Não adianta
pensar nas coisas
na sua mecânica
por menos caiu
Tróia e Jericó
viu as suas muralhas
no chão
Abre a janela
respira o ar
antes que seja tarde
ou o dia passe
ao largo
dos sentidos
Sai à rua
Podes nem
acreditar
há vida
para lá de tudo
isto
Mas caminha
com cuidado
não vá
uma andorinha
cagar-te no ombro
Manuel A. Domingos, Teorias
o diário
O diário é um produto de doença, talvez uma sua acentuação ou um seu exagero. Falo de alívio quando escrevo - possivelmente -, mas trata-se também de uma gravação de dor, de uma tatuagem em mim própria, de um prolongamento de dor.
Anaïs Nin
Anaïs Nin
se eu fosse um vídeo
I've had good times / with some bad guys / I've told whole lies / with a half smile / held your bare bones / with my clothes on / I've thrown rocks / that hit both my arms
não me repreendas
Estou triste esta manhã. Não me repreendas.
Escrevo-te de um café próximo da estação dos correios,
Entre os ruídos secos das bolas de bilhar, o retinir das loiças,
As batidas do meu coração.
Delmore Schwarts
Escrevo-te de um café próximo da estação dos correios,
Entre os ruídos secos das bolas de bilhar, o retinir das loiças,
As batidas do meu coração.
Delmore Schwarts
__________ se estiveres ausente
( automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade ), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua.
Maria Gabriela Llansol
Maria Gabriela Llansol
não quero nada
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Álvaro de Campos
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Álvaro de Campos
poetry is colder than death
We are and blind and live our blind lives out in blindness. Poets are damned but they are not blind, they see with the eyes of angels. [...] Ladies, we are going through the hell.
William Carlos Williams na introdução de Howl
William Carlos Williams na introdução de Howl
lermos juntos
Dantes eu fazia questão de ver filmes sozinho, para não ser interrompido ou influenciado.
Agora vejo todos os filmes com a Maria João e gosto tanto deles como das interrupções. Estamos sempre a falar através do filme, como espectadores italianos de cinema. Trocamos críticas instantâneas e torcemos tanto as memórias como o Google, para identificarmos intérpretes secundários.
Rimo-nos, discutimos e bem que nos divertimos. Um bom filme com duas horas pode levar quatro horas a ver. Se calhar, nunca chegamos a ver os filmes como os filmes mereceriam ser vistos. É mais provável que eles saiam beneficiados pela interacção. Se é belo mas conveniente vermos bons filmes a dois, lermos o mesmo livro ao mesmo tempo é ainda melhor.
Esta semana estamos a ler o luminoso The Examined Life, do psicanalista Stephen Grosz, em que ele descreve, com uma concisão e compreensão inteligentíssimas, as sessões mais elucidadoras de 25 anos de carreira e mais de 50 mil horas de conversa psicanalítica: é uma obra-prima.
Cada um lê sozinho cada capítulo: cada pessoa, mais do que cada história ou caso. Acertamos as velocidades. A Maria João lê o livro impresso, que sublinha com lápis e prazer. Eu leio o fantasma no Kindle.
Depois falamos do que acabámos de ler. É como se víssemos cada filme ao mesmo tempo, mas separadamente. Ficamos, a cada momento e no fim, muito perto de um paraíso terrestre e legível.
Lermos juntos é um regresso a uma unidade que nos antecede.
Miguel Esteves Cardoso, Público
Agora vejo todos os filmes com a Maria João e gosto tanto deles como das interrupções. Estamos sempre a falar através do filme, como espectadores italianos de cinema. Trocamos críticas instantâneas e torcemos tanto as memórias como o Google, para identificarmos intérpretes secundários.
Rimo-nos, discutimos e bem que nos divertimos. Um bom filme com duas horas pode levar quatro horas a ver. Se calhar, nunca chegamos a ver os filmes como os filmes mereceriam ser vistos. É mais provável que eles saiam beneficiados pela interacção. Se é belo mas conveniente vermos bons filmes a dois, lermos o mesmo livro ao mesmo tempo é ainda melhor.
Esta semana estamos a ler o luminoso The Examined Life, do psicanalista Stephen Grosz, em que ele descreve, com uma concisão e compreensão inteligentíssimas, as sessões mais elucidadoras de 25 anos de carreira e mais de 50 mil horas de conversa psicanalítica: é uma obra-prima.
Cada um lê sozinho cada capítulo: cada pessoa, mais do que cada história ou caso. Acertamos as velocidades. A Maria João lê o livro impresso, que sublinha com lápis e prazer. Eu leio o fantasma no Kindle.
Depois falamos do que acabámos de ler. É como se víssemos cada filme ao mesmo tempo, mas separadamente. Ficamos, a cada momento e no fim, muito perto de um paraíso terrestre e legível.
Lermos juntos é um regresso a uma unidade que nos antecede.
Miguel Esteves Cardoso, Público
quando nos apaixonamos
Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me.
Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distracção vivermos assim. Com tanta sorte.
Miguel Esteves Cardoso, Público
Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distracção vivermos assim. Com tanta sorte.
Miguel Esteves Cardoso, Público
o elogio do amor puro
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, Expresso
Miguel Esteves Cardoso, Expresso
a promiscuidade tira a vontade
O que é a experiência? Nada. É o número dos donos que se teve. Cada amante é uma coronhada. São mais mil no conta-quilómetros. A experiência é uma coisa que amarga e atrapalha. Não é um motivo de orgulho. É uma coisa que se desculpa. A experiência é um erro repetido e re-repetido até à exaustão. Se é difícil amar um enganador, mais difícil ainda é amar um enganado.
