o esquecimento

Chegou o esquecimento,
 recebo-o em silêncio,
agradecida.
Mas curvo-me
como uma folha seca,
Porque o vazio pesa.


Susana Cabuchi, trad. Maria Sousa

a state of grace and suspended animation

© Jenny Holzer

longo silêncio

POZZO   Ah, já me lembro! A noite. (Levanta a cabeça.) Mas estejam um pouco mais atentos senão não vamos a lado nenhum. (Olha para o céu.) Olhem. Muito bem, já chega. (Deixam de olhar para o céu.) O que é que ele tem de tão extraordinário? Tendo em conta que é um céu. É claro e luminoso como qualquer outro céu a esta hora do dia. (Pausa.) Nesta latitude. (Pausa.) Quando o tempo está bom. (Lírico.) Há uma hora atrás (olha prosaicamente para o relógio) aproximadamente (lírico) depois de nos ter inundado desde as (hesita, prosaico) digamos dez da manhã, (lírico) com torrentes inesgotáveis de luz vermelha e branca, começa agora a perder o seu esplendor, empalidece cada vez mais, cada vez mais até que (pausa dramática, gesto amplo com ambas as mãos que se afastam) chhht! desaparece! acalma-se. Mas - (mãos erguidas prevenindo) - mas, por trás deste véu de paz e delicadeza, a noite galopa (vibrando) pronta a saltar sobre nós (estala os dedos) e paf! (a inspiração abandona-o) quando menos esperamos. (Silêncio. Triste.) São assim as coisas nesta puta desta terra.

Longo silêncio.


Samuel Beckett, À Espera de Godot

as coisas do costume

Outros amigos e conhecidos ou não deram por nada ou nem sequer tinham ainda sabido, a maior parte deles já não se lembrava dela e os poucos que se lembravam partiam do princípio, de uma maneira geral, de que ela estava onde a tinham visto pela última vez, tal e qual como se parte do princípio de que alguém que se conhece continua a fazer as coisas do costume, a respirar, a andar, a fazer compras, a comer bolachas, até que se vem a saber que a pessoa morreu, morreu há muito tempo e ninguém sabia de nada.


Ali Smith, Amor Livre e outras histórias

na fresca e bem sentada escuridão de qualquer sala de cinema

O cinema era maravilhoso porque os tirava de si próprios e, ao mesmo tempo, lhes dava uma sensação de serem incólumes. As coisas do mundo serviam para lembrar a cada momento que a vida era confusa e perigosamente incompleta, que o terror nunca estaria longe de possuir o coração, mas essas percepções quase sempre desapareciam, ainda que por breves momentos, na fresca e bem sentada escuridão de qualquer sala de cinema, em qualquer lado.

(...)

Era provavelmente melhor ir ao cinema à noite, quando nada mais era depois esperado senão dormir; ir durante o dia significava que tinha de se sair para as ofuscantes ruas da realidade e encontrar maneira de enfrentar o que restava ainda da tarde.


Richard Yates, Perto da Felicidade

elevar as aspirações e albergar os sonhos

Era verdadeiramente impressionante. A inimaginável silhueta de Nova Iorque, vista deste desfiladeiro do outro lado do rio Hudson, era mais do que suficiente para tirar a respiração. Fazia-os saber que aquelas torres salpicadas de amarelo, laranja e vermelho, com as suas inúmeras janelas em labareda, estavam ali por melhores razões do que o simples comércio; estavam ali por causa deles, como se tivessem sido criadas pelo desejo, e o seu mais elevado propósito fosse elevar as aspirações e albergar os sonhos.


Richard Yates, Perto da Felicidade

hora e meia no silêncio quase absoluto

Phil Drake dormiu muito pouco nesse dia. Não parou de se revirar na cama e de esmurrar a almofada de diferentes formas, como se isso ajudasse, mas sempre que uma vaga de sono lhe sobrevinha trazia pesadelos do tipo dos que têm as crianças com febre, e rapidamente o acordavam outra vez. Então, Phil ficava desperto, à mercê de pensamentos fortuitos que não faziam sentido. Nada fazia sentido, e ele recordava-se das alturas, na escola, em que se sentava durante hora e meia no silêncio quase absoluto da sala de estudo sem virar uma página do seu livro ou sem sequer ler uma linha.


Richard Yates, Perto da Felicidade

PARÁBOLA

Não há amores malditos

Há poder leis hábitos
erro espanto astúcia
impotências normas mentira
angústia domesticação comércio
cobardia e calamidade

Não há amores malditos


Félix Grande, trad. Inês Dias

the dead

I have nothing to say to the dead
unless they approach me first.
It is their right to come to me
with a soft step, singing
or moaning as they please.

