dance dance dance

I'll dance all night
I'll dance the pain away
I'll dance until the morning sun
Graces us with day

I'll dance until I'm numb
Until I don't feel anymore
I'll dance until I'm gone
And don't remember what I'm dancing for

I'll dance until you love me
I'll dance the rest of my life
I'll dance until you return
By the moon's gentle light

I'll dance to the music
Of my shattering heart
I'll dance until it doesn't hurt
As you tear me apart


Tatianna Rei Moonshadow

não é tarde nem é cedo

a little tenderness

Já que não posso mudar o mundo
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias.


Casimiro de Brito

o amor

Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.


Casimiro de Brito

um pouco mais

Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.

Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.

Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.


Casimiro de Brito

(un)certainty

Gadajace glowy, Krzysztof Kieslowski, 1980

histórias graustarkianas

Ela idolatrava a Garbo e todos os filmes em que ela entrava. Conseguia estar sentada durante duas sessões seguidas a ver os mais enfadonhos filmes que ela tinha feito. Libertavam-lhe a ironia. Ela adorava ser posta a flutuar e ser empurrada para o mar por estas histórias Graustarkianas com rangidos artificias e banheiras hilariantes em formato de cisne, com torneiras em feitio de cabeças de ágia, com as suas portas, janelas e cortinas barrocas.
A sua pose lânguida nas chaises longues, o cansaço quilométrico dos seus jogos taciturnos com os actores principais e finalmente o consentimento que dava às suas pálpebras de porcelana para que se fechassem perante o beijo há muito adiado de Barrymore, tudo isto proporcionava uma queda das plataformas niveladas e enfadonhas do mundo.


Arthur Miller, Uma Rapariga Simples

que se foda o futuro

Nunca hei-de perceber o que é que me deu. Foi mais ou menos quatro anos depois de casar. Costumávamos ir para casa depois de ver um filme francês ou russo que passavam no Irving Place e ir para a cama, e era tudo. Dessa vez decidi arranjar um martini e depois sentei-me no sofá a ouvir uns discos, do género «A Train» do Benny Goodman ou coisas da Billie Holiday ou Leadbetter, ou talvez do Woody Guthrie que apareceu nessa altura, e ao fim de vinte minutos, o Sam saiu do quarto em pijama. Realmente ele era tímido mas não era cobarde e ali ficou, pobre homem, com uma expressão tensa, apoiado na ombreira da porta do quarto como o Humphrey Bogart, e disse:
   - Horas de dormir.
   Foi quando me saiu pela boca fora:
   - Que se foda o futuro - disse eu.
As pálpebras de Charles perturbaram-se e riu com ela e apertou o interior da coxa dela com a mão.
   - O que é que isso quer dizer?
   - Apenas que se foda o futuro. - Ela tinha ouvido a sua própria risadinha e lembrar-se-ia sempre da sensação de alívio no peito.´
   - Deve ter um significado.
   - Significa que agora se deve estar a passar qualquer coisa interessante e que vale a pena pensar nela. E agora significa agora.

(...)

   - O papá e eu vivemos durante um mês numa casa de praia portuguesa, depois de a mamã ter morrido, e eu costumava ficar a ver a cozinheira campónia que nós tínhamos a atravessar as dunas, trazendo vegetais e peixe fresco num cesto para eu inspeccionar antes que ela os cozinhasse para nós. Levava imenso tempo, arrastando-se penosamente na areia, até chegar ao pé de mim, e depois tudo o que havia era aquele peixe, ainda molhado do mar.
   - E então?
   - Bom, é isso: esperar e esperar e vê-la chegar só com um peixe molhado - Ela tinha rido e voltado a rir, sem controlo, quase histérica, depois deu um beijo de raspão no pulso de Sam e caiu no sono, sorrindo com um vago ar de vitória.


Arthur Miller, Uma Rapariga Simples

nada se espera quando as luzes se acendem no fim do filme

A surpresa permaneceu: toda a vida dele tinha sido qualquer coisa, tinha-lhe dado este homem, este homem que nunca a tinha visto. Ali estendido, era terrível.
Oh, se ela pudesse falar-lhe mais uma vez, perguntar-lhe ou dizer-lhe... o quê? A coisa que tinha no coração, a surpresa. Que ele a tinha amado e que nunca a tinha visto durante os catorze anos de vida em comum. Apesar de tudo, havia sempre qualquer coisa dentro dela que tentava deslocar-se para a linha de visão dele, como se com um relance de uma fracção de segundo os olhos dele pudessem acordar do seu sono eterno.
Que fazer agora? Oh, querido Charles, o que é que eu faço com tudo o resto?
Havia qualquer coisa por acabar. Mas suponho, disse ela a si mesma, que nunca se espera nada quando as luzes se acendem no fim do filme, deixando-nos estrábicos no passeio.


Arthur Miller, Uma Rapariga Simples

a vida é doce e só nos toca uma dentada na cereja

"David", prosseguiu Cassandra, "não vais acreditar nisto. Estás preparado, David?"
  "Estou preparado, Cassy," soluçou David.
"Estamos todos preparados, Cassy, não poupes os pormenores. O coração tem as suas razões."
  "Bem David, ao que parece, um dos membros das equipas de resgate, um tal Sr. Ted Crump, falou em nome de todo o grupo. Disse ao velho casal: "Mas é apenas um carro velho. A vida é doce e só nos toca uma dentada na cereja, por isso, saiam e vivam a vida." Cassandra recuperou o fôlego e prosseguiu: "Mas de nada serviu, David. Os sete bons samaritanos tiveram de abandonar o casal de idosos, à medida que o rio de chamas se espalhava na direcção deles. E o Sr. Crump disse-me, David, que, quando já são e salvo na ribanceira olhou para o velho casal, pôde ver os dois acenando. Acenando, David. Não apenas acenando, mas fazendo-o alegremente, no habitáculo do seu pequeno carro, que era mais valioso para eles do que qualquer outra coisa e sem o qual a vida não fazia qualquer sentido. E uma fracção de segundo antes de o velho Focinho de Boi ser engolido pelas chamas, o Sr. Crump reparou que a anciã estava a tirar-lhe uma fotografia com a sua Canon Sureshot, pedindo-lhe um sorriso, à maneira de Hylda Baker. O Sr. Crump, Reg para os amigos, disse que fez o melhor sorriso que pôde, mas, apesar do calor, não foi um sorriso muito quente, disse ele."


Tom Baker, O Rapaz Que Chutava Porcos

os odiados

Esta chacina do inocente deu a Robert a confirmação de como as pessoas podem ser horríveis. E ele odiava-as. Decidiu aliar-se às lontras, tubarões e arminhos, às cobras venenosas e às ratazanas, às baratas e às aranhas. Robert adorava as criaturas que as pessoas detestavam e queriam destruir. Adorava os odiados e odiava as pessoas.


