mulheres

Mulheres, ainda que sejam primas, foram, são, e hão-se ser, cada vez mais, a máxima formosura deste planeta. Se as tiram de cá, isto é imundo, a vida é um desterro, e a vaidade, o coração, a bravura, o talento, a glória são palavras sem significação. O que restaria? Um enxame de bípedes, gatinhando numa bola, feiamente achatada para os polos, cousa ridícula que fez dar risadas estrondosas àqueles Micromegas da estrela Sírio, de que fala Voltaire.


Camilo Castelo Branco, Duas Horas de Leitura

que tenha ficado esclarecido

hysterical literature


Clayton Cubitt


sem querer ferir susceptibilidades. desculpem lá qualquer coisinha

o infortúnio de amar

Um dia sem os olhos dele, e ela morre.
Rapariguinha de Nevers.
Pequena sedutora de Nevers.
Um dia sem as mãos dele, e ela acredita no infortúnio de amar.
Rapariguinha sem importância.
Morta de amor em Nevers.
Pequena tosquiada de Nevers, voto-te esta noite ao esquecimento.
História sem importância.
Como com ele, o esquecimento começará pelos teus olhos.
Da mesma maneira.
Depois, como com ele, o esquecimento levará a tua voz.
Da mesma maneira.
Depois, como com ele, arrebatar-te-á inteiramente, pedaço a pedaço.
Reduzir-te-ás a uma canção.


Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor

um pouco cansada

   Estão os dois sob o chuveiro do quarto do hotel.
   Estão alegres.
   Ele põe a mão sobre a fronte dela, de tal maneira que lhe dobra a cabeça para trás.

ELE - És uma bela mulher, sabias?
ELA - Achas?
ELE - Acho.
ELA - Um pouco cansada, não?

     Ele acaricia-lhe a face, até a deformar. Ri.

ELE - Um pouco feia.

     Ela sorri à carícia dele.

ELA - E não te importas?
ELE - Foi o que notei ontem à noite, no café: o teu modo de ser feia. Além disso...
ELA (completamente abandonada) - Além disso...
ELE - Como tu te aborrecias!

     Ela tem um gesto de curiosidade.

ELA - Continua...
ELE - Tu aborrecias-te daquela maneira que desperta nos homens vontade de conhecer uma mulher.

     Ela sorri, baixa os olhos.


Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor

bem me dizias tu que as mulheres cansadas são as mais bonitas

a memória do esquecimento

ELA (baixo) - ... Ouve.
Como tu, eu sei o que é o esquecimento.

ELE - Não, tu não sabes o que é o esquecimento.

ELA - Como tu, também eu sou dotada de memória. Conheço o esquecimento.

ELE - Não, tu não és dotada de memória.

ELA - Como tu, também eu tentei lutar com todas as minhas forças contra o esquecimento. Como tu, esqueci. Como tu, desejei ter uma memória inconsolável, uma memória de sombras e de pedra.


Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor


o regresso a livros bonitos com capas bonitas e com estórias angustiantes como se fossem cartas de amor porque quanto mais deprimente: melhor

the people you love

© Robert Montgomery

Lisboa: Alexandre e Eu

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.
Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em direcção ao mar.
Dorme, e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfalto.

Para trás ficou a cidade.
E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem sequer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã, ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente, a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas, estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo.
E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:
- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada.
Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama.
Ponho os óculos, e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas...

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras.
Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.

Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez.
Por isso bebo.
Beber, ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de no perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs.
- Aí vem o 28 dos Prazeres... e um táxi.
- Não me abandones, fica...
E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos “A Dança” de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.
Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho, por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar...

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, os dias... o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento a tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era.
Por vezes, quando nos sentimos morrer vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar.
Passamos a vida numa espécie de silêncio, numa nudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.
Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia disseste:
- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.
Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia-dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de-amêndoa que te diga:
- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.
Repara, através dos meus olhos descobrirás como é grande a tristeza do mundo. Apenas isso. E quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.
Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez...

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite.
O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão.
Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.
Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos nos escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.
As mãos queimadas, memória da tua passagem.

Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite.
Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensangüentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros.
O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema.
Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.


Al Berto, texto escrito para Alexandre Matos, Lisboa 1994

este senhor conta melhor a coisa

cem anos de perdão

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.
Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.
Começou assim. Numa dessas brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.
Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.
Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.
O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom.
Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.
Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.


Clarice Lispector

um presente da doce maria

this is the kind of thing you see

Love blurs your vision; but after it recedes, you can see more clearly than ever. It’s like the tide going out, revealing whatever’s been thrown away and sunk: broken bottles, old gloves, rusting pop cans, nibbled fishbodies, bones. This is the kind of thing you see if you sit in the darkness with open eyes, not knowing the future. The ruin you’ve made.


Margaret Atwood, Cat's Eye

when I am lonely for boys

When I am lonely for boys it's their bodies I miss. I study their hands lifting the cigarettes... the slope of a shoulder, the angle of a hip. Looking at them sideways, I examine them in different lights. My love for them is visual; that is the part of them I would like to possess. Don't move, I think. Stay like that. Let me have that. What power they have over me is held through the eyes.


Margaret Atwood, Cat's Eye

os livros são objectos transcendentes



os livros são objectos transcendentes / mas podemos amá-los do amor táctil / que votamos aos maços de cigarros / domá-los, cultivá-los em aquários, / em estantes, gaiolas, em fogueiras / ou lançá-los pra fora das janelas / talvez isso nos livre de lançarmo-nos

women

Women have curious ways of hurting someone else. They hurt themselves instead; or else they do it so the guy doesn't even know he's been hurt until much later. Then he finds out. Then his dick falls off.


Margaret Atwood, The Blind Assassin

if you knew

If you knew what was going to happen, if you knew everything that was going to happen next, if you knew in advance the consequences of your own actions, you'd be doomed. You'd be ruined as God. You'd be a stone. You'd never eat or drink or laugh or get out of bed in the morning.
You'd never dare to.


Margaret Atwood, The Blind Assassin

gone mad

Gone mad is what they say, and sometimes Run mad, as if mad is a different direction, like west; as if mad is a different house you could step into, or a separate country entirely. But when you go mad you don't go any other place, you stay where you are. And somebody else comes in.


Margaret Atwood, Alias Grace

many dangerous things

Because you may think a bed is a peaceful thing, Sir, and to you it may mean rest and comfort and a good night's sleep. But it isn't so for everyone; and there are many dangerous things that may take place in a bed.


Margaret Atwood, Alias Grace

mulheres em queda

Amor?, disse o Comandante.

Assim está melhor. Isso é uma coisa que eu conheço. Podemos falar disso.