The dead cry all night under the tree.
I never tire of listening to them.
Sometimes I want to invite them in
to warm their hands by the fire
but nobody wants the dead inside,
especially not the living. Lock the door,
keep them out, they say,
or the next thing you know
they will overcome you with death,
they will feed from you, rob you,
tap your blood and your preserved memory.
The dead have no memory. A torn scarf
flows in and out of their head, controlled
by the wind of forgetfulness, not by the dead,

and where the end or the beginning may be
the dead do not know
who have no memory, no memory.


Janet Frame

darkness


I caught the darkness
Drinking from your cup
I caught the darkness
Drinking from your cup
I said: Is this contagious?
You said: Just drink it up.


Leonard Cohen, Darkness

4.

uma a uma, as sílabas do
teu nome, declino-as no jardim
sobre a laje, pedra de silêncio
onde poiso as dores quando a
cabeça só se encaixa na
concha das mãos.

no descampado herdado dos teus braços
jazem letras indispostas em
rouco desassossego.

não era preciso ter andado tanto; dista apenas
um palmo da palavra à erva daninha.


Renata Correia Botelho, Avulsos, por causa

a bater, a subir e a descer

- O mar - disse eu -, olha para ele lá fora, a bater, a subir e a descer. E, por baixo daquilo tudo, os peixes, os pobres dos peixes a lutarem, a comerem-se uns aos outros. Nós somos como aqueles peixes, só que estamos cá em cima. Uma má jogada e um gajo está feito.


Charles Bukowski, Correios

uma mulher só de uns

Guardo segredo
e guardo-te
para a noite.
O teu número
de telemóvel
é nove um seis
um um um
dois um um
o que faz de ti
uma mulher só de uns
e isso torna-me feliz.


Carlos Mota de Oliveira, Usos do Amor

conselhos maternos

A minha mãe deu-me um conselho que me fez pensar, mas que de qualquer maneira tento seguir: sê simpático, e ninguém perceberá que és doido. A minha mãe é simpática e toda a gente percebe que ela é doida.


Mark Lindquist, Filmes Tristes

um romance de joan didion

Depois de andar às voltas pela rede de auto-estradas de L.A. durante um bocado, começo a sentir-me como se estivesse a viver um romance de Joan Didion. O susto é suficiente para me mandar para casa.


Mark Lindquist, Filmes Tristes

uma bicicleta para dois

Depois, leio um artigo interessante. Trata-se de uma reportagem sobre um carteiro que um dia chega ao emprego armado com duas pistolas de calibre 45 e desata aos tiros aos seus colegas de trabalho. Para tentar dar coesão à história, o repórter entrevista amigos do homem, psiquiatras, chuis estafados e por aí fora. A única coisa que transparece do seu artigo é a confusão pagã generalizada.
Mas há uma imagem maravilhosa: alguém se lembra de ter visto o carteiro às voltas numa bicicleta para dois - sozinho.
Só não sei porque é que as pessoas se espantam por ele ter marado.


Mark Lindquist, Filmes Tristes

pretending life is sweet

porque hoje é sábado

Antes o sábado que o deprimente domingo ou a atarefada segunda. Há as manhãs de sábado que são plácidas e refrescantes. Há os almoços mais longos de sábado e os jornais mais volumosos aos sábados. Há as noite de sábado à noite, com ressonâncias juvenis quase míticas. Há um ócio de sábado que permite valorizar o estilo de vida. O lado bom da vida.

Confesso que não acredito verdadeiramente na felicidade, mas acredito em momentos de felicidade. A felicidade absurda de acordarmos bem-dispostos. O vento no cabelo. Uma comédia romântica. As montras. Os transeuntes. Um café com natas. Se Deus está nos detalhes, a felicidade também. E o sábado é um dia de detalhes. Sobretudo para os que gozam do sábado, coisa que não é universal nem ancestral.

Mergulhemos então no sábado como uma piscina pouco funda que nos deixa embaroçosamente acima da água. E brinquemos com isso. Se no sábado olhamos com desamparo ou bonomia para a semana, usemos esse sétimo dia para relativizar. Já que tanto se ataca o «relativismo», deixemos ao sábado a suja tarefa do relativismo. Nada é tão grave e definitivo ao sábado. Eis as instruções: nada de melancolia. É preciso encontrar o oposto desse sentimento. Se o melancólico é aquele que tem uma obsessão com o tempo e com a passagem do tempo, então façamos o contrário. O contrário é talvez gostar de ver o tempo avançar, como quem gosta de ver o trânsito lento das nuvens ou o crepitar das chamas numa salamandra. É trautear «Always look on the bright side of life» mesmo quando se está muito, muito triste. É fingir que é sábado quando é segunda-feira.