Tom Baker, O Rapaz Que Chutava Porcos

da rebeldia e da liberdade

Os pais estavam sentados no sofá, virados para as portas, que se abriram de rompante, e ali estavam eles, duas criaturas leves, elegantes e pequeninas, com as faces vivamente rosadas, abrasadas pela geada, e os olhos repletos das excitações da escuridão selvagem em que tinham participado. Respiravam profundamente, e os seus olhos ajustando-se lentamente à realidade, a sala de família iluminada, calorosa, e os pais que estavam sentados a olhar para eles. Durante um momento foi o encontro de duas formas de vida estranhas: as crianças tinham entrado numa selvajaria primitiva e o seu sangue ainda latejava; mas agora a turbulência dentro deles já se libertara e justavam-se aos pais. Harriet e David partilharam aquele momento com eles, estavam com eles em imaginação e na memória das suas próprias infâncias. Podiam claramente ver-se a si próprios, dois adultos, ali sentados, calmos, domésticos, até dignos de pena na sua distância da rebeldia e da liberdade.


Doris Lessing, O Quinto Filho

na outra ponta da sala

Harriet e David, sozinho, de copo na mão, observadores. Ambos tinham pensado que os rostos dos dançarinos, as mulheres mais do que os homens, mas os homens também, tanto podiam estar distorcidos devido a gritos e esgares de dor como agora devido ao prazer e à alegria. Havia uma excitação forçada na cena... mas estes pensamentos, bem como muitos outros, eles não esperavam partilhar com mais ninguém.
Na outra ponta da sala - se alguém realmente a visse por entre tanta gente desejosa de atrair o olhar -, Harriet era uma mancha em pastel. Como num quadro impressionista ou num tuque fotográfico ela parecia uma rapariga diluída no ambiente que a rodeava.
Ela sabia que o olhar de afastamento observador dele espelhava o seu. Calculou que o ar de humor dele era forçado. Ele tecia mentalmente comentários semelhantes acerca dela: ela parecia não gostar daquelas festas tal como ele. Ambos haviam descoberto quem o outro era.


Doris Lessing, O Quinto Filho

no time

© Tracey Emin

alfabeto

E é para eliminarhosis, uma degenerativa aflição
Na qual toda a identidade é forçada à remissão.
Pamela convenceu-se que a sua existência era ficção
E criou em si uma edição de bolso, uma transformação.


Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

lassitude poética

Os pacientes mostram-se preocupados e introspectivos. São frequentemente encontrados a vaguear pelo campo e pelos baluartes montanhosos, admirando pequenas flores. Em muitos casos, sentem-se atraídos pela água e podem ser surpreendidos fitando com olhos límpidos um charco ou uma presa. Alguns pacientes podem vestir-se de forma excêntrica e passar dias estendidos numa chaise-longue suspirando apenas. O consumo de drogas e álcool acompanha frequentemente a Lassitude Poética, o que apenas serve para complicar os sintomas e dificultar ainda mais o diagnóstico. Tipicamente, a doença pode manifestar-se através de afirmações oblíquas. No famoso caso de John Clarke, em 1979, a vítima terá dito: «Continuo convicto de que longos passeios de ociosidade são essenciais à criatividade.» A única actividade positiva dos pacientes durante os estádios primário e secundário da doença é escrevinhar, e por vezes recitar, versos. O exame de tais obras é por si próprio esgotante e pode conduzir a infecção cruzada. O seu conteúdo pode ser bastante forte, quando compreensível. O paciente pode procurar outras vítimas da doença, ou pode fazer com que esta se manifeste em casos de pacientes mais próximos ou susceptíveis e anteriormente assintomáticos. No estado terciário da Lassitude Poética, o paciente torna-se totalmente inútil enquanto pessoa e ser humano, um fardo para os recursos de amigos e familiares, e causa de insolvência para os seus editores. Incapaz de se alimentar, acaba por ser apenas capaz de se vestir, arranjar o cabelo, e talvez aplicar um mínimo de maquilhagem em torno dos olhos. Todo este processo pode levar horas, até que com um langoroso suspiro o paciente simplesmente expira ou desvanece. Em Inglaterra, onde os poetas mortos são muito mais valiosos do que os vivos, o espólio literário que possa ter deixado poderá tornar-se subitamente numa fonte de rendimento para credores ansiosos que esperam ser reembolsados. É, porém, escassa compensação para a angústia e incómodos que os seus sintomas provocaram nas demais pessoas ao longo da sua curta e miserável existência.


Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

doença de lovecraft

A Doença de Lovecraft começa por ser do foro psicológico mas, invariavelmente, consome o corpo e provoca terríveis mutações físicas. Os doentes em estado terminal acabam por se afogar no mar. Se estas mortes são suicídios conscientes ou meros acidentes resultantes da psicopatia da fase avançada da doença, ainda está por explicar. A particularidade destas mortas se darem sempre no mar intriga os especialistas. Algumas pistas (que talvez levantes mais perguntas do que dão respostas) podem ser encontradas na análise de sintomas e da história da própria enfermidade. Os corpos destes infelizes suicidas nunca são recuperados.

Sintomas:

. Despertar em praias desertas onde são arrastados para as águas
. Banhos nocturnos no oceano e sensação de estarem a ser observados do fundo (quando tentam fugir, são perseguidos)
. Visitações a antigas cidades submersas de onde não conseguem sair (as extravagantes descrições das ruínas coincidem em arquitecturas com ângulos não euclidianos)
. Chamamentos (irresístiveis) vindos do abismo
. Perseguição por horrendas criaturas subaquáticas (alguns pacientes relataram descrições de sexo explícito, nem sempre forçado, com homens/mulheres-peixe.

A segunda fase de DeL pode levar meses, anos ou décadas a desenvolver-se. Esta fase é caracterizada por terríveis alterações físicas: a pele dos doentes adquire tonalidade acizentada e a zona da barriga descolora. Os pêlos caem em madeixas e, ao toque, os corpos tornam-se húmidos. As costas, ombros e pernas, talvez devido a inquinações epidérmicas, adquirem uma textura quebradiça, soltando películas calcificadas de epiderme semelhantes a escamas. O rosto é das partes mais afectadas: os beiços incham, dando a ideia que fronte e queixo recuam, e os olhos esbugalham-se, ficando constantemente aguados e raramente pestanejando. Os pescoços dos doentes adquirem dobras de tal maneira pronunciadas que alguns relatos as comparam a guelras. Também as cordas vocais são afectadas, ficando as vozes tão guturais que só os familiares mais próximos as percebem, parecendo a estranhos que os doentes balbuciam sem sentido.


Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

as desgraças cá da graça

Cá na Graça toda a gente pensa que a vida é uma coisa muito triste que aconteça o que acontecer as coisas caminham para pior que não há bem que sempre dure que o pior ainda está para vir e que a gente está sempre lixada já a minha avó que Deus tem coitadinha quando alguém dizia que Deus lhe tinha mandado uma desgraça dizia logo Não te queixes de Deus que se não houvesse Deus havia outra coisa qualquer para te lixar

(...)