Apaixonar-se, disse eu. Perder-se de amores, aconteceu a todos, de uma maneira ou outra. Como podia ele fazer daquilo uma coisa tão ligeira? Desdenhar, até. Como se para nós fosse trivial, um acessório, um capricho. Pelo contrário, era uma coisa de peso. Era o pontapé fulcral; era a maneira como a pessoa se compreendia a si própria; se nunca tinha acontecido a alguém, nunca, essa pessoa era como um mutante, uma criatura do espaço. Toda a gente sabia isso.

Apaixonar-se, dizíamos nós; estou caidinha por ele. Éramos mulheres em queda. Acreditávamos nisso, nesse movimento descendente: que adorável, era como voar, e, no entanto, ao mesmo tempo, era tão calamitoso, tão radical, tão improvável. Deus é amor, dizia-se em tempos, mas nós invertemos isso, e o amor, como o Paraíso, estava sempre ao virar da esquina. Quanto mais difícil fosse amar aquele homem em particular que estava ao nosso lado, mais nós acreditávamos no Amor, abstracto e total. Estávamos à espera, sempre, da encarnação. Dessa palavra, feita carne.


Margaret Atwood, A História de Uma Serva

ataque de sentimentalismo

Há dias em que aprecio mais as coisas, os ovos, as flores, mas depois decido que estou a ter um ataque de sentimentalismo, que o meu cérebro se está a transformar em papel tecnicolor, como aqueles cartões com os lindos pores do sol que eles faziam em tão grande quantidade na Califórnia. Corações com muito brilho.
O perigo é um cinzento a esvair-se.


Margaret Atwood, A História de Uma Serva

uma característica terna:

Não acreditava que ele fosse um monstro. Não era um monstro para ela. Provavelmente, tinha alguma característica terna: assobiava, desafinado, no duche, tinha um fraquinho por trufas, chamava Liebchen ao cão e fazia-o sentar-se para lhe dar pedacinhos de bife cru. Como é fácil inventar uma humanidade, seja a quem for. Que tentação disponível. Uma criança grande, teria ela dito para consigo. O seu coração teria derretido, ela ter-lhe-ia afastado o cabelo da testa, beijado na orelha e não apenas para conseguir alguma coisa dele. O instinto de acalmar, de tornar as coisas melhores. Pronto, pronto, diria ela, quando ele acordava de um pesadelo. As coisas são tão difíceis para ti. Teria acreditado em todas estas coisas, porque, de outra forma, como poderia ter continuado a viver?


Margaret Atwood, A História de Uma Serva

há tempo de sobra

É uma das coisas para as quais não estava preparada: a quantidade de tempo por preencher, o longo parêntesis de nada. O tempo é como um som branco. Se ao menos soubesse bordar. Tecer, tricotar, algo relacionado com as mãos. Quero um cigarro. Lembro-me de andar em galerias de arte, a atravessar o século XIX: a obsessão que tinha então por haréns, por mulheres gordas refasteladas em divãs, com turbantes na cabeça ou toucas de veludo, a serem abanadas por caudas de pavão, um eunuco ao fundo a montar guarda. Estudos de carne sedentária, pintados por homens que nunca ali tinham estado. Estas imagens eram supostamente eróticas e eu assim as achava, na altura; mas agora vejo aquilo que de facto eram. Eram quadros de animação suspensa; acerca da espera, acerca de objectos que não estão em uso. Eram quadros a cerca do tédio. Mas talvez, quando experimentado por mulheres, o tédio seja erótico para os homens.


Margaret Atwood, A História de Uma Serva

(d)a palavra desabotoar

Antes, os Lírios eram um cinema. Os estudantes iam lá muito; todas as primaveras tinham um festival Humphrey Bogart, com a Lauren Bacall ou a Katherine Hepburn, mulheres autónomas, a decidirem por si só. Usavam blusas com uma fileira de botões à frente que sugeriam as possibilidades da palavra desabotoar. Estas mulheres podiam ser desabotoadas; ou não. Pareciam ter o poder da escolha.


Margaret Atwood, A História de Uma Serva

o bom velho sexo e a solidão

Havia naquele espaço o bom velho sexo e solidão, e expectativa, de algo sem forma nem nome. Lembro-me desse anseio, por alguma coisa que estava sempre prestes a acontecer e nunca era igual às mãos que nos tocavam ali naquele instante, ao fundo das costas, ou lá fora nas traseiras, no parque de estacionamento, ou na sala da televisão com o som muito baixo e só as imagens a tremeluzirem sobre a carne que se levantava.


Margaret Atwood, A História de Uma Serva

thoughts turn to murder late at night

We can learn to murder in the early hours
mulling over dour fate
technology offering its endless alternatives:
poisons, boxes spewing chemicals.
And yet
in murder
we return to the odious spectacle of physical expression -
I'll break you neck;
I'll break your back
thinking unacquired savagery.

Karate is a special kind of dance.
Who pulverizes someone else's bones
has lifted violence to the level of
an art,
which, unlike ballet,
does not require the total man.


Lou Reed

sunday afternoon

© Herman Nicholson


e a morte do lou reed ou o aniversário da plath, tudo morto, tudo ido, e nós aqui, aqui

estrela dupla

Ergueu os olhos, respirando fundo. Para os lados do oriente, uma estrela, muito nítida, brilhava por entre as árvores. Era a estrela da manhã - e há já muitos anos que Kikuji a não via... Ficou, de pé, a olhar para a estrela, sempre e sempre, até que o céu se começou a encher de nuvens... Mas a estrela cada vez parecia maior, resplandecendo através da neblina. A luz como que estava esborratada pela água, pelo que tocava os olhos com um tom lúgubre, tal impressão se devendo, em parte, ao claro brilho da estrela - e essa era a atmosfera que envolvia os gestos de Kikuji ao tentar juntar os pedaços de uma taça partida no anseio de voltar a ter o objecto inteiro.


Yasunari Kawabata, Chá e Amor

desejos para 2014: o japão, a cerimónia do chá e um bocadinho de amor

(n)as pugnas amorosas

A experiência de alcova da senhora Ota proporcionava a Kikuji uma felicidade isenta das hesitações embaraçosas que acometem, por vezes, um dos amantes nas pugnas amorosas.


Yasunari Kawabata, Chá e Amor

morte em veneza

De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza


Jorge Sousa Braga, Poemas com Cinema

do titanic no ecrã

«A poesia é uma loucura de palavras»*:
golfadas de água, pistons, caldeiras,
mar de silêncio, música de pianoforte,
escadaria, ascensores, golfadas
de água, trajos de gala, icebergs,
mar de silêncio, amor, morse, foguetes
de luz, música de pianoforte, amor,
decotes, plumas, tules, icebergs,
pistons, camarotes, madeira envernizada,
tapeçarias, ascensores, morse, amor,
mar de silêncio, salva-vidas, escaleres,
escadas de corda, sino, apitos, foguetes
de luz, golfadas de água, escaleres, jorros,
mar de silêncio, morse, sino,
escaleres, amores mortos, morse,
morte, amor, morse – disse
um grande poeta meu contemporâneo.


