Domingo de manhã fui com a Amada para a praia nos rochedos junto do mar vi pela primeira vez o seu corpo nu feito espuma e onda. Ficamos calados (como quem esta só) escondidos de todos à beira-água (como quem a ama, apetecendo-a como os suicidas), o seu corpo cheirava a maresia (cheiraria?). Numa grande doidice de beijos e carícias leves beijei seus pés de espuma macia... em lírica, diria: pés de sereia; em realística, diria: pés de virgem (feia); em novelística, da antiga, diria: pés de deusa brinca-brincando na areia; em novelística, novíssima: patitas catitas de centopeia..., beijei seus pés; por ali mesmo a comecei a beijar. Caprichos de libertino: o corpo da Amada ficou lá nos rochedos à beira-água onda infatigável desfeito liquefeito brisa de maresia pairando no bafo quente do ar e eu guardo no meu quarto na minha colecção mais um sexo de donzela conservado em álcool e memória, numa mistura fácil de três por dois, tintos.
Luiz Pacheco, Os Namorados
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uma estranha cadência
Luiz Pacheco era capaz das loucuras
mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade.
Pessoa cheia de contrastes, de oscilações e de incoerências, tinha
uma enorme facilidade para relacionar se com os outros e,
depois, para cortar relações. Impulsivo e inconstante, aparecia e
desaparecia de repente. Nunca ficava muito tempo na mesma casa, de
tal forma que às vezes se torna difícil dar notícia das suas
residências. Capaz de prescindir de tudo e de começar novamente do
zero, durante anos viveu em quartos de acaso ou em pensões manhosas,
cheias de percevejos e fedor a humidade, de onde muitas vezes era
expulso por falta de pagamento. Era um especialista em dívidas e em
não as pagar, especialmente às tipografias. Mas também aos amigos,
às mercearias e às empresas de gás ou electricidade.
Chegou a não ter onde dormir à noite,
viu se obrigado a vaguear pelas ruas e a pernoitar em vãos de
escada ou em cabines telefónicas. Conheceu a miséria, o vício e a
degradação. Bebeu, viu se metido no mundo do alcoolismo e
delapidou tenazmente a sua vida entre hospitais, clínicas e
sanatórios. Manteve se muitas vezes, como Bocage, «de sucinto
almoço, ceia casual e jantar incerto». Passou fome, pediu esmola,
humilhou se, mas soube tirar proveito do seu infortúnio. Movia
se com naturalidade entre os inadaptados e gostava de estar perto dos
marginais e das ovelhas ranhosas, porque lhe enriqueciam a
existência, porque com aqueles que não têm nada a perder
conhecem se melhor os labirintos da alma humana. Sentia se
atraído pelos extremos e por tudo o que se afastava do comum e das
normas, mas respeitava certas etiquetas, como dar a direita às
senhoras, respeitar as filas ou ajudar os cegos a atravessar a rua.
Lutou contra as origens burguesas da
família, o seu próprio berço, e era obcecado por dinheiro, mas
depois gastava o todo. Não se movia por esse princípio básico
da actividade económica que é a acumulação e a busca de lucro e
de mais valias. Não era invejoso nem possuía o instinto da propriedade, sabia que quase nada nos pertence e que aquilo que
julgamos ter não passa de uma ilusão. Quando tinha dinheiro,
desprezava o, desfazia se dele rapidamente, invadido de uma
euforia esbanjadora. Mas quando não o tinha, fazia tudo para o
obter, era capaz de trair, de enganar e de seduzir por oportunismo,
conseguia derreter nos o coração e espremer nos duas
lágrimas para conseguir «vintes» ou um «subsídio», esse hábito
tão cultivado em Portugal.
Não havia nele qualquer preocupação
em ascender na escala social. Tinha um completo desapego das coisas
materiais, uma invulgar capacidade de desprendimento, de despedir se
de todo o tipo de segurança e de criar incerteza, de sair daquela
zona de conforto que tanto nos esforçamos por preservar. Mas gozou a
vida, levou uma existência diversa e exaltante, não se resignou à
sua sorte, antes procurou a aventura e o risco. Incapaz de moldar se
às fórmulas da tranquilidade doméstica,
detestava a monotonia do quotidiano, os
hábitos regulares, a vida caseira e certinha, a consideração
prudente do futuro. Para se proteger contra o dogmatismo e não
estagnar, para resistir às modas e não se conformar consigo
próprio, não se fossilizar, forçava se à divergência e à
contradição. Era homem de rábulas e de gestos desconcertantes,
mais por jogo e por divertimento, ou pelo prazer do imprevisível, do
que por vaidade ou afectação pomposa. Mas tinha um temperamento
belicoso e era retorcido e desconfiado.
Nele havia uma mistura de grandeza e de
pequenez, de aspectos desprezíveis e estimáveis, de traços
atractivos e repulsivos ou grotescos. Tanto defendia o justo como o
equívoco, tanto era magnificamente generoso e heróico no sacrifício
pelos outros, como apenas pensava em si e no melhor estratagema para
conseguir o que queria e maximizar os seus próprios interesses.
Tanto era simpático, deixando se inundar de carinho e ternura,
como de repente se exasperava e se tornava detestável, revelando uma
falta de delicadeza para além do razoável. De resto, não se
deixava mortificar por arrependimentos, negava as obrigações da
amizade e recusava a ficção dos escrúpulos, das reputações e das
respeitabilidades.
Ria se das conveniências e era
indiscreto acerca da sua vida sexual. Fornicou homens, mulheres e,
perversamente pueril, engatou adolescentes, mas Elvis Presley, Jerry
Lee Lewis, André Gide, Almeida Garrett, Edgar Allan Poe, Lewis
Carrol e Carlos Gardel também o fizeram. O Estado Novo colocou o
no banco dos réus e encerrou o no Limoeiro e na prisão das Caldas
da Rainha. A libertinagem era para ele uma metáfora da liberdade,
uma forma de lutar contra a moral da obediência e da submissão do
salazarismo, de desmascarar a ditadura e questionar os dogmas
religiosos. Reivindicou a liberdade sexual pura e dura, o sexo
gratuito, sem objectivo nem consequência de reprodução, que visa
apenas a busca individual de prazer. Mas era contra o aborto.
A sua conversação era deliciosa e
tinha uma memória de elefante, povoada de milhares de recordações
acumuladas que desfiava de forma impagável — a comédia era algo
que lhe saía de maneira natural — e com uma boa dose de
velhacaria, fazendo nos rir às escâncaras. Foi um divertido caricaturista e possuía uma
tremenda capacidade de ampliar os ridículos e de encontrar o lado
inesperado e surpreendente da vida. Estava se nas tintas para as
aparências e nada lhe parecia suficientemente grave para escapar ao
humor e à sátira.
Cultivou a sinceridade desarmante e encorajava toda a gente a pensar
de um modo diferente, a ter uma visão crítica e a seguir as suas
próprias ideias, por mais disparatadas que fossem. Admirava a
inconformidade e a insolência. Defendia, como António Sérgio, que
a polémica é necessária ao progresso da cultura, que «o primeiro
dever de quem faz críticas é ser crítico (e crítico consigo
próprio), como o do guerreiro é ser guerreiro e o do marujo é ser
marujo: querer ser crítico, pois, e odiar o espírito de
livre exame, é ser marinheiro e ter horror à água». Porém,
apesar da reputação de polemista, foi sobretudo um crítico
incendiário, pois quase nunca respondia aos que reagiam aos seus
textos, esquivava se, desprezava pura e simplesmente os
adversários. No fundo, era um provocador que não sentia necessidade
de se justificar, apenas de escrever bem.
