um brinde ao de tanto bater o meu coração parou



que faz cinco anos hoje

naufrágio #7654398

© Maxime Ballesteros

ainda menos agora

Mais uma queda. Mais uma lasca de madeira cravada no corpo. Ossos esmagados, sinapses rotas e, sempre, o fígado fosfórico. De cada vez, a dúvida absoluta. A suspensão da vida. A estupidez mais iníqua amesquinhando a nossa suposta divindade. Tudo poderia ter sido banal, banal e generoso, tivera eu chegado três gerações mais cedo. Vejo-me, à chuva, a apanhar ouriços sob os castanheiros. Analfabeto. São. Vejo-me e não me vejo em parte alguma. Muito menos aqui. Ainda menos agora. Ah!, quem me dera perder, ao menos, a memória dos castanheiros que nunca toquei, que apenas de relance pude amar.


Miguel Martins, Morte-Viva

uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de
linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos,
utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos.
Fizemos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e
por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
( - o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um
apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.

Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a
sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


Ingeborg Bachmann

when pain turns into pure ecstasy, a spiritual release

La Petite Mort, Alex Prager, 2013

a mudança que se operara em mim

Ninguém se deu conta da mudança que se operara em mim. Vivia sem dormir, devorava um livro atrás do outro, horas a fio, a minha mente encontrava-se a centenas de anos e a milhares de quilómetros da realidade. Pela minha parte ocupava-me das coisas que tinha para fazer mecanicamente, por dever, sem pôr nessas tarefas grande afecto ou emoção.


Haruki Murakami, Sono

fácil de manusear

Desde que deixara de conseguir dormir, começara a perceber até que ponto a realidade podia ser banal. Vendo bem, não passa disso mesmo: é apenas a realidade. Logo, fácil de manusear. O trabalho de casa, a mesma história. Como uma máquina: uma vez que se sabe pô-la a funcionar, depois é só questão de repetir os mesmos gestos. Carregar naquele botão, puxar aquela alavanca. Ajustar o termóstato, fechar a tampa, regular o temporizador.


Haruki Murakami, Sono

este livro tem poros

»Número um: sabe por que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra qualidade? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem características. Este livro pode ver-se num microscópio. Encontraria vida por debaixo da lente, a passar numa quantidade infinita. Quantos mais poros mais detalhes verdadeiramente registados de vida por centímetros quadrado encontrar numa folha de papel, mais «literário» será.


Ray Bradbury, Fahrenheit 451

gota a gota

- Não podemos dizer em que preciso momento começa a amizade. Quando se enche um vaso, gota a gota, há pelo menos uma gota que o faz transbordar, por isso numa série de amabilidades há sempre uma que faz transbordar o coração.


Ray Bradbury, Fahrenheit 451

clarisse estava lá, algures no mundo

- Oh, não sentem a minha falta - disse ela - Sou anti-social, dizem. Não me misturo. É tão estranho. Sou bastante sociável. Tudo depende daquilo que se entender por sociável, não é? Sociável para mim significa conversar consigo sobre coisas como estas. - Ou dizer que o mundo é tão estranho. Estar com as pessoas é agradável. Mas não me parece social juntar um grupo de pessoas e depois não as deixar falar, não lhe parece?

(...)

Creio que sou aquilo que dizem que sou. Não tenho amigos. Isso prova que sou anormal. Mas toda a gente que conheço ou grita ou anda às voltas como louca ou a espancar-se. Reparou como as pessoas fazem mal umas às outras nos nossos dias?

(...)

»Mas - disse ela - o que eu gosto mais é de observar as pessoas. Umas vezes ando de metropolitano todo o dia e olho para elas e ouço-as. Apenas quero descobrir quem são e o que querem e para onde vão. Às vezes, escondo-me e ponho-me à escuta nos metropolitanos. Ou ponho-me à escuta nos bares, e sabe que mais?

- O quê?

- As pessoas não falam de nada. Mencionam sobretudo muitos carros ou roupas ou piscinas e dizem que é óptimo! Mas todas dizem as mesmas coisas e ninguém diz nada de diferente.

E nos museus, já lá foi alguma vez? Tudo abstracto. Agora é tudo assim. O meu tio diz que antes era diferente. Há muito tempo atrás, às vezes os filmes diziam coisas ou mostravam pessoas.


Ray Bradbury, Fahrenheit 451

onde foste clarisse que nunca mais voltaste com o teu rosto bronzeado pelo sol da tardinha

feelin’ dirty?

texto aqui

o mundo é um matadouro disfarçado

com as paredes forradas de cetim


Adília Lopes

as grutas dos meus desassossegos

Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos.


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

um espectáculo com outro cenário

Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espectáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

se alguém me perguntar

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade - que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste
por não suportar as palavras maiores longe da tua boca;
e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,
acreditando que, se não me alimentasse, acabaria
por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas
a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.

Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de
outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti,
bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem
a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente
do que tinham e os vi partir desesperados a meio
da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal,
também eles não existiam para além de ti; e que no dia
seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção
que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado
no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez
de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida.

Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei
que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência
me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam
em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis
um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei
também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar
que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu
perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono.

E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio
foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui
escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior
do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas,
pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa
e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado
da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém
me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.


Maria do Rosário Pedreira

so, what do you go for in a girl?

Girls Who Read, Guy Larsen, 2013

os meus livros

Os meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes cínzeas e de cínzeos olhos
Que inutilmente busco nos espelhos
E com esta mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me exprimem residem nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Falarão de mim sempre.


Jorge Luis Borges, Revista A Phala nº 23

e o teu rosto para oriente

E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar-te o pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço do teu peito do teu rabo e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindissíma e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando não o devia fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.


Sarah Kane, Crave

se eu fosse um vídeo




'cuz I got roots in this / they're buried under the city /
and they'll grow under our house / unless we really dig

I am falling

I do my best thinking in the early morning, usually with the sun-drenched mountains as the backdrop, flying down 1-90 with the sun at my back, the jagged green all around and the promise of the city before me.

I do my best loving after a night of slippery bliss, gazing into the morning hours, those nights where we get three hours sleep because we just can't close our eyes yet. Those moments when I imagine you above me, within me, throughout me. . .the delicacy of your shoulders and the softness of your neck the beginning of my constant rapture with you.

