os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas


Manoel de Barros

tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.


Manoel de Barros

o fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.


Manoel de Barros

o livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.


Manoel de Barros

o apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

itsi bitsi petit bikini

© Martin Parr

o escarlate de um artista louco

Que vermelho que era o sangue contra a brancura do lavatório de porcelana!, pensei eu. Uma cor tão vividamente concebida, pensei, tão chocante do ponto de vista estético. Os outros fluidos que saíam dos nossos corpos eram baços, os mais pálidos dos esguichos. Cuspo esbranquiçado, sémen leitoso, mijo amarelo, ranho castanho-esverdeado. Nós excretávamos cores de Outono e Inverno, mas, corrrendo invisivelmente nas nossas veias, a matéria mesma que nos mantinha vivos era escarlate, o escarlate de um artista louco - um vermelho tão brilhante como tinta fresca.


Paul Auster, A Noite do Oráculo

se eu fosse um vídeo

essa flor frágil, mas tenaz e venenosa

Mas, no dia em que o homem fala do amor, no dia em que aceita encará-lo, compreende pela primeira vez a sua própria fragilidade. As sinuosas e tenazes raízes enterram-se cada vez mais profundamente dentro dele. No preciso momento em que por fim, treme, em que pensa «Já chega, basta, o jogo acabou...», é o minuto exacto em que sucumbe, em que já se acostumou a esse amor, em que ama esse sofrimento, e então só lhe resta esperar que o tempo e o cansaço destruam essa flor frágil, mas tenaz e venenosa.


Irène Némirovsky, O Vinho da Solidão

como um nadador afasta a água com os braços estendidos

A vida era inconstante, instável, pouco segura. Nada durava muito. Uma torrente implacável arrastava os entes queridos, os dias tranquilos, levava-os para longe e guardava-os para sempre. Um arrepio de angústia percorreu de repente a criança sentada a um canto, sozinha, sossegada, com um livro nas mãos; parecia-lhe estar a pressentir a solidão na terra; o quarto tornava-se hostil e assustador; fora do estreito círculo da luz do candeeiro, só reinavam as trevas, que avançavam, rastejando na sua direcção. A sombra aproximava-se e sufocava-a; ela afastava-a com dificuldade, como um nadador afasta a água com os braços estendidos. Um raio branco que passava debaixo da porta gelou-lhe o coração.


Irène Némirovsky, O Vinho da Solidão

lick the star

Lick the Star, Sofia Coppola, 1998

um pouco tonto

Devo ser um pouco tonto
porque às vezes dou por mim a falar sozinho
e digo coisas malucas,
digo nomes bonitos de miúdas e barcos
ou títulos de livros que ninguém escreveu.
Devo ser um pouco tonto.

Babo-me, grito e choro.
Os verbos absolutos enchem-me de ternura
e essas vogais soltas, inúteis, redondas,
que voam para nada,
elevam-me boquiaberto a não sei que gozos.

Sou feliz e, por isso, também um pouco tonto.


Gabriel Celaya

RENEGADE




So this one’s for the hopeless romantics / For the broken, the strangled, / The pure, the puerile, the pedantic, / The fearless, the frantic, / Living in the belly of the Beast / With the rats and the rancid / And these blankets and streets / And we starve while they banquet and feast / But Banquo will rise / He has a message for the guilty.

demasiados barcos / demasiadas pontes

(...)

Mas parece que peguei fogo a demasiados barcos e que atravessei demasiadas pontes para alguma vez poder voltar a ser o que era ou aquilo que pensava que era.


Anita Brookner, Hotel Du Lac

navio negreiro, naufrágio, temporal no mar

O lago vazio, a luz caprichosa, a lentidão, semelhante à dos sonhos, com que cobriam a distância, parecia terem um significado alegórico. Edith sabia que os barcos eram frequentemente usados pelos pintores como símbolos da alma, por vezes da alma que parte para praias desconhecidas. De morte, com efeito. Ou, se não de morte, não de algo que desse muitas esperanças. Barco de doidos, navio negreiro, naufrágio, temporal no mar: tais representações, mesmo que pouco hábeis, ao remexerem com o medo que jaz adormecido até no mais corajoso dos corações, perturba os nervos e o equilíbrio, porque essa era a intenção.


