exercícios para endurecimento de lágrimas
chegas de novo a casa
e guardas do tempo a fuga
marcas outra vez os dias
para abrir feridas
como se viesse dos pássaros a acusação
de não saberes medir esquecimentos
respiras até à dor para não sentires mais nada
Maria Sousa
e guardas do tempo a fuga
marcas outra vez os dias
para abrir feridas
como se viesse dos pássaros a acusação
de não saberes medir esquecimentos
respiras até à dor para não sentires mais nada
Maria Sousa
adieu mes amours
Ora aconteceu que um belo dia, enquanto caminhava pelo parque, Madwick tropeçou na raiz de uma tília. E foi nesse exacto momento que notou, com absoluta lucidez, que iria rachar a cabeça. “Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, isto iria acontecer”, suspirou.
Enquanto tombava, reparou que se esquecera do chapéu em casa. E que tinha saído sem fechar a porta. O gato aproveitara a ocasião para se escapulir, como era seu timbre. “Bolas!”, gritou interiormente. Não era a primeira vez que o gato provocava distúrbios na rua. Era um animal dotado de um certo espírito caprichoso.
Entretanto, a cabeça aproximava-se do chão com uma urgência cada vez maior. “Vamos encarar a situação friamente”, resmungou para si mesmo. “Além da cabeça, o mais certo é fracturar também um braço, várias costelas e a própria tíbia.” A ideia de fracturar a tíbia perturbava-o especialmente. Enfiou um cigarro mental entre os lábios e acendeu-o.
Ocorreu-lhe então um poema que gostaria de citar, mas que não tinha à mão. “Os dois primeiros versos ilustram brilhantemente a minha presente situação”, comentou com os seus botões. Os botões não responderam. Madwick achou nisso motivo para crítica, mas perdeu logo a vontade. O chão aproximava-se a uma velocidade perigosa.
Tudo rolava e se precipitava por si mesmo. Madwick fechou os olhos. E meditando sobre a sua sorte, emitiu ainda esta ideia filosófica: “Somos o joguete do destino.” E estava ele neste reflexivo estado de inquietação, quando finalmente caiu no chão. Primeiro com o joelho, que pousou sobre a terra fofa. De seguida, com as pontinhas dos dedos. E só então com a cabeça, que encostou suavemente à relva fresca.
E foi isto que aconteceu. Depois, levantou-se, sacudiu o casaco, alisou as calças com as mãos, e lá se afastou, a assobiar a cancão “Adieu mes amours”, seguida de “Si j’ai perdu mon amy”, ambas de Desprez.
Rui Manuel Amaral
Enquanto tombava, reparou que se esquecera do chapéu em casa. E que tinha saído sem fechar a porta. O gato aproveitara a ocasião para se escapulir, como era seu timbre. “Bolas!”, gritou interiormente. Não era a primeira vez que o gato provocava distúrbios na rua. Era um animal dotado de um certo espírito caprichoso.
Entretanto, a cabeça aproximava-se do chão com uma urgência cada vez maior. “Vamos encarar a situação friamente”, resmungou para si mesmo. “Além da cabeça, o mais certo é fracturar também um braço, várias costelas e a própria tíbia.” A ideia de fracturar a tíbia perturbava-o especialmente. Enfiou um cigarro mental entre os lábios e acendeu-o.
Ocorreu-lhe então um poema que gostaria de citar, mas que não tinha à mão. “Os dois primeiros versos ilustram brilhantemente a minha presente situação”, comentou com os seus botões. Os botões não responderam. Madwick achou nisso motivo para crítica, mas perdeu logo a vontade. O chão aproximava-se a uma velocidade perigosa.
Tudo rolava e se precipitava por si mesmo. Madwick fechou os olhos. E meditando sobre a sua sorte, emitiu ainda esta ideia filosófica: “Somos o joguete do destino.” E estava ele neste reflexivo estado de inquietação, quando finalmente caiu no chão. Primeiro com o joelho, que pousou sobre a terra fofa. De seguida, com as pontinhas dos dedos. E só então com a cabeça, que encostou suavemente à relva fresca.
E foi isto que aconteceu. Depois, levantou-se, sacudiu o casaco, alisou as calças com as mãos, e lá se afastou, a assobiar a cancão “Adieu mes amours”, seguida de “Si j’ai perdu mon amy”, ambas de Desprez.