I do my best writing when I fear it will make no sense, when bits and pieces invade and force me to pull over, to jot it all down, writing furiously while trying to hold the wheel, seeing every mom-and-pop restaurant from here to the mountains as a challenge, a place to conquer myself. When I allow my thoughts to linger on one tiny aspect - the grey flecks of a stranger's eyes; the images I create based on your words - they unfold like golden butterflies dipped in stardust, an excursion of fantasy, the threat and promise of completion.

I do my best impressions of you when I am bleeding, when my heart overextends itself and light spills forth from my fingertips. Only then can I evoke an ounce of the beauty you maintain within that perfect frame.

I am falling.


Erin Dorsey, The Beginning

zombie: a short story

It was Griffin Wilson who proposed the theory of de-evolution. He sat two rows behind me in Organic Chem, the very definition of an evil genius. He was the first to take the Great Leap Backward.

Everybody knows because Tricia Gedding was in the nurse's office with him. She was in the other cot, behind a paper curtain, faking her period to get out of a pop quiz in Perspectives on Eastern Civ. She said she heard the loud beep! but didn't think anything of it. When Tricia Gedding and the school nurse found him on his own cot, they thought Griffin Wilson was the resuscitation doll everybody uses to practice CPR. He was hardly breathing, barely moving a muscle. They thought it was a joke because his wallet was still clenched between his teeth and he still had the electrical wires pasted to either side of his forehead.

His hands were still holding a dictionary-size box, still paralyzed, pressing a big, red button. Everyone's seen this box so often that they hardly recognized it, but it had been hanging on the office wall: the defibrillator. That emergency heart shocker. He must have taken it down and read the instructions. He simply took the waxed paper off the gluey parts and pasted the electrodes on either side of his temporal lobes. It's basically a peel-and-stick lobotomy. It's so easy a 16-year-old can do it.

In Miss Chen's English class, we learned "To be or not to be," but there's a big gray area in between. Maybe in Shakespeare times people only had two options. Griffin Wilson, he knew the SATs were just the gateway to a big lifetime of bullshit. To getting married and going to college. To paying taxes and trying to raise a kid who's not a school shooter. And Griffin Wilson knew drugs are only a patch. After drugs, you're always going to need more drugs.

The problem with being talented and gifted is sometimes you get too smart. My uncle Henry says the importance of eating a good breakfast is because your brain is still growing. But nobody talks about how, sometimes, your brain can get just too big.

We're basically big animals, evolved to break open shells and eat raw oysters, but now we're expected to keep track of all 300 Kardashian sisters and 800 Baldwin brothers. Seriously, at the rate they reproduce the Kardashians and the Baldwins are going to wipe out all other species of humans. The rest of us, you and me, we're just evolutionary dead ends waiting to wink out.

You could ask Griffin Wilson anything. Ask him who signed the Treaty of Ghent. He'd be like that cartoon magician on TV who says, "Watch me pull a rabbit out of my head." Abracadabra, and he'd know the answer. In Organic Chem, he could talk string theory until he was anoxic, but what he really wanted to be was happy. Not just not sad, he wanted to be happy the way a dog is happy. Not constantly jerked this way and that by flaming instant messages and changes in the federal tax code. He didn't want to die either. He wanted to be—and not to be—but at the same time. That's what a pioneering genius he was.

The principal of student affairs made Tricia Gedding swear to not tell a living soul, but you know how that goes. The school district was afraid of copycats. Those defibrillators are everywhere these days.

Since that day in the nurse's office, Griffin Wilson has never seemed happier. He's always giggling too loud and wiping spit off his chin with his sleeve. The special ed teachers clap their hands and heap him with praise just for using the toilet. Talk about a double standard. The rest of us are fighting tooth and nail for whatever garbage career we can get, while Griffin Wilson is going to be thrilled with penny candy and reruns of Fraggle Rock for the rest of his life. How he was before, he was miserable unless he won every chess tournament. The way he is now, just yesterday, he took out his dick and jerked off on the school bus. And when Mrs. Ramirez pulled over and left the driver's seat to chase him down the aisle he shouted, "Watch me pull a rabbit out of my pants," and he squirted come on her uniform shirt. He was laughing the whole time.

Lobotomized or not, he still knows the value of a signature catchphrase. Instead of being just another grade grubber, now he's the life of the party.

The voltage even cleared up his acne.

It's hard to argue with results like that.

It wasn't a week after he'd turned zombie that Tricia Gedding went to the gym where she does Zumba and got the defibrillator off the wall in the girls' locker room. After her self-administered peel-and-stick procedure in a bathroom stall, she doesn't care where she gets her period. Her best friend, Brie Phillips, got to the defibrillator they keep next to the bathrooms at the Home Depot, and now she walks down the street, rain or shine, with no pants on. We're not talking about the scum of the school. We're talking about class president and head cheerleader. The best and the brightest. Everybody who played first string on all the sports teams. It took every defibrillator between here and Canada, but since then, when they play football nobody plays by the rules. And even when they get skunked, they're always grinning and slapping high fives.

They continue to be young and hot, but they no longer worry about the day when they won't be.

It's suicide, but it's not. The newspaper won't report the actual numbers. Newspapers flatter themselves. Anymore, Tricia Gedding's Facebook page has a larger readership than our daily paper. Mass media, my foot. They cover the front page with unemployment and war, and they don't think that has a negative effect? My uncle Henry reads me an article about a proposed change in state law. Officials want a 10-day waiting period on the sale of all heart defibrillators. They're talking about mandatory background checks and mental health screenings. But it's not the law, not yet.

My uncle Henry looks up from the newspaper article and eyes me across breakfast. He levels me this stern look and asks, "If all your friends jumped off a cliff, would you?"

My uncle's what I have instead of a mom and dad. He won't acknowledge it, but there's a good life over the edge of that cliff. There's a lifetime supply of handicapped parking permits. Uncle Henry doesn't understand that all my friends have already jumped.

They may be "differently abled," but my friends are still hooking up. More than ever, these days. They have smoking-hot bodies and the brains of infants. They have the best of both worlds. LeQuisha Jefferson stuck her tongue inside Hannah Finermann during Beginning Carpentry Arts, made her squeal and squirm right there, leaned up against the drill press. And Laura Lynn Marshall? She sucked off Frank Randall in the back of International Cuisine Lab with everybody watching. All their falafels got scorched, and nobody made a federal case out of it.

