late night

Late night and rain wakes me, a downpour,
wind thrashing in the leaves, huge
ears, huge feathers,
like some chased animal, a giant
dog or wild boar. Thunder & shivering
windows; from the tin roof
the rush of water.

I lie askew under the net,
tangled in damp cloth, salt in my hair.
When this clears there will be fireflies
& stars, brighter than anywhere,
which I could contemplate at times
of panic. Lightyears, think of it.

Screw poetry, it’s you I want, your taste, rain
on you, mouth on your skin.


Margaret Atwood

se eu fosse um vídeo

perigosamente

Às vezes
perigosamente
as veias coagulam
Não percebem:
viver é uma hemorragia calculada


Ana Hatherly

E teria talvez valido a pena

deter-se nas pulsações daquela dor de cabeça
Deter-se
Forçar o lugar do pó, as palavras
apertar o medo, romper a margem
Regressar ao dia de hoje

Ela era uma mulher que comia apreensiva num
restaurante
Vivia mais lentamente
Era como estar longe sem mudar de lugar

Estou cheia de paredes
Fotografias guardadas numa caixa de charutos

É Segunda-Feira
Tinha um penteado que lhe cobria as orelhas
E cheirava sempre a lírios
O que é que recordo?

Para quê pensar-me?
Também isto passará


Glória Gervitz, Poemas, trad. de Rosa Alice Branco

Have you ever been in love?

Do I find entertainment?
Is it worthwhile?
Above all, does it pay?
If not, then, is there a reason?
I write only because
There is a voice within me
That will not be still.


Sylvia Plath

EM TEMPOS DE PESTILÊNCIA

gargalhar publicamente numa prisão fronteiriça -
os loucos moram cá dentro


Raquel Nobre Guerra

a dor

A dor não me pertence.
Vive fora de mim, na natureza,
livre como a electricidade.

Corre nas veias do ar,
atrai os abismos,
curva os pinheiros.

E em certos momentos de penumbra
iguala-me à paisagem,
Surge nos meus olhos
presa a um pássaro a morrer
no céu indiferente.


José Gomes Ferreira

se eu fosse um vídeo




heart on my sleeve / not where it should be / the song's out of key again

diz a sharon olds que

quando se perde alguém nunca é exactamente a mesma pessoa que regressa.

para que te doa sempre um pouco mais

O que me comove, passado tanto
tempo, é perceber que fiz a esse disco
o mesmo que faço e volto a fazer
aos corpos que julgo amar:

parti-los, muito devagar, para
que doam sempre um pouco mais.


Manuel de Freitas, Beau Séjour

Folks, I’m telling you,

birthing is hard
and dying is mean—
so get yourself
a little loving
in between.


Langston Hughes

se eu fosse um vídeo




let the rain exalt us / as the night draws in / winds howl around us / as we begin / what a way to start a fire / broken with the break of day

o diabo ganiu de fúria quando me viu,

baixou a cabeça cem metros e encarou-me
pequeno e insignificante. por momentos,
não fez nada. reparei nos mutilados que me
traziam instrumentos de corte quando alguém me
ateou o fogo. depois, ele disse,
podes começar por oferecer os pulmões à
fome dos outros. no inferno
não se respira

e eu usei a afaga
para furar a pele e abrir caminho entre as
costelas. com a própria mão retirei
os pulmões e estendi-os no chão, pequenos,
fatiados


valter hugo mãe, folclore íntimo

Sempre amei por palavras muito mais

do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras


Alice Vieira

because the night

© Trine Sondergaard

Chegaste

com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram...
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.


Yvette Centeno

não duvides meu amor

‎Não duvides - meu amor - o gato sabe-o.
Os gatos sabem-no sempre, mesmo que nunca ninguém lhes confesse o quanto doem os dias de amor mal temperado.
Acredita, eles sabem e, por isso, falam com a janela mais silenciosa da casa, deixam de alimentar a horas o corpo de pêlos tão ternos.
Os gatos sabem-no e são os únicos animais que sentem da mesma forma que nós, que amam pessoas com nomes mais ou menos possíveis.
E nós somos para os gatos - quando eles nos amam - o parapeito de onde podem observar em segurança os dias menos cinzentos do ano.
O amor não é inútil. Só os gatos o sabem.


David Teles Pereira

se eu fosse um vídeo




I've got memories / I keep them away from me /
they won't behave / won't be what I want 'em to be

Suspensa daquela linha

que não consigo parar
de ler
e reler
e voltar a ler

Aquela linha
além da qual não consigo passar

Suspensa daquela meia dúzia
de palavras
que custo a entender
- ou finjo
quando na verdade
são tudo o que sei


Winnie Meisler

neguei-te

Às vezes, nos momentos trágicos, já não é contigo que eu deparo - é com outro ser que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te comigo, ferrada como um punhal - e não existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te às tuas verdadeiras proporções - e tu não existias! Atormentaste-me e fizeste-me sofrer mesmo quando já compreendera que não existias. E agora mesmo, quando o universo é outro universo, ainda encarniças sobre em mim como um fantasma.