Demonstrou que a crítica literária
pode ser altamente criativa, que não é incompatível com a
originalidade intelectual ou a elegância estilística, que é
possível conciliar reflexão e gozo literário. Conhecia bem o campo
da edição e o meio das letras, um sítio onde fervilhavam as
intrigas e as capelinhas, os ódios e as cortesias palacianas, e
contra tudo isso lutou, recusando se a participar na engrenagem
dos manejos literários. Combateu a fatuidade, o pretensiosismo e o
obscurantismo aldrabão. Desmascarou os falsos prestígios, alimentou
várias hostilidades literárias e maltratou alguns intocáveis da
cultura — foi famosa, no seu tempo a acusação de plágio a
Fernando Namora —, sobretudo os escritores que se levavam demasiado
a sério, convencidos da sua extrema importância. Ganhou por isso
muitos inimigos e perdeu outros tantos amigos, acusado de trair a sua
confiança e de não respeitar nada nem ninguém.
A função da arte, como dizia Adorno,
era «introduzir caos na ordem» e alguns viam no como um
apocalíptico, um herdeiro da tradição dos grandes inconformistas,
aqueles que provocavam revoluções e incitavam os indivíduos a
questionar tudo, leis, sistemas, instituições, princípios éticos
e estéticos. Mas foi simultaneamente um produto do próprio meio
literário. Criticou o seu conformismo, o seu provincianismo e a sua
incapacidade de lidar com a independência de juízo próprio, mas
também aceitou as suas regras. Foi uma injecção de sentido
crítico, abanou os espíritos adormecidos e as sensibilidades
letárgicas, mas expressava, ao mesmo tempo, o senso comum de um meio
literário que se concebia a si próprio, retoricamente, como
marginal, subversivo e contra a corrente.
Fundou uma editora, a Contraponto, que
funcionava à margem do mercado e que representava um espaço de
autonomia para muitos autores, e aí publicou inúmeros folhetos,
panfletos, folhas volantes e outros textos avulsos que distribuía
directamente, pelo correio ou em mão, invenções de sobrevivência
a que chamava literatura comestível. Dizia que só publicava quando
precisava de dinheiro ou quando lhe perguntavam «tens lá alguma
coisa para publicar?», mas era escritor até à medula dos ossos.
Lisboa, Setúbal e Caldas da Rainha foram o seu território, a sua
geografia literária. Ataviado com roupas ligeiramente passadas de
moda, oferecidas por não sei quem, calça curta à meia canela e
saco de plástico na mão, olhos aprisionados por óculos fundo de
garrafa, o despojamento dava lhe um aspecto cómico e convertia
o quase numa personagem de ficção.
Toda a sua vida se moveu numa estranha
cadência, a um período tormentoso seguia se uma etapa de
sossego, que coincidia com as suas frequentes crises de asma ou com
as grandes ressacas do álcool e dos medicamentos. Tal como Gomes
Leal, metia se na cama e aí recebia os amigos e conversava. Os
bambinos eram os seus oito filhos e a família a sua tribo.
Considerava se próximo dos camponeses analfabetos e, em geral,
dos vencidos e esquecidos, mas encarava os acima de tudo como
cobaias da sua escrita.
Não acreditava em nada, apenas na
literatura e no seu poder de emancipação individual. Nenhuma
circunstância o desviou do seu destino irrenunciável de escritor e
a ele sacrificou, com determinação e firmeza, saúde, amores e
filhos. Para muitos, foi cobarde e egoísta, porque a sua obrigação
era permanecer ao lado dos filhos, garantindo lhes o sustento, mais
do que convertê los em matéria prima da escrita,
aproveitando se da fome e da pobreza para fins estéticos.
Transmitiu muitas vezes preocupação pelo seu
futuro, mas não lhes dedicou muito tempo e utilizou os para
sacar mais «algum» dos amigos.
Queria ser reconhecido como escritor e
não era indiferente aos «fumos da lisonja», mas nunca pretendeu
ser o melhor prosador da sua geração nem se considerava um Autor
grande. Mesmo assim, escreveu textos admiráveis, que brilham com luz
própria — Comunidade, O Teodolito ou O Caso das Criancinhas
Desaparecidas —, e fez as suas concessões à vulgaridade e ao
sentimentalismo (Os Namorados), nada que o impedisse de conquistar um
lugar merecido na história da literatura portuguesa. A sua escrita
destilava quase sempre uma melancolia subterrânea, sobretudo quando
descia à infância, como em A Velha Casa, onde fundia e confundia
recordações para formar um tempo mítico que coexistia com a
dolorosa e áspera realidade.
A ruptura com amigos e mulheres e a
perda ou afastamento dos filhos — situações limite, de
enorme violência emocional, que dão espontaneidade e veemência à
sua voz literária — são outras constantes da sua obra. Mas também
a crítica feroz da sociedade burguesa ou a preocupação com a
passagem inevitável do tempo, a decrepitude do corpo, como se o ser
humano fosse apenas constituído de fluidos, salivas e doenças.
Amava a vida e queria viver até aos mil anos, mas estava obcecado com a morte, «essa negra
fatalidade rastejando como uma serpente», como lera num livro que
lhe marcou a adolescência, A Serpente Emplumada, de D. H. Lawrence:
a morte é a única verdade e está em todas as partes, acompanha
todos os seres, mais tarde ou mais cedo reclamá los á a
todos. «Hoje ou amanhã morremos todos.»
A grande mensagem, porém, era ele. Ele
e o espectáculo de si próprio. A sua odisseia pessoal de escritor
lutando para sobreviver exclusivamente da pena. Tornou se
espectador da sua própria figura e foi, por isso, duas vezes Luiz
Pacheco. Incapaz de escrever um romance, decidiu pôr as suas
vivências por escrito e estabeleceu como projecto literário seguir
minuciosamente os seus próprios passos. Levou de tal forma longe a
ideia de registar as causas e os efeitos que determinaram o seu
carácter e o seu destino, que acabou por transformar a sua vida numa
espécie de romance hiper realista. O seu objectivo: destruir as
barreiras entre a literatura e a vida. Daí a linguagem viva e
pitoresca, o léxico vulgar e o calão, ou os termos de sabor
popular, que conferem à sua escrita uma atmosfera coloquial. Tudo
isso misturado com termos eruditos ou vocabulário clássico, de Gil
Vicente, Camões, Cavaleiro de Oliveira, Nicolau Tolentino ou Camilo
Castelo Branco.
Luiz Pacheco queria transmitir a emoção
humana directa, não artificial, mas o título do seu livro mais
conhecido, Exercícios de Estilo, parece apontar, pelo contrário,
para o carácter artificial dos textos. Exibicionista da sua vida
pessoal, escreveu pacientemente milhares de páginas diarísticas
onde procurava narrar o seu quotidiano, sem reticências nem
comichões: misérias, vergonhas, factos desonrosos, humilhações,
contradições, paixões animais, vulnerabilidades, a fealdade
física, a embaraçosa intimidade, coisas pessoalmente
comprometedoras, aquilo que as autobiografias procuram normalmente
esconder, fruto de uma educação católica assente na dissimulação
e no segredo (e não será que Pacheco escrevia tanto sobre si
próprio para demonstrar a impossibilidade de o conhecerem ou, como
dizia Nietzsche, porque falar muito de si mesmo é, também, uma
forma de ocultar se?).
As cartas e os postais acompanharam no
toda a vida, tornando o num dos grandes escritores epistolares
da literatura portuguesa. Praticou todas as formas de discursos
epistolares possíveis, a carta privada, a carta aberta, o romance
epistolar, o panfleto epistolar, que utilizava para comunicar e
romper o isolamento, mas também para provocar nos amigos e «mecenas»
movimentos de generosidade monetária, para os manipular e «cravar».
Capaz de aparecer nu no meio do Montijo
ou de pijama no Largo do Carmo, no 25 de Abril, em torno dele
criou se uma lenda, histórias e boatos, uns divertidos, outros
desagradáveis, que circulavam e que quase nunca se incomodou em
contradizer ou desmentir, porque, como alguém disse, essa é a
melhor forma de chegar a génio. Concedeu várias entrevistas,
sobretudo nas décadas de 1990 e 2000, onde a sua língua viperina
era pródiga em maldades e coscuvilhices, confundindo deliberadamente
os domínios do público e do privado e montando um circo paralelo às
suas obras. Lado paródico e burlesco que lhe permitia manter uma
distância irónica em relação aos jornalistas e aos leitores.