Entro então no espírito do sábado: nada de melancolia.
Mesmo que o produto proibido circule muitas vezes em contrabando.


Pedro Mexia, Nada de Melancolia

do I look as if I live on memories?



Le Jour Se Lève, Marcel Carné, 1939

mera falsidade

Os seres humanos pensam conhecer os seus congéneres pelas palavras que estes emitem, pelas suas opiniões; pelo aspecto do outro; pelas suas acções. Todas estas aparências são mera falsidade. Homens e mulheres mentem por meio de palavras, acções e aparências. Fingem, estão sempre a fingir. Fingem inclusivamente perante si próprios. Fingem perante os seus pais e os seus irmãos. Fingem perante os seus filhos e as suas amantes. Mentem e mentem a si próprios a toda a hora.


Lázaro Covadlo, Criaturas da Noite

a angústia

Mas a angústia é património da espécie humana. A angústia ante a perspectiva de desaparecer do olhar dos outros e do próprio olhar ante o espelho. Angústia ante a possibilidade de que desapareçam os objectos vivos ou inertes que mais desejamos olhar.


Lázaro Covadlo, Criaturas da Noite

o habitual arrependimento

Mas estava demasiado frio para atrever-se a sair dos lençóis aquecidos pelo calor do próprio corpo; era melhor continuar deitado e deixar que a recordação da felicidade perdida continuasse acariciando os sonhos. Sim, adormecer acompanhado pelo habitual arrependimento e pelo eco da insólita voz.


Lázaro Covadlo, Criaturas da Noite

o que eu preciso é de um cocker-spaniel ou coisa assim

Mary Jane estendeu-lhe um maço de cigarros, dizendo: «Oh, estou morta por a ver. Com quem é que ela é parecida, agora?»
Eloise acendeu um fósforo. «Com o Akim Tamiroff.»
– Não, a sério.
– Com o Lew. É parecida com o Lew. Quando a mãe dele vem cá, parece que são trigémeos. – Sem se sentar, Eloise esticou-se para chegar a uma pilha de cinzeiros na outra ponta da mesa baixa. Conseguiu pegar no de cima e pô-lo sobre a barriga. – O que eu preciso é de um cocker-spaniel ou coisa assim – disse ela. – Alguém que se pareça comigo.


J. D. Salinger, Nove Histórias

ah, para ser perfeitamente, absolutamente sincera!

29/07/48

... E o que significa ser-se jovem em idade e ficar subitamente desperta para a angústia e para a urgência da vida?

É ser-se um dia alcançada pelas reverberações daqueles que não seguem, tropeçando para fora da selva e para cair num abismo:

É, então, ser cega aos defeitos dos rebeldes, é ansiar com dor, completamente, por todos os opostos da existência da infância. É impetuosidade, entusiasmo selvagem, imediatamente submergido num dilúvio autodepreciativo. É a cruel consciência da nossa própria presunção...

É humilhação em cada palavra em falso, noites em branco passadas a ensaiar a conversa de amanhã e a torturarmo-nos pelas de ontem... uma cabeça baixa segura entre as mãos... é «meu deus, meu deus»... (em minúsculas, é claro, porque não há deus nenhum).

É retracção de sentimentos em relação à família e a todos os ídolos da infância... é mentir... e ressentimento, e depois ódio...

É o surgimento do cinismo, um esquadrinhar de todos os pensamentos, de todas as palavras, de todas as acções. («Ah, para ser perfeitamente, absolutamente sincera!»)
É um amargo e avassalador questionar de motivos...


Susan Sontag, Renascer

everything that burns and flays and tears

GARCIN: Open the door! Open, blast you! I'll endure anything, your red-hot tongs and molten lead, your racks and prongs and garrotes – all your fiendish gadgets, everything that burns and flays and tears – I'll put up with any torture you impose. Anything, anything would be better than this agony of mind, this creeping pain that gnaws and fumbles and caresses one and never hurts quite enough. [He grips the door-knob and rattles it.] Now will you open? [The door flies open with a jerk, and he just avoids falling.] Ah! [A long silence.]