Escusas de te rir - tu não existes.


Raul Brandão

i've been away for so long

© Gustavo Minas

demasiado tarde

Que a vida nos oferece pessoas para no-las arrebatar pouco a pouco é coisa que aprendemos sempre demasiado tarde.


Antonio Sáez Delgado

o velho expresso da patagónia

- A vingança não altera o que foi feito. Nem o perdão. Vingança e perdão são irrelevantes.
- Que se pode fazer, então?
- Esquecer - disse Borges -, isso é tudo quanto se pode fazer. Quando me fazem mal, finjo que aconteceu há muito tempo, e a outra pessoa qualquer.
- E funciona?
- Mais ou menos - mostrou os seus dentes amarelos -, mais para menos do que para mais.


Paul Theroux

very nice, very nice


Very Nice, Very Nice, Arthur Lipsett, 1961

primeiro é ver diferente

Amar é ver diferente.
Depois fica-se cego.
Mas primeiro é ver diferente.


Gonçalo M. Tavares

o minuto certo do amor

Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam charros e putas e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade. Mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto.


Filipa Leal

I'm through with love


Everyone Says I Love You, Woody Allen, 1996

Digo:

Os dias são todos de morrer.
Nenhuma das memórias que tenho de ti
sabe negar essa evidência.


José Rui Teixeira

a dulce maria cardoso sabia que

a pele é o maior órgão do corpo humano

to bring you my love


Café Müller, Pina Bausch, 1985

sometimes

my head didn’t grow no more
after I stopped growing
but the memories multiplied,
so I must assume they are now in my belly,
in my thighs and in my shins. one walking archive,
my ordered disorder, a storage room weighting down
an overloaded ship.

sometimes I want to lie down on a bench at the park:
it would then change my status
from lost inside to lost outside.

words begin to abandon me
like rats from a sinking ship.
the last word is captain.


Yehuda Amichai

Eles amputaram

As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro.
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco.


Yehuda Amichai

after you've gone

Qui êtes-vous, Polly Maggoo?, William Klein, 1966

um poema cruel

eles continuam a escrever
a despejar poemas –
jovens rapazes e professores universitários
mulheres que bebem vinho toda a tarde
enquanto os maridos trabalham,
eles continuam a escrever
com os mesmos nomes nas mesmas revistas
cada ano a escreverem pior,
publicam colectâneas de poesia
e despejam mais poemas
parece um concurso
é um concurso
mas o prémio é invisível.

eles não escrevem nem contos nem ensaios
nem romances
apenas
despejam poemas
todos parecidos com os dos outros
e cada vez menos originais,
e alguns dos rapazes cansam-se e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho toda a tarde
nunca, mas mesmo nunca, desistem
e chegam outros rapazes com novas revistas
e há troca de cartas entre poetas e poetisas
alguns chegam a foder
e tudo é exagerado e aborrecido.

quando os poemas saem
eles reescrevem-nos
e enviam-nos para a próxima revista na lista,
e fazem leituras
todas as que conseguem fazer
a maior parte de borla
na esperança que alguém repare neles
que alguém os aplauda
lhes reconheça o talento
os felicite
eles estão convencidos da sua genialidade
há muito poucas dúvidas,
e muitos vivem no Grande Porto ou Grande Lisboa,
e as suas caras são como os poemas que escrevem:
semelhantes,
e conhecem-se uns aos outros e
reúnem e odeiam e admiram e escolhem e expulsam
e continuam a despejar mais poemas
mais e mais poemas
mais e mais poemas
o concurso dos pasmados:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap…


Charles Bukowski, trad. Manuel A. Domingos

a fotografia é uma facada.

a pintura é uma meditação.


Robert Bresson

lost

I've lost my notebook.
I've lost a poem.

It was a great one.
It was eleven pages long.

It was about my father saying he couldn't hear me.
It was about the X I cut into the back of my hand.

It was about seeing yet another friend on heroin.
It was about that little boy kicking that bird to death.

It was about the four leaf clover someone sent me.
It was about the time I could not stop sleeping.

It was about mailing anonymous hate letters.
It was about finding bruises all over my legs.

It was about the bartender who wouldn't let me pay.
It was about trying to find the cool spot on the pillow.

It was about the lipstick I stole from a girl's medicine cabinet.
It was about seeing my favorite poet shake when she gave a reading.

It was about the tape I ripped out of someone's answering machine.
It was about the friend who banged on my door and I did not let her in.