Passou os últimos anos em lares da
chamada terceira idade, paisagens em ruínas que misturam cheiro a
desinfectante, a ramos de flores, urina e roupa de cama. Como velho
que era, não suportava os velhos, os outros velhos. Sentado no
cadeirão, de manta nos joelhos, fraquejando das pernas e com o peito
esmagado, retraído sobre os pulmões castigados pelos enfisemas,
Luiz Pacheco confundia se já com a própria morte: «Daqui a
cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem
se lembrará de mim?»
Escrever a biografia de Luiz Pacheco é
escrever a biografia de um escritor que fez da sua vida a matéria da
sua escrita, que fez da obra o palco da sua «aventura existencial».
Utilizando um lugar comum, entre a vida e a obra de Luiz Pacheco
não existia uma separação, as duas estavam estreitamente
dependentes uma da outra. Instrumento de engenharia identitária, a
escrita serviu para Pacheco se expressar mas também para se
constituir, sobretudo no futuro: embora tivesse plena consciência da
enorme fragilidade da posteridade, o facto de ter deixado muita coisa
inédita, sendo uma prática corrente no meio, mostra que o sentido
daquilo que escrevia não residia apenas no significado que teria
para os seus coetâneos mas também para os vindouros.
(...)
A escolha de Luiz Pacheco como objecto
de análise não foi motivada pelo desejo de falar de uma vida
esquecida ou destituída de glória, abordando a do ponto de
vista biográfico como o inverso dos modelos de edificação moral
(por muito interessante que seja reflectir sobre as modalidades de
desaparecimento de uma figura singular e sobre os procedimentos da
sua redescoberta). Tão pouco quis render justiça a um escritor
ignorado e inexistente na memória literária colectiva. Por uma
razão singela: Luiz Pacheco é uma figura conhecida da elite
intelectual e ainda em vida gozou de prestígio e reconhecimento
literário.
Para rematar, duas perguntas
inevitáveis: a vida de Luiz Pacheco foi mais interessante que a sua
obra ou os seus textos são mais interessantes que a sua biografia?
Pode um biógrafo, depois de conhecer profundamente a vida de um
escritor, ficar a gostar mais do autor que da sua obra?
João Pedro George, PUTA QUE OS PARIU!
/ A Biografia de Luiz Pacheco
o dom da conversação
Luiz Pacheco pertencia àquele tipo de pessoas que tem o dom da conversação. Ouvi‑lo dar uma opinião ou narrar uma historieta, uma recordação inesperada, é uma experiência que perdura na memória. Fosse pela agilidade mental ou pelo implacável sentido da lógica, pela sinceridade desarmante ou pelo desapego de quem não quer ser correcto ou bem‑comportado; fosse pelas intervenções cómicas, o humor negro, o absurdo, o sarcasmo, a picardia, o cepticismo de quem viu e viveu muito, de quem teve uma experiência imensa, um íntimo conhecimento do ser humano. Com alguém assim, acreditem, aprende‑se muito.
Felizmente, os jornais e as revistas perceberam isto há algum tempo, e não se dispensaram de publicar, regularmente, entrevistas com Luiz Pacheco. Só tenho de aplaudir, porque esta atenção da imprensa, é de presumir, deu‑lhe novo ânimo como escritor e ampliou‑lhe o número de leitores, em particular entre as gerações mais novas. Facto é, porém, que esta curiosidade nem sempre teve, diga‑se, as melhores razões. Porque o que interessava realmente, por vezes, era captar o lado pitoresco ou castiço, como nos fenómenos de feira. Era colher indiscrições, era dar à estampa, na primeira página, em letra redonda, um título provocador.
(...)
A este respeito, valha a verdade, Luiz Pacheco não foi nenhum desmancha‑prazeres e, escusado será dizê‑lo, raramente os jornalistas voltavam para as redacções de mãos vazias. Não porque quisesse ocupar o palco a qualquer preço, mas porque lhe estava no sangue e porque conquistara, há muito, esse direito, essa liberdade de dizer o que lhe dava na gana. Era rude? Era torcido? Era cruel? Talvez. Era inconveniente? Rompia em excessos? Descambava nas indelicadezas? Dava respostas chulas? Melhor! Quan‑do à nossa volta o clima mental é lúgubre e estéril; quando o meio literário em que vegetamos não promove o espírito crítico, antes o comércio escuro e as mútuas mesuras (mas isto é como malhar
em ferro frio, quem é que quer saber disso?), abençoado Pacheco! Num ambiente destes, repito, as judiarias e o temperamento belicoso do Luiz tinham um efeito desinfectante. E atirar à cara dos obsoletos literatos locais uns quantos raciocínios sumários, aplicar‑lhes algumas dentadas de cobra cascavel, fazendo‑lhes sangrar o orgulho, era um dever, mais, era um sinal de civilização.
O Crocodilo que Voa, Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George
Felizmente, os jornais e as revistas perceberam isto há algum tempo, e não se dispensaram de publicar, regularmente, entrevistas com Luiz Pacheco. Só tenho de aplaudir, porque esta atenção da imprensa, é de presumir, deu‑lhe novo ânimo como escritor e ampliou‑lhe o número de leitores, em particular entre as gerações mais novas. Facto é, porém, que esta curiosidade nem sempre teve, diga‑se, as melhores razões. Porque o que interessava realmente, por vezes, era captar o lado pitoresco ou castiço, como nos fenómenos de feira. Era colher indiscrições, era dar à estampa, na primeira página, em letra redonda, um título provocador.
(...)
A este respeito, valha a verdade, Luiz Pacheco não foi nenhum desmancha‑prazeres e, escusado será dizê‑lo, raramente os jornalistas voltavam para as redacções de mãos vazias. Não porque quisesse ocupar o palco a qualquer preço, mas porque lhe estava no sangue e porque conquistara, há muito, esse direito, essa liberdade de dizer o que lhe dava na gana. Era rude? Era torcido? Era cruel? Talvez. Era inconveniente? Rompia em excessos? Descambava nas indelicadezas? Dava respostas chulas? Melhor! Quan‑do à nossa volta o clima mental é lúgubre e estéril; quando o meio literário em que vegetamos não promove o espírito crítico, antes o comércio escuro e as mútuas mesuras (mas isto é como malhar
em ferro frio, quem é que quer saber disso?), abençoado Pacheco! Num ambiente destes, repito, as judiarias e o temperamento belicoso do Luiz tinham um efeito desinfectante. E atirar à cara dos obsoletos literatos locais uns quantos raciocínios sumários, aplicar‑lhes algumas dentadas de cobra cascavel, fazendo‑lhes sangrar o orgulho, era um dever, mais, era um sinal de civilização.
O Crocodilo que Voa, Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George
excentricidade e maldição
O Luiz Pacheco criou uma personagem, contribuiu voluntariamente para levantar uma lenda à sua volta, ou fomos nós que a criámos? As duas coisas. Luiz Pacheco sempre foi um crítico arrojado e um tipo singularmente divertido, um trocista desbragado, com um desplante e uma sem‑cerimónia invulgares. Um homem que não levava a sério as regras consuetudinárias nem os convencionalismos da moral. Em suma, alguém que não fazia parte da normalidade social, aquilo que as sociedades consideram um indi‑
víduo «extravagante» ou «excêntrico». Ora bem, por via de regra, todos os grupos humanos têm, sempre tiveram, o seu quinhão de excêntricos, necessitam mesmo deles. O excêntrico é algo que se
deve ter, um adorno que fica bem, mais a mais no mundo das artes e das letras, que necessita mostrar a sua diferença relativamente aos outros meios sociais (mais «vulgares»), e cujo prestígio assenta, em grande medida, numa retórica da originalidade e da transgressão. O excêntrico, como no passado os bufões ou os bobos — aqueles que diziam «cousas loucas e cousas acertadas» (Manuel Laranjeira) — é alguém que tem por função divertir, provocar, surpreender, ou seja, aliviar a tensão que nos provocam as exigências dos compromissos sociais.
