bleed like you mean it

© Kaye Blegvad

dentro, fora, morto, vivo

- Sabias que os desconfiados e os mortos têm uma coisa em comum? São calados.
        O problema, o verdadeiro problema, é que não consigo apesar de tudo convencer-me a mim próprio de que não estou espiritualmente morto. Muito francamente, as provas são esmagadoras, se essa maneira de estar morto implica a capacidade de apenas comunicar com o passado, a incapacidade de comunicar com o presente.

- Estás num beco sem saída?

- Queres dizer que não tenho potencialidades? Tenho, tenho potencialidades, claro. Sabes a impressão que me dá? É como aqueles tesouros inúteis dos galeões espanhóis afundados. Nunca mais virão à superfície. Todos os meus dias, Mark, são vividos tendo diante dos olhos o meu próprio tesouro afundado. Está no meu canto, algures. Está tudo no meu canto.

Ouve - Eu sei que o canto é uma necessidade, uma evidente partícula da vida, um todo dentro de um todo, se quiseres, mas eu sei que tenho de morrer de certo modo para sair dele. Alguma coisa tem de morrer. Pode ser que eu esteja a emergir. Não estou morto dentro dele, em todo o caso. Podes dizer que eu estava morto e vivo em momentos sucessivos. Dentro, fora. Dentro, fora, morto, vivo. Há pessoas que chamariam a isso um período interessante.


Harold Pinter, Os Anões

não é noite nem manhã

Seja noite escura ou haja luz, não há nenhuma obstrução. Tenho a minha cela. Tenho o meu compartimento. Está tudo organizado, tudo no seu lugar, não se cometeu nenhum erro. Estou aconchegado. Não há nenhum esconderijo. Não é noite nem manhã. Não há nenhuma armadilha, apenas esta postura, entre dois estranhos, aqui está o meu dispositivo, aqui está a minha instalação, quando estou em casa, quando estou só, não é preciso combinar, tenho os meus aliados, tenho os meus objectos, tenho o meu gato, tenho o meu tapete, tenho o meu território, isto é o meu reino, não há traição, não há confiança, não há viagem, ninguém fura o meu flanco.


Harold Pinter, Os Anões

blue mess



Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michel Gondry, 2004

uma luz que parece velada ou distorcida

Os pedaços da vida, o papel rasgado e o cordel com que se fez o embrulho, transformaram-se em anos e os anos em passado. Sabes que há uma luz a alumiar-te, atrás de ti, mas não é suficientemente brilhante para iluminar tudo por que no passado esperaste. É uma luz que parece velada ou distorcida por um tecido desconhecido. Muito do que foi para ti uma sólida muralha de convicções deixou de te aparecer, agora, nas noites más ou na doença ou tão só na fraqueza, como uma coisa a que possas encostar-te. E então quase nem consegues encontrar o teu lugar no tempo. Tudo quanto jurarias que aconteceu, só o voltarás a encontrar se tiveres a energia necessária e fores capaz de cavar com força, e isso faz dores nos pés e nas costas, e tens medo de nem sempre haver lá no fundo algo que encontrar.


Lillian Hellman, Talvez

na erva alta do verão

No meu caso, esqueci-me muitas vezes do que era importante, do que me importava mais, do que me fez tomar atitudes que alteraram a minha vida. E então, com o tempo, as pessoas e as razões perderam-se na erva alta do Verão. Tenho tentado explicar isto muitas vezes às pessoas que ficam sentidas por me esquecer delas mas elas não compreendem nem eu ouso esperar que compreendam. Não é agradável os outros esquecerem-se de nós. Hoje isso já não me afecta assim tanto, mas alterou a vida e levou consigo pedaços de coisas em que acreditava e que gostaria de ter outra vez.


Lillian Hellman, Talvez

faltam muitas peças

Estendi-me durante um bocado e penso que adormeci, porque, quando acordei, o mundo parecia ter desaparecido. Estava com uma disposição que não tem nome pois não é disposição nenhuma mas aquele desespero enorme que leva as pessoas doidas a matar gatos ou a asfixiar bebés que choram.
Não sei. Desci ao rés-do-chão, fiz café, bebi-o e peguei no telefone.
Não sei por que escolhi o Carter Cameron. Mas mandei este telegrama para o número dele, que é a única maneira de o enviar:

                              FALTAM MUITAS PEÇAS TANTO NO TEMPO
                              COMO NO ESPAÇO NÃO FAZ MAL EXCEPTO
                              SE ME DIZ RESPEITO MAS QUANDO ME DIZ
                              RESPEITO DESEJO QUE NÃO SEJAM PRETAS
                              O MEU INSTINTO REPITO INSTINTO REPITO
                              INSTINTO REPITO INSTINTO É QUE AS TUAS
                              SÃO PRETAS


Lillian Hellman, Talvez

indispensável era evitar ter-te


Dizia que ao chegar se olhares e me não vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo
Poemas de Ruy Belo ditos por Luís Miguel Cintra

you hurt as hell

© Akuma Aizawa

com unhas e dentes

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.

Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.


Luis Filipe Parrado, ENTRE A CARNE E O OSSO

time wasting experiments

© Alyson Provax, Time Wasting Experiments

three transitions

Three Transitions, Peter Campus, 1973

poema

Tua boca
é um dia estreito
cheio de moscas

De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.


Pedro Oom, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa

como um oceano

Tu és meu
pássaro do deserto
cinzento com mil portas
silenciosas e translúcidas.

Tu és meu
a todo o comprimento
do sol
e afogas-me como um oceano.


Artur do Cruzeiro Seixas, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa

a meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


Alexandre O'Neill, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa

rêve oublié

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.


António Maria Lisboa, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adília Lopes Adolfo Casais Monteiro Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Américo António Lindeza Diogo Ana Bessa Carvalho Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Martins Marques Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tecedeiro Ana Teresa Pereira Ana Tinoco André Tomé Andreia C. Faria Angélica Freitas Ângelo de Lima Aníbal Fernandes António Amaral Tavares António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bénédicte Houart Bruno Béu Bruno Sousa Villar Camilo Castelo Branco Camilo Pessanha Carlos Alberto Machado Carlos Bessa Carlos de Oliveira Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Poças Falcão Carlos Soares Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Eduarda Chiote Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio de Andrade Eugénio Lisboa Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira gil t. sousa Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Hélia Correia Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Morais Varela Joana Serrado João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Maia João Manuel Ribeiro João Miguel Henriques João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge Carrera Andrade Jorge de Sena Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Mário Silva José Miguel Silva José Pascoal José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça Judith Teixeira Leitão de Barros Leonor Castro Nunes Luís Miguel Nava Luís Quintais Luiza Neto Jorge Madalena de Castro Campos Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Manuel Fúria Manuel Gusmão Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Ângela Alvim Maria Azenha Maria do Rosário Pedreira Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Mergulhão Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Mário Cesariny Mário Contumélias Mário de Sá-Carneiro Mário Dionísio Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário-Henrique Leiria Marta Chaves Matilde Campilho Mendes de Carvalho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Patrícia Baltazar Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Loureiro Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Pedro Tiago Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raquel Serejo Martins Raul de Carvalho Raul Malaquias Marques Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rosa Maria Martelo Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Cóias Rui Costa Rui Knopfli Rui Lage Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Andrade Sandra Costa Sebastião Alba Sílvio Mendes Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Tatiana Faia Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Teresa M. G. Jardim Tiago Araújo Tiago Gomes valter hugo mãe Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno

poemário dali

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