O terceiro e, provavelmente, o mais longo é aquele por baixo do qual se está sentado: o piano visto a partir de baixo, todo um mundo subaquático e subpianístico. Subaquático não apenas devido à música que fluía sobre a cabeça: por trás do nosso piano, entre ele e as janelas, tapadas pela sua massa negra, havia flores, palmeiras e filodendros que ele afastava e reflectia como um lago negro e que transformava o embutido que estava sob o piano num autêntico fundo aquático, com luz verde sobre os dedos e os rostos, e verdadeiras raízes que se podiam tocar com as mãos, e onde como enormes monstros se moviam silenciosamente os pés de minha mãe e os pedais.
Uma pergunta sensata: por que é que as flores estavam por detrás do piano? Para que fosse mais incómodo regá-las? (Com o carácter de minha mãe seria bem possível!) Mas desta combinação: água do piano e água de regar, mãos da minha mãe que tocavam e mãos que regavam, que vertiam alternada mente água ou música, o piano para mim ficou para sempre identificado com a água, com a água e a vegetação: com o ruí do das folhas e da água.
Isto, no que diz respeito às mãos de minha mãe, agora — os pés. Os pés da minha mãe eram seres que viviam independentes, fora de qualquer ligação com o extremo da sua larga saia negra.
(...)
Pobre mamã, como sofria por minha culpa e como nunca chegou a dar-se conta de que toda a minha «não musicalidade» era apenas uma música diferente!
O quarto piano é aquele em cima do qual estás: olha-lo e, olhando-o, entras nele, o mesmo que, com o decurso dos anos, ao contrário da entrada num rio e de toda a lei da profundidade, primeiro é mais alto que tu, depois chega-te à garganta (e é como se te cortasse a cabeça com o seu fio negro mais frio que uma faca!) depois ao peito, e depois, finalmente, a cintura. Olha-lo e, olhando-o, olhas-te a ti próprio fazendo coincidir, pouco a pouco, primeiro a ponta do nariz, depois a boca, depois a testa com a sua negra e dura frieza. (Por que será tão profundo e tão duro? Tão água e tão gelo? Tão sim e tão não?)
Mas, além da tentativa de penetrar no piano com o rosto, havia também uma simples travessura infantil: embaciá-lo, como ao vidro da janela, dar-se tempo de imprimir o nariz e a boca sobre o prateado oval mate da respiração que se apressa a desaparecer: o nariz fica como um pequeno focinho, e a boca absolutamente inchada, como se uma abelha a tivesse picado por todos os lados!, cheia de profundas estrias longitudinais, como uma flor, e duas vezes mais curta que na realidade, e duas vezes mais larga, desaparece imediatamente, fundindo-se com a negrura do piano, como se o piano tivesse devorado a minha boca.
E em certas ocasiões eu, por falta de tempo, tendo lançado um rápido olhar a todas as saídas da sala: até ao vestíbulo - um, para a sala de jantar - dois, para o salão - três, para o mezanino - quatro, por todas ao mesmo tempo, podia entrar a minha mãe, limitava-me a beijar o piano para sentir o seu frio sobre os lábios.
Não, não é possível mergulhar duas vezes no mesmo rio. E assim, do mais escuro fundo, vem até mim a cara redonda e perscrutadora de uma menina de cinco anos, sem sorriso algum, rosada ainda através da negrura, como um negro que mergulhou na aurora, ou uma rosa num tanque de tinta. O piano foi o meu primeiro espelho, e a primeira tomada de consciência do meu próprio rosto foi através da negrura, com a sua tradução para a negrura, como para uma língua obscura, mas compreensível.
Marina Tsvetaeva, O Diabo