Anita Brookner, Hotel Du Lac

se eu fosse um vídeo

amanita phalloides, o cogumelo da morte

Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.


Shirley Jackson, Sempre Vivemos no Castelo

stellar

Stan Brakhage, Stellar, 1993

a noite não é mais que um momento de trevas entre dois dias

De facto, assim que o desespero me diz - «perde a esperança, o dia não passa de um momento de trevas entre duas noites», há uma falsa voz que me grita - «tem confiança, a noite não é mais que um momento de trevas entre dois dias».  


Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer

na neve do esquecimento

E, quando se instala a depressão, é dela que sou também escravo. O meu maior desejo é retê-la. O meu prazer mais forte, sentir que tudo o que valho residia no que julgo ter perdido: essa capacidade de gerar beleza a partir do que é em mim desespero, desgosto e fraqueza. Com amargo prazer desejo ver ruir o que arquitectei e ver-me, eu também, envolto na neve do esquecimento. Mas quê? A depressão é uma boneca russa, e na última boneca estão as águas profundas e o salto para um grande abismo. De todos esses instrumentos de morte me torno escravo. Perseguem-me como cães, a não ser que o cão seja apenas eu. Parece-me então ser o suicídio a única prova da liberdade humana.


Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer

se eu fosse um vídeo

o equivalente masculino

A sua experiência de fumadores era limitada (o marido desaprovava o uso do tabaco) mas sabia de ouvir dizer que os homens fumavam por vezes para escapar das coisas; que um charuto podia ser o equivalente masculino de janelas fechadas e uma dor de cabeça.


Edith Wharton, Almas ao Entardecer

THE SLAP

THE SLAP, Max Landis, 2014

the story of an hour

Knowing that Mrs. Mallard was afflicted with a heart trouble, great care was taken to break to her as gently as possible the news of her husband's death.
It was her sister Josephine who told her, in broken sentences; veiled hints that revealed in half concealing. Her husband's friend Richards was there, too, near her. It was he who had been in the newspaper office when intelligence of the railroad disaster was received, with Brently Mallard's name leading the list of "killed." He had only taken the time to assure himself of its truth by a second telegram, and had hastened to forestall any less careful, less tender friend in bearing the sad message.

She did not hear the story as many women have heard the same, with a paralyzed inability to accept its significance. She wept at once, with sudden, wild abandonment, in her sister's arms. When the storm of grief had spent itself she went away to her room alone. She would have no one follow her.

There stood, facing the open window, a comfortable, roomy armchair. Into this she sank, pressed down by a physical exhaustion that haunted her body and seemed to reach into her soul.

She could see in the open square before her house the tops of trees that were all aquiver with the new spring life. The delicious breath of rain was in the air. In the street below a peddler was crying his wares. The notes of a distant song which some one was singing reached her faintly, and countless sparrows were twittering in the eaves.

There were patches of blue sky showing here and there through the clouds that had met and piled one above the other in the west facing her window.

She sat with her head thrown back upon the cushion of the chair, quite motionless, except when a sob came up into her throat and shook her, as a child who has cried itself to sleep continues to sob in its dreams.

She was young, with a fair, calm face, whose lines bespoke repression and even a certain strength. But now there was a dull stare in her eyes, whose gaze was fixed away off yonder on one of those patches of blue sky. It was not a glance of reflection, but rather indicated a suspension of intelligent thought.

There was something coming to her and she was waiting for it, fearfully. What was it? She did not know; it was too subtle and elusive to name. But she felt it, creeping out of the sky, reaching toward her through the sounds, the scents, the color that filled the air.

Now her bosom rose and fell tumultuously. She was beginning to recognize this thing that was approaching to possess her, and she was striving to beat it back with her will--as powerless as her two white slender hands would have been. When she abandoned herself a little whispered word escaped her slightly parted lips. She said it over and over under hte breath: "free, free, free!" The vacant stare and the look of terror that had followed it went from her eyes. They stayed keen and bright. Her pulses beat fast, and the coursing blood warmed and relaxed every inch of her body.

She did not stop to ask if it were or were not a monstrous joy that held her. A clear and exalted perception enabled her to dismiss the suggestion as trivial. She knew that she would weep again when she saw the kind, tender hands folded in death; the face that had never looked save with love upon her, fixed and gray and dead. But she saw beyond that bitter moment a long procession of years to come that would belong to her absolutely. And she opened and spread her arms out to them in welcome.