After pushing the red defibrillator button, yeah, a person suffers some consequences, but he doesn't know he's suffering. Once he undergoes a push-button lobotomy a kid can get away with murder.

During study hall, I asked Boris Declan if it hurt. He was sitting there in the lunchroom with the red burn marks still fresh on either side of his forehead. He had his pants down around his knees. I asked if the shock was painful, and he didn't answer, not right away. He just took his fingers out of his ass and sniffed them, thoughtfully. He was last year's junior prom king.

In a lot of ways he's more chill now than he ever was. With his ass hanging out in the middle of the cafeteria, he offers me a sniff and I tell him, "No, thank you."

He says he doesn't remember anything. Boris Declan grins this sloppy, dopey smile. He taps a dirty finger to the burn mark on one side of his face. He points this same butt-stained finger to make me look across the way. On the wall where he's pointing is this guidance counselor poster that shows white birds flapping their wings against a blue sky. Under that are the words actual happiness only happens by accident printed in dreamy writing. The school hung that poster to hide the shadow of where another defibrillator used to hang.

It's clear that wherever Boris Declan ends up in life it's going to be the right place. He's already living in brain trauma nirvana. The school district was right about copycats.

No offense to Jesus, but the meek won't inherit the earth. To judge from reality TV the loudmouths will get their hands on everything. And I say, let them. The Kardashians and the Baldwins are like some invasive species. Like kudzu or zebra mussels. Let them battle over the control of the crappy real world.

For a long time I listened to my uncle and didn't jump. Anymore, I don't know. The newspaper warns us about terrorist anthrax bombs and virulent new strains of meningitis, and the only comfort newspapers can offer is a coupon for 20 cents off on underarm deodorant.

To have no worries, no regrets—it's pretty appealing. So many of the cool kids at my school have elected to self-fry that, anymore, only the losers are left. The losers and the naturally occurring pinheads. The situation is so dire that I'm a shoo-in to be valedictorian. That's how come my uncle Henry is shipping me off. He thinks that by relocating me to Twin Falls he can postpone the inevitable.

So we're sitting at the airport, waiting by the gate for our flight to board, and I ask to go to the bathroom. In the men's room I pretend to wash my hands so I can look in the mirror. My uncle asked me, one time, why I looked in mirrors so much, and I told him it wasn't vanity so much as it was nostalgia. Every mirror shows me what little is left of my parents.

I'm practicing my mom's smile. People don't practice their smiles nearly enough, so when they most need to look happy they're not fooling anyone. I'm rehearsing my smile when—there it is: my ticket to a gloriously happy future working in fast food. That's opposed to a miserable life as a world-famous architect or heart surgeon.

Hovering over my shoulder and a smidgen behind me, it's reflected in the mirror. Like the bubble containing my thoughts in a comic-strip panel, there's a cardiac defibrillator. It's mounted on the wall in back of me, shut inside a metal case with a glass door you could open to set off alarm bells and a red strobe light. A sign above the box says AED and shows a lightning bolt striking a Valentine's heart. The metal case is like the hands-off showcase holding some crown jewels in a Hollywood heist movie.

Opening the case, automatically I set off the alarm and flashing red light. Quick, before any heroes come running, I dash into a handicapped stall with the defibrillator. Sitting on the toilet, I pry it open. The instructions are printed on the lid in English, Spanish, French and comic-book pictures. Making it foolproof, more or less. If I wait too long I won't have this option. Defibrillators will be under lock and key soon, and once defibrillators are illegal only paramedics will have them.

In my grasp, here's my permanent childhood. My very own bliss machine.

My hands are smarter than the rest of me. My fingers know to peel the electrodes and paste them to my temples. My ears know to listen for the loud beep that means the thing is fully charged.

My thumbs know what's best for me. They hover over the big red button. Like this is a video game. Like the button the president gets to press to trigger the launch of nuclear war. One push and the world as I know it comes to an end. A new reality begins.

To be or not to be. God's gift to animals is they don't get a choice.

Every time I open the newspaper I want to throw up. In another 10 seconds I won't know how to read. Better yet, I won't have to. I won't know about global climate change. I won't know about cancer or genocide or SARS or environmental degradation or religious conflict.

The public address system is paging my name. I won't even know my name.

Before I can blast off, I picture my uncle Henry at the gate, holding his boarding pass. He deserves better than this. He needs to know this is not his fault.

With the electrodes stuck to my forehead, I carry the defibrillator out of the bathroom and walk down the concourse toward the gate. The coiling electric wires trail down the sides of my face like thin, white pigtails. My hands carry the battery pack in front of me like a suicide bomber who's only going to blow up all my IQ points.

When they catch sight of me, businesspeople abandon their roller bags. People on family vacations, they flap their arms, wide, and herd their little kids in the other direction. Some guy thinks he's a hero. He shouts, "Everything is going to be all right." He tells me, "You have everything to live for."

We both know he's a liar.

My face is sweating so hard the electrodes might slip off. Here's my last chance to say everything that's on my mind, so with everyone watching I'll confess: I don't know what's a happy ending. And I don't know how to fix anything. Doors open in the concourse and Homeland Security soldiers storm out, and I feel like one of those Buddhist monks in Tibet or wherever who splash on gasoline before they check to make sure their cigarette lighter actually works. How embarrassing that would be, to be soaking in gasoline and have to bum a match off some stranger, especially since so few people smoke anymore. Me, in the middle of the airport concourse, I'm dripping with sweat instead of gasoline, but this is how out of control my thoughts are spinning.

From out of nowhere my uncle grabs my arm, and he says, "If you hurt yourself, Trevor, you hurt me."

He's gripping my arm, and I'm gripping the red button. I tell him this isn't so tragic. I say, "I'll keep loving you, Uncle Henry…I just won't know who you are."

Inside my head, my last thoughts are prayers. I'm praying that this battery is fully charged. There's got to be enough voltage to erase the fact that I've just said the word love in front of several hundred strangers. Even worse, I've said it to my own uncle. I'll never be able to live that down.

Most people, instead of saving me, they pull out their telephones and start shooting video. Everyone's jockeying for the best full-on angle. It reminds me of something. It reminds me of birthday parties and Christmas. A thousand memories crash over me for the last time, and that's something else I hadn't anticipated. I don't mind losing my education. I don't mind forgetting my name. But I will miss the little bit I can remember about my parents.