In A Mosca, 19 Outubro 1974

Luís de Sttau Monteiro, A Guidinha Antes e Depois

civilização na graça

Não há nada como a gente ler os jornais para andar à moda e crescer depressa sim porque isto cá na Graça está velho como burro e quem manda é a velharia que ainda vive como se vivia no tempo do rei D. Afonso Henriques que era aquele que andava de espada na cintura para o caso de encontrar mouros na rua mas é claro que não se pode viver assim e que isto não é vida para ninguém e que se a gente não muda isto daqui a pouco os turistas deixam de vir à Graça e lá se vai o pilim que a gente ganha com o turismo quem fica a perder com isso é o sr. Lopes coitadinho que fuma cigarros feitos de beatas e que anda sempre atrás de estrangeiros para apanhar as beatas deles porque diz que elas têm um gostinho bestial que disfarça bestialmente o gosto dos cigarros pois eu resolvi ler os jornais para modernizar a Graça e fazer que ela fique como Lisboa que é uma cidade grande e bestial tão boa como as que há lá fora mas que é portuguesa para conseguir isso fui à paragem dos eléctricos que vão para a Baixa que é o sítio onde as pessoas deitam fora os jornais que compram para ler na viagem mas não julguem que é fácil apanhar lá jornais não é não senhor eu para arranjar alguns tive de andar à pancada com o filho da mulher das castanhas que está lá de serviço todo o dia a arranjar papel para a Mãe embrulhar as castanhas um jornal que dava muito gosto às castanhas era o Diário de Lisboa mas agora têm uma maneira nova de o fazer que não dá gosto nenhum palavra que é preciso não ter respeito nenhum pelos amadores de castanhas enfim fui até lá e consegui dois ou três jornais para ver como era a vida nos lugares mais bestiais de Lisboa a primeira notícia que vi foi uma duns que queimaram uma rapariga com pontas de cigarros por ela ter dois namorados ena pai que se esses dos cigarros vierem à Graça queimar as raparigas que têm dois namorados têm trabalho até ao fim da vida e nunca mais têm de dar os nomes no desemprego eu conheço uma que até tem quatro sim senhor quatro um que se chama António outro que se chama João outro que se chama Manuel e outro que é careca mas não sei o nome dele enfim como isso de queimar as pessoas que namoram muito fica bem às grandes cidades resolvi queimar um que anda cá chamado Alberto que não namora ninguém mas que é parvo esse Alberto é já a quarta vez que não me dá um rebuçado apesar de andar sempre com os bolsos cheios e por isso merece umas queimaduras e até merece ser afogado mas isso aqui na Graça é muito difícil porque o lago está à vista de toda a gente e se calhar é proibido afogar pessoas digo isto porque nesta terra é tudo proibido de maneira que os proibidores também são capazes de já ter proibido afogar pessoas enfim chamei a minha amiga Crista que é muito boa para estas coisas porque diz sempre que sim a tudo o que eu quero fazer expliquei-lhe que o meu plano de queimar pessoas para modernizar a Graça e fomos ambas à caça de beatas o pior foi que encontrámos logo o sr. Lopes que começou aos berros a dizer que não tínhamos o direito de andar às beatas porque ele é que fumava não eramos nós e que os cigarros fazem cancros mais isto e mais aquilo para o acalmar tivemos de lhe explicar que não queríamos as beatas para fumar que só as queríamos para queimar o Alberto e ele lá se calou a olhar para nós como se nunca tivesse visto ninguém e depois fugiu pela rua acima o taradinho que quem o visse até era capaz de julgar que eramos polícias mas isso é natural porque aqui a Graça anda muito atrasada e as pessoas ainda não sabem a diferença entre ser moderna e ser antiga enfim em menos de meia hora apanhámos uma data de beatas o sítio melhor é à porta da igreja porque como é proibido fumar la dentro os homens que la chegam a fumar tem de deitar os cigarros fora e alguns chegam a deitar fora os cigarros muito aproveitáveis o que é pena é irem tão poucos homens à igreja aqui na Graça é o que eu digo a Graça anda bestialmente atrasada em tudo até mesmo nestas coisas de religião que tanta falta fazem a quem precisa de beatas depois como o Alberto anda na escola primária sim porque apesar de já ter doze anos o palerma ainda não conseguiu tirar a quarta classe fomos até lá e escondemo-nos atrás do muro à espera de que acabassem as aulas e escondemos os cigarros daí a um bocado apareceu o Alberto e eu chamei-o e mostrei-lhe um rebuçado que tinha pedido emprestado à Crista a ver se ele vinha e ele como é burro que nem uma porta veio logo a correr e a Crista disse-lhe Abre a boca e fecha os olhos e o palerma obedeceu é claro que lhe meti logo na boca um cigarrinho aceso que foi uma limpeza e ele fechou a boca queimou-se mas é bem feito porque só um burro é que fecha a boca com um cigarro aceso lá dentro e desatou aos berros que nem um doido começámos a fazer-lhe festas e a perguntar o que é que ele tinha e se não tinha gostava dos rebuçados de fogo sim porque se há rebuçados de licor porque é que não há de haver rebuçados de fogo? e dissemos-lhe que o melhor era ele sentar-se até aquilo lhe passar e com isto e com aquilo levámo-lo até a ao degrau duma porta eu pus-lhe outra beata debaixo do sim senhor de maneira que quando ele se sentou deu outro berro e outro salto sem razão nenhuma que essa beata até era americana e os cigarros americanos são bestialmente chiques e levou a mão ao sim senhor a ver o que é que tinha e enfiei-lhe outro cigarro na mão e ele sem saber o que era apertou-a e deu um berro tão grande que ouve quem o ouvisse é claro que as pessoas que o ouviram vieram logo a correr ver o que estava a acontecer sim porque aqui na Graça as pessoas são bestialmente bisbilhoteiras e querem saber tudo o que se passa nessa altura eu e a Crista resolvemos ir-nos embora por a graça já está suficientemente civilizada para um dia e fomos mesmo no meio disto tudo o Alberto sofreu um bocado lá isso é verdade mas para haver civilização alguém tem de sofrer e antes ele que eu.


In A Mosca, 23 Janeiro 1972

Luís de Sttau Monteiro, A Guidinha Antes e Depois

the eye has to travel



Diana Vreeland: The Eye Has to Travel, 2011

hands / these things that dust in words


Tilly Losch in Her Dance of the Hands, Norman Bel Geddes, 1930-33

«because the hands have so much
intelligence, it's important to confuse
them now and then»

Tom Waits


e dizia também o Nava que as mãos são de qualquer corpo a coroa.


(este é um post cheio de mãos)

a eternidade

TALHANTE  A prisão é uma prova. O tempo amadurece-te e passa.