Desengane-se de vez a rapaziada. Nenhuma mulher gosta de um homem «experiente». O número de amantes anteriores é uma coisa que faz um bocadinho de nojo e um bocadinho de ciúme. O pudor que se exige às mulheres não é um conceito ultrapassado — é uma excelente ideia. Só que também se devia aplicar aos homens. O pudor valoriza. 0 sexo é uma coisa trivial. É por isso que temos de torná-lo especial. Ir para a cama com toda a gente é pouco higiénico e dispersa as energias. Os seres castos, que se reprimem e se guardam, tornam-se tigres quando se libertam. E só se libertam quando vale a pena. A castidade é que é «sexy». Nos homens como nas mulheres. A promiscuidade tira a vontade.
Uma mulher gosta de conquistar não o homem que já todas conquistaram, saquearam e pilharam, mas aquele que ainda nenhuma conseguiu tocar. O que é erótico é a resistência, a dificuldade e a raridade. Não é a «liberdade», a facilidade e a vulgaridade. Isto parece óbvio, mas é o contrário do que se faz e do que se diz. Porque será escandaloso dizer, numa época hippificada em que a virgindade é vergonhosa e o amor é bom por ser «livre», que as mulheres querem dos homens aquilo que os homens querem das mulheres? Ser conquistador é ser conquistado. Ninguém gosta de um ser conquistado. O que é preciso conquistar é a castidade.
Miguel Esteves Cardoso, As Minhas Aventuras na República Portuguesa
Desengane-se de vez a rapaziada. Nenhuma mulher gosta de um homem «experiente». O número de amantes anteriores é uma coisa que faz um bocadinho de nojo e um bocadinho de ciúme. O pudor que se exige às mulheres não é um conceito ultrapassado — é uma excelente ideia. Só que também se devia aplicar aos homens. O pudor valoriza. 0 sexo é uma coisa trivial. É por isso que temos de torná-lo especial. Ir para a cama com toda a gente é pouco higiénico e dispersa as energias. Os seres castos, que se reprimem e se guardam, tornam-se tigres quando se libertam. E só se libertam quando vale a pena. A castidade é que é «sexy». Nos homens como nas mulheres. A promiscuidade tira a vontade.
Uma mulher gosta de conquistar não o homem que já todas conquistaram, saquearam e pilharam, mas aquele que ainda nenhuma conseguiu tocar. O que é erótico é a resistência, a dificuldade e a raridade. Não é a «liberdade», a facilidade e a vulgaridade. Isto parece óbvio, mas é o contrário do que se faz e do que se diz. Porque será escandaloso dizer, numa época hippificada em que a virgindade é vergonhosa e o amor é bom por ser «livre», que as mulheres querem dos homens aquilo que os homens querem das mulheres? Ser conquistador é ser conquistado. Ninguém gosta de um ser conquistado. O que é preciso conquistar é a castidade.
Miguel Esteves Cardoso, As Minhas Aventuras na República Portuguesa
o amor é uma armadilha
O amor é o que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar?
Miguel Esteves Cardoso, Último Volume
Miguel Esteves Cardoso, Último Volume
o esquecimento não tem arte
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, Último Volume
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, Último Volume
voltando aos pandas
A única razão por que são raros deve-se à relutância em reproduzir-se. Não gostam de fornicar. São finos. Para mais, com aqueles olhos e aquele pêlo fofinho, deve ser muito bom fazer amor com um panda. Mas fazem-se esquisitos. Se calhar são vaidosos. Ou então sentem-se gordos. Se calhar, reproduziam-se mais se as pessoas lhes fornecessem t-shirts, para esconder a barriga. Como é que engordam tanto se só comem raminhos de bambu? De qualquer maneira, é gorduchos que ficam bem.
Miguel Esteves Cardoso, A Vida Inteira
Miguel Esteves Cardoso, A Vida Inteira
e as mulheres ainda se queixam que se diga mal delas
Apaga o cigarro como se o cigarro fosse o Carlos, esborrachando-o contra a esquina bicuda dum cinzeiro de vidro.
E volta para a cama. Quando puxa o edredon faz uma coisa inexplicável: sorri. Sorri! E as mulheres ainda se queixam que se diga mal delas. Francamente.
Pega outra vez no livro, lê duas linhas e adormece. Será que o amor dos desgraçados, por muito baixa que seja a estima em que se tenham, sossega as mulheres?
Talvez.
Miguel Esteves Cardoso, A Vida Inteira
E volta para a cama. Quando puxa o edredon faz uma coisa inexplicável: sorri. Sorri! E as mulheres ainda se queixam que se diga mal delas. Francamente.
Pega outra vez no livro, lê duas linhas e adormece. Será que o amor dos desgraçados, por muito baixa que seja a estima em que se tenham, sossega as mulheres?
Talvez.
Miguel Esteves Cardoso, A Vida Inteira
desde que nasci que sou assim
A Rita diz: «Então sempre vamos sair?» Odeio a facilidade com que as pessoas usam a palavra sempre. Como é que se pode sair sempre? Ainda é pior na interrogativa, como: «Sempre compraste o pastor alemão?» Era bom que, ao menos uma vez na vida, alguém tivesse o bom senso de responder «Sim, sempre comprei: desde que nasci que sou assim.»
Miguel Esteves Cardoso, A Vida Inteira
Miguel Esteves Cardoso, A Vida Inteira
«pipi»
Estive várias vezes nessa zona, mas nunca gostei. Comiam moelas. Se não sabem o que é, não perguntem. Virgínia Woolf morreu sem saber o que era um «pipi» e teve uma vida cheia. Embora as mulheres sejam boas a reconhecer vozes, têm todas uma costela de companhia aérea e gostam de obter confirmações.
dias entre dias e sobre dias
É aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores.