My mother's eyes and my father's nose and forehead, they're dead except for in my face. And the idea hurts, to know that I won't recognize them anymore. Once I punch out, I'll think my reflection is nothing except me.

My uncle Henry repeats, "If you hurt yourself, you hurt me too."

I say, "I'll still be your nephew, but I just won't know it."

For no reason, some lady steps up and grabs my uncle Henry's other arm. This new person, she says, "If you hurt yourself, you hurt me as well.…" Somebody else grabs that lady, and somebody grabs the last somebody, saying, "If you hurt yourself, you hurt me." Strangers reach out and grab hold of strangers in chains and branches, until we're all connected together. Like we're molecules crystallizing in solution in Organic Chem. Everyone's holding on to someone, and everyone's holding on to everyone, and their voices repeat the same sentence: "If you hurt yourself, you hurt me.… If you hurt yourself, you hurt me.…"

These words form a slow wave. Like a slow-motion echo, they move away from me, going up and down the concourse in both directions. Each person steps up to grab a person who's grabbing a person who's grabbing a person who's grabbing my uncle who's grabbing me. This really happens. It sounds trite, but only because words make everything true sound trite. Because words always screw up what you're trying to say.

Voices from other people in other places, total strangers, say by telephone, watching by video cams, their long-distance voices say, "If you hurt yourself, you hurt me.…" And some kid steps out from behind the cash register at Der Wienerschnitzel, all the way down at the food court, he grabs hold of somebody and shouts, "If you hurt yourself, you hurt me." And the kids making Taco Bell and the kids frothing milk at the Starbucks, they stop, and they all hold hands with someone connected to me across this vast crowd, and they say it too. And just when I think it's got to end and everyone's got to let go and fly away, because everything's stopped and people are holding hands, even going through the metal detectors they're holding hands, even then the talking news anchor on CNN, on the televisions mounted up high by the ceiling, the announcer puts a finger to his ear, like to hear better, and even he says, "Breaking news." He looks confused, obviously reading something off cue cards, and he says, "If you hurt yourself, you hurt me." And overlapping his voice are the voices of political pundits on Fox News and color commentators on ESPN, and they're all saying it.

The televisions show people outside in parking lots and in tow-away zones, all holding hands. Bonds forming. Everyone's uploading video of everyone, people standing miles away but still connected back to me.

And crackling with static, voices come over the walkie-talkies of the Homeland Security guards, saying, "If you hurt yourself, you hurt me—do you copy?"

By that point there's not a big enough defibrillator in the universe to scramble all our brains. And, yeah, eventually we'll all have to let go, but for another moment everyone's holding tight, trying to make this connection last forever. And if this impossible thing can happen, then who knows what else is possible? And a girl at Burger King shouts, "I'm scared too." And a boy at Cinnabon shouts, "I am scared all the time." And everyone else is nodding, Me too.

To top things off, a huge voice announces, "Attention!" From overhead it says, "May I have your attention, please?" It's a lady. It's the lady voice who pages people and tells them to pick up the white paging telephone. With everyone listening, the entire airport is reduced to silence.

"Whoever you are, you need to know…" says the lady voice of the white paging telephone. Everyone listens because everyone thinks she's talking only to them. From a thousand speakers she begins to sing. With that voice, she's singing the way a bird sings. Not like a parrot or an Edgar Allan Poe bird that speaks English. The sound is trills and scales the way a canary sings, notes too impossible for a mouth to conjugate into nouns and verbs. We can enjoy it without understanding it. And we can love it without knowing what it means. Connected by telephone and television, it's synchronizing everyone, worldwide. That voice so perfect, it's just singing down on us.

Best of all…her voice fills everywhere, leaving no room for being scared. Her song makes all our ears into one ear.

This isn't exactly the end. On every TV is me, sweating so hard an electrode slowly slides down one side of my face.

This certainly isn't the happy ending I had in mind, but compared to where this story began—with Griffin Wilson in the nurse's office putting his wallet between his teeth like a gun—well, maybe this is not such a bad place to start.


Chuck Palahniuk, Zombie, November 2013 issue of Playboy

in lonely places

Charles Bukowski Manuscript, mais aqui

já dizia o saramago

que

«Há situações na vida em que já tanto nos dá perder por dez como perder por cem, o que queremos é conhecer rapidamente a última soma do desastre, para depois, se tal for possível não voltarmos a pensar mais no assunto.»

coisas explicáveis que não carecem de explicação

Provavelmente, a próxima vez que ouvires falar de mim
será quando te disserem que morri
e que morri por minhas próprias mãos
(isso acontece).

Isso acontece do outro lado da ternura,
onde ela é demasiada e coisa rara,
vermelha e branca, ou seja, côr de rosa
quase transparente.

São coisas explicáveis e que não carecem de explicação
(já não),
como os incêndios, a fadiga extrema
ou o cheiro agreste da benzina.

São coisas da natureza dos comboios que passam
a alta velocidade
sem se importarem com os ratos e as flores
que nos carris fazem a sua lida.

É a morte,
uma coisa que tudo simplifica.


Miguel Martins

se eu fosse um vídeo



where's this going to? / can I follow through? / or just follow you, for a while 

maratona

Tu corres a meu lado
na direcção contrária.
Qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.


José Miguel Silva

quando acordares

Quando acordares, já eu terei partido há muito tempo
com o meu fardo de lágrimas e o meu manto vermelho
de feridas. Mas, se perguntares, hão-de dizer-te
que não fui eu que parti, mas tu que me deixaste

ir; e de contar-te que, ao passar pela tua janela,
não desfitei o caminho, nem chamei pelo teu nome,
mas que a minha respiração ainda empurrou
o calor das tochas na direcção do teu rosto,
para que não sentisses frio o resto da noite.

Quando acordares, não acharás diferença no quarto
senão que o teu silêncio te parecerá maior que o mundo -
pois dentro de mim estarás então gritando tudo
o que nunca te ouvi e protegendo, assim, as minhas

memórias. Mas, se perguntares, hão-de dizer-te
que é, afinal, o meu silêncio que lamentas,
só que lembrares a minha voz não a trará de volta.