RAPARIGA  O tempo nunca fica mais curto. É enorme, à minha frente - como a eternidade. Será que é a eternidade?

TALHANTE  Isso é muito triste, não ajuda. Pensa assim, tens uma pessoa que te acorda de manhã e que partilha a cela contigo. Dia e noite. Mesmo quando dormes ela está lá.


Rainer Werner Fassbinder, Sangue no pescoço do gato

um manicómio para a loucura, uma prisão para a solidão

dentro da gente

MULHER - (...) Mas acredite nisto que eu lhe digo, as pessoas aguentam muita coisa. Somos capazes de suportar tanta coisa, até quando achamos que não vamos conseguir, depois acontece a vida continua mesmo que dentro da gente tenha morrido qualquer coisa. Estou sempre a dizer isto, a dor também faz parte da vida. Não há nada a fazer. Podemos lutar contra isso, claro, mas depois acabamos por perceber, a certa altura, que a vida foi inútil! Gastaram-se forças que podiam ter sido mais úteis noutras coisas.


Rainer Werner Fassbinder, Sangue no pescoço do gato

dê lá por onde der

RAPARIGA - (...) É claro que uma pessoa apesar de tudo tem de se adaptar. Dê lá por onde der. Disso ninguém se safa. Atenção, adaptar-se não quer dizer pores-te logo a pensar de uma maneira diferente daquela que costumas pensar. Para te adaptares começas por reprimir os pensamentos. É como com os sonhos ou com os desejos, é possível a gente viver na sociedade, a sociedade até nos pode oferecer uma ou outra coisa. Tens é de saber ao que vais renunciar. Não se pode ter tudo, é óbvio. E se se pudesse também era demais, não era? No fundo, sabes, tu és responsável por tudo, se levantas a mão, és responsável por isso, ou quando falas, és responsável. És responsável por tudo.


Rainer Werner Fassbinder, Sangue no pescoço do gato

a medida habitual do dizível

PROFESSOR - (...) Percebe a minha ideia? É que aquilo que o poeta é capaz de dizer ultrapassa sempre a medida habitual do dizível. O poeta consegue sentir estados de espírito que nunca ninguém sentiu. E... o poeta sabe antecipadamente, antes de os outros homens fazerem sequer ideia. Por isso é que temos de aprender a analisar o poeta e a sua obra. Eu também, é precisamente uma das funções da escola. Claro que também temos de aprender coisas profanas como a tabuada ou geografia ou biologia, claro. Mas nada supera a importância de se ser capaz de compreender o poeta e o pensador. É verdade que a vida dos homens é constituída em primeiro lugar por números e negócios. Mas por isso mesmo o homem precisa da possibilidade de se distrair para depois poder estar à altura das suas actividades e negócios.


Rainer Werner Fassbinder, Sangue no pescoço do gato

quedas (in)felizes

A felicidade
cai
no lado errado
da Sorte

A felicidade
cai
longe das minhas mãos

A felicidade
despenha-se
entre as árvores

toda a gente se queixa.


Sam Shepard, Crónicas Americanas

era o que dizia a minha tia

num dia de muito calor
a maionese pode matar
era o que dizia a minha tia

dizia-me ela também
quando saires leva sempre a carteira
porque se morreres
eles vão ter que identificar o teu corpo


Sam Shepard, Crónicas Americanas

não tão idiota como a vida

quando dei com a figurante que dobrava a “star”
ao abrirem-se as portas do elevador
e eu ia a sair
e ela ia a entrar
às 4 da manhã
e reparei que ela estava literalmente pedrada
perguntei-lhe com quê
6 valiuns e vinho branco respondeu
porque tinha sido o último dia de filmagens
por isso pensou que havia de celebrar
metendo-se com alguém da equipa
pedradamente
visto que esta era a sua terra natal
e ela teria de continuar precisamente ali
e a angústia de não passar de uma sósia local
abandonada
numa cidade de onde queria desertar
estava a deitá-la abaixo
se estava
e de repente senti-me mais que envergonhado
por ser actor num filme
por provocar ilusões tão estúpidas
por isso levei-a para o meu quarto
sem qualquer desejo pelo seu corpo
nenhum
e ela ficou desesperadamente desiludida
tentou atirar-se da janela abaixo
eu disse-lhe olha que não vale a pena
não passa de um idiota de um filme
ela respondeu não tão idiota como a vida.


Sam Shepard, Crónicas Americanas

apetece-te uma conversa?

Estava capaz de fazer uma fogueira. Apetece-te uma fogueira?
Vou fazer uma fogueira.

Estava capaz de rasgar o jornal de domingo aos bocadinhos
e tentar não ligar aos anúncios.

Estava capaz de acabar de cavar o buraco
que estive a abrir no quintal.

Estava capaz de fazer chá e tomar vitamina C.
Apetece-te uma chávena de chá?

Estava capaz de dar muito simplesmente um passeio,
Sem destino nenhum.

Estava capaz de ficar muito sossegadinho a um canto, parando de inventar motivos
para andar de um lado para outro.

Estava capaz de ter uma conversa contigo.
Apetece-te uma conversa?


Sam Shepard, Crónicas Americanas

seria o paraíso, ter-te à minha espera

Naquele tempo, costumava levar gelo à Nina Simone. Era sempre simpática comigo. Tratava-me sempre por «Queriiido». Levava-lhe uma bandeja cinzenta de plástico cheia de gelo, para ela pôr no Whisky.

Ela descascava a cabeleira loura e atirava-a para o chão. Por debaixo da cabeleira, o seu cabelo verdadeiro era miudinho, como o pêlo de um cordeiro negro tosquiado. Descascava as pestanas postiças e colava-as ao espelho. As pálpebras eram salientes. Pintava-as de azul. Faziam-me sempre pensar numa dessas rainhas egípcias, como as que eu tinha visto na National Geographic. A sua pele brilhava de molhada. Enrolava uma toalha azul à volta do pescoço e depois inclinava-se para a frente, descansando os cotovelos sobre os joelhos. O suor rolava-lhe pela cara abaixo, salpicando o chão vermelho de cimento, entre os seus pés.

Habitualmente acabava o espectáculo com a canção «Jenny The Pirate», de Bertold Brecht. Cantava sempre esta canção como se se tratasse de uma vingança sua, muito profunda, como se tivesse sido ela própria a autora do poema. A sua actuação era como um tiro, que alvejava, primeiro, a garganta de uma audiência branca. depois, o coração. Finalmente, a cabeça. Nesses tempos, ela disparava a matar.

A canção do seu espectáculo que realmente me punha fora de mim era «Que bom era ter-te à minha espera». Sempre que a cantava, eu ficava assombrado, hipnotizado. Andava a recolher copos de Whiskey Sour quando ela atacava aquele piano, que desabava sobre nós, retumbante, com a sua voz fantasmagórica, serpenteando através do amontoado das cordas. Os meus olhos subiam para o palco e por lá ficavam, enquanto as minhas mãos continuavam a trabalhar.