Jean-Paul Sartre, No Exit

um redil maior

Naquele tempo imaginávamo-nos fechados numa espécie de redil, à espera que nos soltassem para a vida. E, quando o momento chegasse, as nossas vidas - e o próprio tempo - acelerariam. Como podíamos saber que, de qualquer modo, as nossas vidas já haviam começado, que já levávamos vantagem, que algum dano já fora infligido? E também que a nossa libertação seria simplesmente para um redil maior, cujas fronteiras eram no início indiscerníveis.


Julian Barnes, O Sentido do Fim

uma coisa suave e prática

Quando somos novos - quando eu era novo - queremos que as nossas emoções sejam como as que conhecemos de ler nos livros. Queremos que nos virem a vida do avesso, que criem e definam uma nova realidade. Mais tarde, penso eu, queremos que façam uma coisa mais suave, uma coisa mais prática: queremos que amparem a nossa vida como ela é e como passou a ser. Queremos que nos digam que as coisas estão bem. E há nisso algum mal?


Julian Barnes, O Sentido do Fim

a nossa tragédia

O carácter revela-se com o tempo? Nos romances, é claro que sim: se não não havia muita história. Mas na vida? Às vezes fico a pensar. As nossas atitudes e opiniões mudam, desenvolvemos hábitos e excentricidades; mas isso é uma coisa diferente, é mais como a decoração. Talvez o carácter se assemelhe à inteligência, mas o carácter desponta um pouco mais tarde: entre os vinte e os trinta, digamos. E depois ficamos presos ao que temos. Ficamos por nossa conta. Se é assim, isso explica uma data de vidas, não explica? E também a nossa tragédia. Se a palavra não é muito grandiosa.


Julian Barnes, O Sentido do Fim

a nostalgia

Tenho sim ponderado a questão da nostalgia e se sofro disso. Não fico com certeza em pranto ao lembrar uma bagatela de infância; nem quero enganar-me sentimentalmente sobre uma coisa que, na altura, nem era verdadeira - o amor tradicional, e coisas dessas. Mas se nostalgia significa recordar intensamente emoções fortes - e mágoa por tais sentimentos já não estarem presentes na nossa vida - então confesso-me culpado.


Julian Barnes, O Sentido do Fim

a controlar tudo isto

Havia coisas piores no mundo do que estar só. Ela repetia isto todos os dias enquanto se preparava eficientemente para ir trabalhar, quando suportava as suas oito horas na Baldwin Advertising, e depois, enquanto conquistava as noites até conseguir adormecer.

Durante um ano experimentou uma dor requintada - quase um prazer - em enfrentar o mundo como se não se importasse com nada. «Olhem para mim», dizia para si própria no meio de um dia complicado. «Olhem para mim: estou a sobreviver; estou a aguentar-me; estou a controlar tudo isto.»


Richard Yates, O Desfile de Primavera

por onde quer que andasse

Mas isso fazia parte do problema: ela vivia constantemente de recordações. Não havia vista, som ou cheiro em Nova Iorque inteira que estivesse livre de qualquer associação antiga; por onde quer que andasse, e às vezes andava durante horas, apenas encontrava o passado.


Richard Yates, O Desfile de Primavera

uma questão de intensidade

- Oh, destroçou-me o coração. Mas naquela época destroçava o coração em média uma vez por mês, por isso era apenas uma questão de intensidade.


Richard Yates, O Desfile de Primavera

o consolo da literatura

– Diga-me o senhor: como morre um homem quando privado do consolo da literatura?
– De uma de duas maneiras – disse ele –, putrefação do coração ou atrofia do sistema nervoso.
– Nenhuma delas muito agradável, imagino eu – sugeri.


Kurt Vonnegut, Cama de Gato

kleenex usados e bijuteria

Tinha um sorriso amarelo e estava a espremer o cérebro para descobrir qualquer coisa para dizer, mas não encontrou lá nada a não ser Kleenex usados e bijuteria.


Kurt Vonnegut, Cama de Gato

não são lindos, os desfiladeiros?

Acho que, depois de acabar esta carta, vou ao cinema. Ou, se o sol aparecer, talvez vá dar uma volta a um dos desfiladeiros. Não são lindos, os desfiladeiros? Este ano, duas raparigas atiraram-se de mãos dadas de um deles.


Kurt Vonnegut, Cama de Gato


sempre que me desse para aí

O que realmente me enche as medidas é um livro que, depois de acabarmos de o ler, nos faça desejar que o autor que o escreveu fosse um grande amigo nosso e pudéssemos telefonar-lhe sempre que nos desse para aí.


J. D. Salinger, À Espera No Centeio

nada a ninguém

Nunca contem nada a ninguém. Se contam, acabam por ter saudades de toda a gente.


