Deixa passar oito minutos,
entra já às escuras, segue
o foco da lâmpada na
escuridão. Observa, se puderes, o traveling
a reflectir-se, trémulo,
em rostos desconhecidos.
Guarda o bilhete rectangular
no bolso do casaco e senta-te
na primeira fila, para que a vista arda. Depois respira
fundo. Sabes como funciona:
a verdade (e a mentira) em
24 imagens por segundo.
José Mário Silva, Poemas com Cinema
o foco da lâmpada na
escuridão. Observa, se puderes, o traveling
a reflectir-se, trémulo,
em rostos desconhecidos.
Guarda o bilhete rectangular
no bolso do casaco e senta-te
na primeira fila, para que a vista arda. Depois respira
fundo. Sabes como funciona:
a verdade (e a mentira) em
24 imagens por segundo.
José Mário Silva, Poemas com Cinema
dentro do meu corpo
Tu não me pertenceste - e, se uma vez acreditei que acontecias dentro do meu corpo, das outras vi-te abraçar a solidão com tanto ardor que concluí ser a memória quem te mantinha vivo...
Maria do Rosário Pedreira
Maria do Rosário Pedreira
Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.
Amalia Bautista
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.
Amalia Bautista
longe e acabado
Não tenho medo de sofás vazios
ficam na sala da minha lembrança
como adereços de uma vida acabada
Desde que te esqueci revive a esperança
Agora tenho outro à porta em certos dias
Deixo-o entrar levo-o para a minha cama
e passo-lhe a mão pelos cabelos
como tu me fazias
Gosto de ti como de um quadro de um poema
que o tempo torna nossos pessoais
Fazes parte de mim e tudo o mais
já está esquecido. Longe e acabado como tu.
Ulla Hahn, A sede entre os limites
ficam na sala da minha lembrança
como adereços de uma vida acabada
Desde que te esqueci revive a esperança
Agora tenho outro à porta em certos dias
Deixo-o entrar levo-o para a minha cama
e passo-lhe a mão pelos cabelos
como tu me fazias
Gosto de ti como de um quadro de um poema
que o tempo torna nossos pessoais
Fazes parte de mim e tudo o mais
já está esquecido. Longe e acabado como tu.
Ulla Hahn, A sede entre os limites
Desconfia dos que não fumam:
esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira subtil e disfarçada de suspirar.
Mário Quintana
Mário Quintana
nem tudo o que veio chegou por acaso
Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
Albano Martins
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
Albano Martins
o peso dos livros
Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.
Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.
E um hálito branco a querer ser página.
Filipa Leal
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.
Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.
E um hálito branco a querer ser página.
Filipa Leal
já dizia o vincent gallo (e com razão):
I don’t trust or love anyone. Because people are so creepy. Creepy creepy creeps. Creeping around. Creeping here and creeping there. Creeping everywhere. Crippity crappity creepies.
roteiro para um paraíso privado
Deitar-se alguma vez nos sulcos
do sono da noite anterior,
reconhecendo como um felino doméstico
o cheiro das nossas mantas. Não
lavar os dentes e sobretudo esquecer
de baixar as persianas. Coleccionar
pontas sucessivas de cigarros, jornais
de muitos ontens e rimas
de livros lidos só três paginas. Não
endireitar a curva daquele candeeiro,
deixar as gavetas abertas
com colírios, comprimidos e roupas
à vista. Amontoar em cima da cómoda
brincos ímpares, perfumes sem tampa, pequenos espelhos
quebrados, alfinetes, cartas, rascunhos
e chávenas de chá servido há dias, deixar
calar-se o CD com os lieder de Schumann
afastando os sapatos de muitos caminhos
e a roupa de todas as horas
Inês Lourenço
do sono da noite anterior,
reconhecendo como um felino doméstico
o cheiro das nossas mantas. Não
lavar os dentes e sobretudo esquecer
de baixar as persianas. Coleccionar
pontas sucessivas de cigarros, jornais
de muitos ontens e rimas
de livros lidos só três paginas. Não
endireitar a curva daquele candeeiro,
deixar as gavetas abertas
com colírios, comprimidos e roupas
à vista. Amontoar em cima da cómoda
brincos ímpares, perfumes sem tampa, pequenos espelhos
quebrados, alfinetes, cartas, rascunhos
e chávenas de chá servido há dias, deixar
calar-se o CD com os lieder de Schumann
afastando os sapatos de muitos caminhos
e a roupa de todas as horas
Inês Lourenço
falling in love
In fact a mature person does not fall in love, he rises in love. The word ’fall’ is not right. Only immature people fall; they stumble and fall down in love. Somehow they were managing and standing. They cannot manage and they cannot stand – they find a woman and they are gone, they find a man and they are gone. They were always ready to fall on the ground and to creep. They don’t have the backbone, the spine; they don’t have that integrity to stand alone.