Vasco Gato
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores.
Vasco Gato
225 days under grass
and you know more than I.
they have long taken your blood,
you are a dry stick in a basket.
is this how it works?
in this room
the hours of love
still make shadows.
when you left
you took almost
everything.
I kneel in the nights
before tigers
that will not let me be.
what you were
will not happen again.
the tigers have found me
and I do not care.
Charles Bukowski, for Jane
they have long taken your blood,
you are a dry stick in a basket.
is this how it works?
in this room
the hours of love
still make shadows.
when you left
you took almost
everything.
I kneel in the nights
before tigers
that will not let me be.
what you were
will not happen again.
the tigers have found me
and I do not care.
Charles Bukowski, for Jane
her kind
I have ridden in your cart, driver,
waved my nude arms at villages going by,
learning the last bright routes, survivor
where your flames still bite my thigh
and my ribs crack where your wheels wind.
A woman like that is not ashamed to die.
I have been her kind.
Anne Sexton
Anne Sexton
as páginas / almofadas recheadas de sonhos
Deitas-te a meus pés
e as páginas passam a ser almofadas
recheadas de sonhos
e frutos
e nuvens
e acreditares
e palavras como as que nunca me disseste
Alexander Demidov
e as páginas passam a ser almofadas
recheadas de sonhos
e frutos
e nuvens
e acreditares
e palavras como as que nunca me disseste
Alexander Demidov
esta angústia que trago há séculos em mim
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma crença qualquer!
Por exemplo, a por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimos, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo ?
Estala, coração de vidro pintado!
Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Álvaro de Campos
palavras e ovos devem ser tratados com cuidado
Tem cuidado com as palavras,
mesmo com as milagrosas,
Pelas milagrosas fazemos o nosso melhor,
por vezes elas enxameiam como insectos
e deixam não uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão de confiança como a rocha
onde espetas o rabo.
E podem ser malmequeres ou feridas.
Mesmo assim, estou apaixonada pelas palavras.
São pombas a cair do tecto.
São seis laranjas sagradas sentadas no meu colo.
São as árvores, as pernas do verão
e o sol, a sua cara impetuosa.
Mas muitas vezes elas falham-me.
Há tanto que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc
Mas as palavras não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes eu voo como uma águia
Mas com as asas duma carriça.
Mas eu tento ter cuidado
e ser cuidadosa com elas.
Palavras e ovos devem ser tratados com cuidado.
Uma vez partidos são coisas impossíveis
de reparar.
Anne Sexton, trad. Maria Sousa
mesmo com as milagrosas,
Pelas milagrosas fazemos o nosso melhor,
por vezes elas enxameiam como insectos
e deixam não uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão de confiança como a rocha
onde espetas o rabo.
E podem ser malmequeres ou feridas.
Mesmo assim, estou apaixonada pelas palavras.
São pombas a cair do tecto.
São seis laranjas sagradas sentadas no meu colo.
São as árvores, as pernas do verão
e o sol, a sua cara impetuosa.
Mas muitas vezes elas falham-me.
Há tanto que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc
Mas as palavras não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes eu voo como uma águia
Mas com as asas duma carriça.
Mas eu tento ter cuidado
e ser cuidadosa com elas.
Palavras e ovos devem ser tratados com cuidado.
Uma vez partidos são coisas impossíveis
de reparar.
Anne Sexton, trad. Maria Sousa
se eu fosse um vídeo
this medicine you want / medicine you need /
medicine to get you on your feet / I feel weak
dentro de mim - cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, a vida...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Álvaro de Campos
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, a vida...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Fernando Pessoa, Poemas escolhidos de Álvaro de Campos
two roads
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveller, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost
And sorry I could not travel both
And be one traveller, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost
we alone
We are all born alone, die alone and, in spite of true romance magazines, we shall all someday look back on our lives and see that, in spite of our company, we were alone the whole way. I do not say lonely, at least, not all the time, but essentially, and finally, alone. This is what makes your self-respect so important and I don’t see how you can respect yourself if you must look in the hearts and minds of others for your happiness.
Hunter S. Thompson
Hunter S. Thompson
você é meu cristo redentor
Eu estou sempre viajando. Eu nunca conheço um lugar a fundo. Eu olho para você, vestindo as meias, e sinto em seu olhar fugidio a decepção. Você não pode se apaixonar. Por isso veio para cá. Por isso se entregou na primeira noite. Você sabe que sou um turista, que nosso amor é condenado, por isso fez sexo comigo. E agora que seus hormônios foram decantados, seu colo do útero preenchido, sobra apenas a decepção de não poder e nem querer nada mais. Uma mulher como você não foi feita para isso. Você veste as meias sentindo a decepção daquele vazio. Eu nunca vou poder te preencher.
Mas eu também não me satisfiz. Sou apenas um turista. Visito as cidades e passo por você. Passo por cima. Você é meu ponto turístico. Mas não te conheço a fundo, nem depois de pernas abertas, nem depois de ânimos e hormônios decantados. A gente pode visitar uma cidade e se hospedar num hotel. A gente pode visitar museus e comprar souvenires. A gente pode até penetrar numa moradora local. Mas só se sente realmente em casa quando experimenta uma vida inteira, e uma morte por lá.
Por isso eu mato.
Você é minha Torre de Pisa.