Uma vez, estava ela a cantar essa canção, derrubei uma vela. A cera quente espirrou para cima do fato de um homem de negócios, sujando-o todo. Fui chamado ao escritório do gerente. O homem já lá estava, com os salpicos de cera quente espalhados pelas calças baixo. Parecia que se tinha vindo para cima do fato. Nessa noite, fui despedido.

Lá fora, na rua, ainda podia ouvir a sua voz atravessando as paredes: «Seria o paraíso, ter-te à minha espera.»


Sam Shepard, Crónicas Americanas

chamava-se Loulou

O corpo era verde, as pontas das asas cor-de-rosa, a cabeça azul e o pescoço dourado.

(...)

Como que para a distrair, ele reproduzia o tique-taque do espeto mecânico, o pregão agudo de um peixeiro, a serra do merceneiro que ficava em frente e, quando a campainha tocava, imitava Mme Aubain - Félicité! A porta! A porta!
Dialogavam, ele debitando à saciedade as três frases do seu repertório, ela respondendo-lhe com palavras sem nexo, mas em que abria o seu coração.
Loulou, no seu isolamento, era quase um filho, um namorado. Trepava-lhe pelos dedos, mordiscava-lhe os lábios, agarrava-se-lhe ao xaile e, se ela se inclinava abanando a cabeça, à maneira das amas, as grandes abas do toucado e as asas do pássaro vibravam em conjunto.
Quando as nuvens se amontoavam e ribombava o trovão, soltava gritos, talvez a recordar-se das chuvadas da sua floresta natal. A água a escorrer aumentava-lhe o delírio; esvoaçava, perdido, subia ao tecto, derrubava tudo, saía pela janela e ia chapinhar no jardim, mas logo voltava para um dos ferros da lareira e, saltitando para secar as penas, mostrava, ora a cauda, ora o bico.


Gustave Flaubert, Um Coração Simples

o sobrenatural é muito simples

Logo à entrada do quarto, vislumbrou Virginie, estendida de costas, as mãos postas, boca aberta, a cabeça puxada para trás por sob uma cruz negra inclinada para ela, entre os cortinados imóveis, menos pálidos que o seu rosto. Mme Aubain, aos pés da cama a que se abraçava, soltava soluços de agonia. A superiora estava de pé, à direita. Três candelabros sobre a cómoda projectavam manchas vermelhas e o nevoeiro caiava as janelas. Umas freiras levaram Mme Aubain. Ao longo de duas noites, Félicité não abandonou a morta. Repetia as orações, deitava água benta sobre os lençóis, voltava a sentar-se e contemplava-a. No fim da primeira vigília, reparou que o rosto estava amarelecido, os lábios azulados, o nariz afilado, os olhos encovados. Beijou-os várias vezes; e o seu espanto não teria sido muito grande se Virginie os tivesse voltado a abrir. Para almas como esta, o sobrenatural é muito simples. Compô-la, amortalhou-a, meteu-a no ataúde, pôs-lhe a coroa, arranjou-lhe os cabelos. O seu cabelo era louro e extraordinariamente comprido para a idade. Félicité cortou uma grossa madeixa, que meteu até meio no peito, resolvida a nunca mais se separar dela.


Gustave Flaubert, Um Coração Simples

coisas mórbidas mas bonitas, mas mórbidas, mas bonitas, lidas com lágrimas mil

evocação

Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos teus ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte
ao sol poente

todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão


Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic

o que dizem os teus olhos

ma omrot einayich
simples descobertas
como o fogo e o pavor
mínimos encontros
como o silêncio e o amor
distâncias muito curtas
como os mitos e o espaço
coisas tão vulgares
como a força e o cansaço

ma omrot einayich
dizem tâmara
vontade de cantar
dizem paz
e querer amar
dizem lua e alegria
granito negro e dia

ma omrot einayich
tempo a saber esperar


Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic

noivado

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
—  És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.


Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic

casamento

«Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe.»
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto, estrangulei-a e fui-me embora.


Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic

se eu fosse um vídeo

28 —  Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem para nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que se inclina e diz que sim a todos os ventos.


Florbela Espanca, diário do último ano
23 — Endiabrada Bela! Estranha abelha que dos mais doces cálices só sabes extrair fel! «Para que quer esta criatura a inteligência, se não há meio de ser feliz?», dizia, dantes, meu pai, indignado. Ó ingénuo pai de 60 anos, quando é que tu viste servir a inteligência para tornar feliz alguém? Quando, ó ingénuo pai de 60 anos?... Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria cm volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate cm vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol ou reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no alto, ó ingénuo pai de 60 anos!


Florbela Espanca, diário do último ano
14 — A minha modesta «chaise» faz-me lembrar - «excusez du peu ... » - o Estoril cm Julho: azul do mar, pássaros esquisitos todos asas, gerânios vermelhos cm grandes umbelas floridas. Passo nela o melhor do meu tempo. Acendo um cigarro... e o fumo, dum cinzento-azulado, eleva-se, quase a direito, até ao tecto, todo pintalgado duma bizarra folhagem roxa, e de exóticas rosas cm dois tons de alaranjado, flores de papel inventadas por crianças para divertir bonecas. E a minha «rêverie» eleva-se com o fumo, adelgaça-se, espraia-se, espiritualiza-se. E o meu olhar acaricia, de passagem, o vulto do meu irmão: o meu amigo morto; demora-se, encantado, nas flores das minhas jarras, agora: andorinhas todas brancas, lírios roxos feitos de finos crepes «georgette», camélias vestidas de duras sedas pálidas. A chuva, lá fora, trauteia baixinho a sua clara e doce cantiga de Inverno, a sua eterna melodia simples que embala e apazigua. Sinto-me só. Quantas coisas lindas e tristes eu diria agora a Alguém que não existe!


Florbela Espanca, diário do último ano
11 — Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciéncia nítida dos minutos que passam e dos que se vão seguir. Como compreender a amargura desta amargura? Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas? Deus malicioso e frívolo que tão lindos mantos teces sobre os ombros das mulheres que vivem? Para mim és um fantoche, ora amável ora rabugento, de que eu conheço todos os fios, de quem eu sei de cor todas as contorções. «Attendre sans espérer» poderia ser a minha divisa, a divisa do meu tédio que ainda se dá ao prazer de fazer frases. Não tenho nenhum intuito especial ao escrever estas linhas, não viso nenhum objectivo, não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me.


Florbela Espanca, diário do último ano


soror mariana alcoforado

e o doce Hermínio Monteiro diz assim sobre o amor de Mariana:

«Coração solitário que suplica para fora do convento, do país, para fora do tempo e principalmente do próprio corpo, para o terraço maior que como se sabe é um lugar alto e escuro donde o coração exprime, insondável, as mais profundas vertigens.»