Sucede, todavia, que ganhar o estatuto de «excêntrico» ou «extravagante» é um processo demorado e precisa do seu tempo, não é título que se conquiste da noite para o dia. Requer uma persistência no relacionamento insólito ou inusitado com os outros, bem como uma desobediência, mais ou menos constante, em relação a algumas regras sociais. Após uma surpresa inicial perante um acto que foge ao comum, e verificando‑se uma regularidade nesse comportamento, a sociedade, como medida preventiva, cria uma nova expectativa em relação à conduta desse indivíduo e à forma como passará a relacionar‑se com ele. Segundo Carlos Castilla del Pino, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Córdoba, isso vai conferir ao «excêntrico» um grau de liberdade a cujo luxo os outros não se podem dar. Dito de outra maneira, é‑lhe concedida uma «licença excepcional». No entanto, há um preço a pagar por isso: o excêntrico tem de comportar‑se, daí para a frente, de acordo com as expectativas entretanto geradas nos outros, tem de ser coerente com a sua excentricidade, «tem de fazer permanentemente de extravagante, constituir‑se “no” extravagante do grupo, para cumprir a função de divertir.»
O Crocodilo que Voa, Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George
víduo «extravagante» ou «excêntrico». Ora bem, por via de regra, todos os grupos humanos têm, sempre tiveram, o seu quinhão de excêntricos, necessitam mesmo deles. O excêntrico é algo que se
deve ter, um adorno que fica bem, mais a mais no mundo das artes e das letras, que necessita mostrar a sua diferença relativamente aos outros meios sociais (mais «vulgares»), e cujo prestígio assenta, em grande medida, numa retórica da originalidade e da transgressão. O excêntrico, como no passado os bufões ou os bobos — aqueles que diziam «cousas loucas e cousas acertadas» (Manuel Laranjeira) — é alguém que tem por função divertir, provocar, surpreender, ou seja, aliviar a tensão que nos provocam as exigências dos compromissos sociais.
Sucede, todavia, que ganhar o estatuto de «excêntrico» ou «extravagante» é um processo demorado e precisa do seu tempo, não é título que se conquiste da noite para o dia. Requer uma persistência no relacionamento insólito ou inusitado com os outros, bem como uma desobediência, mais ou menos constante, em relação a algumas regras sociais. Após uma surpresa inicial perante um acto que foge ao comum, e verificando‑se uma regularidade nesse comportamento, a sociedade, como medida preventiva, cria uma nova expectativa em relação à conduta desse indivíduo e à forma como passará a relacionar‑se com ele. Segundo Carlos Castilla del Pino, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Córdoba, isso vai conferir ao «excêntrico» um grau de liberdade a cujo luxo os outros não se podem dar. Dito de outra maneira, é‑lhe concedida uma «licença excepcional». No entanto, há um preço a pagar por isso: o excêntrico tem de comportar‑se, daí para a frente, de acordo com as expectativas entretanto geradas nos outros, tem de ser coerente com a sua excentricidade, «tem de fazer permanentemente de extravagante, constituir‑se “no” extravagante do grupo, para cumprir a função de divertir.»
O Crocodilo que Voa, Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George
oxalá que sim
Luiz Pacheco morreu num sábado à noite, no dia 5 de Janeiro deste ano. Em 1995, questionado sobre a morte, disse: «A morte? Não gosto, não acho graça.» E acrescentou: «Um gajo com falta de ar está, de repente, com a sensação de apagamento... Esta noite, por exemplo, adormeci a meio da telenovela dos Irmãos Coragem. Meti-me na cama. Que faço na cama? Tomo remédios. Comprimido, dou uma bombada e durmo. Eram nove e meia, durmo hora e meia. Passa a acção daquela laracha, acordei às dez e meia, onze horas. Mais dois comprimidos, dou outra bombada, durmo até às três. Mais uma bombada, urino... Sei que acordei eram cinco e meia. Disse assim: bom, esta noite já está. Para um gajo que tem esta experiência há 60 anos, a morte, o que é que você acha que é? É um bocado de sossego, é um descanso.» Oxalá que sim.
O Crocodilo que Voa, Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George
O Crocodilo que Voa, Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George
o mito do café gelo
No dia 1 de Maio de 1962 houve em Lisboa uma grande manifestação popular. A Baixa, principalmente o Rossio, foram cenário de muita pancadaria, com tiros, mortos, feridos, correrias, cacetada brava: carros de água e não só: azul de metileno, a porcaria duma tinta que sujava tudo, marcava os manifestantes. Polícia de choque, armadíssima e vigilante e aguerrida. No Café Gelo (onde me dizem haver hoje uma casa de hamburgers de nome cabalístico, ABRACADABRA), estava a malta habitual preparada para os acontecimentos. Como sofro de agorafobia, no momento exacerbada pela prudência, sentei-me resguardado a um cantinho (de nada me valeu); a meu lado o pai da Fernanda Alves e lembro também a Fernanda, o Ernesto Sampaio, o Virgílio Martinho, o João Rodrigues. Por um pequenino incidente que seria longo explicar, surgiu-nos a polícia de choque, levámos porrada. No dia seguinte, o Cerqueira, gerente do café, foi chamado à esquadra do Nacional e ficámos proibidos de frequentar o Gelo.
(...)
Ora, passados trinta anos, fazem-me perguntas sobre o que era o Café Gelo, sobre aquela malta que se reunia ali, o que se passava, em suma. E sinto-me encavacado para responder, ao certo. Há que constatar: criou-se uma lenda. Exagerada, mitificada, boatada? é o costume, o natural das lendas. Escreveram-se teses sobre (da Aldina Costa, por exemplo). Em trabalhos universitários sobre o Surreal em Portugal é provável que o Gelo seja citado (por ex: o da Eduarda Feio e da Aurélia Cândida). Em tempos, eu próprio escrevi ou gravei uma coisata chamada "Central Gelo", relacionada com os panfletos, polémicas, intrigas desnorteantes, mais ou menos revolucionárias, como a divertida Operação Papagaio (disto sabe melhor que eu o Luís Filipe Costa: até metia assalto ao Rádio Clube Português, com armas de guerra!) Reconheço: a fama do Gelo, já na época, teria algum fundamento. E será, talvez isso, que perdura ainda.
(...)
Na clientela do Café Gelo, nos anos 50-60, não teria homogeneidade etária, coexistiam tipos dos 8 aos 80, do José Carlos González, caco infantil, ao Raul Leal, do Orpheu, caquético total. Escassa identidade ideológica, dos fascistas à Goulart Nogueira aos anarcas como o Forte, o Henrique Tavares, o Saldanha da Gama. Prostitutas, bêbados e maricas. Maluquinhos como o António Gancho. Nenhuma programação estética. Dali não saiu Revista, doutrina, escola que se aproveitasse. Então?! Havia, isso sim, um espaço de convívio em liberdade plena, feroz e mútua crítica, nenhuma contemplação pelo arrivismo, a vida prática, as etiquetas sociais que noutros meios, da mais categorizada Oh Posição oficial se evidenciavam.
(...)
E houve suicídios, amores desatinados, gente perdida para sempre, muitos e muitos poemas, livrinhos de estreia. Tudo e um tanto desorganizado e traquinas. E gargalhado, inócuo; haveria ali, no ambiente, uma poesia comunicante, o Herberto que me perdoe roubar-lhe o ápodo. E seria o que nos atraía, então. E terá sido a sua referência melhor, a substância da lenda.
Luiz Pacheco, Figuras, Figurantes e Figurões
(...)
Ora, passados trinta anos, fazem-me perguntas sobre o que era o Café Gelo, sobre aquela malta que se reunia ali, o que se passava, em suma. E sinto-me encavacado para responder, ao certo. Há que constatar: criou-se uma lenda. Exagerada, mitificada, boatada? é o costume, o natural das lendas. Escreveram-se teses sobre (da Aldina Costa, por exemplo). Em trabalhos universitários sobre o Surreal em Portugal é provável que o Gelo seja citado (por ex: o da Eduarda Feio e da Aurélia Cândida). Em tempos, eu próprio escrevi ou gravei uma coisata chamada "Central Gelo", relacionada com os panfletos, polémicas, intrigas desnorteantes, mais ou menos revolucionárias, como a divertida Operação Papagaio (disto sabe melhor que eu o Luís Filipe Costa: até metia assalto ao Rádio Clube Português, com armas de guerra!) Reconheço: a fama do Gelo, já na época, teria algum fundamento. E será, talvez isso, que perdura ainda.
