© Duane Michals
tens um cigarro?
sabes como magoa a madrugada?
quando passas dias inteiros
entre quatro paredes
todos os dias são inverno
tens um cigarro?
a manhã nasce sempre de ausência
e rodeada de um silêncio
tão vazio
(as memórias magoam)
faço uma lista de todas as mortes
possíveis
Maria Sousa
quando passas dias inteiros
entre quatro paredes
todos os dias são inverno
tens um cigarro?
a manhã nasce sempre de ausência
e rodeada de um silêncio
tão vazio
(as memórias magoam)
faço uma lista de todas as mortes
possíveis
Maria Sousa
o meu coração
Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.
Podes até queimá-lo
– com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.
Inês Dias
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.
Podes até queimá-lo
– com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.
Inês Dias
só
Ninguém percebeu quanto ela tinha mudado e como lhe parecia natural estar sozinha, mostrar-se cortês e defender-se habilmente, sem ajuda. Ninguém conhecia a sóbria e vitoriosa sensação que por vezes a tomava, quando percebia até que ponto estava só.
Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher
Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher
nas de livros em segunda mão
Achei que seria capaz de trabalhar na biblioteca, por isso fui até lá perguntar, embora eles não tivessem publicado nenhum anúncio. Uma mulher pôs o meu nome numa lista. Foi simpática, mas não me deu esperanças. Depois tentei o mesmo nas livrarias, escolhendo as que pareciam não ter máquina registadora. Quanto mais vazias e desarrumadas melhor. Encontrava os donos a fumar, ou dormitando atrás das suas secretárias, e nas de livros em segunda mão era frequente cheirar a gato.
Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher
Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher
um estremecimento de terror
Claro que já não tinha tempo para ler. Às vezes, durante o meu trabalho à secretária, pegava num livro - mas como quem pega num objecto qualquer, e não um recipiente que tinha que esvaziar de imediato - e sentia um estremecimento de terror semelhante ao que sentimos quando, num sonho, damos por nós num edifício desconhecido, ou verificamos que nos enganámos na data de um exame, e vislumbramos nisso uma alusão a um vago cataclismo ou a um qualquer erro que nos acompanhará para toda a vida.
Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher
Alice Munro, O Amor de Uma Boa Mulher
na igreja
Ao despertarem, as meninas já devem ter acabado por completo de se masturbar quando começam as orações.
Se não vos tiverdes masturbado o bastante de manhã, não deveis acabar de o fazer na missa.
Não deveis acompanhar a missa com um exemplar do Gamiani, mormente se for ilustrado.
Nunca deveis arrancar um botão das cuecas do vosso vizinho, na missa, na altura do peditório. Fazei-o antes de entrardes.
«As pessoas que saibam de algum impedimento que obste à realização deste matrimónio são obrigadas a declará-lo», proclama o padre. Trata-se, todavia, duma simples praxe. Não devereis pois erguer-vos a tais palavras a fim de revelardes confidências.
Quando vos encontrais junto duma senhora que se ajoelha arqueando os rins, não lhe pergunteis se essa posição lhe traz à ideia lembranças ternas.
Durante a catequese, se o jovem vigário vos perguntar o que é a luxúria, não lhe respondais, com risinhos, que melhor do que ele o sabeis vós e vossas amigas.
No dia da vossa primeira comunhão, se uma senhora exclamar, ao ver-vos: «Como vai linda! Até parece uma noivinha!», não deveis responder: «Só cá me falta a flor de laranjeira». Uma tal réplica seria considerada atrevida.
Se antes de irdes comungar chupardes um cavalheiro, sobretudo evitai engolir o esperma, pois desse modo deixaríeis de ficar em jejum, como deveis.
Se durante o sermão o pregador tem ar de acreditar na «pureza das raparigas cristãs», evitai rir às gargalhadas. E se à tarde foderdes na igreja de uma aldeia não laveis o cu na pia de água benta. Longe de assim purificardes o vosso pecado, agravá-lo-íeis.