Trouxe você há poucas horas, durou pouco. Você não sabia, mas eu bem sei, bem sei que o sexo é apenas uma ponte para chegar lá. Uma forma de te conquistar. Uma desculpa para nos trancarmos entre essas quatro paredes, ficarmos a sós, sairmos da vista dos outros turistas, dos flashes dos orientais, as filas que não levam a lugar algum. Viemos rápido para cá. E este é meu lar tanto quanto seu, um quarto de hotel. Nada pessoal. Você observa ao redor sem nada a captar sobre mim. Eu não moro aqui.
Você nunca me leva para casa. Você nunca me mostra o lugar onde mora. Seria interessante aprender onde vive, como vive, onde vive a mulher que eu vou matar. Mas não é seguro. Nem pra mim nem pra você. Decidimos que o melhor é irmos a um quarto de hotel, meu quarto de hotel. Eu também não moro aqui, mas este quarto é mais meu.
Preciso perder esse péssimo hábito de beber as garrafas d’água do frigobar, encher com água da torneira e colocar de volta. Por que faço isso, afinal? Eu não vou mesmo pagar. Sempre deixo os hotéis antes que a camareira possa entrar. Tenho pena dela. Tenho pena da camareira. Faço uma baita sujeira. Queria ser um homem mais limpo. Queria a polidez dos habitantes locais. Queria um estrangulamento rápido e seco. Mas faço uma sujeira danada, e sangue, e facada, e bato a cabeça da mulher na parede, e na pia, no espelho, no banheiro, a mulher vomita. É uma nojeira. É sempre assim. Eu nunca consigo. Eu sempre me empolgo. Deve ser como o sexo. O sexo estético e inodoro dos filmes pornôs ruins, e o que a gente faz nessa casa, nesse lençol. Por mais que eu tome banho, por mais que eu prenda a respiração, há sempre o cheiro fétido, orgânico, persistente do ser humano.
Que nojo.
Não, deve ser como o sexo. Deve ser como o sexo, depois de satisfeito. Bate aquele arrependimento. E você não quer nem mais olhar, dormir com sua Mona Lisa do Louvre. As Meninas do Prado. Sente nojo dos seus pelos. Nojo, dos seus pelos. Deve ser como isso, o sexo como a morte. Deve ser por isso que, depois de feito, eu sempre me arrependo. Eu sempre acho que nunca precisarei mais. Um chaveirinho no corcovado. Mas com os hormônios repostos, lá vou eu novamente. Fazendo turismo sobre você.
Você é meu porto desejado.
Espero você virar o rosto e dizer. “Quando você parte mesmo?” Espero que você se importe. Que insista um pouco mais, mesmo sabendo que eu vou partir, que pergunte até que dia, se tem mais uma chance, se pode mais uma vez, para que eu também possa passear mais uma vez sobre você. Comer novamente aquele peixe de água doce. Dar mais uma volta na roda-gigante. Um último mergulho na praia, antes de a balsa partir. E você não pergunta. Você não pergunta? Se perguntar uma única vez, talvez eu possa deixar você partir. Se quiser saber um pouco mais, talvez também se aprofundar na minha gruta do diabo, eu possa deixar você sair, e voltar. Mas você, como sempre, nunca pergunta.
É que não foi tão bom assim. Eu sei. Você foi minha estação de esqui - interditada. Podemos nos aconchegar no hotel, podemos aproveitar o fondue e a lareira, mas não estamos fazendo o que viemos realmente fazer, não fazemos o que realmente queremos. Minha tempestade de neve. Não posso dissimular em sexo o que eu realmente queria de você. Queria penetrar ainda mais dentro, me aprofundar ainda mais fundo. A gente nunca conhece realmente uma pessoa, a não ser que passe uma vida inteira juntos...
Você se prepara para levantar. Colocou as meias, a saia, o tailleur. Está de costas para mim. Coloca os brincos. Você não vai me perguntar? Eu continuo nu, deitado na cama, eu não te mandei sair. Sou apenas um turista, um viajante, não tenho nada para fazer. Esses cenários não me interessam realmente. Os seus museus não me trouxeram até aqui. Pode me dar mais uma dica de restaurante? Talvez me convidar para jantar com você? Quando você sair, se você sair, eu ficarei só com a programação da TV. Ficarei ouvindo os estalos dos outros quartos, casais se preparando para o teatro, e eu me perguntando o que vim mesmo fazer aqui. O que vim mesmo fazer aqui? Se eu deixar você sair...
Quero ouvir a última frase que tem a dizer. Quero saber. Quero ouvir seu sotaque, e qual seria a última coisa que você diria, acreditando que eu a deixaria sair. Mas tenho medo. Sempre espero até o último momento, para ouvir como você vai se despedir; talvez dar uma última chance, uma única chance, talvez a chance de você querer me rever; mas você não diz; você não diz o que eu quero ouvir; e às vezes eu me arrependo de ter esperado tanto tempo só por um “boa viagem”, “aproveite”, “preciso ir”. Tudo o que ouvi já tantas vezes, na mesma inflexão, com o mesmo dialeto. Às vezes tenho medo de você fugir. Espero demais, e às vezes, às vezes... uma ou duas vezes, na verdade, você apenas abre a porta e sai, sem se despedir. Nem me dá tempo. Então tenho medo de esperar o que estiver por vir. Tenho medo de esperar por essa última frase e ela nunca chegar, você ir embora antes, batendo a porta em mim. Preciso ser mais cauteloso. Preciso esperar o momento certo. Preciso agir antes que tenha passado o momento, antes de dar chance de você fugir...
Suas costas são dunas para meu buggy capotar.
E na verdade têm o mesmo gosto, o mesmo dorso, o mesmo cheiro de uma mulher da Escandinávia, com um perfume da Itália, salgada pelo Atlântico. Todos os pontos turísticos são iguais, se você é o mesmo a visitar...