(poetry is colder than death)

Mas eu ainda não descobri outra maneira de analisar a poesia para além do secretíssimo estremeção, como um choque eléctrico, que alguns versos que lemos descarregam sobre o nosso coração.


Manuel Hermínio Monteiro, Urzes

os livros ou as imagens por conta própria

Quando depois de um dia de trabalho os observamos, alinhados e silenciosos nos armazéns, ou nas livrarias, parece que nos fitamos mutuamente. Nós sabemos que há uma incomensurável energia de efeitos imprevisíveis adormecida no seu interior. Uma infinidade de mundos à espera de um toque mágico que os solte do interior das páginas impressas. Trabalhar com livros é também intuir os seus feitiços, milagres e encantamentos. Por isso ficamos presos a eles como as abelhas aos arbustos floridos e só mais tarde calha saborearmos o mel de um trabalho pouco notado. Não admira que gostemos de contemplar as suas lombadas. Cheirar-lhes a tinta quando chegam da tipografia. Se pegamos um no outro, abrimo-lo e começa logo a insinuar-nos a sua história. São incrivelmente sedutores, os livros. E sabem que são únicos na potencialidade dos seus efeitos, como são inúteis e ridículos sem os seus leitores. E só ambos funcionam como extraordinários geradores de imagens e emoções.


Manuel Hermínio Monteiro, Urzes

o espírito errante dos livros

Pela leitura apaixonada, libertamos a alma dos livros e nada há de mais sublime do que constatar como pequenos desenhos repetidos, impressos numa forma que rapidamente se esquece ao ler, seguram as pontas ínfimas da alma. É a partir dessas letras que a alma do livro se ergue, se organiza discreta e subtilmente para depois se altear mais e mais, chegando a estabelecer uma espécie de cúpula ou de telhado. Sob esse tecto levantado pela leitura, conduz-se cada um à sua maneira. As indicações são as palavras escritas que rapidamente se tornam invisíveis e mesmo imperceptíveis, levando-nos às formas, aos cheiros, a compartimentos e gavetas, deixando-nos a sós com as personagens, até que... como cegos, tacteamos já o seu rosto, percorremos as suas feições, mexemos a cor do seu cabelo, alma contra alma, respiramos finalmente o mesmo ar de uma realidade inventada.

(...)

Chora-se ao ler livros. Treme-se de medo ou de frio fora de época. Revoltamo-nos e gozamos. Sentimo-nos catapultados para países que nunca vimos e, como diria Pessoa, perderíamos se na realidade os visitássemos. E todo este trânsito se processa por intermédio de simples objectos feitos de papel impresso.


Manuel Hermínio Monteiro, Urzes

as mulheres e o alentejo

No Alentejo as mulheres vivem retiradas. Mas no seu silêncio fermentam as paixões. Salúquia, Mariana Alcoforado e Florbela Espanca são a constelação mais significativa deste céu escurecido. Eis uma história: sobre os barros negros de Beja, A. de L. ama Rosa Campaniça. De cada vez que se cruzam, ele sorri-lhe com dentes de fome. Pudicamente, ela regressa a casa. E pouco mais acontece na planície para além do trigo a nascer, a ir do verde ao oiro até que, cansado de sol, se desfaz em grão.

(...)

Este é um dos actores principais do silêncio das mulheres alentejanas. Em nenhuma outra região portuguesa a mulher anda tão escondida. Ainda hoje se passa por cidades e vilas do Alentejo e dificilmente se vêem as suas mulheres. Estão metidas em casa, raramente frequentam os poucos cafés. Às vezes vão ver, de longe, escondidas atrás de uns arbustos, os homens jogando futebol. Se as descobrimos, ficam envergonhadas. Mas é o retiro que propicia sabedoras paixões. Mariana Alcoforado é a madrinha de Florbela Espanca e esta é uma actualização da moura Salúquia. Por elas circula a mesma seiva que faz o mistério do Alentejo imenso. Não admira que muitos jovens alemães, que vêm para a base aérea de Beja, acabem com o coração tripulado por estas morenas de olhos profundos.

(...)

Quem ande pelo Alentejo depreende que enquanto os homens se encontram nas grandes tabernas para beber muito e cantar mais, as mulheres alentejanas não cantam porque não as deixam e também porque elas não querem. Gostam pouco de exteriorizar o que lhes vai na alma. Se a paixão é maior do que o silêncio que a suporta, pode dar-se o suicídio. Há diferenças na região? Há. O Norte do Alentejo é mais lírico e o Sul mais trágico e seco.


Manuel Hermínio Monteiro, Urzes

para o caso de passarem por cá e nem de mim saberem

(o meu país é lindo)

se eu fosse um vídeo

Citizen Bird, Joy com imagens de Weg zum Nachbarn, Lutz Mommartz, 1968

o vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


Ruy Belo

among your dead

Be nobody’s darling;
Be an outcast.
Take the contradictions
Of your life
And wrap around
You like a shawl,
To parry stones
To keep you warm.
Watch the people succumb
To madness
With ample cheer;
Let them look askance at you
And you askance reply.
Be an outcast;
Be pleased to walk alone
(Uncool)
Or line the crowded
River beds
With other impetuous
Fools.

Make a merry gathering
On the bank
Where thousands perished
For brave hurt words
They said.

But be nobody's darling;
Be an outcast.
Qualified to live

Among your dead.


Alice Walker

coming home

© Anja Niemi

a mão

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.


Wislawa Szymborska

tristeza sábia

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias.


Ruy Belo

half past one

© Anja Niemi

caminhos do espelho

I
E sobretudo olhar com inocência. Como se não se passasse nada, o que é certo.


II
Mas a ti quero olhar-te até que o teu rosto se afaste do meu medo, como um pássaro do limite afiado da noite.


III
Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente apagada pela chuva.


IV
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.


V
Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona na soleira.


VI
Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e assusta a menina que foste.


VII
A noite dos dois dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.


VIII
E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, eu bebia, recordo.


IX
Cair como um animal ferido no lugar que seria de revelações.


X
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Lá dentro o vento. Tudo fechado e o vento lá dentro.


XI
Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.


XII
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há aqui alguém que treme.


XIII
Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem. E o que desejava eu? Desejava um silêncio perfeito.
Por isso falo.


XIV
A noite tem a forma de um grito de lobo.


XV
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina de mim, fui até àquela que dorme num país ao vento.


XVI
Minha queda sem fim minha queda sem fim onde ninguém me esperou pois ao olhar para quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.


XVII
Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu, embora me referisse à aurora luminosa.


XVIII
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.


XIX
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira de uma afogada que não pára de caminhar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que diz a minha voz.