Fiama Hasse Pais Brandão, Poemas com Cinema

*Ruy Belo

a evocação do chimpanzé

comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e
entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um
cartucho de amendoins e entraste no cinema, sen
támo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu
cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho
de amendoins, com um ruído exactamente igual ao
meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu
voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quan
do a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de a
mendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de
amendoins no colo. com a mão direita comecei a le
vantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu
levantaste levemente as nádegas do assento. com
esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendo
ins. assim que os amendoins acabaram de se espal
har no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas es
queci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me
caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme
a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro
me de que passei o tempo quase todo até ao inter
valo recolhendo amendoins. todo o tempo tu
não deixaste de suspirar e de gemer, embora esti
vesse apenas a decorrer um documentário sobre
o narciso e nenhum drama comovente. a voz do lo
cutor lembro-me que dizia: «no começo da primave
ra, quando montes e vales acordam do longo sono
de inverno, centenas e centenas de narcisos ele
vam as douradas cabeças em todas as frestas e a
brigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos
portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da
floresta.» isto, como certamente te lembras, foi
antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quan
tas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair
os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu,
de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los
com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da
crítica, era daqueles que se não podem perder.

Alberto Pimenta, Poemas com Cinema

so this is nausea



The French called this time of day "l'heure bleue." To the English it was "the gloaming." The very word "gloaming" reverberates, echoes—the gloaming, the glimmer, the glitter, the glisten, the glamour—carrying in its consonants the images of houses shuttering, gardens darkening, grass-lined rivers slipping through the shadows. During the blue nights you think the end of day will never come. As the blue nights draw to a close (and they will, and they do) you experience an actual chill, an apprehension of illness, at the moment you first notice: the blue light is going, the days are already shortening, the summer is gone.


Joan Didion, Blue Nights

vamos todos chorar um bocadinho

devias ter tento na língua

- Quando reparo na forma como olhas para mim, quando olhas e sabes que não olho, quando vês e reparas o que faço, quando faço o que faço, e então dizes as palavras que só tu sabes, e são sempre palavras de amor, e eu penso: então eu penso que tens medo de um silêncio, um silêncio qualquer a alastrar, e que preenches como deves, ou achas que deves. Só então tu falas.
- Como agora?
- Sim, como agora. E quando não falas, são os teus pensamentos.
- Mas tu não ouves os meus pensamentos.
- Talvez por isso. Ouço o que não ouço. É o silêncio que eles fazem. O silêncio das tuas palavras perturba-me mais do que as palavras ditas, as palavras propriamente ditas. E então peço-te que fales, o que é a mesma coisa, porque não consigo suportar a ausência das tuas palavras. Ou a presença delas. Não sei.
- Então o que queres que faça?
- Apenas que faças. Que nunca digas o que fazes ou não fazes. Não me interessa o que pensas de mim, o que dizes ou consentes. É-me indiferente.

(...)

- E gostas dos meus pés?
- Acho os teus pés horríveis. Mas sou capaz de simpatizar com a tua boca. Talvez nem seja a tua boca toda, apenas o teu lábio inferior, quando o sinto entre os meus lábios, quando te beijo, ou melhor, quando não te beijo, sinto apenas os meus lábios sobre os teus, muito quietos que não parece muito um beijo.
- E gostas da minha coninha?
- Não se diz isso. É feio.
- E a coninha: achas a minha coninha feia?
- Já vi coninhas melhores, se queres que te diga. Mas não é uma coninha feia.
- Parvo.
- (...) A tua coninha só tem pouca personalidade. Não é grave.
- O que queres dizer com isso? Olha para ela com atenção.
- Estou a olhar.
- Achas que falta assim tanta personalidade? Olha bem.
- Acho.
- O que queres dizer com isso?
- Personalidade. Atitude. É uma coninha passiva. (...) É uma coninha mandriona, é o que é.

(...)

- Não te rias. Não é motivo de risos.
- Não me estou a rir.
- Então é ela. Olha para ela. Ri-se de quê, esta puta interesseirona?
- Ri-se de ti e da tua pichota ridícula.
- Qual é o mal da minha pichota? É uma pichota elegante, dir-se-ia até distinta, helénica, vigorosa, apessoada, tranquila, apolínea, marmórea e culta.
- É uma pichota pequena, meu amor. Sempre te disse que era muito pequena, parece meio atarracada. O teu pai ou mãe é asiático?
- Não.
- A tua pichota?
- Já lá esteve e não gostou.
- Só dizes disparates. Além disso gosto dela.
- A tua conversa dá-me nojo. És uma nojenta. Uma putinha nojenta. Devias ter tento na língua.

(...)

- Gostas do meu cuzinho? (...) É o cuzinho mais bonito que já viste?
- Gosto. É o cuzinho mais lindo que eu já vi.

(...)

- Porque é que me bateste na cara?
- Porque és estúpida como uma porta.
- Pára de me bater.

(...)

- (...) Agora só quero me beijes.
- Não me apetece.
- Não é uma questão de vontade. A vontade tem pouco a ver com isto.
- Podes beijar-me, se quiseres. Eu fico onde estou.
- Quero.
- Gostaste?
- Gostei.
- Mas eu não te beijei a ti. Os meus lábios estão parados. Parados.
- Melhor assim.
- Sou um corpo parado e é assim que devo ser?
- Sim. Não gosto que me beijem. Gosto de te beijar prolongadamente. Mas só eu. Não é nada contigo. Mas é tudo para ti. A ideia de partilhar só se aplica as coisas vivas e inúteis - um livro, uma laranja, um par de peúgas. Para tudo o resto, as partilhas são imperfeitas, para não dizer anedóticas. As pessoas não beijam. Há sempre uma que beija mais do que a outra. Que ama mais do que a outra. Que sente ou sofre mais que a outra.
- Posso dizer que te amo?
- Não. Só eu posso dizer que te amo. E amo-te muito. Mais do que pensas.
- Talvez queiras casar comigo. És doido o suficiente para isso.
- Quero, quero muito casar contigo. Aceitas (...)?
- Porque é que estás nessa figura, de joelhos? Ficas ridículo de joelhos, aí na alcatifa, a tua pequena pichota como um enfeite de Natal pendurado no teu corpo. Levanta-te e caminha.
- Ainda não quero ir para a caminha. Isto agora é a sério. Ouve o que te digo: casa comigo e faz de mim um homem feliz.
- Quero fazer amor outra vez.
- Primeiro, casamos. (...) Temos a minha pequena pichota como padrinho e a tua coninha mandriona como madrinha. Agora enfia isto no dedo e diz as palavras.
- Um preservativo?
- Enfia-o no dedo. (...) Agora: aceitas ser minha esposa, na saúde e na doença, até que a morte nos separe?
- Espera. Que espécie de doenças? Todas ou só algumas?