Isso está se tornando cansativo. Me pergunto qual é o objetivo afinal dessa viagem. Como uma excursão a Barcelona-Madrid, Bruxelas-Bruges, Paris-Antuérpia-Amsterdã-Eurodisney, tudo em quinze dias. Como posso conhecer seu mundo a fundo, se você já está assim, já indo? Seu tom pode ser mais pálido. Sua pele pode ser mais fina. Sua curvatura pode ser um pouco mais sinuosa, insinuante ou um pouco mais contínua, mas na verdade tem o mesmo gosto, o mesmo dorso, a mesma fotografia impressa em minha retina.
Quem me dera poder escrever um guia de viagem com a verdade implícita. Vasculho meus guias de viagem, procurando a verdade implícita. Entre as páginas, por trás do serviço, talvez algum autor-viajante tenha encontrado o que eu procuro. O que eu procuro? A verdade implícita. Talvez algum autor-viajante tenha encontrado. Vasculho por entre as páginas e penso se alguma mancha de sangue pode ter laqueado o que eu preciso. Mas não posso consultar isso enquanto ainda estou aqui, com você, enquanto ainda estamos no pós-coito, os sêmens flutuando pelo quarto, e a manipulação das páginas afiadas de um guia só seriam vistas por você como mera insegurança e inaptidão de um turista.
Ah... Você é minha Polícia da Imigração.
Todas as fronteiras estão abertas para mim. Você sabe, eles só temem aqueles que querem ficar. Os carimbos de ida e vinda, entrada e saída, depõem, estranhamente, a meu favor. Perceba, eles não querem mesmo que eu fique com você. Raízes seriam como algemas, há toda uma política interna a me libertar. Quanto mais eu fujo, mais me empurram para longe, mais varrem a sujeira para baixo do tapete, como se nosso sêmen, nosso sangue, não fosse problema deles.
Você é meu aquecimento global.
Você se levanta. E senta. Cata as roupas dispersas pelo quarto – como um incômodo. Os saltos. O sutiã. A camisa. Eu só posso assistir.
Os canais a cabo nunca mostram o que eu preciso. Os mesmos filmes, em todos os lugares; séries já em andamento, que eu nunca vou conseguir resgatar o sentido. Não importa para onde eu fuja, aonde me abrigue, onde quer que eu me esconda, as novelas serão mexicanas e os filmes de Hollywood...
Aperto o controle remoto. A televisão não acende. Aperto o controle remoto. Droga, não funciona. Sempre é bom ligar a televisão – programas de picar e fatiar vegetais em minutos – sempre é bom ter o ruído dos infomerciais para camuflar eventuais gritos. Preciso conter seu suspiro. Em seus soluços sentir-me seguro. Silêncio. Droga. Controle remoto sem pilhas.
Você se vira. “Se precisar de alguma coisa, tem meu telefone, não?”
Sim. Eu tenho. Você me anotou. Então é isso? É essa a despedida. É realmente uma despedida. Você está mesmo indo embora? É essa mesmo a última frase? É isso e depois a porta? Eu tenho seu telefone, você anotou para mim; mas você anotou antes do sexo, talvez agora esteja decepcionada. Talvez não queira mesmo que eu ligue. Talvez nunca quisesse, fosse só uma gentileza. Talvez você queira, e apenas deixe assim uma dica implícita, blasé. Como posso saber? Quais são os costumes locais? Qual é o guia de viagem sobre você? Me diga, como posso saber? Como posso ler em seus olhos, assim, puxados, estrábicos, claros, orientais, índigos-indianos, indígenas e moribundos? Como posso deixá-la sair assim, agora, com essa dúvida, se nem posso perguntar?
Você se vira novamente para frente. Costas para mim. Vai se levantar. Rápido. Eu. Rápido. Avanço sobre você com o cinto que se contorcia em minhas mãos e – uma volta, duas voltas – rápido, em volta de seu pescoço. Aperto.
Agora você se deu conta, minha Grande Esfinge de Gizé.
Você abre a boca para verbalizar, o que quer que seja. O que quer que seja, talvez você esteja apenas perdendo o ar. Eu aperto o cinto ainda mais forte, e ainda mais forte, e sinto a vida desprendendo-se toda de você. As cataratas do Niágara. Você abana as mãos tentando se prender ainda a ela, prende-la ainda em você.
Você é minha aurora boreal.
É rápido e fácil. Fácil e limpo. Eu falo, eu consigo. Em alguns segundos sua resistência cede, como seu corpo, fica sobre a cama. Eu relaxo o aperto e solto o cinto. Meus músculos flexores doem pelo esforço. Observo você – agora não mais – caída sobre a cama.
Agora estou sozinho...
Aos menos foi um serviço limpo.
Será que posso pedir serviço de quarto? Acho que vou ficar por aqui. Posso ligar para a recepção – deixe-me ver o cardápio – posso pedir um prato típico, a especialidade da casa. Mas os pratos de hotel são todos iguais...
O mensageiro nem iria perceber seu corpo morto sobre a cama. O mensageiro não iria querer bisbilhotar uma dama que dorme. Acabou de acontecer e seu corpo ainda é quente, morno. Suas maçãs ainda vermelhas, roxas. Posso pedir um jantar para nós dois. Uma garrafa de champagne ou um drinque típico. Mas os drinques são todos iguais; hoje em dia, qualquer país serve uma caipirinha. Estou tão cansado...
Algo pinga no banheiro aceso. Quartos ao lado abrem suas portas, batem. Pessoas chegam e partem, seguem para os espetáculos da noite. Acho que hoje vou ficar por aqui. Já perambulei demais por essa cidade. Se eu quiser serviço de quarto, preciso pedir agora.