Ao ajoelhardes diante do altar, não convideis em voz baixa a menina que estiver ao vosso lado a deitar-se convosco à tarde.
Pierre Louÿs, Manual de civilidade para meninas
Se não vos tiverdes masturbado o bastante de manhã, não deveis acabar de o fazer na missa.
Não deveis acompanhar a missa com um exemplar do Gamiani, mormente se for ilustrado.
Nunca deveis arrancar um botão das cuecas do vosso vizinho, na missa, na altura do peditório. Fazei-o antes de entrardes.
«As pessoas que saibam de algum impedimento que obste à realização deste matrimónio são obrigadas a declará-lo», proclama o padre. Trata-se, todavia, duma simples praxe. Não devereis pois erguer-vos a tais palavras a fim de revelardes confidências.
Quando vos encontrais junto duma senhora que se ajoelha arqueando os rins, não lhe pergunteis se essa posição lhe traz à ideia lembranças ternas.
Durante a catequese, se o jovem vigário vos perguntar o que é a luxúria, não lhe respondais, com risinhos, que melhor do que ele o sabeis vós e vossas amigas.
No dia da vossa primeira comunhão, se uma senhora exclamar, ao ver-vos: «Como vai linda! Até parece uma noivinha!», não deveis responder: «Só cá me falta a flor de laranjeira». Uma tal réplica seria considerada atrevida.
Se antes de irdes comungar chupardes um cavalheiro, sobretudo evitai engolir o esperma, pois desse modo deixaríeis de ficar em jejum, como deveis.
Se durante o sermão o pregador tem ar de acreditar na «pureza das raparigas cristãs», evitai rir às gargalhadas. E se à tarde foderdes na igreja de uma aldeia não laveis o cu na pia de água benta. Longe de assim purificardes o vosso pecado, agravá-lo-íeis.
Ao ajoelhardes diante do altar, não convideis em voz baixa a menina que estiver ao vosso lado a deitar-se convosco à tarde.
Pierre Louÿs, Manual de civilidade para meninas
eu também
- Não gostarias de dar-me ideia da forma como procedeste para meter conversa com ela?... - prosseguiu Colin.
- Pois bem... - disse Chick -, perguntei-lhe se gostava do Jean-Sol Patre, e respondeu-me que fazia colecção das obras dele... Respondi-lhe então: «Eu também...» Cada vez que eu dizia qualquer coisa, respondia «Eu também...», e vice-versa. Por fim, só para fazer uma experiência existencialista, eu disse: «Gosto muito de si», e ela disse: «Oh!»
- A experiência falhou - disse Colin.
- Falhou - disse Chick. - Mas ainda assim não se foi embora. Então eu disse: «Vou por ali», e ela respondeu: «Eu não», e acrescentou: «Eu cá vou por ali».
- É extraordinário - garantiu Colin.
- Então eu disse: «Eu também». E estive em toda a parte onde ela esteve.
Boris Vian, A Espuma dos Dias
- Pois bem... - disse Chick -, perguntei-lhe se gostava do Jean-Sol Patre, e respondeu-me que fazia colecção das obras dele... Respondi-lhe então: «Eu também...» Cada vez que eu dizia qualquer coisa, respondia «Eu também...», e vice-versa. Por fim, só para fazer uma experiência existencialista, eu disse: «Gosto muito de si», e ela disse: «Oh!»
- A experiência falhou - disse Colin.
- Falhou - disse Chick. - Mas ainda assim não se foi embora. Então eu disse: «Vou por ali», e ela respondeu: «Eu não», e acrescentou: «Eu cá vou por ali».
- É extraordinário - garantiu Colin.
- Então eu disse: «Eu também». E estive em toda a parte onde ela esteve.
Boris Vian, A Espuma dos Dias
às cabeçadas
O rapaz arrependeu-se:
- Não chores. Eu acredito.
- Pudera, até no escuro se bate com a cabeça na verdade.
- Cá estou às cabeçadas.
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva
- Não chores. Eu acredito.
- Pudera, até no escuro se bate com a cabeça na verdade.