There would be no one to live for during those coming years; she would live for herself. There would be no powerful will bending hers in that blind persistence with which men and women believe they have a right to impose a private will upon a fellow-creature. A kind intention or a cruel intention made the act seem no less a crime as she looked upon it in that brief moment of illumination.

And yet she had loved him--sometimes. Often she had not. What did it matter! What could love, the unsolved mystery, count for in the face of this possession of self-assertion which she suddenly recognized as the strongest impulse of her being!

"Free! Body and soul free!" she kept whispering.

Josephine was kneeling before the closed door with her lips to the keyhold, imploring for admission. "Louise, open the door! I beg; open the door--you will make yourself ill. What are you doing, Louise? For heaven's sake open the door."

"Go away. I am not making myself ill." No; she was drinking in a very elixir of life through that open window.

Her fancy was running riot along those days ahead of her. Spring days, and summer days, and all sorts of days that would be her own. She breathed a quick prayer that life might be long. It was only yesterday she had thought with a shudder that life might be long.

She arose at length and opened the door to her sister's importunities. There was a feverish triumph in her eyes, and she carried herself unwittingly like a goddess of Victory. She clasped her sister's waist, and together they descended the stairs. Richards stood waiting for them at the bottom.

Some one was opening the front door with a latchkey. It was Brently Mallard who entered, a little travel-stained, composedly carrying his grip-sack and umbrella. He had been far from the scene of the accident, and did not even know there had been one. He stood amazed at Josephine's piercing cry; at Richards' quick motion to screen him from the view of his wife.

When the doctors came they said she had died of heart disease - of the joy that kills.


Kate Chopin, The Story of An Hour

bacall to arms


Bacall to Arms, Warner Bros., 1946

dickinson plath woolf kahlo

Tão cansada de engolir
Comprimidos sem dormir
Do meu sexo que se embota
Do meu coração que se esgota
Esticado na horizontal
Sob uma agulha sensual
E a sopa na panela
Embacia-me a janela
E sorvo o palato
Sem ter forças para o salto

Se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
Onde foram estavam loucas
Queriam coisas eram ocas
Queriam chique eram pedras
Queriam arte eram merdas
Tentando o voo eram estacas
Punho em riste eram farpas
Fornos hortos seu delírio
Nunca foi santo martírio


Margarida Vale de Gato

une collection particuliere

Borowczyk Walerian, Une Collection Particuliere

com esta idade, já viu o que é

Olhe, preciso de dinheiro.
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio.
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões.
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas.
Já não tenho paciência.
Com esta idade, já viu o que é.
Sujeitar-se a todos os labregos.
Já tentei noutros bancos, sim.
Pedi também aos meus pais, é verdade;
disse-lhes que era para me casar.
Não, não tenho casa, nem automóvel.
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo.
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado.
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal,
mas anda a mil.
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
Entrada, não sei.
Só se for o coração.


Golgona Anghel

a casa

A Casa era imensa. Sem estilo algum espalhava pelo terreno os seus braços, numa desordem estática; por vezes o terreno subia acima do piso da casa, como se, com o decorrer dos anos, esta se fosse afundando. Esse pormenor dava-lhe o aspecto de um navio encalhado.

Era bem um navio encalhado, aquela casa, onde a solidão vivia na alma dos seus habitantes.


Graça Pina de Morais, A Origem

a família

Cresciam e nada acontecia naquela casa. Se se pode chamar Vida a uma sequência de acontecimentos, aquelas raparigas não a tiveram; mas a vida não é isso e, nos seres solitários, o vazio exterior vai criando, pelo contrário, uma densidade existencial funda, apurada e transcendente.

Era verdade que os filhos de Leonardo metiam as pessoas no coração. Tinham o dom da amabilidade, da simpatia; não por hipocrisia, mas por delicadeza natural e até porque, sobretudo Leonardo e Constança, gostavam realmente dos homens. Também era verdade que, de uma forma superficial, «não se interessavam por eles», isto é, não conviviam e tinham nascido solitários. Todos ficavam encantados quando os conheciam, depois, sentiam uma espécie de barreira por eles levantada inconscientemente e levavam à conta de hipocrisia a maneira encantadora e afável que usavam no escasso convivio que podiam dar. A grande maioria acabava por dizer mal deles.