(...)
Na clientela do Café Gelo, nos anos 50-60, não teria homogeneidade etária, coexistiam tipos dos 8 aos 80, do José Carlos González, caco infantil, ao Raul Leal, do Orpheu, caquético total. Escassa identidade ideológica, dos fascistas à Goulart Nogueira aos anarcas como o Forte, o Henrique Tavares, o Saldanha da Gama. Prostitutas, bêbados e maricas. Maluquinhos como o António Gancho. Nenhuma programação estética. Dali não saiu Revista, doutrina, escola que se aproveitasse. Então?! Havia, isso sim, um espaço de convívio em liberdade plena, feroz e mútua crítica, nenhuma contemplação pelo arrivismo, a vida prática, as etiquetas sociais que noutros meios, da mais categorizada Oh Posição oficial se evidenciavam.
(...)
E houve suicídios, amores desatinados, gente perdida para sempre, muitos e muitos poemas, livrinhos de estreia. Tudo e um tanto desorganizado e traquinas. E gargalhado, inócuo; haveria ali, no ambiente, uma poesia comunicante, o Herberto que me perdoe roubar-lhe o ápodo. E seria o que nos atraía, então. E terá sido a sua referência melhor, a substância da lenda.
Luiz Pacheco, Figuras, Figurantes e Figurões
Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro
MONÓLOGO DO 1.º CORNUDO
I
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos.
E perguntei à Maria
Por que me pôs os palitos.
II
Jurou por alma da mãe
Com mil tretas de mulher
Que era mentira. Também
Inda me custava a crer...
III
Fiquei de olho espevitado
Que o calado é o melhor
E para não re-ser enganado,
Redobrei gozos de amor.
IV
Tais canseiras dei ao físico,
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços!
V
Esperava por isso a magana?
Já previa o que se deu?...
Do além vi-a na cama
Com um tipo pior do que eu!
VI
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito...
Sabia daquele mister
Que puxa muito do peito.
VII
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês:
«O mais certo é práqui vir,
Inda antes que passe um mês».
VIII
Arranjei-lhe um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
(Onde todos vão parar
Embora com muito medo...)
IX
Passava duma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico, tadito!
DUETO DOS 2 CORNUDOS
X
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que faz a ladina
XI
Meteu na cama mais gente
Um, dois, três... logo a seguir!
Não há piça que a contente
É tudo que tiver de vir!
S. PEDRO, INDIGNADO, PRAGUEJA.
XII
- É de mais!... Arre, diabo!
- Berra S. Pedro, sandeu.
–E mortos por dar ao rabo
Lá vêm eles pró Céu!
CORO, PIANÍSSIMO, LIRISMO
NAS VOZES
XIII
Que morre como um anjinho
Quem morre por muito amar!
CORO, AGORA NARRATIVO
OU EXPLICATIVO.
Já formemos um ranchinho
De cá de cima, a espreitar.
XIV
Passam meses, passa tempo
E a bela não se consola...
Já semos um regimento
Como esses que vão prá Ingola!
(ÁPARTE DO AUTOR DAS COPLAS:
«COITADINHOS!»)
XV
Fazemos apostas lindas
Sempre que vem cara nova.
Cálculos, medidas infindas
Como ela terá a cova.
XVI
Há quem diga que por si
Já não lhe topou o fundo...
Outros juram que era assi
Do tamanho... deste Mundo!
XVII
- Parecia uma piscina!
–Diz um do lado, espantado.
- Nunca vi uma menina
Num estado tão desgraçado!
APARTE DO AUTOR, ANTIGO MILITANTE DAS ESQUERDAS (BAIXAS).
XVIII
(Um estado tão desgraçado?!...
Pareceu-me ouvir o Povo
Chorando seu triste fado
nas garras do Estado Novo!)
XIX
O último que chegou cá
Morreu que nem um patego:
Afogado, ieramá,
Nos abismos daquele pego.
O CORO DOS CORNUDOS,
ACOMPANHADO POR S. PEDRO EM SURDINA,
ENTOA A MORALIDADE, APÓS TER
LIMPADO AS ÚLTIMAS LAGRIMETAS
E SUSPIRANDO COMO SÓ OS CORNUDOS SABEM.
XX
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado,
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo.
XXI
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar.
Examina-lhe a greta,
Não te vá ela enganar...
XXII
E depois de veres o bicho
E as maneiras que tem
A funcionar a capricho,
Já sabes se te convém.
XXIII
Mulher calma, é estimá-la
Como a santa no altar.
Cabra douda, é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.
XXIV
Este conselho te dão,
E não te levam dinheiro...
Os cornudos que aqui estão
Com S. Pedro hospitaleiro.
XXV
Invejosos quase todos
Dos conos que o mundo guarda
FAZEM MAIS UM BOCADO DE LAMENTAÇÃO.
NOTA DO AUTOR: QUASE,
PORQUE ENTRETANTO
ALGUNS BRINCAVAM UNS COM OS OUTROS.
RABOLICES!
Mas se fornicas a rodos
Tua vinda aqui não tarda!
RECOMEÇA A MORALIDADE, ESTILO
ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM.
ALGUNS BÊBADOS, CORNUDOS
DESPEITADOS OU AMARGURADOS.
VOZES PASTOSAS.
DEVE LER-SE: VIIINHO...VÉLHIIINHO...
XXVI
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher...
Que faz dum amor já velhinho
Ressurgir novo prazer.
FINALE, MUITO CATÓLICO.
XXVII
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.
Luiz Pacheco
Num dia em que se achou
Mais pachorrento.
Luiz Pacheco, Textos Malditos
I
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos.
E perguntei à Maria
Por que me pôs os palitos.
II
Jurou por alma da mãe
Com mil tretas de mulher
Que era mentira. Também
Inda me custava a crer...
III
Fiquei de olho espevitado
Que o calado é o melhor
E para não re-ser enganado,
Redobrei gozos de amor.
IV
Tais canseiras dei ao físico,
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços!
V
Esperava por isso a magana?
Já previa o que se deu?...
Do além vi-a na cama
Com um tipo pior do que eu!
VI
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito...
Sabia daquele mister
Que puxa muito do peito.
VII
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês:
«O mais certo é práqui vir,
Inda antes que passe um mês».
VIII
Arranjei-lhe um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
(Onde todos vão parar
Embora com muito medo...)
IX
Passava duma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico, tadito!
DUETO DOS 2 CORNUDOS
X
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que faz a ladina
XI
Meteu na cama mais gente
Um, dois, três... logo a seguir!
Não há piça que a contente
É tudo que tiver de vir!
S. PEDRO, INDIGNADO, PRAGUEJA.
XII
- É de mais!... Arre, diabo!
- Berra S. Pedro, sandeu.
–E mortos por dar ao rabo
Lá vêm eles pró Céu!
CORO, PIANÍSSIMO, LIRISMO
NAS VOZES
XIII
Que morre como um anjinho
Quem morre por muito amar!
CORO, AGORA NARRATIVO
OU EXPLICATIVO.
Já formemos um ranchinho
De cá de cima, a espreitar.
XIV
Passam meses, passa tempo
E a bela não se consola...
Já semos um regimento
Como esses que vão prá Ingola!
(ÁPARTE DO AUTOR DAS COPLAS:
«COITADINHOS!»)
XV
Fazemos apostas lindas
Sempre que vem cara nova.
Cálculos, medidas infindas
Como ela terá a cova.
XVI
Há quem diga que por si
Já não lhe topou o fundo...
Outros juram que era assi
Do tamanho... deste Mundo!
XVII
- Parecia uma piscina!
–Diz um do lado, espantado.
- Nunca vi uma menina
Num estado tão desgraçado!
APARTE DO AUTOR, ANTIGO MILITANTE DAS ESQUERDAS (BAIXAS).