Quando acordares, já eu terei rasgado estradas
entre as pedras rugosas das encostas e ferido
os braços nos espinheiros assanhados dos cumes,
como um rio avançando cegamente pela montanha.

Mas, se perguntares, hão-de dizer-te que só viram
o mar - e que o mar é tão imenso
que esconde as cicatrizes de todos os caminhos.

Por isso, não acordes nem perguntes. Quem parte
assim, com um fardo de lágrimas e um manto
vermelho de feridas, parte para sempre.


Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida

what makes nancy so great

Sid Vicious lists off his girlfriend Nancy Spungen's best attributes 
just months before he allegedly stabs her to death, 1978

os rostos náufragos

A substância do deserto é a do mar, que dele difere apenas pelo grau de apuramento. O mar surge no termo dum processo em que o deserto é uma das fases ou, mais concretamente, a sua cristalização. Se se atender a que o lugar onde esse apuramento se produz é o nosso espírito, não poderão causar qualquer estranheza factos como, por exemplo, o de a presença do deserto ser notada por quem, como os marinheiros, tenha um íntimo contacto com o mar.
O que eu do mar conheço, devo-o contudo, mais do que a qualquer outra experiência, a corpos onde a nitidez das suas águas ultrapassa muitas vezes a dos próprios traços fisionómicos; não raro, basta uma leve carícia, ou outro contacto ainda mais discreto, para sentir como são avassaladoras essas águas, à superfície das quais parecem prestes a afundar-se os rostos náufragos.
Não obstante, também já eu me apercebi da clandestina presença do deserto, o que me leva a compará-lo àquela roupa que persiste em irromper na pele de quem por isso nunca por completo se consegue desnudar.


Luís Miguel Nava, O Céu Sob as Entranhas

insónia

Fechou os olhos, procurando adicionar à escuridão do quarto a escuridão suplementar das suas entranhas. Agradou-lhe a ideia de que, através desse simples gesto, pudesse homogeneizar o exterior e o interior, como se as trevas em que o aposento mergulhava e as que dentro de si assim se desprendiam fossem de uma só e mesma natureza e, por uma progressiva porosidade do seu corpo, circulassem em ambos os sentidos até por completo lhe anularem os limites. De certa forma deixava de ter corpo, ou pelo menos um corpo exterior, e o que a ele se atinha quando havia luz podia agora reduzir-se a um núcleo ou expandir-se em círculos que só não abarcavam sucessivamente o quarto, o apartamento, o prédio, o bairro, porque no escuro nada disso chega a ter sentido. A única referência era, de quando em quando, o longínquo motor de um camião ou o apito de um comboio na linha de Sintra. Esse ruído, que em seu entender constituía o modo de a distância se exprimir, proporcionava-lhe então um incomensurável prazer, que tanto podia advir de, na sequência da transformação que as trevas haviam provocado no seu corpo, o ouvido se ter aproximado do coração, como de, graças à assimilação que essas mesmas trevas haviam produzido entre o interior e o exterior, esses ruídos lhe chegarem como vindos de dentro de si próprio, de dentro desse coração a que os sentidos pareciam encostar-se, e, mediante uma identificação entre o espaço e o tempo a que a escuridão também era propícia, se lhe apresentarem como provenientes duma época remota, tão distante do presente como da sua cama o inimaginável troço de estrada ou de linha férrea donde a espaços irrompiam.


Luís Miguel Nava, O Céu sob as Entranhas

relatório do medo

Depois é um ritmo, uma libertação. Encho folhas de papel com essa trama subtil e exasperada feita de memória, a atentas expensas de esquecimento. É o relatório do medo lido ao inverso.


Herberto Hélder, Photomaton & Vox

um ser (a)normal

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.


Herberto Hélder, Photomaton & Vox

why'd you do that



eu não estou

A esta hora em que a noite é uma seringa partida. A esta hora em que os pulmões são de seda e o sangue circula muito devagar. Eu não estou.

A noite é uma especiaria que acende os corpos.

Há três dias que durmo desordenadamente. Transpiro e acordo e vejo casas que são desdobramentos da minha própria casa. A verdade é que preciso de ti para um poema. Preciso que te passeies por uma dessas casas, que te sentes, que te deites. Preciso olhar para ti durante 27 segundos.

A solidão é um serviço misterioso. Reunimo-nos para prestar contas do nosso desaparecimento e por vezes agarramos um braço como se pretendêssemos instalá-lo, de repente e para sempre, na nossa ternura.

Todos os meus silêncios são uma criança que espreita. Todas as minhas faltas são uma criança entusiasmada. Todos os meus poemas são crianças mudas que gesticulam.

Todos os dias saio para a decisão de um amor sem protagonista. Encosto-me às paragens de autocarro e aceno subitamente a alguém que passa. Por vezes retribuem-me o gesto e ficamos ambos sem saber se por graça, se por um escuro reduto de uma franqueza cada vez mais rara. Tens tempo para um estranho? A que horas me poderias dizer o teu nome? Conheço uma igreja que ardeu, conheço outra que é muito muito pequena. Escuta, no meio desse teu deserto, ao passar a caravana do luxo, será que és capaz de suplicar: água?

Preciso de ti para um poema. Ofereço-te em troca o meu auto-retrato sincero. Tenho quarenta livros prontos para serem lidos. Tenho uma estratégia infalível para implementar a primavera. Tenho a segurança de um corpo cheio de insónias, pele de galinha, súbitos arrepios, termómetros para novecentas febres, saliva muito devagar, pés descalços, arrebatamentos incomunicáveis, fins de noite numa garrafa de vinho, estilhaços de quatrocentos orgasmos, comoções, paixões flagrantes, primeiros cuidados para jovens suicidas, lâmpadas que se queimaram nas minhas próprias mãos.

Sou um pintor. Trago sangue para os vossos olhos. Tenho artérias que se descosem e me cospem dentro de mim mesmo. Preciso de muita paciência, de todas as mulheres do mundo. Durmo sobre a cama profana da minha escuridão. Contagio e deixo-me contagiar pela peste dos bairros pequenos. Não suporto muita luz, não sei o que é uma avenida. Esquina, sou qualquer coisa que o espanto torce. Sou viciado no álcool dos corpos que se difundem. Bebo das vossas bocas o que não pode ser visto. Pinto para me esquecer do que não pode ser visto. Pinto com os materiais clandestinos do meu amor. Não projecto nada na minha tela. Eu sou a tela. Eu sou a luta das cores por um diafragma de beleza. Sou um pintor. Mereço morrer como pintor. Não mereço que me prendam. Mereço todas as minhas paixões. Mereço todas as minhas paixões.