Graça Pina de Morais, A Origem

leonardo

Leonardo amava cada tronco, cada folha, cada bago de uva. Alguns anos atrás, num dia de temporal, já perto do Verão, em que um granizo impiedoso destruíra toda a novidade, Leonardo saiu de casa correndo, desnorteado. Não pensava na perda material e no ano de privações que iriam passar. Chegado à primeira videira, despiu com impetuosidade o casaco e cobriu com ele a cepa e os grandes cachos já dourados. Ficou em mangas de camisa, encostado aos bardos, sob as grossas pedras de granizo que se iam espalhando na grande barba negra. Depois do temporal tudo ficou destruído e só se salvou a videira de Leonardo.


Graça Pina de Morais, A Origem

maria da anunciação

A sua voz era a de um ser esmagado. Maria da Anunciação não sabia o que a oprimia assim. O que a esmagava? Era o fanatismo pelos da sua raça, próprio daquela gente; a sua angústia era a do animal ao descobrir que há muitos anos vive com escassez de ar; a ansiedade dela era a da sua personalidade trágica, transplantada para um meio violento, que luta desesperadamente, sem ter onde segurar as suas débeis raízes.


Graça Pina de Morais, A Origem

constança

Quando Constança ria, espalhava-se em redor dela uma onda de alegria; não de uma alegria frenética mas calma, funda e apaziguante.
As gargalhadas da rapariga soavam, de vez em quando, em casa, no quintal, no jardim e eram inconfundíveis. O seu sorriso era real e autêntico. Os seres humanos surpreendidos de encontrarem a verdadeira alegria, na sua forma primitiva, entravam por instantes dentro do seu âmbito, repousando todos os pesares.


Graça Pina de Morais, A Origem

maria da soledade

Maria da Soledade tinha dezassete anos. Ao olhar para ela, a primeira impressão que se sentia era a de espanto, pela sua beleza invulgar, mas atentando melhor, descobria-se na fisionomia da menina uma expressão vaga, muito pueril, quase idiota. No entanto nunca a sua cara daria a sensação de imbecilidade porque possuía algo de comovente que fazia sofrer.


Graça Pina de Morais, A Origem

maria clara

Em todas as recordações da adolescência de João domina a figura da tia Maria Clara, estendida na sua cadeira na varanda sobre o vale: não tem ar de uma mulher doente ou sequer preguiçosa; completa a harmonia da paisagem, a harmonia da vida na velha casa.


Graça Pina de Morais, A Origem

moisés

Moisés, numa dessas noites silenciosas e rescendentes, teve uma crise violenta de saudades de Maria Clara. Estava só, sentado num banco, o cotovelo apoiado sobre a mesa de pau da cozinha da sua sórdida habitação. Levantou-se, espreguiçou-se um momento estendendo os braços, depois foi até ao canto da cozinha, pegou na arma caçadeira, encostou o cano da espingarda a uma das têmporas e comprimiu o gatilho. Antes de disparar limitou-se a pedir a Deus que fizesse feliz a irmã. Não pensou em si, não teve nenhuma visão tumultuosa da sua existência (visão tão frequente em quase todo o ser humano quando sente o fim aproximar-se), não viu, no futuro, as consequências da sua morte, nem se deleitou a imaginar os que amava, chorando, cheios de amor, o seu desaparecimento.


Graça Pina de Morais, A Origem

andorinha

Como era a Andorinha? Dir-se-ia que não tinha alma e que nunca viria a tê-la: era uma criatura que Deus enviara à terra para a alegria dos olhos de quem a fixasse. Todos os gestos dela pareciam impensados e sem significado; não se poderia imaginar Andorinha imóvel, reflectindo. O movimento fazia parte dela, andava, ou melhor, corria quase constantemente. Tinha o raciocínio vivo, rápido e profundo - mas só repentinamente; depois deixava de pensar. Entusiasmava-se com tudo o que tivesse beleza.
Era fútil e sincera. A futilidade da Andorinha foi a única admitida e apreciada até ali, na casa.