XVIII
(Um estado tão desgraçado?!...
Pareceu-me ouvir o Povo
Chorando seu triste fado
nas garras do Estado Novo!)
XIX
O último que chegou cá
Morreu que nem um patego:
Afogado, ieramá,
Nos abismos daquele pego.
O CORO DOS CORNUDOS,
ACOMPANHADO POR S. PEDRO EM SURDINA,
ENTOA A MORALIDADE, APÓS TER
LIMPADO AS ÚLTIMAS LAGRIMETAS
E SUSPIRANDO COMO SÓ OS CORNUDOS SABEM.
XX
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado,
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo.
XXI
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar.
Examina-lhe a greta,
Não te vá ela enganar...
XXII
E depois de veres o bicho
E as maneiras que tem
A funcionar a capricho,
Já sabes se te convém.
XXIII
Mulher calma, é estimá-la
Como a santa no altar.
Cabra douda, é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.
XXIV
Este conselho te dão,
E não te levam dinheiro...
Os cornudos que aqui estão
Com S. Pedro hospitaleiro.
XXV
Invejosos quase todos
Dos conos que o mundo guarda
FAZEM MAIS UM BOCADO DE LAMENTAÇÃO.
NOTA DO AUTOR: QUASE,
PORQUE ENTRETANTO
ALGUNS BRINCAVAM UNS COM OS OUTROS.
RABOLICES!
Mas se fornicas a rodos
Tua vinda aqui não tarda!
RECOMEÇA A MORALIDADE, ESTILO
ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM.
ALGUNS BÊBADOS, CORNUDOS
DESPEITADOS OU AMARGURADOS.
VOZES PASTOSAS.
DEVE LER-SE: VIIINHO...VÉLHIIINHO...
XXVI
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher...
Que faz dum amor já velhinho
Ressurgir novo prazer.
FINALE, MUITO CATÓLICO.
XXVII
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.
Luiz Pacheco
Num dia em que se achou
Mais pachorrento.
Luiz Pacheco, Textos Malditos
porto / lisboa, a pedir esmola
Vinha a fugir à polícia já não sei bem porquê (ou sei?) desde a Régua. Para despistar, apeei-me do comboio em Valongo, fazia um frio que nem calculam. De camioneta para o Porto, depois de um café com bagaços. Fui ao Teatro Experimental do Porto pedir ao João Guedes dinheiro para a viagem até Lisboa amada. Mas ele que me viu transtornado (supôs que era dos copos) abonou-me só cinquentas. Não dava. Não chegava.
Resolvi atacar a fundo. E, tomando precauções disfarçatórias, muito antes da hora do comboio, o correio, fui falar com o chefe da estação de São Bento. A quem expus, um pouco atabalhoadamente: tinha em Lisboa uma pessoa de família gravemente doente (era mentira, como sabem) e havia de tomar o comboio desse lá por onde desse. E porque isto e aquilo. E assim e mais assim. O tipo, quando me viu tão resoluto, não percebi se me quis ajudar ou se foi só para me despachar em beleza. Disse-me: "Vá à bilheteira e tire bilhete até onde chegar o dinheiro. Depois fale com o chefe do comboio." Achei que era um empurrão e valioso. Quanto mais longe da polícia (que me topara em Ermesinde e nunca mais me largava) melhor. Fui à bilheteira e comprei bilhete para Soure. Depois, sempre a disfarçar, e porque na hora do comboio podia haver vigilância em São Bento, como já me tinha acontecido antes, resolvi tomar o comboio na gare das Devesas, que era discreta. E atravessei o rio, pelo tabuleiro inferior da ponte, a pé. Nas Devesas não houve azar nenhum e, entrado no comboio, encharcadíssimo, com a gabardina que, torcida e escorrida, parecia um esfregão, comecei a choinar, encostado ao aquecimento. Assim vim, até que passadas horas (o comboio vinha cheio, era meados de Dezembro e aproximavam-se as Festas), decidi-me a seguir o conselho do chefe de São Bento. Não fosse ultrapassar Soure e entrar em transgressão. Com os sarilhos que me perseguiam, não convinha acumular. Procurei o revisor e disse-lhe: "Olhe que o meu bilhete é para Soure mas eu vou até Lisboa. Depois telefono e vem um amigo meu que paga a diferença, a muita e o mais que for preciso." E para meter o homem no coração, impingi-lhe a história da pessoa de família, etc. E por ora, e porque deixa. Patati, patatá. Capisce? O homem ouviu ouviu e foi chamar o chefe da composição. Que era um traquinas de palmo e meio (com homem pequenino não te metas…), ressequido e velhaco, irado. Mais bera que os beras. Este foi ditatorial: que eu havia de me apear em Soure e mai’ nada. Não atendia ao amor de família, o anãozinho, Deus lhe perdoe! Como sou teimoso e não gosto de ser contrariado, barafustei com o tipo. "Dali (do comboio em andamento e a parar quando lhe parecia conforme o horário do percurso) ninguém me arrancava!" Repeti uma data de vezes a aldrabice da doença familiar e ia ganhando tempo, que era o meu fito. O revisor, ao lado, não dizia nada. Olhava para um e para o outro. Ouvia, calado. Como se meditasse. Como se me estivesse a dar razão. Quase. Visto que não abria o bico e não fazia coro com o chefe. E com isto passámos Soure. A minha causa ia em bom andamento. O chefe do comboio ainda me voltou a dizer das boas mas agora o caso era outro.
Qual era? Eu ia em transgressão, mas cumprira as ordens do chefe de São Bento, que era o que importava. Agora o problema não era meu (mas dele, revisor; por isso acho que este rapaz merece uma palavra amorável neste verídico relato. Ajudou-me, como o outro, talvez sem querer. Apenas por comodidade. Apenas? Nada de exigências éticas: vão lá saber as razões de cada qual).
De quem era o problema? Pois do revisor. Que mo expôs. Era uma chatice. Chegados a Santa Apolónia, ele tinha de levantar um auto, devia regressar ao Porto no comboio das onze e tudo aquilo era uma trabalheira, uma maçada. "Por acaso", insinuou com certo optimismo, lisonjeiro para mim, "eu não tinha qualquer objecto de valor que pudesse deixar como penhor?"; ele confiava. "Um relógio, um…" Eu não tinha nada. Mostrei-lhe a gabardina. Ficámos ambos desolados, desanimados. Não valia nada, nadinha.
Em face do que…
"O senhor podia era pedir. Toda a gente dá. Já uma vez me aconteceu…", sugeria o homenzinho, a tornar-se prestável, a ser amigo, sincero ou quê? também me queria despachar?… mas no bom sentido (e o porquê das razões de cada um, etc.), e digo já porquê: o comhoio galgava Coimbra e ia apitando pela noite dentro, deixando sempre mais espaço (que em casos de polícia é o principal) entre mim e os xuis nortenhos.
"O senhor podia pedir."
"Pedir?!!!", protestei indignadíssimo, altivíssimo e outros superlativos do orgulho ferido (é que a ideia não me convencia, não me surgia prática).
"Sim senhor. Pois, pois. Pedir dá resultado." E foi uma nova e grande discussão, mas em termos amenos. De coexistência pacífica, diríamos hoje. Eu com a doença imaginária do parente, ele por via das chatices burocráticas da C. P., do que era agora o meu caso, marrámos, desfilámos uns quilómetros, o que constituía, de qualquer modo, vantagem a meu favor. "Sempre a andar, meu lindo! apita e não pares!", badalava em silêncio o meu coração alvoroçado, a encolher-se de medo. Por fora, era todo nobreza (eu). Mas convenci-me. O tipo estava a ser tão porreiro. E depois era questão de experimentar. Se não desse, voltávamos ao meu ponto. Disse afinal que sim, estava bem.
Aquilo foi limpinho. O revisor falou alto para uma carruagem de terceira que ia à cunha, nos bancos e no corredor, gente ensonada e moída, bacolejada, embalada pelo ritmo das vigas de aço; muitas malas, cestos e bagagem vária, alguns garrafões de mão em mão, ensopando goelas.