- Cá estou às cabeçadas.
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva
a morte sabe onde fica
Muller,
Café Muller.
A morte sabe onde fica.
Manuel de Freitas, Jukebox 1 & 2
o meu quarto (e o do proust)
As teorias de William Morris, que foram tão constantemente aplicadas por Marple e os decoradores ingleses, estabelecem que um quarto só é bonito se contiver apenas coisas que nos são úteis e que as coisas úteis, nem que seja um simples prego, não estejam dissimuladas, mas à vista.
Julgando-o segundo os princípios desta estética, o meu quarto não era de modo algum bonito, pois estava cheio de coisas que não serviam para nada e que dissimulavam pudicamente, até tornarem o seu uso extremamente difícil, as que serviam para alguma coisa.
Mas era precisamente a essas coisas que não estavam ali para minha comodidade, mas pareciam ter vindo para lá por vontade delas, que o meu quarto ia buscar para mim a beleza dele.
Todas estas coisas, que não só não podiam corresponder a nenhuma das minhas necessidades, mas comportavam até um entrave, aliás ligeiro, à satisfação delas, que evidentemente nunca tinham sido postas ali para a utilidade fosse de quem fosse, povoavam o meu quarto de pensamentos de certo modo pessoais, com aquele ar de predilecção de terem escolhido viver ali e de gostarem de ali estar, que têm muitas vezes, numa clareira, as árvores, e, à beira dos caminhos ou sobre muros velhos, as flores.
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
Julgando-o segundo os princípios desta estética, o meu quarto não era de modo algum bonito, pois estava cheio de coisas que não serviam para nada e que dissimulavam pudicamente, até tornarem o seu uso extremamente difícil, as que serviam para alguma coisa.
Mas era precisamente a essas coisas que não estavam ali para minha comodidade, mas pareciam ter vindo para lá por vontade delas, que o meu quarto ia buscar para mim a beleza dele.
Todas estas coisas, que não só não podiam corresponder a nenhuma das minhas necessidades, mas comportavam até um entrave, aliás ligeiro, à satisfação delas, que evidentemente nunca tinham sido postas ali para a utilidade fosse de quem fosse, povoavam o meu quarto de pensamentos de certo modo pessoais, com aquele ar de predilecção de terem escolhido viver ali e de gostarem de ali estar, que têm muitas vezes, numa clareira, as árvores, e, à beira dos caminhos ou sobre muros velhos, as flores.
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
chaves mágicas
Enquanto a leitura for para nós a iniciadora cujas chaves mágicas nos abrem no fundo de nós próprios a porta das habitações onde não teríamos conseguido penetrar, o papel dela na nossa vida será salutar.
É perigoso ao invés quando, em vez de nos despertar para a vida pessoal do espírito, a leitura tende a substituí-la, quando a verdade deixa de nos surgir como um ideal que só podemos realizar através do progresso íntimo do nosso pensamento e do esforço do nosso coração, mas como uma coisa material, depositada entre as folhas dos livros como um mel preparado pelos outros e que só temos de nos dar ao trabalho de alcançar nas prateleiras das estantes e de saborear em seguida passivamente num perfeito repouso de corpo e de espírito.
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
É perigoso ao invés quando, em vez de nos despertar para a vida pessoal do espírito, a leitura tende a substituí-la, quando a verdade deixa de nos surgir como um ideal que só podemos realizar através do progresso íntimo do nosso pensamento e do esforço do nosso coração, mas como uma coisa material, depositada entre as folhas dos livros como um mel preparado pelos outros e que só temos de nos dar ao trabalho de alcançar nas prateleiras das estantes e de saborear em seguida passivamente num perfeito repouso de corpo e de espírito.
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
casos de depressão espiritual
Há contudo alguns casos, alguns casos patológicos por assim dizer, de depressão espiritual, em que a leitura se pode tornar uma espécie de disciplina curativa e ser encarregada, através de incitamentos repetitivos, de reintroduzir perpetuamente um espírito preguiçoso na vida do espírito. Os livros desempenham então junto dele um papel análogo ao dos psicoterapeutas junto de certos neurasténicos.