Santiago Nazarian, in A Sul de Nenhum Norte
Mas eu também não me satisfiz. Sou apenas um turista. Visito as cidades e passo por você. Passo por cima. Você é meu ponto turístico. Mas não te conheço a fundo, nem depois de pernas abertas, nem depois de ânimos e hormônios decantados. A gente pode visitar uma cidade e se hospedar num hotel. A gente pode visitar museus e comprar souvenires. A gente pode até penetrar numa moradora local. Mas só se sente realmente em casa quando experimenta uma vida inteira, e uma morte por lá.
Por isso eu mato.
Você é minha Torre de Pisa.
Trouxe você há poucas horas, durou pouco. Você não sabia, mas eu bem sei, bem sei que o sexo é apenas uma ponte para chegar lá. Uma forma de te conquistar. Uma desculpa para nos trancarmos entre essas quatro paredes, ficarmos a sós, sairmos da vista dos outros turistas, dos flashes dos orientais, as filas que não levam a lugar algum. Viemos rápido para cá. E este é meu lar tanto quanto seu, um quarto de hotel. Nada pessoal. Você observa ao redor sem nada a captar sobre mim. Eu não moro aqui.
Você nunca me leva para casa. Você nunca me mostra o lugar onde mora. Seria interessante aprender onde vive, como vive, onde vive a mulher que eu vou matar. Mas não é seguro. Nem pra mim nem pra você. Decidimos que o melhor é irmos a um quarto de hotel, meu quarto de hotel. Eu também não moro aqui, mas este quarto é mais meu.
Preciso perder esse péssimo hábito de beber as garrafas d’água do frigobar, encher com água da torneira e colocar de volta. Por que faço isso, afinal? Eu não vou mesmo pagar. Sempre deixo os hotéis antes que a camareira possa entrar. Tenho pena dela. Tenho pena da camareira. Faço uma baita sujeira. Queria ser um homem mais limpo. Queria a polidez dos habitantes locais. Queria um estrangulamento rápido e seco. Mas faço uma sujeira danada, e sangue, e facada, e bato a cabeça da mulher na parede, e na pia, no espelho, no banheiro, a mulher vomita. É uma nojeira. É sempre assim. Eu nunca consigo. Eu sempre me empolgo. Deve ser como o sexo. O sexo estético e inodoro dos filmes pornôs ruins, e o que a gente faz nessa casa, nesse lençol. Por mais que eu tome banho, por mais que eu prenda a respiração, há sempre o cheiro fétido, orgânico, persistente do ser humano.
Que nojo.
Não, deve ser como o sexo. Deve ser como o sexo, depois de satisfeito. Bate aquele arrependimento. E você não quer nem mais olhar, dormir com sua Mona Lisa do Louvre. As Meninas do Prado. Sente nojo dos seus pelos. Nojo, dos seus pelos. Deve ser como isso, o sexo como a morte. Deve ser por isso que, depois de feito, eu sempre me arrependo. Eu sempre acho que nunca precisarei mais. Um chaveirinho no corcovado. Mas com os hormônios repostos, lá vou eu novamente. Fazendo turismo sobre você.
Você é meu porto desejado.
Espero você virar o rosto e dizer. “Quando você parte mesmo?” Espero que você se importe. Que insista um pouco mais, mesmo sabendo que eu vou partir, que pergunte até que dia, se tem mais uma chance, se pode mais uma vez, para que eu também possa passear mais uma vez sobre você. Comer novamente aquele peixe de água doce. Dar mais uma volta na roda-gigante. Um último mergulho na praia, antes de a balsa partir. E você não pergunta. Você não pergunta? Se perguntar uma única vez, talvez eu possa deixar você partir. Se quiser saber um pouco mais, talvez também se aprofundar na minha gruta do diabo, eu possa deixar você sair, e voltar. Mas você, como sempre, nunca pergunta.
É que não foi tão bom assim. Eu sei. Você foi minha estação de esqui - interditada. Podemos nos aconchegar no hotel, podemos aproveitar o fondue e a lareira, mas não estamos fazendo o que viemos realmente fazer, não fazemos o que realmente queremos. Minha tempestade de neve. Não posso dissimular em sexo o que eu realmente queria de você. Queria penetrar ainda mais dentro, me aprofundar ainda mais fundo. A gente nunca conhece realmente uma pessoa, a não ser que passe uma vida inteira juntos...
Você se prepara para levantar. Colocou as meias, a saia, o tailleur. Está de costas para mim. Coloca os brincos. Você não vai me perguntar? Eu continuo nu, deitado na cama, eu não te mandei sair. Sou apenas um turista, um viajante, não tenho nada para fazer. Esses cenários não me interessam realmente. Os seus museus não me trouxeram até aqui. Pode me dar mais uma dica de restaurante? Talvez me convidar para jantar com você? Quando você sair, se você sair, eu ficarei só com a programação da TV. Ficarei ouvindo os estalos dos outros quartos, casais se preparando para o teatro, e eu me perguntando o que vim mesmo fazer aqui. O que vim mesmo fazer aqui? Se eu deixar você sair...
Quero ouvir a última frase que tem a dizer. Quero saber. Quero ouvir seu sotaque, e qual seria a última coisa que você diria, acreditando que eu a deixaria sair. Mas tenho medo. Sempre espero até o último momento, para ouvir como você vai se despedir; talvez dar uma última chance, uma única chance, talvez a chance de você querer me rever; mas você não diz; você não diz o que eu quero ouvir; e às vezes eu me arrependo de ter esperado tanto tempo só por um “boa viagem”, “aproveite”, “preciso ir”. Tudo o que ouvi já tantas vezes, na mesma inflexão, com o mesmo dialeto. Às vezes tenho medo de você fugir. Espero demais, e às vezes, às vezes... uma ou duas vezes, na verdade, você apenas abre a porta e sai, sem se despedir. Nem me dá tempo. Então tenho medo de esperar o que estiver por vir. Tenho medo de esperar por essa última frase e ela nunca chegar, você ir embora antes, batendo a porta em mim. Preciso ser mais cauteloso. Preciso esperar o momento certo. Preciso agir antes que tenha passado o momento, antes de dar chance de você fugir...