Vasco Gato, A prisão e paixão de Egon Schiele

deixa, isto já passa

- Passa-se alguma coisa consigo? - Perguntei com precaução.
- Passa-se - disse ele - que me arrependo de tudo, de tudo, arrependo-me de tudo, mas não se preocupe porque já me passa.


Juan José Millás, Os Objectos Chamam-nos

sozinho

Sozinho levantado. Sozinho sentado. Sozinho deitado. Sozinho na velocidade que não existe, no minuto que não existe, no espaço que não existe, no tempo que não existe, na eternidade que não existe, no nada que não existe, no vazio cheio de lama. Sozinho num bloco de quartzo ignóbil, num icebergue em viagem. Sozinho com a solidão que não é só uma. Com a lua que foi sem ser. Com os seus passos que não existem. Com este tição que se devora e arde ao meio e se devora e arde num sonho que nem sequer é um sonho. Sozinho com o sono do condenado à morte.


Jean Cocteau, Tanta Coisa Por Dizer

who are you

© Cody Rocko

13

explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética

resumé

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


Dorothy Parker

some things some times

© Tracey Emin

night moan

O lamento de Anne Desbaresdes recomeçou, tornou-se mais forte. Pousou de novo a mão sobre a mesa. Ele seguiu o gesto com os olhos e, penosamente compreendeu, ergueu a sua mão que parecia de chumbo e colocou-a sobre a dela. As suas mãos estavam tão frias que se tocaram ilusoriamente, na intenção apenas de que aquele gesto ficasse feito, mais nada, já não era possível. As mãos ficaram assim, imóveis na sua posição mortuária. No entanto, o lamento de Anne Desbaresdes cessou.


Marguerite Duras, Moderato Cantabile

evening blues

O pequeno, imóvel, olhos baixos, foi o único a notar que a tarde explodira. Teve um arrepio.


Marguerite Duras, Moderato Cantabile

os loucos não têm sono

- Há pessoas, imaginem, que não dormem!
- E porque não dormem?
- Porque nunca têm sono.
- E porque não têm sono?
- Porque são loucos.
- Então os loucos não têm sono?
- Como é que os loucos podem ter sono!


Franz Kafka, Crianças na Estrada Nacional


alguém acordado?

the state of things

anoiteceu depressa em sopros avulsos de pólvora seca
não tenho lume nem mortalhas onde enrolar os dedos
sacode a cinza dos bolsos e acende-me a boca
sinto a urgência de um beijo
o calor tarda em envolver as casas
mas não é por amor que te falo de incêndios
é porque me nascem perguntas na ponta do cigarro

tens constelações nos olhos
à prova de balas

e sabes bem
o amor não é coisa que nos dure nos lábios
mas nas mãos


Ana Caeiro, Mixtape

the very eye of the night

The Very Eye of the Night, Maya Deren, 1958

once upon a time

Once Upon A Time..., Karl Lagerfeld, 2013

uma parede de vidro

Ficou surpreendida por ainda haver luz lá fora, como se no interior da loja tivesse perdido toda a noção do tempo. O passeio à volta dela estava repleto de gente; os ciclotáxis passavam apressados uns atrás dos outros pela estrada, todos ocupados. Peões e veículos deslizavam continuamente, como se separados dela por uma parede de vidro, e nada mais acessíveis do que os elegantes manequins na montra do Grande Armazém de Roupas de Senhora Casa Verde - podia-se olhar, mas não se podia tocar. Seguiam o seu caminho, impenetravelmente serenos, enquanto ela ficava do lado de fora, sozinha na sua agitação.


Eileen Chang, Sedução, Conspiração

o caminho para o coração de uma mulher

Os ingleses dizem que o poder é um afrodisíaco. Ela não estava certa de isso ser verdade; pessoalmente, era totalmente indiferente aos seus atractivos. Eles também dizem que o caminho para o coração de um homem é através do estômago; que um homem será presa fácil para uma mulher que saiba cozinhar. Algures na primeira ou segunda década do século XX, um conhecido erudito chinês terá supostamente acrescentado que o caminho para o coração de uma mulher é através da vagina.


Eileen Chang, Sedução, Conspiração

a cerveja e o sangue

Pedi-lhe o Excelsior e trouxe-me o Popular. Pedi-lhe Delicados e trouxe-me Chesterfields. Pedi-lhe uma cerveja branca e trouxe-me uma preta.
A cerveja e o sangue, misturados pelo desprezo, não ligam bem.


Max Aub, Crimes Exemplares

se eu fosse um vídeo

um cão de apartamento, branco e sujo

Aconteceu assim: estavam casados há quarenta e seis anos. Os filhos casaram, saíram de casa ou ficaram pelo caminho. Então tiveram cães. Sete ao longo de quase meio século. (Possuíam uma velha casa húmida, sobre o comprido e estreita e que cheirava a esgotos sem que eles o notassem: sinistro). Nenhum cão foi mais amado do que Júlio, um cão de apartamento, branco e sujo. Era muito meigo e passava o dia a lambê-los até obter o que desejava. Dormia aos pés da cama e aos primeiros alvores da madrugada ia acordá-los com grandes lambidelas. Um dia, a velha ficou cheia de ciúmes, convenceu-se de que ele preferia o seu marido. Calou-se, não disse nada, sofreu em silêncio e tentou conquistar o cão por meio de manhas e guloseimas; mas Júlio continuou, sem dúvida devido a uma escolha firme, a lamber primeiro as mãos do velho. A mulher envenenou aos poucos o marido. Conta-se que o cão morreu no mesmo dia que o dono, mas trata-se de uma liberdade poética; na realidade sobreviveu mais três anos para grande alegria da boa senhora.


Max Aub, Crimes Exemplares

seis vezes

Matei-o porque me doía a cabeça. E ele veio falar-me, sem descanso, de coisas para que eu me estava absolutamente nas tintas. É a verdade, embora elas talvez me tivessem podido interessar. Antes de o fazer olhei, ostensivamente, seis vezes para o relógio, ele não ligou nenhuma. Creio, no entanto, que é uma circunstância atenuante que deveria ser seriamente tida em conta.