Alejandra Pizarnik, Trad. Maria Sousa

sunday

Sunday, Alex Prager, 2012, for W magazine

morning glory

Morning, noon & bloody night,
Seven sodding days a week,
I slave at filthy WORK, that might
Be done by any book-drunk freak.
This goes on until I kick the bucket.
FUCK IT FUCK IT FUCK IT FUCK IT


Philip Larkin, Letters to Monica

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adolfo Casais Monteiro Adília Lopes Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Américo António Lindeza Diogo Ana Bessa Carvalho Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Martins Marques Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tecedeiro Ana Teresa Pereira Ana Tinoco Andreia C. Faria André Tomé Angélica Freitas António Amaral Tavares António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Aníbal Fernandes Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bruno Béu Bruno Sousa Villar Bénédicte Houart Camilo Castelo Branco Camilo Pessanha Carlos Alberto Machado Carlos Bessa Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Poças Falcão Carlos Soares Carlos de Oliveira Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Eduarda Chiote Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio Lisboa Eugénio de Andrade Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Hélia Correia Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Morais Varela Joana Serrado Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge Carrera Andrade Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga Jorge de Sena José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Miguel Silva José Mário Silva José Pascoal José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Maia João Manuel Ribeiro João Miguel Henriques João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Judith Teixeira Leitão de Barros Leonor Castro Nunes Luiza Neto Jorge Luís Miguel Nava Luís Quintais Madalena de Castro Campos Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel Fúria Manuel Gusmão Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Azenha Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Mergulhão Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Maria do Rosário Pedreira Maria Ângela Alvim Marta Chaves Matilde Campilho Mendes de Carvalho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Mário Cesariny Mário Contumélias Mário Dionísio Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário de Sá-Carneiro Mário-Henrique Leiria Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Patrícia Baltazar Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Loureiro Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Pedro Tiago Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raquel Serejo Martins Raul Malaquias Marques Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rosa Maria Martelo Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Costa Rui Cóias Rui Knopfli Rui Lage Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Andrade Sandra Costa Sebastião Alba Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Sílvio Mendes Tatiana Faia Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Teresa M. G. Jardim Tiago Araújo Tiago Gomes Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno gil t. sousa valter hugo mãe Ângelo de Lima

poemário dali

A. E. Housman Abbas Kiarostami Abel Feu Adelaide Ivánova Adrienne Rich Adélia Prado Agota Kristof Al Purdy Alberto Tugues Alda Merini Aldous Huxley Alejandra Pizarnik Alejandro Jodorowsky Alexander Demidov Alfredo Veiravé Alice Walker Allen Ginsberg Amalia Bautista Amiri Baraka Amy Lowell Amy M. Homes Ana Merino André Breton Andrés Trapiello Angela Carter Anis Mojgani Anna Akhmatova Anna Kamienska Anne Carson Anne Perrier Anne Sexton Antonia Pozzi Antonin Artaud Antonio Gamoneda Antonio Orihuela Antonio Pérez Morte Antonio Sáez Delgado Arnold Lobel Arseny Tarkovsky Arthur Rimbaud Basilio Sánchez Benjamín Prado Bernard-Marie Koltès Billy Collins Boris Vian Brett Elizabeth Jenkins Brian Andreas Brian Patten Carl Phillips Carl Sandburg Carlos Drummond de Andrade Carlos Edmundo de Ory Carlos Marzal Carmen Gloria Berríos Carol Ann Duffy Cecília Meireles Cesare Pavese Charles Baudelaire Charles Bukowski Charles Dana Gibson Charles M. Schulz Chen Bolan Christoph Wilhelm Aigner Clarice Lispector Constantino Cavafy Corey Zeller Countee Cullen Cristopher Painter Cristovam Pavia Czesław Miłosz Damien Sevhac Daniel Clowes Daniel Francoy Daniel Pennac Daphne Gottlieb David Bowie David Lagmanovich David Lehman Delia Brown Delmore Schwarts Derek Walcott Derrick Brown Diamanda Galás Diane Ackerman Djuna Barnes Don Herold Dorianne Laux Dorothea Lasky Dorothy Parker Douglas Huebler Dylan Thomas E. E. Cummings E. Ethelbert Miller E. M. Cioran Edgar Allan Poe Edna O'Brien Eduarda Chiote Eduardo Bechara Eeva-Liisa Manner Egito Gonçalves Eleanor Farjeon Elie Wiesel Elis Regina Elizabeth Bishop Elizabeth Ross Taylor Else Lasker-Schuler Elsie Wood Elías Moro Emily Dickinson Emily Kagan Trenchard Erin Dorsey Eunice de Souza Fabiano Calixto Federico Díaz-Granados Federico García Lorca Fernando Arrabal Fernando Caio de Abreu Fernando Echevarría Fernando Gandra Ferreira Gular Forough Farrokhzad Francisco Madariaga Frank O'Hara Frederico Pedreira Félix Grande G. K. Chesterton Gabriel Celaya Geir Gulliksen Georges Bataille Gerrit Komrij Giovanny Gómez Giánnis Ritsos Glória Gervitz Gottfried Benn Guillaume Apollinaire Gustavo Adolfo Bécquer Gustavo Ortiz Günter Kunert H. P. Lovecraft Hal Sirowitz Hans-Ulrich Treichel Harold Pinter Harvey Shapiro Heiner Müller Heinrich Heine Helen Mort Henri Béhar Henri Michaux Henry Rollins Hermann Hesse Hilda Hilst Hilde Domin Hoa Nguyen Hugh Mackay Hugo Williams Hugo von Hofmannsthal Ingeborg Bachmann Ingmar Heytze Isabel Meyrelles Isabelle McNeill J. M. Fonollosa J. R. R. Tolkien Jack Gilbert Jack Kerouac Jack Winter Jacques Lacan Jacques Prévert James L. White James Rogers James Tate Jane Hirshfield Janet Frame Jean Baudrillard Jean Day Jeanette Winterson Jenny Joseph Jenny Schecter Jesús Llorente Jim Carroll Joan Julier Buck Joan Margarit Jodi Picoult Johann Wolfgang Goethe Johannes Bobrowski John Ashbery John Giorno John Keats John Mateer John Updike Jonathan Littell Jonathan Safran Foer Jonathan Swift Jorge Amado Jorge Luis Borges Joseph Brodsky Joseph Cervavolo José Eduardo Agualusa José Gardeazabal José Mateos Juan José Millás Juan Ramón Jiménez Judith Herzberg Junko Takahashi Justine Hermitage József Attila Katerina Angheláki-Rooke Kathy Acker Kendra Grant Kenneth Patchen Kenneth Traynor Kosntandinos Kavafis Kristina H. Langston Hughes Larissa Szporluk Lauren Mendinueta Laurie Anderson Lawrence Ferlinghetti Leila Miccolis Leonard Cohen Leonardo Chioda Leonardo Da Vinci Leopoldo María Panero Lewis Carroll Lord Byron Lou Andreas-Salomé Lou Reed Louis Aragon Louis Buisseret Lourdes Espínola Lucía Estrada Luis Alberto de Cuenca Luis García Montero Luís Filipe Parrado Lêdo Ivo Lígia Reyes Malcolm Lowry Manoel de Barros Manuel Arana Marco Mackaaij Margaret Atwood Marianne Boruch Mariano Peyrou Marin Sorescu Marina Colasanti Martha Carolina Dávila Martin Amis Mary Elizabeth Frye Mary Jo Salter Mary Oliver Mary Ruefle María Sánchez Max Porter Medlar Lucan & Durian Gray Melissa Witcombe Mia Couto Michael Drayton Michel Carpassou Michel Houellebecq Miguel de Cervantes Miriam Reyes Mitch Albom Morgan Parker Muhammad al-Maghut Muriel Rukeyser Natsume Soseki Neil Gaiman Nicanor Parra Nichita Stanescu Nicole Blackman Nina Rizzi Octavio Paz Olga Orozco Omar Khayyam Osho Otávio Campos Pablo Fidalgo Lareo Pablo García Casado Pablo Neruda Pat Boran Patricia Beer Patti Smith Paul Géraldy Paul Theroux Paul Éluard Paulo Leminski Pentti Saaritsa Per Aage Brandt Pere Gimferrer Philip Larkin Philip Roth Philippe Wollney Pia Tafdrup Pier Paolo Pasolini Pierre Reverdy Piotr Sommer Rafael Alberti Rainer Maria Rilke Ramón Gómez de la Serna Raymond Carver Raymond Queneau Raúl Gustavo Aguirre Reinaldo Ferreira Reiner Kunze Richard Brautigan Richard Burton Roald Dahl Robert Creeley Robert Frost Roberto Bolaño Roberto Fernández Retamar Roberto Juarroz Robin Robertson Rod McKuen Roger Wolfe Ron Padgett Rosa Aliaga Ibañez Rosemarie Urquico Rubens Borba de Moraes Rudyard Kipling Russell Edson Ruth Stone Ryan Montanti Saiónji Sanekane Salman Rushdie Salvador Novo Sam Shepard Samuel Beckett Sandro Penna Santiago Nazarian Sei Shonagon Serge Gainsbourg Sharon Olds Shel Silverstein Silvia Chueire Silvia Ugidos Simone de Beauvoir Somerset Maugham Stephen Crane Stephen Wright Steve Mccaffery Stevie Smith Stuart Dischell Sue Goyette Susana Cabuchi Sylvia Plath T. S. Eliot Tai Fu Ku Tanya Davis Tati Bernard Tatianna Rei Moonshadow Tennessee Williams Thom Gunn Tiago Fabris Rendelli Tilly Strauss Tom Baker Tom Waits Toni Montesinos Gilbert Ulla Hahn Valentine de Saint-Point Vicente Aleixandre Victor Heringer Victor Prado Vincenzo Cardarelli Vinicius de Moraes Vladimir Maiakovski Vladimir Nabokov W. H. Auden Walt Whitman Warsan Shire William Blake William Butler Yeats William Carlos Williams William Shakespeare Winnie Meisler Winona Baker Wislawa Szymborska Yehuda Amichai Yohji Yamamoto Yoko Ono Yorgos Seferis Zee Avi liam ryan