Rui Manuel Amaral
os dias são feitos de noites intermináveis
de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mãos rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do coração
Ana C.
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mãos rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do coração
Ana C.
a witch and a bitch always dress up for each other,
because otherwise the witch would upstage the bitch, or the bitch would upstage the witch, and the result would be havoc.
Tennessee Williams
Tennessee Williams
HUMPHREY BOGART
Era a cara que tinha e foi-se embora
mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
não é verdade meu irmão humphrey bogart?
Ruy Belo, Poemas Com Cinema
mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
não é verdade meu irmão humphrey bogart?
Ruy Belo, Poemas Com Cinema
ninguém sabe
Apagaram-se as luzes azuis da ambulância
e mais ficou na nossa imagem a cor do sangue.
No trajecto vi mais o teu ser do que à mesa,
na cama, no trabalho, o que vi deixou-me
descansado: humano, demasiado humano.
Tudo podia ter sido mais fácil, eis o que pode
dizer qualquer um, e mesmo que quase não
haja dinheiro para o táxi e te sintas à beira
do precipício, levanta a garganta e berra
para aí até já não haver quem te oiça.
Da missa metade não soube em tua história
e também não é preciso, todos nós já corremos
para um hospital e viemos de lá a cheirar
a doença e a morte. Por nós ou por outros,
nessa grande casa da tristeza e do alívio,
democracia total o acaso que dispara
e acerta ou não acerta em quem vai a passar.
Alguém te segura à beira da derrocada
e te pergunta saberás se lá no fundo há
algo que valha a pena? Pode ser que sim,
pode ser que não, ninguém sabe.
Helder Moura Pereira
e mais ficou na nossa imagem a cor do sangue.
No trajecto vi mais o teu ser do que à mesa,
na cama, no trabalho, o que vi deixou-me
descansado: humano, demasiado humano.
Tudo podia ter sido mais fácil, eis o que pode
dizer qualquer um, e mesmo que quase não
haja dinheiro para o táxi e te sintas à beira
do precipício, levanta a garganta e berra
para aí até já não haver quem te oiça.
Da missa metade não soube em tua história
e também não é preciso, todos nós já corremos
para um hospital e viemos de lá a cheirar
a doença e a morte. Por nós ou por outros,
nessa grande casa da tristeza e do alívio,
democracia total o acaso que dispara
e acerta ou não acerta em quem vai a passar.
Alguém te segura à beira da derrocada
e te pergunta saberás se lá no fundo há
algo que valha a pena? Pode ser que sim,
pode ser que não, ninguém sabe.
Helder Moura Pereira
da minha janela
da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como se fosse a origem da sede
e sossega-se contra o peito da alvorada
da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida
da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove morte contra os vidros
por dentro como soa o fim
Pedro Sena-Lino
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como se fosse a origem da sede
e sossega-se contra o peito da alvorada
da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida
da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove morte contra os vidros
por dentro como soa o fim
Pedro Sena-Lino
ocupações maravilhosas
Que ocupação maravilhosa é apanhar o autocarro, sair em frente ao ministério, abrir caminho à força de sobrescritos selados, deixar o último secretário para trás e entrar, seguro e sério, num escritório cheio de espelhos, no preciso momento em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao ministro, que a abre com um corta-papéis de origem histórica, nela enfia os dedos delicados e retira a pata da aranha e fica a olhá-la, e então pode imitar-se o zumbido da mosca, e o ministro torna-se pálido, quer atirar a pata fora, não é capaz, a pata apanhou-o, e então vire-se-lhe as costas e saia-se a assobiar, anunciando pelos corredores a demissão do ministro, e que no dia seguinte as tropas inimigas invadirão o país e que tudo irá para o diabo e que será numa quinta-feira, de um mês ímpar de um ano bissexto.
Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas
Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas
Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!
Irene Lisboa
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!
Irene Lisboa
quantos quartos vazios revisitei
quantas cidades envenenadas se coalharam no sangue
que pena ter ficado adulto para sempre
Al Berto, O Medo
que pena ter ficado adulto para sempre
Al Berto, O Medo
um cubo de gelo no bolso do casaco
No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estupido.
José Miguel Silva
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estupido.