A mature person has the integrity to be alone. And when a mature person gives love, he gives without any strings attached to it: he simply gives. And when a mature person gives love, he feels grateful that you have accepted his love, not vice versa. He does not expect you to be thankful for it – no, not at all, he does not even need your thanks. He thanks you for accepting his love. And when two mature persons are in love, one of the greatest paradoxes of life happens, one of the most beautiful phenomena: they are together and yet tremendously alone; they are together so much so that they are almost one. But their oneness does not destroy their individuality, in fact, it enhances it: they become more individual.
Two mature persons in love help each other to become more free. There is no politics involved, no diplomacy, no effort to dominate. How can you dominate the person you love? Just think over it. Domination is a sort of hatred, anger, enmity. How can you think of dominating a person you love? You would love to see the person totally free, independent; you will give him more individuality. That’s why I call it the greatest paradox: they are together so much so that they are almost one, but still in that oneness they are individuals. Their individualities are not effaced – they have become more enhanced. The other has enriched them as far as their freedom is concerned.
Immature people falling in love destroy each other’s freedom, create a bondage, make a prison. Mature persons in love help each other to be free; they help each other to destroy all sorts of bondages. And when love flows with freedom there is beauty. When love flows with dependence there is ugliness.
Osho
A mature person has the integrity to be alone. And when a mature person gives love, he gives without any strings attached to it: he simply gives. And when a mature person gives love, he feels grateful that you have accepted his love, not vice versa. He does not expect you to be thankful for it – no, not at all, he does not even need your thanks. He thanks you for accepting his love. And when two mature persons are in love, one of the greatest paradoxes of life happens, one of the most beautiful phenomena: they are together and yet tremendously alone; they are together so much so that they are almost one. But their oneness does not destroy their individuality, in fact, it enhances it: they become more individual.
Two mature persons in love help each other to become more free. There is no politics involved, no diplomacy, no effort to dominate. How can you dominate the person you love? Just think over it. Domination is a sort of hatred, anger, enmity. How can you think of dominating a person you love? You would love to see the person totally free, independent; you will give him more individuality. That’s why I call it the greatest paradox: they are together so much so that they are almost one, but still in that oneness they are individuals. Their individualities are not effaced – they have become more enhanced. The other has enriched them as far as their freedom is concerned.
Immature people falling in love destroy each other’s freedom, create a bondage, make a prison. Mature persons in love help each other to be free; they help each other to destroy all sorts of bondages. And when love flows with freedom there is beauty. When love flows with dependence there is ugliness.
Osho
mulher à janela
Está afundada na sua janela
contemplando as brasas do anoitecer, ainda possível.
Tudo se consumou no seu destino, inalterável a partir de agora,
tal como o mar num quadro,
e no entanto o céu continua a passar com as suas angélicas procissões.
Nenhum pato selvagem interrompeu o voo para oeste;
lá longe continuarão a florescer as ameixoeiras brancas, como se nada fosse,
e alguém há-de erguer a sua casa algures
sobre a poeira e o fumo de outra casa.
Inóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca mais.
Por uma fissura do coração sai um pássaro negro e é noite
-ou será um deus caído agonizando sobre o mundo?-,
mas ninguém o viu, ninguém sabe,
nem aquele que acredita que dos laços desfeitos nascem asas belíssimas,
os nós instantâneos do acaso, a aventura imortal,
embora cada pegada encerre com um selo todos os paraísos prometidos.
Ela ouviu em cada passo a condenação.
Agora não é mais do que uma mulher imóvel, alheada, na sua janela,
a simples arquitectura da sombra asilada na sua pele,
como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, um adeus,
tivessem sido o verdadeiro limite,
o abismo final entre uma mulher e um homem.
Olga Orozco
contemplando as brasas do anoitecer, ainda possível.
Tudo se consumou no seu destino, inalterável a partir de agora,
tal como o mar num quadro,
e no entanto o céu continua a passar com as suas angélicas procissões.