J. D. Salinger, À Espera No Centeio

como que a desaparecer

Depois de ter atravessado a rua, sentia-me como que a desaparecer. Era uma daquelas tardes lixadas, bestialmente frias, sem sol nem nada, e sentíamo-nos como que a desaparecer sempre que atravessávamos uma estrada.


J. D. Salinger, À Espera No Centeio

estava capaz de me atirar da janela

O que me apetecia mesmo era suicidar-me. Estava capaz de me atirar da janela. Às tantas era capaz de me ter atirado mesmo, se tivesse a certeza de que alguém me tapava logo que eu chegasse ao chão. Não me apetecia nada ter uma data de estúpidos basbaques a olhar para mim ali todo desfeito em sangue.


J. D. Salinger, À Espera No Centeio

CARINHOS

Vou comprar um sabonete com música dentro para os banhos que dou ao meu querido Bicho. Uns desprendem a Marcha Turca, de outros evola-se a Avé-Maria... Mas para o meu querido Bicho pedirei ao fabricante que envolva no mais aromático sabonete a Marcha Nupcial! Não há carinho que não mereça o meu querido Bicho e este dos sabonetes é mesmo amoroso, não é?

Já estou a vê-lo quando eu lhe ensaboar as costas! O balanço funciona e eu vou espalhando pelos ombros, pelas espáduas, pelos quadris do meu amor A Nupcial! Ui!
- Que ideia trazeres o transistor para a casa-de-banho! dirá o meu querido Bicho sem maior surpresa. Mas quando, não ouvindo publicidade, me perguntar se eu liguei para essa porcaria do segundo programa e eu, risinhos de todo, lhe disser que não... ih! ih!... como o meu querido Bicho vai reagir!

Os seus olhinhos cor-de-avelã encarar-me-ão (que feio encarar-me-ão!) enquanto eu balançar, frente a eles, o sabonete-caixa-de-música, e, com a sua vozita de pestanejante bonequinha falante, o meu querido Bicho dirá:
- Dâni... (eu sou Daniel)... és o mais qu'ido dos maluquinhos!

Ploc! Dentro de água o sabonete. Num abraço de espuma, trautearemos A Nupcial. Gostamos!


Alexandre O'Neill, As Andorinhas Não Têm Restaurante

A MINHA AMIGA ALENTEJANA

A minha amiga alentejana tem uma grande alegria. Natural? Acho que não. A sua grande alegria foi ter deixado de viver no Alentejo. Lá, o que era ela, afinal? Uma grande ansiedade nos fundões dos olhos, mãe à perna, aspirante de Finanças a prometer, o idiota, frigorífico e alta-fidelidade, irmã casada, bebé sobrinho todo ringidos, fogagens e refegos, cunhado a atrever-se, paternal.

Agora passeia para mim pela casa toda. Descobriu a minissaia. Descobri a açorda à alentejana. Na capital dos trânsfugas, um quarentão e uma rapariga, contam, a dedo, os barcos que há no rio, vão ver a açorda que está ao lume (brando?), passam rasteiras um ao outro, estatelam-se, riem como desalmados que são, não atendem o telefone («Não vás, pode ser o mêc'cunhado!»), bebem tinto com cerveja, rijo bagaço a seco, lacrimejam, engasgam-se, dão palmadas de gáudio nas coxas, atrapalham-se no sempiterno tango de 75: Ese tu corazón pan-pan de gorrión pan-pan senti-mental vlan-vlan! Que grandes maganos!

A minha amiga alentejana, de minissaia, passeia pelas ruas dos trânsfugas em fuga. Esfrega-se pelas montras, malsetém nas pernas. Dá brincos. Vai e vem. Encosta-se ao meu ombro protector. Que amor!

De repente, o bom costume:
- Miguinho, não te esqueceste de fechar o gás? A minha amiga alentejana é a grande ternura que lhe tenho! Pode lá resistir-se a quem andou no varejo da azeitona e agora estende a mão senhoril aos velhos lambuzeiros de porta de livraria malcontendo o riso! Que o cunhado experimente vir buscar-ma já de olho nas pensões da Praça da Figueira! Que o aspirante rechine em missivas de alta fidelidade! Que a mãe perfile o seu luto severo nos umbrais! Que o bebé sobrinho se escame todo! Que a irmã empine a sua nova prenhez! Ninguém pode tirar-me a minha amiga alentejana, este meu acordar do lado da alegria, este delicioso desconchavo quotidiano em que abandalhei (e salvei!) os meus quarenta, esta minha (já póstuma!) elegia.