José Miguel Silva
Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio
o que está escrito no mundo está escrito de lado
a lado do corpo - e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo: o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem -
(...)
como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
Herberto Hélder
entra no meu coração como um braço vivo: o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem -
(...)
como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
Herberto Hélder
28 de Março
Quando me sentei a esta mesa dispus o caderno onde escrevo, os óculos e a carteira, perfeitamente alinhados, ordenadamente ajustados ao espaço que o tampo da mesa coloca ao meu dispor. Corrigi a mão do empregado quando me trouxe o cinzeiro, o copo que enchi de água, o pacote de açúcar vermelho, tudo dispondo numa ordem nada menos que precisa, arranjo estético de formas que em nada feria o olhar.
Uma hora volvida, agora que olho a mesa, reparo que tudo ocupa lugar diferente do inicial. As mãos foram usando de gestos sobre a mesa, movendo-se imperceptíveis, a carteira mais distante depois de pagar a despesa, a chávena de café vazia afastada do caderno, o cinzeiro perto e visível ao mínimo esforço dos dedos, a água junto à mão esquerda, o mesmo é dizer rente aos lábios, o livro fechado e marcado na leitura interrompida.
Uma hora preenchida agora que olho a mesa, vejo-a desarrumada a meus olhos mas arrumadíssima a meu conforto.
João Luís Barreto Guimarães
Uma hora volvida, agora que olho a mesa, reparo que tudo ocupa lugar diferente do inicial. As mãos foram usando de gestos sobre a mesa, movendo-se imperceptíveis, a carteira mais distante depois de pagar a despesa, a chávena de café vazia afastada do caderno, o cinzeiro perto e visível ao mínimo esforço dos dedos, a água junto à mão esquerda, o mesmo é dizer rente aos lábios, o livro fechado e marcado na leitura interrompida.
Uma hora preenchida agora que olho a mesa, vejo-a desarrumada a meus olhos mas arrumadíssima a meu conforto.
João Luís Barreto Guimarães
Pesam-me
o bulício e a injustiça
A turva maré
e o perfume de um crepúsculo marinho
que nunca presenciarei
As longas despedidas
e os encontros fugazes
Algumas palavras
e os silêncios forçados pela distância
A noite despovoada de ti
que avança indiferente
para o abismo do dia
As letras que compõem o teu nome
imensa peça do universo
que tudo encerra
A cifra que define o teu número
O género que marca o teu corpo
O tempo indefinido da tua existência.
Lauren Mendinueta, poema de amor para Jorge Luis Borges
A turva maré
e o perfume de um crepúsculo marinho
que nunca presenciarei
As longas despedidas
e os encontros fugazes
Algumas palavras
e os silêncios forçados pela distância
A noite despovoada de ti
que avança indiferente
para o abismo do dia
As letras que compõem o teu nome
imensa peça do universo
que tudo encerra
A cifra que define o teu número
O género que marca o teu corpo
O tempo indefinido da tua existência.
Lauren Mendinueta, poema de amor para Jorge Luis Borges
Retrato de M
– eu fumo
– eu escrevo poemas que se podem fumar
– não és o que eu procuro
– sou o alto mar
e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e
– posso não ser o que tu procuras
– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva
– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar, livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar
– tu existes ainda que eu precise de te inventar
– tu já me inventaste agora não existo
e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim
– estou aqui
e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal
– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos
– demoraste ou quiseste fazer-me esperar
– eu não sou quem se deva esperar
– provavelmente vou esperar-te até depois da morte
– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas
e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar
– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia
– tu detesta toda a poesia
– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo
– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua
– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar
Carlos Soares
– eu escrevo poemas que se podem fumar
– não és o que eu procuro
– sou o alto mar
e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e
– posso não ser o que tu procuras
– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva
– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar, livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar
– tu existes ainda que eu precise de te inventar
– tu já me inventaste agora não existo
e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim
– estou aqui
e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal
– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos
– demoraste ou quiseste fazer-me esperar
– eu não sou quem se deva esperar
– provavelmente vou esperar-te até depois da morte
– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas
e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar
– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia
– tu detesta toda a poesia
– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo
– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua
– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar
Carlos Soares
reconhecimento
onde há raparigas há
roupa interior de molho
água encarnada nos olhos
Bénédicte Houart
roupa interior de molho
água encarnada nos olhos
Bénédicte Houart
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