Max Aub, Crimes Exemplares

o terror

Depois (ela sentira-o pela primeira vez hoje de manhã) havia o terror; a pesadíssima impotência que os pais depositam, com a vida, em nossas mãos; uma vida a viver até ao último dia, um caminho a percorrer com serenidade; havia nas profundezas do seu coração um medo terrível.


Virginia Woolf, Mrs. Dalloway

(as pessoas eram tão complicadas)

E será que podemos, no fundo, saber alguma coisa até sobre as pessoas que vivem ao nosso lado? perguntou ela. Não somos todos prisioneiros? Ela tinha lido uma excelente peça de teatro acerca de um homem que escrevia nas paredes da sua cela, e sentia que a vida era muito isso - escrevíamos em paredes. Quando desesperava das relações humanas (as pessoas eram tão complicadas), ia muitas vezes até ao seu jardim e recebia das flores uma paz que homens e mulheres jamais lhe haviam concedido.


Virginia Woolf, Mrs. Dalloway

a melhor parte da vida

Aliás, a melhor parte da vida é aquela que nós próprios imaginamos, pensou - imaginamo-nos, imaginamos os outros, criando assim deliciosas diversões, e até algo mais do que isso. Mas era estranho, e porém verdadeiro, que tudo o que não podemos partilhar com alguém acaba por desfazer-se em pó.


Virginia Woolf, Mrs. Dalloway

sou de fora #2

Passava como uma faca através de todas as coisas e, ao mesmo tempo, ficava de fora, a observar. Tinha a permanente sensação, quando olhava para os táxis, de estar de fora, sozinha, no mar; sempre havia tido a sensação de que era muito perigoso viver um só dia que fosse.


Virginia Woolf, Mrs. Dalloway

da recusa do abandono

Eu não tenho passado, trago tudo comigo. É uma questão de incompetência - construí uma casa de vidro sem aprender a porta, abandonei-me à minha sorte, e a janela que me mostras abrindo-se serve apenas para confirmar o que aqui se encerra. Por todos os cantos foram plantadas pela mesma mão as papoilas e as ervas daninhas e as vozes muitas disfarçadas pelos silêncios. O que aqui não se ouve ocupa hoje o espaço inteiro, despedaçado. E se o tempo parece ter esquecido este lugar, é porque há muito que nada esqueço. Não chegaste a tempo de perceber que nem sempre se confundiram as estações e as horas dos dias, que houve um tempo em que os nomes das coisas tinham nomes de coisas e não nomes de gente ausente. Mas tu que me olhas podes confirmar a lucidez do que digo quando digo que só a perda sempre nos acompanha.


Pedro Jordão, Golpe d'asa

nuvens pesadas

Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.

É uma formula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela janela nem atravessa pontes.
E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.

A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma tirania difícil de inalar.

Dão-lhe poesia e ele escreve tempestades.


Sílvio Mendes, Golpe d'asa

equipado para morrer

deixei a minha casa
equipado para morrer
mas não morri

saí do café trivial
equipado para morrer
mas não morri

pus-me à espera do eléctrico
equipado para morrer
mas não morri

entrei no meu emprego
equipado para morrer
mas não morri

saí do meu emprego
equipado para morrer
mas não morri

apanhei o autocarro
equipado para morrer
mas não morri

entrei no bar
equipado para morrer
mas não morri

regressei a casa
equipado para morrer
mas não morri

deitei-me na minha cama
equipado para morrer
e não morri


Manuel da Silva Ramos, Golpe d'asa

se eu fosse um vídeo




if I'm butter - if I'm butter- / if I'm butter, then he's a hot knife, / he makes my heart a cinemascope / he's showing the dancing bird of paradise

sou de fora

Em qualquer parte, aqui e agora, sou de fora. Distingue-se mal a manhã.
Nos galhos pousam pássaros ou estão matizados de estranheza e alvoroço?
O que passou por aqui agora?
Que compasso de música nos escolta?
Sou estrangeira. Em qualquer parte e aqui.
Sou de fora.


Helga Moreira

há manhãs assim

o par

A noite chega
e depois da noite a escuridão
e depois da escuridão
olhos
mãos
e respiração e mais respiração
e o som da água
que da torneira
goteja goteja goteja.

Em seguida dois pontos vermelhos
de dois cigarros acesos
o tique-taque do relógio
e duas cabeças
e duas solidões.


Forough Farrokhzad, trad. Vasco Gato

so long,

Julião Sarmento, Parasita, 2003

o pior amor é este

venho para te cortar os
dedos em moedas pequenas e
com elas pagar ao coração o
mal que me fizeste

o pior amor é este, o que já é
feito de ódio também. o pior amor
é este, o que já é feito de ódio também. o
pior é o amor é este, o que
já é feito de ódio também


valter hugo mãe, contabilidade

à tona da pele

hoje tive uma ideia na banheira, mas
por pouco tempo: infelizmente
não me apareceu no cérebro, como é habitual, mas
sim à tona da pele
de modo que a água do chuveiro a
levou ralo abaixo
dela restando apenas flocos de espuma e
outra ideia irresistível
quantas não andarão por aí mergulhadas
nos esgotos nas estações de tratamento de água
(algumas bem precisam de ser desinfectadas)
sem mencionar rios riachos ribeiros mares e
à conta de tudo isso
quantas ideias não bebemos num simples copo de água


Bénédicte Houart, Vida: Variações II

solidão




(d)as tristezas e solidões que (re)confortam o estômago

what a hopeless waste of time

Bonjour Tristesse, Otto Preminger, 1958

Adeus tristeza

Bom dia tristeza
Inscrita nas linhas da vida
Inscrita nos olhos que amo
Não és bem a miséria
Pois até os lábios mais pobres te denunciam
Num sorriso
Bom dia tristeza
Amor dos corpos sedutores
Poder do amor
Cuja sedução emerge
Como um monstro sem corpo
Cabeça decepada
Tristeza rosto belo.