It was about watching MTV after school and wondering if I'd look like that when i grow up.
It was about my mother lying on the kitchen floor and the dog licking her face.

It was about what happened when I forgot how much Milk my boyfriend liked in his coffee.
It was about the time I read someone's diary and ripped out the pages about me.

It was about going to the bus station and not knowing where I was going.
It was about coming in late from a movie and kissing through the credits.

It was about the car I could not drive.
It was about the party when no one came.

It was about the last time you touched me.
It was about the way you walked away.

It was the best thing I've ever written.
It was everything I wanted to say.

I've lost my notebook.
I've lost a poem.


Nicole Blackman

Roubo-te à linguagem,

só assim serás real.


Ana Marques Gastão

suicide song



Inland Empire, David Lynch, 2006

A palavra amor

é incendiária.


Cruzeiro Seixas

se eu fosse um vídeo

four days

Henry and I are one, lying soldered for four days. Not with bodies but with flames. God, let me thank somebody. No drug could be more potent. Such a man. He has sucked my life into his body as I have sucked his. This is the apotheosis of my life. Henry, Louveciennes, solitude, summer heat, quivering smells, chanting breezes, and, within us, tornadoes and exquisite calms… The next day I run about the house cooking. Suddenly I love cooking, for Henry. I cook richly, with infinite care. I enjoy seeing him eat, eating with him. We sit in the garden, in our pajamas, drunk on the air, the caresses of the swaying trees, the songs of birds, attentive dogs licking our hands. Henry’s desire is always coursing. I am ploughed, open. At night, books, talk, passion. As he pours his passion into me I feel that I become beautiful. I show him a hundred faces. He watches me. It all passes like a procession, up to this morning’s climax, before he leaves me, when he sees a burnt face, heavy, sensual, Moorish. There was a storm last night. Marble-sized hail. Sea fury of the trees. Henry sits in an armchair and asks, "Are we going to read Spengler now?" He sits purring like a cat. He has the yawn of a tiger, all the jungle cries of contentment. His voice vibrates in his stomach. I have put my head there and listened, as against an organ. I am lying on the bed. I wear a lace dress, nothing else, because it gives him pleasure to look at me. "Now," he says, "you look like an Ingres." I cannot bear the space between us. I sit on the floor. He caresses my hair. He gives me winged kisses on the eyes. He is all tenderness, thoughtfulness."


Anaïs Nin, Henry and June

epitaph for my heart

«Du bonheur à l'état pur, brut, natif, volcanique, quel pied! C'était mieux que tout, mieux que la drogue, mieux que l'héro, mieux que la dope, coke, crack, fitj, joint, shit, shoot, snif, pét', ganja, marie-jeanne, cannabis, beuh, péyotl, buvard, acide, LSD, extasy. Mieux que le sexe mieux que la fellation, soixante-neuf, partouze, masturbation, tantrisme, kama-sutra, brouette thaïlandaise. Mieux que le Nutella au beurre de cacahuète et le milk-shake banane. Mieux que toutes les trilogies de George Lucas, l'intégrale des muppets-show, la fin de 2001. Mieux que le déhanché d'Emma Peel, Marilyn, la schtroumpfette, Lara Croft, Naomi Campbell et le grain de beauté de Cindy Crawford. Mieux que la face B d'Abbey Road, les solos d'Hendrix, le petit pas de Neil Armstrong sur la lune. Le space-mountain, la ronde du Père-Noël, la fortune de Bill Gates, les transes du dalaï-lama, les NDE, la résurrection de Lazare, toutes les piquouzes de testostérone de Schwarzy, le collagène dans les lèvres de Pamela Anderson. Mieux que Woodstock et les rave-party les plus orgasmiques. Mieux que la défonce de Sade, Rimbaud, Morisson et Castaneda. Mieux que la liberté. Mieux que la vie...»


Jeux d'enfants, Yann Samuell, 2003

entre os dentes segura a primavera



quem não vacila mesmo derrotado / quem já perdido nunca desespera / e envolto em tempestade, decepado / entre os dentes segura a primavera

He loved to sleep late,

while she would be awakened by the passing of coal barges, by foghorns, and by the heavy traffic over the bridge. So she would dress quietly and she would run to the cafe at the corner and return with coffee and buns to surprise him on awakening. "How human you are, Djuna, how warm and human…" "But what did you expect me to be?" "Oh, you look as if the very day you were born you took one look at the world and decided to live in some region between heaven and earth which the Chinese call the Wise Place."