(...)

- Todas. As doenças medievais, as viroses, a cegueira, as embolias cerebrais, aguentas tudo. Mesmo que a fatalidade meta fraldas, e não pudermos foder mais, os nossos corpos definitivamente apagados, e que do nosso amor só reste a memória. Compreendes o que te peço? Chama-se sacrifício. E nunca saberás o que é amar alguém se não amares também o sacrifício. Porque estás a chorar?
- Nunca pensei que quisesses casar comigo. É só isso. É bonito o que dizes.
- Não consigo ver-te chorar, meu amor. Parte-me o coração.

(...)

- Pára de chorar. Cobre o teu cabelo com o lençol para eu te poder beijar sob o véu. Limpa as lágrimas com os meus dedos.
- Amo-te muito. Já to disse várias vezes, mas nunca numa cerimónia como esta.
- Também te amo muito. (...) Diz apenas que "sim". (...) Aceitas casar comigo?
- Caso.
- Não é "caso". É aceito.
- Aceito.
- Aceitas o quê?
- Aceito casar contigo. E aceito a tua pichota pequena, meu amor. Estou a brincar. Não chores. Não gosto que chores. Os homens não deviam chorar. Olha para mim: aceito casar contigo e fazer-te o homem mais feliz. Não direi o mais feliz entre os homens, mas o mais feliz entre os homens de pichotas pequeninas. Agora ris?
- Rio.
- Estamos casados?
- Estamos, meu amor. Aos olhos de Deus somos duas almas gémeas que se encontraram no firmamento. Pára de rir.
- De Deus e do firmamento? Foi isso que disseste?
- Putinha. Minha grande, adorada, e casada putinha. Nunca nos devemos rir de Deus. (...)

(...)

- Mas eu abro o coração para Deus. Juro. É só isso que queres que eu abra?
- Não me faças rir, merda. Isto é uma coisa solene.
- Enfia a aliança. Deixa-me enfiá-la onde eu quiser.
- Pára com isso. Estou a ficar com tesão e Deus a ver.
- Não está nada. Ele fecha os olhos nestas partes.
Está a ver. Pára. Pousa a aliança. Porta-te como uma mulher casada. (...) Diz só que me amas muito.

(...)

- Eu amo-te muito.


João Pereira Coutinho, Revista 365 nº 29

moonchild

Buffalo '66, Vincent Gallo, 1998

os jeans

Os meus jeans: lavados e estendidos.
As coisas que gostam de se divertir são boas.
Vão-se embora e abandonam o patrão.
As nádegas dos meus jeans dizem "Vai, coragem!"
Estes jeans, já lhes aconteceu ficarem de pé,
à beira da ribeira, ou ficarem sentados
Sobre os degraus de pedra, ao romper do dia.
São jeans que gostam do azul
E quando estiverem secos, então, hão-de levar-me
Eles, e não tu, meu amigo,
Mais uma vez, para sítios muito bons,
Para o mar, para prados imensos,
Tenho a certeza disso.


Junko Takahashi, Grisu nº 1

anjos apaixonados

Quando os anjos se apaixonam
dançam nas cabeças de alfinetes,
lançam-se em bolas de fogo, ou permanecem
submersos na poça durante horas.

Por vezes até golpeiam os punhos
com lâminas de barbear ou lascas de madeira
não conseguindo, claro, rasgar a delicada pele.

Pois, na ausência de sofrimento ou de entusiasmo,
de que outro modo emulariam o nosso amor?


Pat Boran, Grisu nº 1

várias versões de uma catástrofe

Aqueles segundos em que o moribundo ocupa toda a largura do filme aborrecem-me. Chego a pensar que quero matá-lo, mas só em pensamento.
O moribundo desaparece da imagem no momento exacto em que eu o ia matar.
Depois não o vejo mais.
E, no entanto...
E no entanto aquele homem é ao mesmo tempo humano e cinematográfico. Especialmente o braço no ar, a acenar, isso sim, é uma coisa cinematográfica que se vê.
À velocidade a que a água corre, o moribundo torna-se o atleta mais veloz, agradecendo ao público depois de uma nova vitória, no instante em que se afoga.
Tenho vontade de me despedir dele com a minha mão.
Mexo a mão, quase nada, depois desisto.
Imagino-me a acenar, sim, mas para chamar a atenção do jovem japonês. É difícil usar as mãos para ser visto por uns e para não ser visto por outros.
Desisto.


José Gardeazabal, Granta Portugal nº 2

mas já nada é sagrado?

Cresci a beijar livros e pão.

Lá em casa, sempre que alguém derrubava um livro, ou deixava cair um chapatti ou uma «fatia», a palavra que usávamos para um triângulo de pão fermentado com manteiga, o objecto caído tinha não só de ser apanhado mas também beijado, numa mea culpa pelo desastre e em sinal de respeito. Eu era tão descuidado e mãos-de-manteiga como qualquer criança e, portanto, nos meus anos de infância, beijei grande número de fatias e tive também a minha conta de livros.

Nos lares devotos da Índia, as pessoas tinham por hábito - e ainda têm - beijar os livros sagrados. Mas nós beijávamos tudo. Beijávamos dicionários e atlas. Beijávamos livros da Enid Blyton e banda desenhada do Super-Homem. Se eu alguma vez tivesse deixado cair a lista telefónica, provavelmente também a teria beijado.

Tudo isto aconteceu mesmo antes de ter beijado uma rapariga.

Aliás, até seria quase verdade, ou em todo o caso suficientemente verdadeiro para um escritor de ficção, dizer que, mal comecei a beijar raparigas, as minhas actividades relativas a pão e livros perderam alguma da excitação que lhe era própria. Mas uma pessoa nunca esquece os seus primeiros amores.

Pão e livros: comida para o corpo e alimento para a alma - o que mais poderá ser tão digno do nosso respeito e até do nosso amor?

É sempre para mim um choque conhecer pessoas sem interesse pelos livros e pessoas que troçam do acto de ler, para não falar nisso de escrever. Talvez seja surpreendente perceber que o objecto do nosso amor não é aos olhos dos outros tão atraente como para nós.

(...)

O amor pode conduzir à devoção mas a devoção do amante é diferente da do Verdadeiro Crente no pormenor de não ser militante.

Posso ficar surpreendido - posso até ficar chocado - ao descobrir que nós os dois não sentimos o mesmo perante um determinado livro ou determinada obra de arte, ou mesmo acerca de uma pessoa; posso muito bem tentar fazê-lo mudar de ideias; mas acabarei por aceitar que os seus gostos, os seus amores, dizem respeito a si e não a mim. O Verdadeiro Crente não conhece esses limites. O Verdadeiro Crente sabe, pura e simplesmente, que ele está certo e que nós estamos errados. Vai tentar convencer-nos, até pela força, e, se não o conseguir, vai, no mínimo, desprezar-nos por sermos incréus.