Alexandre O'Neill, As Andorinhas Não Têm Restaurante

a invenção do amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher e o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS
ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entretanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência


COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado


SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo

(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)


Daniel Filipe, a invenção do amor e outros poemas

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adolfo Casais Monteiro Adília Lopes Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Américo António Lindeza Diogo Ana Bessa Carvalho Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Martins Marques Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tecedeiro Ana Teresa Pereira Ana Tinoco Andreia C. Faria André Tomé Angélica Freitas António Amaral Tavares António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Aníbal Fernandes Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bruno Béu Bruno Sousa Villar Bénédicte Houart Camilo Castelo Branco Camilo Pessanha Carlos Alberto Machado Carlos Bessa Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Poças Falcão Carlos Soares Carlos de Oliveira Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Eduarda Chiote Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio Lisboa Eugénio de Andrade Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Hélia Correia Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Morais Varela Joana Serrado Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge Carrera Andrade Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga Jorge de Sena José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Miguel Silva José Mário Silva José Pascoal José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Maia João Manuel Ribeiro João Miguel Henriques João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Judith Teixeira Leitão de Barros Leonor Castro Nunes Luiza Neto Jorge Luís Miguel Nava Luís Quintais Madalena de Castro Campos Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel Fúria Manuel Gusmão Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Azenha Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Mergulhão Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Maria do Rosário Pedreira Maria Ângela Alvim Marta Chaves Matilde Campilho Mendes de Carvalho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Mário Cesariny Mário Contumélias Mário Dionísio Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário de Sá-Carneiro Mário-Henrique Leiria Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Patrícia Baltazar Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Loureiro Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Pedro Tiago Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raquel Serejo Martins Raul Malaquias Marques Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rosa Maria Martelo Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Costa Rui Cóias Rui Knopfli Rui Lage Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Andrade Sandra Costa Sebastião Alba Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Sílvio Mendes Tatiana Faia Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Teresa M. G. Jardim Tiago Araújo Tiago Gomes Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno gil t. sousa valter hugo mãe Ângelo de Lima