Nenhum pato selvagem interrompeu o voo para oeste;
lá longe continuarão a florescer as ameixoeiras brancas, como se nada fosse,
e alguém há-de erguer a sua casa algures
sobre a poeira e o fumo de outra casa.
Inóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca mais.
Por uma fissura do coração sai um pássaro negro e é noite
-ou será um deus caído agonizando sobre o mundo?-,
mas ninguém o viu, ninguém sabe,
nem aquele que acredita que dos laços desfeitos nascem asas belíssimas,
os nós instantâneos do acaso, a aventura imortal,
embora cada pegada encerre com um selo todos os paraísos prometidos.
Ela ouviu em cada passo a condenação.
Agora não é mais do que uma mulher imóvel, alheada, na sua janela,
a simples arquitectura da sombra asilada na sua pele,
como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, um adeus,
tivessem sido o verdadeiro limite,
o abismo final entre uma mulher e um homem.
Olga Orozco
tão pouco
Sondar
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas
Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo
Ser
um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência
Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco
Ernesto Sampaio, Feriados Nacionais
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas
Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo
Ser
um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência
Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco
Ernesto Sampaio, Feriados Nacionais
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade
não despertes o que não podes calar
Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas
a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma
não despertes o que não podes calar
José Tolentino Mendonça, A Noite Abre os Meus Olhos
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas
a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma
não despertes o que não podes calar
José Tolentino Mendonça, A Noite Abre os Meus Olhos
os mortos
Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.
Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles desprendendo-se de mim.
Manuel António Pina, Todas as Palavras
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.
Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles desprendendo-se de mim.
Manuel António Pina, Todas as Palavras
nunca te disse
Habito as distâncias
vivo dentro das distâncias
as tuas mãos, o teu rosto,
a claridade, que pelos teus olhos…
o mundo, que pelos teus olhos…
povoam as minhas distâncias.
Sabias?
Não. Ninguém sabe de ninguém os mundos
que cada um habita.
Falo-te. Nunca te disse.
em longas falas digo-te coisas tão particulares
de cada um de nós
de tudo em volta.
Das pequenas misérias diárias
dos pequenos nadas
do livro que se leu.
Do que se sente
do que se pressente
do que dói.
Das coisas diárias…
Do reparar nas coisas. A beleza das coisas.
Da harmonia do silêncio. A harmonia.
Das raízes sinuosas do afecto os inexplicáveis elos.
Tudo fica entre mim.
É quasi perfeito como diálogo, o nosso.
Que me responderias?
Que me poderias responder melhor
do que aquilo que te atribuo como resposta?
Na minha distância espero-te
sabendo que não sabendo tu que te espero
nunca virás.
É isso essencialmente a distância.
Aí preparo em cada dia especiais momentos
para a tua inexplicável chegada.
Maria Keil, Árvores de Domingo
vivo dentro das distâncias
as tuas mãos, o teu rosto,
a claridade, que pelos teus olhos…
o mundo, que pelos teus olhos…
povoam as minhas distâncias.
Sabias?
Não. Ninguém sabe de ninguém os mundos
que cada um habita.
Falo-te. Nunca te disse.
em longas falas digo-te coisas tão particulares
de cada um de nós
de tudo em volta.
Das pequenas misérias diárias
dos pequenos nadas
do livro que se leu.
Do que se sente
do que se pressente
do que dói.
Das coisas diárias…
Do reparar nas coisas. A beleza das coisas.
Da harmonia do silêncio. A harmonia.
Das raízes sinuosas do afecto os inexplicáveis elos.
Tudo fica entre mim.
É quasi perfeito como diálogo, o nosso.
Que me responderias?
Que me poderias responder melhor
do que aquilo que te atribuo como resposta?
Na minha distância espero-te
sabendo que não sabendo tu que te espero
nunca virás.
É isso essencialmente a distância.
Aí preparo em cada dia especiais momentos
para a tua inexplicável chegada.
Maria Keil, Árvores de Domingo
linhas de torres
O passado é um país estrangeiro,
só não sabíamos que o tinham ocupado
nalgum inverno ausente,
para nos exilarem da ternura
entretanto roída por um exército de traças.
Cruzando a fronteira,
a solidão tornou-se uma sala
de espera povoada por mais
calafrios além do nosso,
mas já não restam palavras
a essas conversas de fantasmas
entrincheiradas que ainda
temem a via-sacra da noite,
o sono a parar em cada estação.