Suas costas são dunas para meu buggy capotar.
E na verdade têm o mesmo gosto, o mesmo dorso, o mesmo cheiro de uma mulher da Escandinávia, com um perfume da Itália, salgada pelo Atlântico. Todos os pontos turísticos são iguais, se você é o mesmo a visitar...
Isso está se tornando cansativo. Me pergunto qual é o objetivo afinal dessa viagem. Como uma excursão a Barcelona-Madrid, Bruxelas-Bruges, Paris-Antuérpia-Amsterdã-Eurodisney, tudo em quinze dias. Como posso conhecer seu mundo a fundo, se você já está assim, já indo? Seu tom pode ser mais pálido. Sua pele pode ser mais fina. Sua curvatura pode ser um pouco mais sinuosa, insinuante ou um pouco mais contínua, mas na verdade tem o mesmo gosto, o mesmo dorso, a mesma fotografia impressa em minha retina.
Quem me dera poder escrever um guia de viagem com a verdade implícita. Vasculho meus guias de viagem, procurando a verdade implícita. Entre as páginas, por trás do serviço, talvez algum autor-viajante tenha encontrado o que eu procuro. O que eu procuro? A verdade implícita. Talvez algum autor-viajante tenha encontrado. Vasculho por entre as páginas e penso se alguma mancha de sangue pode ter laqueado o que eu preciso. Mas não posso consultar isso enquanto ainda estou aqui, com você, enquanto ainda estamos no pós-coito, os sêmens flutuando pelo quarto, e a manipulação das páginas afiadas de um guia só seriam vistas por você como mera insegurança e inaptidão de um turista.
Ah... Você é minha Polícia da Imigração.
Todas as fronteiras estão abertas para mim. Você sabe, eles só temem aqueles que querem ficar. Os carimbos de ida e vinda, entrada e saída, depõem, estranhamente, a meu favor. Perceba, eles não querem mesmo que eu fique com você. Raízes seriam como algemas, há toda uma política interna a me libertar. Quanto mais eu fujo, mais me empurram para longe, mais varrem a sujeira para baixo do tapete, como se nosso sêmen, nosso sangue, não fosse problema deles.
Você é meu aquecimento global.
Você se levanta. E senta. Cata as roupas dispersas pelo quarto – como um incômodo. Os saltos. O sutiã. A camisa. Eu só posso assistir.
Os canais a cabo nunca mostram o que eu preciso. Os mesmos filmes, em todos os lugares; séries já em andamento, que eu nunca vou conseguir resgatar o sentido. Não importa para onde eu fuja, aonde me abrigue, onde quer que eu me esconda, as novelas serão mexicanas e os filmes de Hollywood...
Aperto o controle remoto. A televisão não acende. Aperto o controle remoto. Droga, não funciona. Sempre é bom ligar a televisão – programas de picar e fatiar vegetais em minutos – sempre é bom ter o ruído dos infomerciais para camuflar eventuais gritos. Preciso conter seu suspiro. Em seus soluços sentir-me seguro. Silêncio. Droga. Controle remoto sem pilhas.
Você se vira. “Se precisar de alguma coisa, tem meu telefone, não?”
Sim. Eu tenho. Você me anotou. Então é isso? É essa a despedida. É realmente uma despedida. Você está mesmo indo embora? É essa mesmo a última frase? É isso e depois a porta? Eu tenho seu telefone, você anotou para mim; mas você anotou antes do sexo, talvez agora esteja decepcionada. Talvez não queira mesmo que eu ligue. Talvez nunca quisesse, fosse só uma gentileza. Talvez você queira, e apenas deixe assim uma dica implícita, blasé. Como posso saber? Quais são os costumes locais? Qual é o guia de viagem sobre você? Me diga, como posso saber? Como posso ler em seus olhos, assim, puxados, estrábicos, claros, orientais, índigos-indianos, indígenas e moribundos? Como posso deixá-la sair assim, agora, com essa dúvida, se nem posso perguntar?
Você se vira novamente para frente. Costas para mim. Vai se levantar. Rápido. Eu. Rápido. Avanço sobre você com o cinto que se contorcia em minhas mãos e – uma volta, duas voltas – rápido, em volta de seu pescoço. Aperto.
Agora você se deu conta, minha Grande Esfinge de Gizé.
Você abre a boca para verbalizar, o que quer que seja. O que quer que seja, talvez você esteja apenas perdendo o ar. Eu aperto o cinto ainda mais forte, e ainda mais forte, e sinto a vida desprendendo-se toda de você. As cataratas do Niágara. Você abana as mãos tentando se prender ainda a ela, prende-la ainda em você.
Você é minha aurora boreal.
É rápido e fácil. Fácil e limpo. Eu falo, eu consigo. Em alguns segundos sua resistência cede, como seu corpo, fica sobre a cama. Eu relaxo o aperto e solto o cinto. Meus músculos flexores doem pelo esforço. Observo você – agora não mais – caída sobre a cama.
Agora estou sozinho...
Aos menos foi um serviço limpo.
Será que posso pedir serviço de quarto? Acho que vou ficar por aqui. Posso ligar para a recepção – deixe-me ver o cardápio – posso pedir um prato típico, a especialidade da casa. Mas os pratos de hotel são todos iguais...