O revisor fez-se ouvir (era uma autoridade, ali):
– Aqui este homem (ofendi-me todo) não tem dinheiro para a passagem e chegando a Lisboa fica preso (exagero). Os senhores querem ajudar?
Houve um silêncio. Curiosidade. Expectativa.
– Eu sou o primeiro a dar – disse o revisor, como se alguém lhe tivesse pedido alguma coisa. Mas era para mostrar que era camarada e demonstrar exemplo. Vai nisto, mete-me na mão dez tostões.
– Ai, é assim?! – disse eu. – Atão, também eu dou.
E com a direita meti na esquerda todos os trocos que tinha na algibeira. Começámos o peditório. O revisor só não aceitava de magalas, que, coitados. O mais, o que viesse era bem dado, repetia. Em carruagem de terceira e mais meia eu tinha a mão cheia de moedas, e já de vinte e cinco tostões, cinco escudos, já dezes. Começámos a ferver. E o entusiasmo contagiou-se. Havia quem gritasse: "Canto é que falta queu ponho o resto?!" (o que comprova a doutrina que os grandes movimentos de solidariedade colectiva o bom é começá-los e não só: prova a generosidade da gente portuguesa, pormenor típico que me é grato registar, já que era eu o beneficiado). E mais do que um. Aquilo viria a ser o maior negócio do ano? olha se se explorasse comercialmente, industrialmente? começava a delirar. Mas o revisor cortou-me as esperanças, as ambições:
– Ora conte lá! – ordenou.
O que fiz. O percurso Soure-Lisboa, mais o excesso, os por cento da multa, faltava pouco. E apareciam voluntários que queriam arrematar, com um calor (talvez dos copos mas) sentido, exuberante. Os nossos votos (eu e o revisor) estavam em leilão. Um tipo qualquer pagou o resto, com os meus agradecimentos. E enquanto o revisor me passava um papelinho, escrito num lápis comovido, eu procurava um canto para choinar, legalizado, legalmente. Nem pensava em despistar. Aquilo correra muito melhor do que pensara.
Pensava. Fui preso oito dias depois, em Bucelas, num pequeno café, quando via e ouvia a Sinfonia Incompleta na televisão. E o João Miguel, o meu filho mais velho, então um garoto, que estava ao lado, não gostou da coisa. Era quase Natal (1959).
Luiz Pacheco, Textos Malditos
Resolvi atacar a fundo. E, tomando precauções disfarçatórias, muito antes da hora do comboio, o correio, fui falar com o chefe da estação de São Bento. A quem expus, um pouco atabalhoadamente: tinha em Lisboa uma pessoa de família gravemente doente (era mentira, como sabem) e havia de tomar o comboio desse lá por onde desse. E porque isto e aquilo. E assim e mais assim. O tipo, quando me viu tão resoluto, não percebi se me quis ajudar ou se foi só para me despachar em beleza. Disse-me: "Vá à bilheteira e tire bilhete até onde chegar o dinheiro. Depois fale com o chefe do comboio." Achei que era um empurrão e valioso. Quanto mais longe da polícia (que me topara em Ermesinde e nunca mais me largava) melhor. Fui à bilheteira e comprei bilhete para Soure. Depois, sempre a disfarçar, e porque na hora do comboio podia haver vigilância em São Bento, como já me tinha acontecido antes, resolvi tomar o comboio na gare das Devesas, que era discreta. E atravessei o rio, pelo tabuleiro inferior da ponte, a pé. Nas Devesas não houve azar nenhum e, entrado no comboio, encharcadíssimo, com a gabardina que, torcida e escorrida, parecia um esfregão, comecei a choinar, encostado ao aquecimento. Assim vim, até que passadas horas (o comboio vinha cheio, era meados de Dezembro e aproximavam-se as Festas), decidi-me a seguir o conselho do chefe de São Bento. Não fosse ultrapassar Soure e entrar em transgressão. Com os sarilhos que me perseguiam, não convinha acumular. Procurei o revisor e disse-lhe: "Olhe que o meu bilhete é para Soure mas eu vou até Lisboa. Depois telefono e vem um amigo meu que paga a diferença, a muita e o mais que for preciso." E para meter o homem no coração, impingi-lhe a história da pessoa de família, etc. E por ora, e porque deixa. Patati, patatá. Capisce? O homem ouviu ouviu e foi chamar o chefe da composição. Que era um traquinas de palmo e meio (com homem pequenino não te metas…), ressequido e velhaco, irado. Mais bera que os beras. Este foi ditatorial: que eu havia de me apear em Soure e mai’ nada. Não atendia ao amor de família, o anãozinho, Deus lhe perdoe! Como sou teimoso e não gosto de ser contrariado, barafustei com o tipo. "Dali (do comboio em andamento e a parar quando lhe parecia conforme o horário do percurso) ninguém me arrancava!" Repeti uma data de vezes a aldrabice da doença familiar e ia ganhando tempo, que era o meu fito. O revisor, ao lado, não dizia nada. Olhava para um e para o outro. Ouvia, calado. Como se meditasse. Como se me estivesse a dar razão. Quase. Visto que não abria o bico e não fazia coro com o chefe. E com isto passámos Soure. A minha causa ia em bom andamento. O chefe do comboio ainda me voltou a dizer das boas mas agora o caso era outro.
Qual era? Eu ia em transgressão, mas cumprira as ordens do chefe de São Bento, que era o que importava. Agora o problema não era meu (mas dele, revisor; por isso acho que este rapaz merece uma palavra amorável neste verídico relato. Ajudou-me, como o outro, talvez sem querer. Apenas por comodidade. Apenas? Nada de exigências éticas: vão lá saber as razões de cada qual).
De quem era o problema? Pois do revisor. Que mo expôs. Era uma chatice. Chegados a Santa Apolónia, ele tinha de levantar um auto, devia regressar ao Porto no comboio das onze e tudo aquilo era uma trabalheira, uma maçada. "Por acaso", insinuou com certo optimismo, lisonjeiro para mim, "eu não tinha qualquer objecto de valor que pudesse deixar como penhor?"; ele confiava. "Um relógio, um…" Eu não tinha nada. Mostrei-lhe a gabardina. Ficámos ambos desolados, desanimados. Não valia nada, nadinha.
Em face do que…
"O senhor podia era pedir. Toda a gente dá. Já uma vez me aconteceu…", sugeria o homenzinho, a tornar-se prestável, a ser amigo, sincero ou quê? também me queria despachar?… mas no bom sentido (e o porquê das razões de cada um, etc.), e digo já porquê: o comhoio galgava Coimbra e ia apitando pela noite dentro, deixando sempre mais espaço (que em casos de polícia é o principal) entre mim e os xuis nortenhos.
"O senhor podia pedir."
"Pedir?!!!", protestei indignadíssimo, altivíssimo e outros superlativos do orgulho ferido (é que a ideia não me convencia, não me surgia prática).
"Sim senhor. Pois, pois. Pedir dá resultado." E foi uma nova e grande discussão, mas em termos amenos. De coexistência pacífica, diríamos hoje. Eu com a doença imaginária do parente, ele por via das chatices burocráticas da C. P., do que era agora o meu caso, marrámos, desfilámos uns quilómetros, o que constituía, de qualquer modo, vantagem a meu favor. "Sempre a andar, meu lindo! apita e não pares!", badalava em silêncio o meu coração alvoroçado, a encolher-se de medo. Por fora, era todo nobreza (eu). Mas convenci-me. O tipo estava a ser tão porreiro. E depois era questão de experimentar. Se não desse, voltávamos ao meu ponto. Disse afinal que sim, estava bem.
Aquilo foi limpinho. O revisor falou alto para uma carruagem de terceira que ia à cunha, nos bancos e no corredor, gente ensonada e moída, bacolejada, embalada pelo ritmo das vigas de aço; muitas malas, cestos e bagagem vária, alguns garrafões de mão em mão, ensopando goelas.
O revisor fez-se ouvir (era uma autoridade, ali):
– Aqui este homem (ofendi-me todo) não tem dinheiro para a passagem e chegando a Lisboa fica preso (exagero). Os senhores querem ajudar?