livraria

. A Sul de Nenhum Norte . . Granta . Adolfo Bioy Casares . Al Berto . Alexandre O'Neill . Algernon Blackwood . Ali Smith . Alice Munro . Alice Turvo . Almanaque do Dr. Thackery . Anaïs Nin . Anita Brookner . Ann Beattie . Annemarie Schwarzenbach . Anton Tchekhov . António Ferra . António Lobo Antunes . Arthur Miller . Boris Vian . Bret Easton Ellis . Carlos de Oliveira . Carson McCullers . Charles Bukowski . Chuck Palahniuk . Clarice Lispector . Conde de Lautréamont . Cormac McCarthy . Cristiane Lisbôa . Donald Barthelme . Doris Lessing . Dulce Maria Cardoso . Edith Wharton . Eileen Chang . Elena Ferrante . Enrique Vila-Matas . Erasmo de Roterdão . Ernest Hemingway . Ernesto Sampaio . F. Scott Fitzgerald . Fernando Pessoa . Flannery O'Connor . Florbela Espanca . Franz Kafka . Françoise Sagan . Frida Kahlo . Gabriel García Márquez . Gonçalo M. Tavares . Graça Pina de Morais . Gustave Flaubert . Guy de Maupassant . Harold Pinter . Haruki Murakami . Henri Michaux . Herberto Hélder . Hunter S. Thompson . Irene Lisboa . Irène Némirovsky . Italo Calvino . J. D. Salinger . Jack Kerouac . James Joyce . Jean Cocteau . Jean Genet . Jean Meckert . Jean-Paul Sartre . Jeffrey Eugenides . Jim Cartwright . Joan Didion . John Cheever . Josep Pla . José Jorge Letria . José Saramago . Julian Barnes . Julio Cortázar . Karen Blixen . Kate Chopin . Katherine Mansfield . Kurt Vonnegut . Lillian Hellman . Luiz Pacheco . Luís Miguel Nava . Luís de Sttau Monteiro . Lydia Davis . Lygia Fagundes Telles . Lázaro Covadlo . Malcolm Lowry . Manuel Hermínio Monteiro . Manuel Jorge Marmelo . Marcel Proust . Margaret Atwood . Marguerite Duras . Marguerite Yourcenar . Marina Tsvetáeva . Mark Lindquist . Marquis de Sade . Max Aub . Miguel Castro Henriques . Miguel Esteves Cardoso . Miguel Martins . Milan Kundera . Mário C. Brum . Mário-Henrique Leiria . Natalia Ginzburg . Neil Gaiman . Nick Cave . Norman Rush . Orhan Pamuk . Oscar Wilde . Paul Auster . Paulo Rodrigues Ferreira . Pedro Mexia . Penelope Fitzgerald . Pierre Louÿs . Rainer Maria Rilke . Rainer Werner Fassbinder . Raul Brandão . Ray Bradbury . Rebecca West . Regina Guimarães . Richard Yates . Roland Barthes . Roland Topor . Rolf Dieter Brinkmann . Rui Nunes . S. E. Hinton . Sam Shepard . Samuel Beckett . Sarah Kane . Sebastian Barry . Shirley Jackson . Stig Dagerman . Susan Sontag . Susana Moreira Marques . Sylvia Plath . Tennessee Williams . Teresa Veiga . Tom Baker . Truman Capote . Vasco Gato . Vera Lagoa . Vergílio Ferreira . Virginia Woolf . Vladimir Nabokov . William Faulkner . Woody Allen . Yasunari Kawabata . Yukio Mishima . valter hugo mãe .
page visitor counter

mariaravascosoares@gmail.com
ocinemadaoqueavidatira.tumblr.com