Paul Eluard, La Vie Immédiate

«fazer» «amor»

Pela minha parte, experimentava, para além do prazer físico e absolutamente real que me proporcionava o amor, uma espécie de prazer intelectual ao reflectir sobre ele. As palavras «fazer amor» possuem uma sedução própria, muito verbal, quando isoladas do seu sentido. O verbo «fazer», material e positivo, unido à abstracção poética da palavra «amor», encantava-me, embora sempre me tivesse referido anteriormente a esta expressão sem o mínimo pudor e sem me dar conta do seu sabor.


Françoise Sagan, Bom dia Tristeza

bom dia tristeza

A este sentimento desconhecido, cujo tédio, cuja brandura me obsidiam, hesito em aplicar o nome, o belo e grave nome de tristeza. É um sentimento tão completo, tão egoísta, que quase me envergonha, quando a tristeza sempre me pareceu honrosa. A ela, não a conhecia, experimentava apenas o tédio, o arrependimento, mais raramente o remorso. Hoje, algo me envolve como seda, irritante e suave, isolando-me dos outros.


oh sagan,

you charming little monster


no brumbach's department store

No Brumbach's Department Store, onde matávamos tempo depois das aulas, o nono andar é todo mobiliário. A toda a volta há divisões em exposição - quartos de cama, casas de jantar, salas de estar, escritórios, bibliotecas, quartos de criança, armários para a loiça, gabinetes de trabalho, - todas elas abertas para o interior da loja. A invisível quarta parede. Todas elas perfeitas, limpas e com carpetes, cheias de mobílias de bom gosto e muito quentes das luzes das calhes e dos candeeiros em excesso.

(...)

Os clientes passavam e lá estávamos nós, a Evie e eu, esparramadas numa cama de dossel cor-de-rosa, a ouvir os nossos horóscopos no telemóvel dela. Estávamos enroladas num grande sofá de tweed a comer pipocas e a ver as nossas telenovelas numa televisão a cores encastrada num armário.

(...)

Mas no Brumbach's, a Evie e eu, nós dormíamos uma soneca em qualquer um dos doze perfeitos quartos de dormir. Enfiávamos bolas de algodão entre os dedos dos pés e pintávamos as unhas em cima de cadeirões forrados de chintz. Depois estudávamos o nosso manual para modelos da escola Taylor Robberts numa comprida e lustrosa mesa de casa de jantar.

- Isto aqui é a mesma coisa que aquelas reproduções falsas dos habitats naturais que se constroem nos zoos - dizia a Evie. - Sabes, aquelas calotas glaciares de cimento e aquelas florestas das chuvas de árvores de tubos soldados com asperssores.

(...)

Bebíamos colas de dieta em cima de uma enorme cama cor-de-rosa no Brumbach's. Ou sentávamo-nos em frente de um toucador, utilizando pó de contorno para mudar a forma das nossas caras, enquanto os vultos indistintos das pessoas nos observavam na escuridão a uns curtos metros de distância. Podia acontecer que as luzes das calhas faiscassem nos óculos de uma pessoa qualquer.

(...)

Outras vezes, usávamos sapatos de salto alto e fingíamos que nos esbofeteávamos com toda a força na boca por causa de um tipo qualquer que ambas queríamos. Algumas tardes, confessávamos uma à outra que éramos vampiros.


Chuck Palahniuk,  Monstros Invisíveis

leonor, anda cá ver isto

o fogo -

O fogo, o inferno matrimonial da Evie descobre a pista das flores no álcool e expulsa-me para o corredor. É isso que eu adoro no fogo, a forma como ele seria capaz de me matar tão depressa como a qualquer outra pessoa. Como ele é incapaz de saber que sou a mãe dele. É tão belo e tão poderoso e tão para além de sentir seja o que for por quem for, é isso que eu adoro no fogo.


Chuck Palahniuk,  Monstros Invisíveis

as sinapses neurais dos pombos embrionários

Era o que eu fazia antes do acidente. Chamem-me uma grande mentirosa, mas antes do acidente eu dizia às pessoas que era estudante universitária. Se disseres às pessoas que és modelo, elas calam-se logo. Seres modelo queres dizer que elas estão a interagir com uma forma de vida inferior qualquer. Começam a usar uma linguagem de bebés. Estupidificam. Mas se disseres às pessoas que és uma estudante universitária as pessoas ficam muito impressionadas. Podes ser estudante de qualquer coisa e não tens de saber nada. Basta dizeres toxicologia ou bioquinese e a pessoa com quem estás a falar desvia o assunto para si própria. Se isto não funcionar, basta mencionares as sinapses neurais dos pombos embrionários.


Chuck Palahniuk,  Monstros Invisíveis


nas ruínas de novembro

a triste jardinagem dos poemas
por abrir.


José Miguel Silva


novembro, não sejas cruel

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adolfo Casais Monteiro Adília Lopes Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Américo António Lindeza Diogo Ana Bessa Carvalho Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Martins Marques Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tecedeiro Ana Teresa Pereira Ana Tinoco Andreia C. Faria André Tomé Angélica Freitas António Amaral Tavares António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Aníbal Fernandes Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bruno Béu Bruno Sousa Villar Bénédicte Houart Camilo Castelo Branco Camilo Pessanha Carlos Alberto Machado Carlos Bessa Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Poças Falcão Carlos Soares Carlos de Oliveira Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Eduarda Chiote Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio Lisboa Eugénio de Andrade Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Hélia Correia Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Morais Varela Joana Serrado Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge Carrera Andrade Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga Jorge de Sena José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Miguel Silva José Mário Silva José Pascoal José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Maia João Manuel Ribeiro João Miguel Henriques João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Judith Teixeira Leitão de Barros Leonor Castro Nunes Luiza Neto Jorge Luís Miguel Nava Luís Quintais Madalena de Castro Campos Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel Fúria Manuel Gusmão Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Azenha Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Mergulhão Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Maria do Rosário Pedreira Maria Ângela Alvim Marta Chaves Matilde Campilho Mendes de Carvalho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Mário Cesariny Mário Contumélias Mário Dionísio Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário de Sá-Carneiro Mário-Henrique Leiria Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Patrícia Baltazar Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Loureiro Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Pedro Tiago Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raquel Serejo Martins Raul Malaquias Marques Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rosa Maria Martelo Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Costa Rui Cóias Rui Knopfli Rui Lage Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Andrade Sandra Costa Sebastião Alba Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Sílvio Mendes Tatiana Faia Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Teresa M. G. Jardim Tiago Araújo Tiago Gomes Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno gil t. sousa valter hugo mãe Ângelo de Lima

poemário dali

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