Salman Rushdie, Granta Portugal nº 2

e eu que sempre repeti que a única coisa que preciso para (sobre)viver é um livro, pão com manteiga, cigarros e gatos. o rushdie é mais poupadinho

um templo do espírito santo

(...)

Desde então mudara de ideias e decidira ser engenheira mas enquanto olhava pela janela e seguia a luz que subia e descia e andava à roda sentiu que teria de ser muito mais do que apenas médica ou engenheira. Teria de ser uma santa, porque essa era a ocupação que incluía tudo o que possa saber-se; e no entanto estava consciente de que nunca poderia ser santa. Era mentirosa e indolente, metia-se com a mãe e era deliberadamente embirrenta com quase toda a gente. Também era devorada pelo pecado do orgulho, o pior de todos. Nunca poderia ser uma santa, mas pensou que poderia ser mártir se a matassem depressa.

Aguentaria ser abatida a tiro mas não ser queimada em óleo. Não sabia se aguentaria ser esquartejada por leões ou não. Começou a preparar o seu martírio, imaginando-se de collants numa grande arena, iluminada pelos primeiros cristãos pendurados em gaiolas de fogo, libertando uma luz dourada poeirenta que caía sobre ela e sobre os leões. Os primeiros leões carregavam na sua direcção e depois caíam aos seus pés, convertidos. Uma série enorme de leões fez o mesmo. Os leões gostavam tanto dela que ela até dormia com eles e finalmente os romanos viam-se obrigados a queimá-la, mas para seu grande espanto ela não ardia e vendo que era tão difícil de matar acabavam por cortar-lhe a cabeça com um único e rápido golpe de espada e ela ia directamente para o Céu.


Flannery O'Connor, Um Bom Homem é Difícil de Encontrar

o que queres ser quando fores grande?

(...)

mas a avó pusera um chapéu de palha azul-escuro com um ramo de violetas brancas na pala e escolhera um vestido do mesmo tom com pequenas pintas brancas. O colarinho e os punhos eram de organdia branca rematada por rendas e junto ao pescoço tinha pregado um alfinete de violetas roxas com um saquinho aromático. Em caso de acidente, qualquer pessoa que a encontrasse morta na auto-estrada saberia imediatamente que estava ali uma verdadeira senhora.


Flannery O'Connor, Um Bom Homem é Difícil de Encontrar


mas com um final menos trágico. ou então não.

O amor é aquilo:

caminhar às cegas no arame estendido sobre o precipício.


Manuel Jorge Marmelo, O Amor é Para os Parvos

- O amor é para os parvos

repetiste, antes de te voltares para trás e deixares que as lágrimas rolassem grossas como as gotas de chuva lavando a poeira das paredes. Chorámos ambos, abraçados, para que não pudesses ver o meu rosto, nem eu o teu. O Verão extinguia-se lá fora e nós soubemos, em algum momento daquele nosso abraço, que não era só a estação que chegava ao fim. Talvez tu o soubesses já, mesmo antes de me dizeres que
- O amor é para os parvos.

Já o sabias, decerto. Eu devia sabê-lo também, ou não te tivesse eu dito tantas vezes que um dia me deixarias, que partirias por estar cansada de mim e dos meus silêncios, por não suportares mais esta minha forma de te dizer que é passageira a sinceridade dos meus sentimentos e demasiado benévola a imagem que de mim guardavas
- Com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes.

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Simplesmente tinha que acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu amo-te, tu amas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo de ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão - o amor é mesmo para os parvos. Para os que não sabem apaixonar-se e não têm tempo a perder com sofrimento. Para os que estão sempre de passagem e precisam de um lugar aonde encontrem, de vez em quando, um par de cuecas limpas, peúgas lavadas e três camisas engomadas. Um sítio do qual possam dizer: esta é a minha casa, esta é a minha mulher, esta é a minha escova de dentes e estes são os meus filhos, a herança que deixo ao mundo, a geração que lego à posteridade - jangada de Noé à deriva no lodo estagnado da vida.

O amor é para os parvos, disseste bem. Lembras-te? O amor é para os parvos e nós soubemos, ao menos naquele abraço, que não era aquela a nossa vida. Talvez não o soubéssemos ainda e apenas o intuíssemos. Fosse como fosse, sabêmo-lo agora - sei-o eu ao menos - e é por isso que te digo que foi melhor assim, ainda que tivesse no corpo uma vontade incontrolável de lamber as lágrimas que te percorriam a face; de te cingir os joelhos com ambos os braços e te pedir que ficasses. Terias ficado, eu sei. Ainda aqui estarias se me tivessem ocorrido as palavras certas - mas inevitável foi a única que me ocorreu. Teríamos as nossas escovas dos dentes, a gaveta com as minhas peúgas e as minhas cuecas e os nossos filhos. Talvez um sítio a que pudéssemos chamar lar. Isso tudo, enfim. É até possível que pudéssemos ter chegado a ser felizes ou, em alternativa, podíamos ter conseguido viver tão harmoniosamente que nos fosse permitido fazer de conta que éramos felizes. É tão fácil, há tanta gente que consegue e que chega a convencer-se de que é real a paz familiar que pacientemente arquitectaram; de que são sinceros os sorrisos, os beijos, os abraços. Fosse eu capaz de dizer as palavras, tivesse eu posto os meus olhos defronte dos teus para que tu pudesses ler - ao menos dessa vez - o que neles estava escrito e podia ser também nosso esse mundo de conveniência. Ter-nos-íamos magoado e feito de conta que não é nada. Ter-te-ia enganado e voltado a casa com o ar do costume, a máscara de cansaço e enfado que te havias de habituar a ter em vez do meu rosto. Tudo isto, amor.


Manuel Jorge Marmelo, O Amor É para os Parvos

- porque gritaste?

- gritei?
- não te ouviste?
- ouvi alguém gritar.
- eras tu.


Rui Nunes, Grito

could be an organ donor, the way i give up my heart

Chora-se por alguém, chora-se, embora eu chore a olhar para mim a chorar, chora-se para que nos digam: não chores, ou para que nos oiçam, mas este choro não ouvido, este choro não visto, anónimo, só um corpo a chorar sem remédio, o choro omitido das desatenções, o choro esquecido no choro, nos seus meandros, mudez e surdez, este choro, sem lugar de choro, é a palavra última, apaga-se nela, este choro é a palavra que se apaga.


Rui Nunes, Grito

o sol (que) não perdoa

São um erro,
estes braços e pernas
que já não funcionam

Quebraram-se agora
e não há lugar para desculpas.