Houve um silêncio. Curiosidade. Expectativa.
– Eu sou o primeiro a dar – disse o revisor, como se alguém lhe tivesse pedido alguma coisa. Mas era para mostrar que era camarada e demonstrar exemplo. Vai nisto, mete-me na mão dez tostões.
– Ai, é assim?! – disse eu. – Atão, também eu dou.
E com a direita meti na esquerda todos os trocos que tinha na algibeira. Começámos o peditório. O revisor só não aceitava de magalas, que, coitados. O mais, o que viesse era bem dado, repetia. Em carruagem de terceira e mais meia eu tinha a mão cheia de moedas, e já de vinte e cinco tostões, cinco escudos, já dezes. Começámos a ferver. E o entusiasmo contagiou-se. Havia quem gritasse: "Canto é que falta queu ponho o resto?!" (o que comprova a doutrina que os grandes movimentos de solidariedade colectiva o bom é começá-los e não só: prova a generosidade da gente portuguesa, pormenor típico que me é grato registar, já que era eu o beneficiado). E mais do que um. Aquilo viria a ser o maior negócio do ano? olha se se explorasse comercialmente, industrialmente? começava a delirar. Mas o revisor cortou-me as esperanças, as ambições:
– Ora conte lá! – ordenou.
O que fiz. O percurso Soure-Lisboa, mais o excesso, os por cento da multa, faltava pouco. E apareciam voluntários que queriam arrematar, com um calor (talvez dos copos mas) sentido, exuberante. Os nossos votos (eu e o revisor) estavam em leilão. Um tipo qualquer pagou o resto, com os meus agradecimentos. E enquanto o revisor me passava um papelinho, escrito num lápis comovido, eu procurava um canto para choinar, legalizado, legalmente. Nem pensava em despistar. Aquilo correra muito melhor do que pensara.
Pensava. Fui preso oito dias depois, em Bucelas, num pequeno café, quando via e ouvia a Sinfonia Incompleta na televisão. E o João Miguel, o meu filho mais velho, então um garoto, que estava ao lado, não gostou da coisa. Era quase Natal (1959).
Luiz Pacheco, Textos Malditos
3/1/74
Estes sonhos eróticos, que confusão! até meteu o Goulart Nogueira, manifestam uma rebeldia, uma reminiscência do meu íntimo? contrárias a deliberações vitais tomadas conscientemente e por que procuro (embora com insucessos e quedas retrocessas) comportar-me? Revendo toda a minha vida sentimental (e logo, por tabela, sexual) deparo-me com uma série de fracassos de que fui, quase sempre (é modéstia, isto: sempre) o culpado. Não há que ver. Inibições congénitas ( o meu reverso, complexos de castração, de infecundidade), preconceitos de toda a ordem, quer ideológicos quer sentimentais e mesmo parvinhos (então eu não tinha uma certa vergonha diante do Dentinhos?, aliás, disse-o à Isabel, na noite do Perlompompero), puseram-me sempre diante de uma mulher cobiçada em taramelos de fala ou atitudes ridículas. Se de camaradagem se trata, está plenamente à vontade, espírito gaulois na conversa, até talvez brilhante, convincente. Perante a Amada: ou uma ternura babosa ou um orgulho de distância. O que me espantava ontem nos sonhos dos últimos dias é que eles apelavam (as mulheres eram uma mistura, geralmente, de Irene e Isabel, quando não se concretizavam definidas numa ou noutra) para relações onde eu triunfava, era bem sucedido, mesmo à base de punhetas que lhes batia e o último quadro era vê-las dormindo, satisfazidas, cansadas. Esta noite, porém, voltei ao tipo do amante batido, troçado, que em vão procura vingar-se, ter a força para se impor e acaba pelo Goulart, com as calças caídas. O que se tem dado na realidade. E aquela maluqueira há oito dias (um ataque de frenesim) com o Luisinho de Tercena, estava já eu bastante embalado na cerveja a passar a limpo Animatógrafo (que é mais uma história de fracasso meu, a última), que foi senão isso? o desespero de uma compreensão?
Luiz Pacheco, Diário Remendado
Luiz Pacheco, Diário Remendado
não faças cerimónia
Pode ser que conheças, Leitor, qualquer artista na necessidade: não o desampares, muito especialmente por estes dias de Inverno. E não conhecendo, e querendo, não faças cerimónia: manda o que quiseres.
Aceitamos tudo:
Dinheiro, cigarros, fatiota, roupas de cama, mercearias, BACALHAU, brinquedos, livros, esferográficas, papel de máquina, vitaminas, uma corneta (para eu tocar num dia que cá sei), viagens pelo continente, estadias em casas de muito sossego, garrafas de vinho, revistas com nus (são para mim), um casaco de abafar (é para a minha senhora), pastéis de nata, salsichas, passas e nozes, tâmaras, um osso com tutano para o caldo da Gèninha, lâminas de barba, o perdão das nossas dívidas, uma assinatura do Jornal de Letras e Artes (minha leitura predilecta), bolo-rei, bolsa da Gulbenkian (proposta: uma biografia de Bocage), uma caixa de bombons, passarinhos assados, orelheira de porco, latas de conserva (gostamos de qualquer marca), etc., etc., etc.
O Artista agradecido
Luiz Pacheco
Luiz Pacheco, O Cachecol do Artista
Aceitamos tudo:
Dinheiro, cigarros, fatiota, roupas de cama, mercearias, BACALHAU, brinquedos, livros, esferográficas, papel de máquina, vitaminas, uma corneta (para eu tocar num dia que cá sei), viagens pelo continente, estadias em casas de muito sossego, garrafas de vinho, revistas com nus (são para mim), um casaco de abafar (é para a minha senhora), pastéis de nata, salsichas, passas e nozes, tâmaras, um osso com tutano para o caldo da Gèninha, lâminas de barba, o perdão das nossas dívidas, uma assinatura do Jornal de Letras e Artes (minha leitura predilecta), bolo-rei, bolsa da Gulbenkian (proposta: uma biografia de Bocage), uma caixa de bombons, passarinhos assados, orelheira de porco, latas de conserva (gostamos de qualquer marca), etc., etc., etc.
O Artista agradecido
Luiz Pacheco
Luiz Pacheco, O Cachecol do Artista
perdi quase tudo
Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luis José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego… Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma…) também já por cá passaram…) Viram? É horrível!… A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho… Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:
Peço uma esmola.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luis José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego… Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma…) também já por cá passaram…) Viram? É horrível!… A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho… Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:
Peço uma esmola.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
duros querubins
Se os cisnes trocassem com as criancinhas e viessem patinar no seu andar baloiçado para o jardim, as criancinhas podiam (sem o perigo de em tal convívio aprenderem a grasnar) passear então no lago, o que lhes era um prazer, julgavam. As que soubessem nadar ou tivessem bóia adequada à cintura, vogavam. As outras iam logo ao fundo e nunca mais ninguém as via porque o lago tem um abismo que dá para a vala comum. Por isso, às vezes, quando os cisnes sobem a terra, muitas muitas criancinhas descem ao fundo, vão parar à Lagoa de Óbidos pelos esgotos da cidade e dali ao vasto mar. Se meninas, transformam-se em sereias; se rapazes, em rochas modeladas, em duros querubins.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
a função mais peçonhenta que se possa suportar
Eu tinha todo o cuidado com as criancinhas: se alguma caía no chão e começasse a berrar, deixava-a estar assim porque um bicho humano (a menos que se não magoe aleije de todo ou muito) deve saber cair e levantar-se sozinho. Este um método fundamentado na minha experiência de adulto e que ali aplicava, pedagogicamente: ninguém dá nada a ninguém e a mão que se estende solícita para nos erguer da valeta pode muito bem ser uma garra (e que pretende? na altura da aflição nunca o poderemos saber logo) ou um carcereiro (várias espécies deles; eu também já fui, por exemplo, da Irene) que é a função mais peçonhenta que se possa suportar.
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
Luiz Pacheco, O Caso das Criancinhas Desaparecidas
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