era agora uma arma descarregada,
contra a qual já não precisava
da muralha do teu corpo e tive
a certeza absurda de que tudo
iria continuar sem nós, e eu sem ti.
Era apenas questão de evitar o jardim
do mesmo modo que pago para fugir
à morte, escolhendo trajectos que me façam doer
todos os músculos, excepto o do coração.
Inês Dias
julho
De Julho,
o que fica
são as noites tépidas,
quando os velhos de mangas cavas
se põem a contar as feições lendárias
das suas conquistas antigas.
João Vasco Coelho
o que fica
são as noites tépidas,
quando os velhos de mangas cavas
se põem a contar as feições lendárias
das suas conquistas antigas.
João Vasco Coelho
pensando melhor
Mesmo em tardes muito quentes de Verão,
há sempre uma ave aventureira
que sobrevoa a terra.
(Pensando melhor, o que de facto há
é terra, apenas terra - que a seu tempo
há-se sobrevoar o voo das aves.)
A. M. Pires Cabral
há sempre uma ave aventureira
que sobrevoa a terra.
(Pensando melhor, o que de facto há
é terra, apenas terra - que a seu tempo
há-se sobrevoar o voo das aves.)
A. M. Pires Cabral
FINE
Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis.
Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.
Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem.
Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão.
Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo.
Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto.
Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.
Os sentimentos são onde sei viver, onde me sinto menos morto.
Os sentimentos sou eu.
Os melhores.
Os piores.
O beijo.
A bala.
(Ou vice-versa).
Todos os nomes da intranquilidade.
Miguel Martins, Lérias
Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.
Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem.
Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão.
Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo.
Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto.
Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.
Os sentimentos são onde sei viver, onde me sinto menos morto.
Os sentimentos sou eu.
Os melhores.
Os piores.
O beijo.
A bala.
(Ou vice-versa).
Todos os nomes da intranquilidade.
Miguel Martins, Lérias
a encomenda do silêncio
Já reparaste que tens o mundo inteiro
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem
de forma que o que entra pelos meus olhos não pode
entrar pelos teus olhos
mas só pela tua cabeça através
dos nomes dados pela minha cabeça
àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes
e do mesmo modo
o que entra pelos teus olhos não pode
entrar pelos meus olhos
mas só pela minha cabeça através
dos nomes dados pela tua cabeça
àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes
e assim o que tu vês
já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres
e assim o que eu vejo
já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver
e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de ti
e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de mim
e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez
tu a ti e eu a mim...
construindo urna consciência irrepetível e intransmissível
cada vez mais intensa e em si
tu em ti eu em mim
no entanto continuando a falar um com o outro
tu comigo e eu contigo
cada um
tentando dizer ao outro
como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça
e porque é e para que é
tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça
eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça
até que morra um de nós
e depois o outro...
Alberto Pimenta
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem
de forma que o que entra pelos meus olhos não pode
entrar pelos teus olhos
mas só pela tua cabeça através
dos nomes dados pela minha cabeça
àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes
e do mesmo modo
o que entra pelos teus olhos não pode
entrar pelos meus olhos
mas só pela minha cabeça através
dos nomes dados pela tua cabeça
àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes
e assim o que tu vês
já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres
e assim o que eu vejo
já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver
e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de ti
e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de mim
e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez
tu a ti e eu a mim...
construindo urna consciência irrepetível e intransmissível
cada vez mais intensa e em si
tu em ti eu em mim
no entanto continuando a falar um com o outro
tu comigo e eu contigo
cada um
tentando dizer ao outro
como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça
e porque é e para que é
tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça
eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça
até que morra um de nós
e depois o outro...
Alberto Pimenta
big bad wolf
diz uma história muito antiga que a juventude
é um tempo de macieiras e trincada a maçã
na história ao lado despertei desse primeiro sono
onde os atalhos não se sonham de tão mal
iluminados. todos os perigos que se espreitam
estão próximos todos os passos seguros
são lugares mortos e eu segui as sombras vivas
eu quis o caminho que me devorou rendido
a sua acesa fome abraçando o bosque sabendo
que a maior cegueira é a da maior claridade.
Pedro Jordão
é um tempo de macieiras e trincada a maçã
na história ao lado despertei desse primeiro sono
onde os atalhos não se sonham de tão mal
iluminados. todos os perigos que se espreitam
estão próximos todos os passos seguros
são lugares mortos e eu segui as sombras vivas
eu quis o caminho que me devorou rendido
a sua acesa fome abraçando o bosque sabendo
que a maior cegueira é a da maior claridade.
Pedro Jordão
VERMEER
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
Wislawa Szymborska
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
Wislawa Szymborska
uma insolência frágil
Os homens têm sempre alguma coisa de patético, em qualquer idade. Uma insolência frágil, uma audácia temerosa. Hoje já nem sei se alguma vez despertaram em mim amor ou apenas uma afectuosa compreensão pelas suas fraquezas.
Elena Ferrante, A Filha Obscura, Crónicas do Mal de Amor
Elena Ferrante, A Filha Obscura, Crónicas do Mal de Amor
veias que fremem sob a pele
Existir é isto, pensei, um sobressalto de alegria, uma pontada de dor, um prazer intenso, veias que fremem sob a pele, e não há outra verdade que se possa contar.
Elena Ferrante, Os Dias do Abandono, Crónicas do Mal de Amor
Elena Ferrante, Os Dias do Abandono, Crónicas do Mal de Amor
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Lawrence Ferlinghetti
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Leila Miccolis
Leonard Cohen
Leonardo Chioda
Leonardo Da Vinci
Leopoldo María Panero
Lewis Carroll
Lígia Reyes
Lord Byron
Lou Andreas-Salomé
Lou Reed
Louis Aragon
Louis Buisseret
Lourdes Espínola
Lucía Estrada
Luis Alberto de Cuenca
Malcolm Lowry
Manoel de Barros
Manuel Arana
Marco Mackaaij
Margaret Atwood
María Sánchez
Mariano Peyrou
Marin Sorescu
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Martin Amis
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Mary Jo Salter
Mary Oliver
Mary Ruefle
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Mia Couto
Michael Drayton
Michel Houellebecq
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Miriam Reyes
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Morgan Parker
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Neil Gaiman
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Olga Orozco
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Pablo Neruda
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Paul Éluard
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Paul Theroux
Paulo Leminski
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Per Aage Brandt
Pere Gimferrer
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Philip Roth
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Yoko Ono
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