A terra não nos consola,
só te cobre
se tens a decência de permanecer calado.

O sol não perdoa,
olha e segue o seu caminho.

A noite penetra-nos
através dos acidentes que temos
infligido um ao outro.

A próxima vez que perpetremos
o amor, temos que
decidir primeiro quem vamos matar.


Margaret Atwood, trad. Jorge Sousa Braga

hey, I'm ready to be heartbroken

© Nan Goldin, Heart Shaped Bruise

acendo outro cigarro

O quarto fecha-se. Por vezes
é como os filmes que vimos
quando as coisas ainda deixavam
um rasto doloroso na retina. Acendo
outro cigarro e tu estás cá dentro
sem que eu te reconheça, os teus olhos
disfarçados atrás dos livros, o teu riso
a crescer no fumo, desperdiçado.

No quarto esta noite há o que resta
dos teus gestos nos meus ombros, sobre a cama.
Quanto não daria por ir no rumo dos barcos
que sobem pela parede atrás dos teus passos.


Rui Pires Cabral

eulalie

I dwelt alone
In a world of moan,
And my soul was a stagnant tide,
Till the fair and gentle Eulalie became my blushing bride-
Till the yellow-haired young Eulalie became my smiling bride.

Ah, less- less bright
The stars of the night
Than the eyes of the radiant girl!
That the vapor can make
With the moon-tints of purple and pearl,
Can vie with the modest Eulalie's most unregarded curl-
Can compare with the bright-eyed Eulalie's most humble and careless
curl.

Now Doubt- now Pain
Come never again,
For her soul gives me sigh for sigh,
And all day long
Shines, bright and strong,
Astarte within the sky,
While ever to her dear Eulalie upturns her matron eye-
While ever to her young Eulalie upturns her violet eye.


Edgar Allan Poe

ulalume

The skies they were ashen and sober;
      The leaves they were crispéd and sere—
      The leaves they were withering and sere;
It was night in the lonesome October
      Of my most immemorial year;
It was hard by the dim lake of Auber,
      In the misty mid region of Weir—
It was down by the dank tarn of Auber,
      In the ghoul-haunted woodland of Weir.

Here once, through an alley Titanic,
      Of cypress, I roamed with my Soul—
      Of cypress, with Psyche, my Soul.
These were days when my heart was volcanic
      As the scoriac rivers that roll—
      As the lavas that restlessly roll
Their sulphurous currents down Yaanek
      In the ultimate climes of the pole—
That groan as they roll down Mount Yaanek
      In the realms of the boreal pole.

Our talk had been serious and sober,
      But our thoughts they were palsied and sere—
      Our memories were treacherous and sere—
For we knew not the month was October,
      And we marked not the night of the year—
      (Ah, night of all nights in the year!)
We noted not the dim lake of Auber—
      (Though once we had journeyed down here)—
We remembered not the dank tarn of Auber,
      Nor the ghoul-haunted woodland of Weir.

And now, as the night was senescent
      And star-dials pointed to morn—
      As the star-dials hinted of morn—
At the end of our path a liquescent
      And nebulous lustre was born,
Out of which a miraculous crescent
      Arose with a duplicate horn—
Astarte's bediamonded crescent
      Distinct with its duplicate horn.

And I said—"She is warmer than Dian:
      She rolls through an ether of sighs—
      She revels in a region of sighs:
She has seen that the tears are not dry on
      These cheeks, where the worm never dies,
And has come past the stars of the Lion
      To point us the path to the skies—
      To the Lethean peace of the skies—
Come up, in despite of the Lion,
      To shine on us with her bright eyes—
Come up through the lair of the Lion,
      With love in her luminous eyes."

But Psyche, uplifting her finger,
      Said—"Sadly this star I mistrust—
      Her pallor I strangely mistrust:—
Oh, hasten! oh, let us not linger!
      Oh, fly!—let us fly!—for we must."
In terror she spoke, letting sink her
      Wings till they trailed in the dust—
In agony sobbed, letting sink her
      Plumes till they trailed in the dust—
      Till they sorrowfully trailed in the dust.

I replied—"This is nothing but dreaming:
      Let us on by this tremulous light!
      Let us bathe in this crystalline light!
Its Sybilic splendor is beaming
      With Hope and in Beauty to-night:—
      See!—it flickers up the sky through the night!
Ah, we safely may trust to its gleaming,
      And be sure it will lead us aright—
We safely may trust to a gleaming
      That cannot but guide us aright,
      Since it flickers up to Heaven through the night."

Thus I pacified Psyche and kissed her,
      And tempted her out of her gloom—
      And conquered her scruples and gloom:
And we passed to the end of the vista,
      But were stopped by the door of a tomb—
      By the door of a legended tomb;
And I said—"What is written, sweet sister,
      On the door of this legended tomb?"
      She replied—"Ulalume—Ulalume—
      'Tis the vault of thy lost Ulalume!"

Then my heart it grew ashen and sober
      As the leaves that were crispèd and sere—
      As the leaves that were withering and sere,
And I cried—"It was surely October
      On this very night of last year
      That I journeyed—I journeyed down here—
      That I brought a dread burden down here—
      On this night of all nights in the year,
      Oh, what demon has tempted me here?
Well I know, now, this dim lake of Auber—
      This misty mid region of Weir—
Well I know, now, this dank tarn of Auber—
      In the ghoul-haunted woodland of Weir."

Said we, then—the two, then—"Ah, can it
      Have been that the woodlandish ghouls—
      The pitiful, the merciful ghouls—
To bar up our way and to ban it
      From the secret that lies in these wolds—
      From the thing that lies hidden in these wolds—
Had drawn up the spectre of a planet
      From the limbo of lunary souls—
This sinfully scintillant planet
      From the Hell of the planetary souls?"


Edgar Allan Poe

lenore

Ah, broken is the golden bowl! the spirit flown forever!
Let the bell toll!- a saintly soul floats on the Stygian river;
And, Guy de Vere, hast thou no tear?- weep now or nevermore!
See! on yon drear and rigid bier low lies thy love, Lenore!
Come! let the burial rite be read- the funeral song be sung!-
An anthem for the queenliest dead that ever died so young-
A dirge for her the doubly dead in that she died so young.

"Wretches! ye loved her for her wealth and hated her for her pride,
And when she fell in feeble health, ye blessed her- that she died!
How shall the ritual, then, be read?- the requiem how be sung
By you- by yours, the evil eye,- by yours, the slanderous tongue
That did to death the innocence that died, and died so young?"

Peccavimus; but rave not thus! and let a Sabbath song
Go up to God so solemnly the dead may feel no wrong.
The sweet Lenore hath "gone before," with Hope, that flew beside,
Leaving thee wild for the dear child that should have been thy
bride.
For her, the fair and debonair, that now so lowly lies,
The life upon her yellow hair but not within her eyes
The life still there, upon her hair- the death upon her eyes.