O mensageiro nem iria perceber seu corpo morto sobre a cama. O mensageiro não iria querer bisbilhotar uma dama que dorme. Acabou de acontecer e seu corpo ainda é quente, morno. Suas maçãs ainda vermelhas, roxas. Posso pedir um jantar para nós dois. Uma garrafa de champagne ou um drinque típico. Mas os drinques são todos iguais; hoje em dia, qualquer país serve uma caipirinha. Estou tão cansado...
Algo pinga no banheiro aceso. Quartos ao lado abrem suas portas, batem. Pessoas chegam e partem, seguem para os espetáculos da noite. Acho que hoje vou ficar por aqui. Já perambulei demais por essa cidade. Se eu quiser serviço de quarto, preciso pedir agora.
Santiago Nazarian, in A Sul de Nenhum Norte
todas as noites
Todas as noites
procuras escrever
um ou dois
versos
Hoje
essa hipótese
foi
por água
abaixo
Na televisão
alguém promete
bons
resultados
num redutor
abdominal
Manuel A. Domingos, Teorias
procuras escrever
um ou dois
versos
Hoje
essa hipótese
foi
por água
abaixo
Na televisão
alguém promete
bons
resultados
num redutor
abdominal
Manuel A. Domingos, Teorias
yes, I read
I have that absurd habit. I like beautiful poems, moving poetry, and all the beyond of that poetry.
I am extraordinarily sensitive to those poor, marvelous words left in our dark night by a few men I never knew.
Louis Aragon, Treatise on Style
I am extraordinarily sensitive to those poor, marvelous words left in our dark night by a few men I never knew.
Louis Aragon, Treatise on Style
uma desarrumação no cabelo
Havia uma desarrumação no cabelo, se tinha
calções eles caíam; puxava-os para cima, não
me penteava.
Se alguma trégua fiz com a infância foi esta:
ainda não uso pente, os calções são calças,
mas continuam a cair. Por delicadeza,
puxo-as para cima.
Gonçalo M. Tavares
calções eles caíam; puxava-os para cima, não
me penteava.
Se alguma trégua fiz com a infância foi esta:
ainda não uso pente, os calções são calças,
mas continuam a cair. Por delicadeza,
puxo-as para cima.
Gonçalo M. Tavares
in a cotton slip, barefoot, giggling
Death comes to me again, a girl
in a cotton slip, barefoot, giggling.
It’s not so terrible she tells me,
not like you think, all darkness
and silence. There are windchimes
and the smell of lemons, some days
it rains, but more often the air is dry
and sweet. I sit beneath the staircase
built from hair and bone and listen
to the voices of the living. I like it,
she says, shaking the dust from her hair,
especially when they fight, and when they sing.
Dorianne Laux, A Girl
in a cotton slip, barefoot, giggling.
It’s not so terrible she tells me,
not like you think, all darkness
and silence. There are windchimes
and the smell of lemons, some days
it rains, but more often the air is dry
and sweet. I sit beneath the staircase
built from hair and bone and listen
to the voices of the living. I like it,
she says, shaking the dust from her hair,
especially when they fight, and when they sing.
Dorianne Laux, A Girl
there is a street
There is a street where they sell only red meat
And there is a street where they sell only clothes and perfumes. And there
is a day when I see only cripples and the blind
And those covered with leprosy, and spastics and those with twisted lips.
Here they build a house and there they destroy
Here they dig into the earth
And there they dig into the sky,
Here they sit and there they walk
Here they hate and there they love.
But he who loves Jerusalem
By the tourist book or the prayer book
is like one who loves a women
By a manual of sex positions.
Yehuda Amichai, Love of Jerusalem
And there is a street where they sell only clothes and perfumes. And there
is a day when I see only cripples and the blind
And those covered with leprosy, and spastics and those with twisted lips.
Here they build a house and there they destroy
Here they dig into the earth
And there they dig into the sky,
Here they sit and there they walk
Here they hate and there they love.
But he who loves Jerusalem
By the tourist book or the prayer book
is like one who loves a women
By a manual of sex positions.
Yehuda Amichai, Love of Jerusalem
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Egito Gonçalves
Ernesto Sampaio
Eugénio Lisboa
Eugénio de Andrade
Fernando Assis Pacheco
Fernando Esteves Pinto
Fernando Lemos
Fernando Pessoa
Fernando Pinto do Amaral
Fiama Hasse Pais Brandão
Filipa Leal
Filipe Homem Fonseca
Florbela Espanca
Frederico Pedreira
Golgona Anghel
Gonçalo M. Tavares
Helder Moura Pereira
Helena Carvalho
Helga Moreira
Henrique Manuel Bento Fialho
Henrique Risques Pereira
Herberto Hélder
Hélia Correia
Inês Dias
Inês Fonseca Santos
Inês Lourenço
Isabel Meyrelles
Joana Morais Varela
Joana Serrado
Joaquim Manuel Magalhães
Joaquim Pessoa
Jorge Carrera Andrade
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Jorge de Sena
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José Manuel de Vasconcelos
José Miguel Silva
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José Saramago
José Sebag
José Tolentino Mendonça
João Almeida
João Bénard da Costa
João Cabral de Melo Neto
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João Luís Barreto Guimarães
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João Manuel Ribeiro
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João Pacheco
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João Rodrigues
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Judith Teixeira
Leitão de Barros
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Madalena de Castro Campos
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Manuel A. Domingos
Manuel António Pina
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Manuel Fúria
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Manuel da Silva Ramos
Manuel de Castro
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Marcelino Vespeira
Margarida Vale de Gato
Maria Azenha
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