poemário dali

A. E. Housman Abbas Kiarostami Abel Feu Adelaide Ivánova Adrienne Rich Adélia Prado Agota Kristof Al Purdy Alberto Tugues Alda Merini Aldous Huxley Alejandra Pizarnik Alejandro Jodorowsky Alexander Demidov Alfredo Veiravé Alice Walker Allen Ginsberg Amalia Bautista Amiri Baraka Amy Lowell Amy M. Homes Ana Merino André Breton Andrés Trapiello Angela Carter Anis Mojgani Anna Akhmatova Anna Kamienska Anne Carson Anne Perrier Anne Sexton Antonia Pozzi Antonin Artaud Antonio Gamoneda Antonio Orihuela Antonio Pérez Morte Antonio Sáez Delgado Arnold Lobel Arseny Tarkovsky Arthur Rimbaud Basilio Sánchez Benjamín Prado Bernard-Marie Koltès Billy Collins Boris Vian Brett Elizabeth Jenkins Brian Andreas Brian Patten Carl Phillips Carl Sandburg Carlos Drummond de Andrade Carlos Edmundo de Ory Carlos Marzal Carmen Gloria Berríos Carol Ann Duffy Cecília Meireles Cesare Pavese Charles Baudelaire Charles Bukowski Charles Dana Gibson Charles M. Schulz Chen Bolan Christoph Wilhelm Aigner Clarice Lispector Constantino Cavafy Corey Zeller Countee Cullen Cristopher Painter Cristovam Pavia Czesław Miłosz Damien Sevhac Daniel Clowes Daniel Francoy Daniel Pennac Daphne Gottlieb David Bowie David Lagmanovich David Lehman Delia Brown Delmore Schwarts Derek Walcott Derrick Brown Diamanda Galás Diane Ackerman Djuna Barnes Don Herold Dorianne Laux Dorothea Lasky Dorothy Parker Douglas Huebler Dylan Thomas E. E. Cummings E. Ethelbert Miller E. M. Cioran Edgar Allan Poe Edna O'Brien Eduarda Chiote Eduardo Bechara Eeva-Liisa Manner Egito Gonçalves Eleanor Farjeon Elie Wiesel Elis Regina Elizabeth Bishop Elizabeth Ross Taylor Else Lasker-Schuler Elsie Wood Elías Moro Emily Dickinson Emily Kagan Trenchard Erin Dorsey Eunice de Souza Fabiano Calixto Federico Díaz-Granados Federico García Lorca Fernando Arrabal Fernando Caio de Abreu Fernando Echevarría Fernando Gandra Ferreira Gular Forough Farrokhzad Francisco Madariaga Frank O'Hara Frederico Pedreira Félix Grande G. K. Chesterton Gabriel Celaya Geir Gulliksen Georges Bataille Gerrit Komrij Giovanny Gómez Giánnis Ritsos Glória Gervitz Gottfried Benn Guillaume Apollinaire Gustavo Adolfo Bécquer Gustavo Ortiz Günter Kunert H. P. Lovecraft Hal Sirowitz Hans-Ulrich Treichel Harold Pinter Harvey Shapiro Heiner Müller Heinrich Heine Helen Mort Henri Béhar Henri Michaux Henry Rollins Hermann Hesse Hilda Hilst Hilde Domin Hoa Nguyen Hugh Mackay Hugo Williams Hugo von Hofmannsthal Ingeborg Bachmann Ingmar Heytze Isabel Meyrelles Isabelle McNeill J. M. Fonollosa J. R. R. Tolkien Jack Gilbert Jack Kerouac Jack Winter Jacques Lacan Jacques Prévert James L. White James Rogers James Tate Jane Hirshfield Janet Frame Jean Baudrillard Jean Day Jeanette Winterson Jenny Joseph Jenny Schecter Jesús Llorente Jim Carroll Joan Julier Buck Joan Margarit Jodi Picoult Johann Wolfgang Goethe Johannes Bobrowski John Ashbery John Giorno John Keats John Mateer John Updike Jonathan Littell Jonathan Safran Foer Jonathan Swift Jorge Amado Jorge Luis Borges Joseph Brodsky Joseph Cervavolo José Eduardo Agualusa José Gardeazabal José Mateos Juan José Millás Juan Ramón Jiménez Judith Herzberg Junko Takahashi Justine Hermitage József Attila Katerina Angheláki-Rooke Kathy Acker Kendra Grant Kenneth Patchen Kenneth Traynor Kosntandinos Kavafis Kristina H. Langston Hughes Larissa Szporluk Lauren Mendinueta Laurie Anderson Lawrence Ferlinghetti Leila Miccolis Leonard Cohen Leonardo Chioda Leonardo Da Vinci Leopoldo María Panero Lewis Carroll Lord Byron Lou Andreas-Salomé Lou Reed Louis Aragon Louis Buisseret Lourdes Espínola Lucía Estrada Luis Alberto de Cuenca Luis García Montero Luís Filipe Parrado Lêdo Ivo Lígia Reyes Malcolm Lowry Manoel de Barros Manuel Arana Marco Mackaaij Margaret Atwood Marianne Boruch Mariano Peyrou Marin Sorescu Marina Colasanti Martha Carolina Dávila Martin Amis Mary Elizabeth Frye Mary Jo Salter Mary Oliver Mary Ruefle María Sánchez Max Porter Medlar Lucan & Durian Gray Melissa Witcombe Mia Couto Michael Drayton Michel Carpassou Michel Houellebecq Miguel de Cervantes Miriam Reyes Mitch Albom Morgan Parker Muhammad al-Maghut Muriel Rukeyser Natsume Soseki Neil Gaiman Nicanor Parra Nichita Stanescu Nicole Blackman Nina Rizzi Octavio Paz Olga Orozco Omar Khayyam Osho Otávio Campos Pablo Fidalgo Lareo Pablo García Casado Pablo Neruda Pat Boran Patricia Beer Patti Smith Paul Géraldy Paul Theroux Paul Éluard Paulo Leminski Pentti Saaritsa Per Aage Brandt Pere Gimferrer Philip Larkin Philip Roth Philippe Wollney Pia Tafdrup Pier Paolo Pasolini Pierre Reverdy Piotr Sommer Rafael Alberti Rainer Maria Rilke Ramón Gómez de la Serna Raymond Carver Raymond Queneau Raúl Gustavo Aguirre Reinaldo Ferreira Reiner Kunze Richard Brautigan Richard Burton Roald Dahl Robert Creeley Robert Frost Roberto Bolaño Roberto Fernández Retamar Roberto Juarroz Robin Robertson Rod McKuen Roger Wolfe Ron Padgett Rosa Aliaga Ibañez Rosemarie Urquico Rubens Borba de Moraes Rudyard Kipling Russell Edson Ruth Stone Ryan Montanti Saiónji Sanekane Salman Rushdie Salvador Novo Sam Shepard Samuel Beckett Sandro Penna Santiago Nazarian Sei Shonagon Serge Gainsbourg Sharon Olds Shel Silverstein Silvia Chueire Silvia Ugidos Simone de Beauvoir Somerset Maugham Stephen Crane Stephen Wright Steve Mccaffery Stevie Smith Stuart Dischell Sue Goyette Susana Cabuchi Sylvia Plath T. S. Eliot Tai Fu Ku Tanya Davis Tati Bernard Tatianna Rei Moonshadow Tennessee Williams Thom Gunn Tiago Fabris Rendelli Tilly Strauss Tom Baker Tom Waits Toni Montesinos Gilbert Ulla Hahn Valentine de Saint-Point Vicente Aleixandre Victor Heringer Victor Prado Vincenzo Cardarelli Vinicius de Moraes Vladimir Maiakovski Vladimir Nabokov W. H. Auden Walt Whitman Warsan Shire William Blake William Butler Yeats William Carlos Williams William Shakespeare Winnie Meisler Winona Baker Wislawa Szymborska Yehuda Amichai Yohji Yamamoto Yoko Ono Yorgos Seferis Zee Avi liam ryan