"Avaunt! avaunt! from fiends below, the indignant ghost is riven-
From Hell unto a high estate far up within the Heaven-
From grief and groan, to a golden throne, beside the King of
Heaven!
Let no bell toll, then,- lest her soul, amid its hallowed mirth,
Should catch the note as it doth float up from the damned Earth!
And I!- to-night my heart is light!- no dirge will I upraise,
But waft the angel on her flight with a Paean of old days!"


Edgar Allan Poe

annabel lee

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of ANNABEL LEE;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.


Edgar Allan Poe

a dream within a dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow —
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand —
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep — while I weep!
O God! Can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?


Edgar Allan Poe

the haunted palace

In the greenest of our valleys
   By good angels tenanted,
Once a fair and stately palace—
   Radiant palace—reared its head.
In the monarch Thought’s dominion,
   It stood there!
Never seraph spread a pinion
   Over fabric half so fair!

Banners yellow, glorious, golden,
   On its roof did float and flow
(This—all this—was in the olden
   Time long ago)
And every gentle air that dallied,
   In that sweet day,
Along the ramparts plumed and pallid,
   A wingèd odor went away.

Wanderers in that happy valley,
   Through two luminous windows, saw
Spirits moving musically
   To a lute’s well-tunèd law,
Round about a throne where, sitting,
   Porphyrogene!
In state his glory well befitting,
   The ruler of the realm was seen.

And all with pearl and ruby glowing
   Was the fair palace door,
Through which came flowing, flowing, flowing
   And sparkling evermore,
A troop of Echoes, whose sweet duty
   Was but to sing,
In voices of surpassing beauty,
   The wit and wisdom of their king.

But evil things, in robes of sorrow,
   Assailed the monarch’s high estate;
(Ah, let us mourn!—for never morrow
   Shall dawn upon him, desolate!)
And round about his home the glory
   That blushed and bloomed
Is but a dim-remembered story
   Of the old time entombed.

And travellers, now, within that valley,
   Through the red-litten windows see
Vast forms that move fantastically
   To a discordant melody;
While, like a ghastly rapid river,
   Through the pale door
A hideous throng rush out forever,
   And laugh—but smile no more.


Edgar Allan Poe

the raven

Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`'Tis some visitor,' I muttered, `tapping at my chamber door -
Only this, and nothing more.'

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; - vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow - sorrow for the lost Lenore -
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore -
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me - filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
`'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door -
Some late visitor entreating entrance at my chamber door; -
This it is, and nothing more,'

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
`Sir,' said I, `or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you' - here I opened wide the door; -
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the darkness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, `Lenore!'
This I whispered, and an echo murmured back the word, `Lenore!'
Merely this and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
`Surely,' said I, `surely that is something at my window lattice;
Let me see then, what thereat is, and this mystery explore -
Let my heart be still a moment and this mystery explore; -
'Tis the wind and nothing more!'

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door -
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door -
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
`Though thy crest be shorn and shaven, thou,' I said, `art sure no craven.
Ghastly grim and ancient raven wandering from the nightly shore -
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning - little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door -
Bird or beast above the sculptured bust above his chamber door,
With such name as `Nevermore.'

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only,
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered - not a feather then he fluttered -
Till I scarcely more than muttered `Other friends have flown before -
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before.'
Then the bird said, `Nevermore.'

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
`Doubtless,' said I, `what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore -
Till the dirges of his hope that melancholy burden bore
Of "Never-nevermore."'

But the raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore -
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore
Meant in croaking `Nevermore.'

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamp-light gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamp-light gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.
`Wretch,' I cried, `thy God hath lent thee - by these angels he has sent thee
Respite - respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil! -
Whether tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted -
On this home by horror haunted - tell me truly, I implore -
Is there - is there balm in Gilead? - tell me - tell me, I implore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us - by that God we both adore -
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore -
Clasp a rare and radiant maiden, whom the angels name Lenore?'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Be that word our sign of parting, bird or fiend!' I shrieked upstarting -
`Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted - nevermore!


Edgar Allan Poe

se eu fosse um vídeo

Subitamente tenho uma dor.

Mal a sinto, é muito leve. É o bater do coração deslocado para ali, para a ferida viva e fresca que ele me fez, aquele que me fala, aquele que fez o prazer desta tarde. Já não ouço o que ele diz, já não escuto. Ele vê, cala-se. Digo-lhe que continue a falar. Assim faz. Escuto de novo.


Marguerite Duras, O Amante

Pergunto-lhe se é costume estar-se triste como nós estamos.

Ele diz que é porque fizemos amor durante o dia, no momento em que o calor é maior. Diz que é sempre terrível depois. Sorri. Diz: quer nos amemos, quer não, é sempre terrível. Diz que há-de passar com a noite, assim que ela chegar. Digo-lhe que não é só por ter sido durante o dia, que está enganado, que estou numa tristeza que já esperava e que só vem de mim. Que sempre fui triste. Que vejo essa tristeza também nas fotografias em que sou muito pequena. Que hoje essa tristeza, reconhecendo-a embora como a que sempre tive, poderia dar-lhe o meu nome, de tal modo se me assemelha.


Marguerite Duras, O Amante

Muito cedo na minha vida foi tarde demais.

Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi opera-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal.


Marguerite Duras, O Amante

De vez em quando,

olhava para as montras de vidro como se quisesse assegurar-se de que ainda existia.


Sylvia Plath, A Campânula de Vidro

«Sabes o que é um poema, Esther?»

«Não. O que é?» Diria eu.
«Apenas pó».
E nesse instante em que ele sorria para mim com a sua imponência, eu respondia-lhe: «Também os cadáveres que tu esquartejas o são. Também as pessoas que tu julgas amar o são. São pó e apenas pó. Um bom poema dura mais que cem pessoas juntas.»

Buddy não encontraria, como é evidente, argumentos face a isto. Esta era a verdade nua e crua. As pessoas eram feitas de nada, tal como o pó, e não conseguia entender qual a vantagem de andar a tratar todo aquele pó quando se podia muito bem escrever um bom poema que as pessoas repetiriam para si mesmas, quando estivessem tristes, doentes ou com insónias.


Sylvia Plath, A Campânula de Vidro

Gostava de observar os outros em situações cruciais.

Se havia um acidente de trânsito ou uma discussão na rua ou um bebé enfiado numa campânula de um laboratório que eu pudesse ver, para e olhava intensamente para jamais me esquecer.
Graças a este hábito aprendi muitas coisas que de outro modo me teriam certamente passado despercebidas. E, mesmo quando elas me surpreendiam ou causavam repulsa, não desviava o olhar como se de uma fatalidade se tratasse.