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
corrida de ratos
- Corrida de ratos... É a designação perfeita para a nossa vida - afirmou. - Andamos sempre a correr, a correr, e nunca perguntamos para onde. Já alguma vez ouviste falar em ter-se mais do que se quer, para depois já não se poder querer mais nada e começar-se a procurar mais qualquer coisa que se queira? Parece que andamos sempre à procura de qualquer coisa que nos satisfaça sem nunca a encontrarmos. Talvez a encontrássemos se perdêssemos a nossa frieza.
S. E. Hinton, Os Marginais
S. E. Hinton, Os Marginais
tanto silêncio
Há que fazer
uma ampliação
nesta casa
já não há onde
guardar
tanto silêncio
Carmen Gloria Berríos, trad. Maria Sousa
uma ampliação
nesta casa
já não há onde
guardar
tanto silêncio
Carmen Gloria Berríos, trad. Maria Sousa
the fantastic flying books
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, William Joyce and Brandon Oldenburg, 2011
love poem
It's so nice
to wake up in the morning
all alone
and not have to tell somebody
you love them
when you don't love them
any more.
Richard Brautigan
to wake up in the morning
all alone
and not have to tell somebody
you love them
when you don't love them
any more.
Richard Brautigan
carta a humphrey bogart, já de muito longe
As janelas
estão todas
fechadas. Se alguém toca
ninguém abre. Estará
vazia a casa?
É Fevereiro, é
Março, é Abril: abro o
frigorífico. Não há cadáveres em casa. Meu caro
Humphrey Bogart
a tua imagem do
homem que não
ri, hóspede solitário
numa casa que já
só tem fachada
em pleno Beverly
Hills. Mas o copo na mão
não treme. É Maio, Junho, Julho.
É Agosto, Setembro, Outubro.
Não se ouvem passos no caminho de saibro. Não há
cadáveres em casa. E todas as janelas
para sempre fechadas depois daquele único
tiro.
Rolf Dieter Brinkmann, O Cinema em Palavras
estão todas
fechadas. Se alguém toca
ninguém abre. Estará
vazia a casa?
É Fevereiro, é
Março, é Abril: abro o
frigorífico. Não há cadáveres em casa. Meu caro
Humphrey Bogart
a tua imagem do
homem que não
ri, hóspede solitário
numa casa que já
só tem fachada
em pleno Beverly
Hills. Mas o copo na mão
não treme. É Maio, Junho, Julho.
É Agosto, Setembro, Outubro.
Não se ouvem passos no caminho de saibro. Não há
cadáveres em casa. E todas as janelas
para sempre fechadas depois daquele único
tiro.
Rolf Dieter Brinkmann, O Cinema em Palavras
o meu abismo debaixo de água
QUANDO OS SONHOS NÃO VÃO LONGE, correm até à infância e voltam brancos, por grandes alamedas de tristeza e de bruma, a alturas que o olhar não toca, lá onde tu estás e eu não chego. Queria acariciar os teus cabelos mortos, deixar cair entre os nossos espaços o tempo cheio de espaços antes da escuridão acabar de roer a forma da tua sombra.
Quando há uma cama demasiado larga às cinco e dez da manhã: lágrimas, lágrimas - lágrimas. Quando se ouvem passos e não são os teus passos, quando o silêncio não é a pausa da tua respiração, quando não há essa força e esse fogo, essa paz do corpo que torna invulnerável - oh, é muito simples: o pensamento pára
tem que parar
pára
Quando as urtigas nascem por toda a parte, queimam, quando os pântanos alastram e as areias movediças, e a tua mão não está lá, a mão cujos dedos eu conhecia como se conhece um filho, a mão-rocha e a mão-mulher, a mão-sol, a mão-filipêndula batida pelo vento, mas enfrentando-o - é-se como o veado ferido que agoniza em silêncio.