A retirada terá de ser feita
de forma desordeira e irrecuperável,
dinamitando horizonte a horizonte.
E que a ilusão pague por fim
a sua dívida ao presente.
Inês Dias
só não sabíamos que o tinham ocupado
nalgum inverno ausente,
para nos exilarem da ternura
entretanto roída por um exército de traças.
Cruzando a fronteira,
a solidão tornou-se uma sala
de espera povoada por mais
calafrios além do nosso,
mas já não restam palavras
a essas conversas de fantasmas
entrincheiradas que ainda
temem a via-sacra da noite,
o sono a parar em cada estação.
A retirada terá de ser feita
de forma desordeira e irrecuperável,
dinamitando horizonte a horizonte.
E que a ilusão pague por fim
a sua dívida ao presente.
Inês Dias
Escrevo
para não dar um tiro na cabeça.
E até escrever
se transforma às vezes
num tiro na cabeça.
Antonio Orihuela
E até escrever
se transforma às vezes
num tiro na cabeça.
Antonio Orihuela
fica
Fica longe das pessoas de bom senso
fica perto dos apaixonados
nem que estejas só e não seja por ti
fica antes num luto perplexo
porque o bom senso é contagioso
e dá sempre cabo deles.
Judith Herzberg, O Que Resta do Dia
fica... fica no tropical, aí sogadinha
fica perto dos apaixonados
nem que estejas só e não seja por ti
fica antes num luto perplexo
porque o bom senso é contagioso
e dá sempre cabo deles.
Judith Herzberg, O Que Resta do Dia
fica... fica no tropical, aí sogadinha
um dia magoado
Este mundo é uma marmita
onde a vida se pega ao fundo.
Ninguém me disse que seria fácil
carregar com os esqueletos purulentos
e sentir na cara o ar doente,
as fungadelas de gozo que me assobiam aos ouvidos.
Se sou pura para tanto esterco,
se mesmo por baixo, em febre e lixada de dores,
o meu corpo é considerado de elevado valor,
porquê depois receber em cuspo e merda
por um serviço que todos sabem de falso pudor?
Assim vou acabar por perceber
que a minha mágoa e toda a amargura
é como um leite que ferve e já vem azedo.
Fernando Esteves Pinto, O Tempo que Falta
onde a vida se pega ao fundo.
Ninguém me disse que seria fácil
carregar com os esqueletos purulentos
e sentir na cara o ar doente,
as fungadelas de gozo que me assobiam aos ouvidos.
Se sou pura para tanto esterco,
se mesmo por baixo, em febre e lixada de dores,
o meu corpo é considerado de elevado valor,
porquê depois receber em cuspo e merda
por um serviço que todos sabem de falso pudor?
Assim vou acabar por perceber
que a minha mágoa e toda a amargura
é como um leite que ferve e já vem azedo.
Fernando Esteves Pinto, O Tempo que Falta
boring damned people
All over the earth. Propagating more boring damned people. What a horror show. The earth swarmed with them.
Charles Bukowski
Charles Bukowski
tímida e má
Fá-la tímida e má o ter de viver duas vidas, uma de imaginação, outra de realidade. Por isso tem o olhar desvairado para dentro, de quem segue um sonho e anda neste mundo por acaso.
Raul Brandão
Raul Brandão
é dentro do espírito que estão os tecidos amarrados
A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então delas senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração, se cruzam solitários
e agrestes, refectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas no terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
Luís Miguel Nava
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então delas senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração, se cruzam solitários
e agrestes, refectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas no terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
Luís Miguel Nava
Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...
— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?
Cecília Meireles
— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?
Cecília Meireles
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Abel Neves
Adolfo Casais Monteiro
Adília Lopes
Agustina Bessa-Luís
Al Berto
Albano Martins
Alberto Pimenta
Alexandra Malheiro
Alexandre Nave
Alexandre O'Neill
Alice Turvo
Alice Vieira
Almada Negreiros
Américo António Lindeza Diogo
Ana Bessa Carvalho
Ana C.
Ana Caeiro
Ana Cristina César
Ana Duarte
Ana Hatherly
Ana Luísa Amaral
Ana Marques Gastão
Ana Martins Marques
Ana Paula Inácio
Ana Salomé
Ana Tecedeiro
Ana Teresa Pereira
Ana Tinoco
Andreia C. Faria
André Tomé
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António Amaral Tavares
António Botto
António Dacosta
António Franco Alexandre
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António Gregório
António José Forte
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