Sylvia Plath, A Campânula de Vidro

Não lhe podemos chamar Tolstoi,

replicou Tereza, porque é uma menina. Vamos mas é chamar-lhe Ana Karenina.
- Não lhe podemos chamar Ana Karenina, uma fuçazinha assim tão engraçada não é de mulher, disse Tomas. Karenine, sim. É isso mesmo. Foi sempre assim que o imaginei.
- Mas não achas que se se chamar Karenine pode ficar com a vida sexual perturbada?
- Não é de todo impossível que uma cadela que se habitue a responder por um nome de cão venha a ter tendências lésbicas...


Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser

Tereza tentava ver-se através do corpo.

Por isso passava horas à frente do espelho. E, como tinha medo de ser apanhada pela mãe, os olhares que ia lançando traziam a marca de um vício secreto.

Não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de lá descobrir o seu eu. Esquecia-se de que o que tinha diante dos olhos era o quadro de comando dos mecanismos físicos. Parecia-lhe que o que se lhe revelava sob os traços do rosto era a sua própria alma. Esquecia-se de que o nariz é a extremidade do tubo que leva ar aos pulmões. O que nele via era a fiel expressão da sua natureza.

Contemplava-se longamente ao espelho e, por vezes, reconhecia, contrariada, os traços da mãe no seu próprio rosto. Quando isso acontecia, concentrava-se melhor e fazia um grande esforço de vontade para se abstrair, para fazer tábua rasa da fisionomia da mãe e só deixar subsistir o que era verdadeiramente ela própria. Quando conseguia, era um momento inebriante: a alma voltava a subir à superfície do corpo como a tripulação a sair do ventre de um navio, a invadir a ponte, a levantar os braços para os céus e a cantar.


Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser

O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor

(desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).


Milan Kundera,

a curar a agressividade do amor

Pela primeira vez na vida,

hesitava quanto ao caminho a seguir. E, como muitas pessoas nas mesmas circunstâncias, fez o pior que podia ter feito - tomou, ao mesmo tempo, várias atitudes contraditórias.


Carson McCullers, A Balada do Café Triste

Mas o coração das crianças é órgão delicado.

Um cruel início de vida acaba por deformá-los de maneira singular. O coração de uma criança assim magoada pode encolher-se para sempre e endurecer como um caroço de pêssego. Ou, pelo contrário, dilatar-se de tal forma que se torna uma infelicidade para o corpo que o abriga e pode facilmente ser ferido pela coisa mais vulgar.


Carson McCullers, A Balada do Café Triste

o amor é uma coisa solitária - é esta descoberta que faz sofrer

Há o que ama e o que é amado, e estes dois eram diferentes como o dia da noite. Muitas vezes o amado é apenas um estímulo para todo o amor acumulado, durante muito tempo e até àquele momento, pelo amante. De algum modo, cada amante sabe que é assim. Sente no seu íntimo que o seu amor é solitário. Depois, conhece uma nova e estranha solidão, que o faz sofrer ainda mais. De maneira que só lhe resta fazer uma coisa. Deve abrigar dentro de si, o melhor que puder, esse amor; deve criar um mundo só seu, intenso e único.

(...)

Portanto, o valor e qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante. É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, ainda que isso lhe cause somente dor.


Carson McCullers, A Balada do Café Triste

Miss Amélia era indiferente ao amor dos homens

 e preferia a solidão.


Carson McCullers, A Balada do Café Triste

the girl with the pre-fabricated heart


Dreams That Money Can Buy, Hans Richter, 1947

incendiário

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.


Herberto Hélder

have you ever been in love?

Horrible isn’t it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life…You give them a piece of you. They didn’t ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn’t your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like ‘maybe we should be just friends’ turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It’s a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.


Neil Gaiman, The Sandman

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adolfo Casais Monteiro Adília Lopes Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Américo António Lindeza Diogo Ana Bessa Carvalho Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Martins Marques Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tecedeiro Ana Teresa Pereira Ana Tinoco Andreia C. Faria André Tomé Angélica Freitas António Amaral Tavares António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Aníbal Fernandes Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bruno Béu Bruno Sousa Villar Bénédicte Houart Camilo Castelo Branco Camilo Pessanha Carlos Alberto Machado Carlos Bessa Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Poças Falcão Carlos Soares Carlos de Oliveira Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Eduarda Chiote Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio Lisboa Eugénio de Andrade Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Hélia Correia Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Morais Varela Joana Serrado Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge Carrera Andrade Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga Jorge de Sena José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Miguel Silva José Mário Silva José Pascoal José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Maia João Manuel Ribeiro João Miguel Henriques João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Judith Teixeira Leitão de Barros Leonor Castro Nunes Luiza Neto Jorge Luís Miguel Nava Luís Quintais Madalena de Castro Campos Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel Fúria Manuel Gusmão Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Azenha Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Mergulhão Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Maria do Rosário Pedreira Maria Ângela Alvim Marta Chaves Matilde Campilho Mendes de Carvalho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Mário Cesariny Mário Contumélias Mário Dionísio Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário de Sá-Carneiro Mário-Henrique Leiria Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Patrícia Baltazar Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Loureiro Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Pedro Tiago Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raquel Serejo Martins Raul Malaquias Marques Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rosa Maria Martelo Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Costa Rui Cóias Rui Knopfli Rui Lage Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Andrade Sandra Costa Sebastião Alba Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Sílvio Mendes Tatiana Faia Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Teresa M. G. Jardim Tiago Araújo Tiago Gomes Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno gil t. sousa valter hugo mãe Ângelo de Lima

poemário dali

A. E. Housman Abbas Kiarostami Abel Feu Adelaide Ivánova Adrienne Rich Adélia Prado Agota Kristof Al Purdy Alberto Tugues Alda Merini Aldous Huxley Alejandra Pizarnik Alejandro Jodorowsky Alexander Demidov Alfredo Veiravé Alice Walker Allen Ginsberg Amalia Bautista Amiri Baraka Amy Lowell Amy M. Homes Ana Merino André Breton Andrés Trapiello Angela Carter Anis Mojgani Anna Akhmatova Anna Kamienska Anne Carson Anne Perrier Anne Sexton Antonia Pozzi Antonin Artaud Antonio Gamoneda Antonio Orihuela Antonio Pérez Morte Antonio Sáez Delgado Arnold Lobel Arseny Tarkovsky Arthur Rimbaud Basilio Sánchez Benjamín Prado Bernard-Marie Koltès Billy Collins Boris Vian Brett Elizabeth Jenkins Brian Andreas Brian Patten Carl Phillips Carl Sandburg Carlos Drummond de Andrade Carlos Edmundo de Ory Carlos Marzal Carmen Gloria Berríos Carol Ann Duffy Cecília Meireles Cesare Pavese Charles Baudelaire Charles Bukowski Charles Dana Gibson Charles M. 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