O que vem depois, vem como o sangue depois de um corte fundo, não pára, mas falta-nos metade das nossas veias, metade dos nossos nervos, metade da nossa pele esfolada, metade do nosso coração gelado. Estou meio cego, perdi metade da minha idade. Falta a sombra dos teus cabelos, a raiz dos teus dentes, o meu abismo debaixo de água.
Ernesto Sampaio, Fernanda
Quando há uma cama demasiado larga às cinco e dez da manhã: lágrimas, lágrimas - lágrimas. Quando se ouvem passos e não são os teus passos, quando o silêncio não é a pausa da tua respiração, quando não há essa força e esse fogo, essa paz do corpo que torna invulnerável - oh, é muito simples: o pensamento pára
tem que parar
pára
Quando as urtigas nascem por toda a parte, queimam, quando os pântanos alastram e as areias movediças, e a tua mão não está lá, a mão cujos dedos eu conhecia como se conhece um filho, a mão-rocha e a mão-mulher, a mão-sol, a mão-filipêndula batida pelo vento, mas enfrentando-o - é-se como o veado ferido que agoniza em silêncio.
O que vem depois, vem como o sangue depois de um corte fundo, não pára, mas falta-nos metade das nossas veias, metade dos nossos nervos, metade da nossa pele esfolada, metade do nosso coração gelado. Estou meio cego, perdi metade da minha idade. Falta a sombra dos teus cabelos, a raiz dos teus dentes, o meu abismo debaixo de água.
Ernesto Sampaio, Fernanda
um nome inscrito na minha carne
OS DIAS PASSAM COMO NUVENS e a sua sombra sobre a terra. O mobiliário não mudou: prédios, automóveis, aves cujo voo as espingardas interrompem, tardes fechadas, amor destruído. O deus cerca-nos quando quer, ou deixa-nos, deixa o universo dupla, triplamente deserto. A sua própria dor escapa-nos. É para um céu vazio que ergo os meus olhos e as minhas mãos. Adeus, luz que giravas sobre o mundo. Adeus, beleza das horas. A lua sobre a casa. Os morcegos sobre a lua. A lua sobre o pântano. A lua no fundo do pântano. A lua sobre as árvores. A brisa nas árvores. A bruma nos campos.
Que me importam estes desenhos animados, este vazio. Murmuro o teu nome. Não há mais mundo senão o amor de ti. Tu não te desdizes. Quase não te afastas. Quase não ouço os mortos que estão atrás de ti. Não se decide pelos mortos. Pesam nas raízes como uma terra mais escura. E o caminho das sementes insinua-se entre eles e essa lei confusa que proferem. Astros queimados de sal, nada pode impedi-los de governar por dentro. Permanecer por dentro. Endurecer contra a casca. É por dentro que negamos ao vazio o seu reino. É lá que a tua sombra ainda está nos meus olhos. Não espero desfazer o desejo com a divagação do desejo, porque há um nome inscrito na minha carne, um nome, um grito imóvel na duração dos astros, um insecto com o aprumo dos mortos.
Ernesto Sampaio, Fernanda
Que me importam estes desenhos animados, este vazio. Murmuro o teu nome. Não há mais mundo senão o amor de ti. Tu não te desdizes. Quase não te afastas. Quase não ouço os mortos que estão atrás de ti. Não se decide pelos mortos. Pesam nas raízes como uma terra mais escura. E o caminho das sementes insinua-se entre eles e essa lei confusa que proferem. Astros queimados de sal, nada pode impedi-los de governar por dentro. Permanecer por dentro. Endurecer contra a casca. É por dentro que negamos ao vazio o seu reino. É lá que a tua sombra ainda está nos meus olhos. Não espero desfazer o desejo com a divagação do desejo, porque há um nome inscrito na minha carne, um nome, um grito imóvel na duração dos astros, um insecto com o aprumo dos mortos.
Ernesto Sampaio, Fernanda
(don't be afraid)
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Paulo Leminski
dores na alma, oh dores na alma!
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Paulo Leminski
dores na alma, oh dores na alma!
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