livraria

. A Sul de Nenhum Norte . . Granta . Adolfo Bioy Casares . Al Berto . Alexandre O'Neill . Algernon Blackwood . Ali Smith . Alice Munro . Alice Turvo . Almanaque do Dr. Thackery . Anaïs Nin . Anita Brookner . Ann Beattie . Annemarie Schwarzenbach . Anton Tchekhov . António Ferra . António Lobo Antunes . Arthur Miller . Boris Vian . Bret Easton Ellis . Carlos de Oliveira . Carson McCullers . Charles Bukowski . Chuck Palahniuk . Clarice Lispector . Conde de Lautréamont . Cormac McCarthy . Cristiane Lisbôa . Donald Barthelme . Doris Lessing . Dulce Maria Cardoso . Edith Wharton . Eileen Chang . Elena Ferrante . Enrique Vila-Matas . Erasmo de Roterdão . Ernest Hemingway . Ernesto Sampaio . F. Scott Fitzgerald . Fernando Pessoa . Flannery O'Connor . Florbela Espanca . Franz Kafka . Françoise Sagan . Frida Kahlo . Gabriel García Márquez . Gonçalo M. Tavares . Graça Pina de Morais . Gustave Flaubert . Guy de Maupassant . Harold Pinter . Haruki Murakami . Henri Michaux . Herberto Hélder . Hunter S. Thompson . Irene Lisboa . Irène Némirovsky . Italo Calvino . J. D. Salinger . Jack Kerouac . James Joyce . Jean Cocteau . Jean Genet . Jean Meckert . Jean-Paul Sartre . Jeffrey Eugenides . Jim Cartwright . Joan Didion . John Cheever . Josep Pla . José Jorge Letria . José Saramago . Julian Barnes . Julio Cortázar . Karen Blixen . Kate Chopin . Katherine Mansfield . Kurt Vonnegut . Lillian Hellman . Luiz Pacheco . Luís Miguel Nava . Luís de Sttau Monteiro . Lydia Davis . Lygia Fagundes Telles . Lázaro Covadlo . Malcolm Lowry . Manuel Hermínio Monteiro . Manuel Jorge Marmelo . Marcel Proust . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Marguerite Yourcenar . Marina Tsvetáeva . Mark Lindquist . Marquis de Sade . Max Aub . Miguel Castro Henriques . Miguel Esteves Cardoso . Miguel Martins . Milan Kundera . Mário C. Brum . Mário-Henrique Leiria . Natalia Ginzburg . Neil Gaiman . Nick Cave . Norman Rush . Orhan Pamuk . Oscar Wilde . Paul Auster . Paulo Rodrigues Ferreira . Pedro Mexia . Penelope Fitzgerald . Pierre Louÿs . Rainer Maria Rilke . Rainer Werner Fassbinder . Raul Brandão . Ray Bradbury . Rebecca West . Regina Guimarães . Richard Yates . Roland Barthes . Roland Topor . Rolf Dieter Brinkmann . Rui Nunes . S. E. Hinton . Sam Shepard . Samuel Beckett . Sarah Kane . Sebastian Barry . Shirley Jackson . Stig Dagerman . Susan Sontag . Susana Moreira Marques . Sylvia Plath . Tennessee Williams . Teresa Veiga . Tom Baker . Truman Capote . Vasco Gato . Vera Lagoa . Vergílio Ferreira . Virginia Woolf . Vladimir Nabokov . William Faulkner . Woody Allen . Yasunari Kawabata . Yukio Mishima . valter hugo mãe .
page visitor counter

mariaravascosoares@gmail.com
ocinemadaoqueavidatira.tumblr.com