Anaïs Nin, The Four-Chambered Heart

um corpo

Aos poucos um corpo, como diz o outro,
vai ficando sozinho, bate com as portas,
recua e recua. Quando dá por isso,
já não sabe dançar, conta as estações
pela volta do correio. Assim se começa
a olhar para trás, por cima do ombro,
pegando nas coisas pelo lado mais fraco.
Pagamos o preço de querer dissecar,
fibra por fibra, em prol da ciência,
o músculo baixo, descoordenado,
a que chamamos ai coração ai.


José Miguel Silva

se eu fosse um vídeo


acrobacias

sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o nosso inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
- superiores ou inferiores -
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
tornava-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ias
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.


Ana Paula Inácio

diz-me um segredo

mantém-me acordada
enquanto esta noite não chega ao fim


Dulce Maria Cardoso

i just don't know what to do with myself

© Lise Sarfati

Van Gogh cut off his ear

gave it to a
prostitute
who flung it away in
extreme
disgust.


Charles Bukowski

Eu sonhava que estava a dormir.

Naturalmente, não me deixava enganar, sabendo que estava acordado, até à altura em que, ao despertar, me lembrei que estava a dormir. Naturalmente, não me deixava enganar, até à altura em que, ao adormecer, me lembrei de que tinha acabado de despertar de um sono em que sonhava estar a dormir. Naturalmente, não me deixava enganar, até à altura em que, perdendo toda a fé, me pus com raiva a morder os dedos, perguntando-me apesar do crescente sofrimento se de facto estava a morder os dedos, por não saber se estava desperto ou adormecido e sonhando que estava desesperado por não saber se estava a dormir ou se apenas... e perguntando-me se...


Henri Michaux, O Retiro pelo Risco


Agora é tarde sobre a terra cercada.

Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
Passei a vida a fugir para a tua boca, e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.


Rui Cóias

poetry is colder than death

a poesia protege-te
dispõe-se em ti como uma árvore a guardar uma paisagem
circunda-te de torres que deixam ver o céu.
não temas pois o cerco
que o horizonte alarga-se por entre as portas
em cada pedra cada tábua começa um poema
se guião ou guardião não sabemos
pronuncia apenas as palavras
na língua o vendaval
e há quem diga que morre desprotegido
há quem diga que a palavra volta ao mundo
latente
sacrificada
em nome das matérias que luzem menos
para se fazer da tábua a pedra
da casa o poema.


André Tomé

se eu fosse um vídeo




I've been a bad bad girl / I've been careless with a delicate man / and it's a sad sad world / when a girl will break a boy / just because she can 

se eu fosse um vídeo

ARISTIDES


SANGUE DO MEU SANGUE

Tal como os bifes,

é sempre bom fraccionar o grande Tudo
em pequenos, nutritivos nadas:

cabem melhor na boca,
digerem-se melhor, dão melhores fezes.


A. M. Pires Cabral

ictus cordis

- É o que tu achas? Por que é que julgas que eu nunca choro?
- Tu não morres o suficiente para poder chorar.


Jack Kerouac, On the Road

a melhor altura do ano para cortar o cabelo

Esta é a melhor altura do ano
para cortar o cabelo – profere Sandy,
remexendo com a ponta dos dedos
alguns fiozinhos na testa.
A porra da lua atrai as marés,
cria tsunamis, invade o Japão,
provoca uma crise nuclear,
porque é que não haveria de fazer
crescer o cabelo?
Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin -  acrescento então,
preocupada com a importância literária do assunto.
Mas, para ter a certeza,
quis perguntar a um especialista,
isto é, a qualquer uma das mulheres
que estavam agora a fazer fila
à entrada do Ginásio Clube Português
como os grandes bandos de antílopes Impala
à beira de um pântano,
num documentário na Animal Planet.
Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada.


Golgona Anghel, Vim Porque Me Pagavam

corridors

© Erwin Olaf

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adília Lopes Adolfo Casais Monteiro Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tinoco André Tomé Andreia C. Faria Angélica Freitas Ângelo de Lima Aníbal Fernandes António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bénédicte Houart Bruno Béu Bruno Sousa Villar Camilo Castelo Branco Carlos Alberto Machado Carlos de Oliveira Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Soares Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio de Andrade Eugénio Lisboa Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira gil t. sousa Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Hélia Correia Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Serrado João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Manuel Ribeiro João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge de Sena Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Mário Silva José Miguel Silva José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça Judith Teixeira Leitão de Barros Luís Miguel Nava Luís Quintais Luiza Neto Jorge Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Manuel Fúria Manuel Gusmão Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Ângela Alvim Maria Azenha Maria do Rosário Pedreira Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Mário Cesariny Mário Contumélias Mário de Sá-Carneiro Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário-Henrique Leiria Marta Chaves Matilde Campilho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Cóias Rui Costa Rui Knopfli Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Costa Sebastião Alba Sílvio Mendes Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Tiago Gomes valter hugo mãe Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno

poemário dali

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