Graça Pina de Morais, A Origem

joão

Como é que João, fechado dentro das paredes da casa, nascido numa longínqua povoação entre montanhas, surgira assim diferente com todos os estigmas da geração actual? Era como se no rodar cíclico da vida da humanidade, todo o homem, por mais escondido e livre de influências que estivesse, trouxesse a marca, a alma de uma época. João trazia consigo a alma do seu tempo.

A futilidade de Andorinha, o sentido estético agudo da pequena saltimbanca, com a sua atracção irresistível pela beleza e a repulsa pela fealdade, também existiam em João. Andorinha vivera como uma força da natureza, transportando em si uma desumanidade sem culpa e deixara ao filho esse mesmo elemento desumano, contra o qual João havia de lutar durante toda a vida.
Mas a herança de Leonardo também o atingira; um fogo sombrio, misterioso e forte, ardia nos olhos escuros e profundos da criança.

Sobre João caiu todo o generoso amor que aquelas mulheres tinham necessidade de dar, mas, por mais generoso que esse amor fosse, uma atmosfera sufocante rodeava a criança.

A criança tinha tudo quanto queria; era alegre e simultaneamente infeliz porque os dois estados de alma não são contraditórios. Era infeliz porque assim nascera e estava destinada a subir um inútil calvário.

Quando João procura recordar-se da sua infância, nada encontra, a não ser um grande dia sereno, onde o tempo não existia.

Em todas as casas, em todas as terras, teve sempre a sensação de estar de passagem, de ser um viajante que de um momento para o outro vai partir.

As suas feições, porém, saltaricavam de uns para os outros: tomado de uma amizade excessiva por um colega qualquer, nem ele sabia porquê, envolvia o objecto do seu afecto numa simpatia esfuziante. Depois cansava-se e mudava de afeição. Encontrava dentro de si uma enorme dificuldade em manter qualquer convivência: nas amizades só apreciava o entusiasmo inicial.

Aborrecia-se nos jogos turbulentos dos recreios e raramente se associava a essas brincadeiras, não porque se sentisse de uma classe superior à dos colegas - dentro do seu coração sempre existira o sentimento de que os homens eram iguais - mas porque já nessa idade a solidão começava a querer apertar imperceptivelmente o seu círculo intransponível à volta da alma da criança.

O menino «sabia-se» demais, «sentia-se» demais; invejava a despreocupação, a simplicidade convicta com que os outros brincavam.

Um tédio de homem adulto devastava a alma da criança, e o tédio não depende da vida que o homem leva, é uma sina, uma desgraça, a pior doença que pode acometer a alma humana. João perdera a naturalidade. Atrás de si, atento e perscrutador, um duplo de si mesmo observava-o, e esse duplo terrível tornava inútil cada conversa, cada frase, cada reacção. O seu ser palpitava, enjaulado, dentro da apertada armadura terrena que é concedida a cada homem.

Conservava vivos na sua alma todos aquele que amara, mas não tinha necessidade deles: deixava-os para trás.

Durante dias e dias tristezas terríveis e sem motivo espalhavam-se nos traços do menino. Não valia a pena mexer-se, nada valia a pena: não queria viver mas também não queria morrer. Sentia-se paralisado como um rato numa armadilha.

Quando fez quinze anos, chorou. «Estava velho, já não tinha mais nada a fazer no mundo.»

Pensava tanto em si que esquecera a vida da Casa. Inerte, inclinado sobre si mesmo, tudo o que era exterior se tornara absurdo e irreal e essa sensação de estranheza fazia-o sofrer.

Fumava. Lera em alguns livros que a mais terrível realidade é sempre melhor do que o clima trágico, idealizado por uma imaginação angustiada. Talvez fosse verdade. Não sentia absolutamente nada. É estranho: o que mais o afligia e espantava, era a ausência total de sofrimento. Talvez ele fosse um monstro.

Sentia-se ausente de si mesmo e isso dava-lhe uma tranquilidade espantosa.


Graça Pina de Morais, A Origem

catarina

O corpo de Catarina possuía a perfeição e a pureza da adolescência e havia nele uma espécie de espiritualidade comovente, que chegava a angustiar, por se sentir quanto era transitória.

Acontecera a Catarina o que acontece a um grande número de mulheres honestas, sensuais e sem imaginação: apaixonara-se pelo primeiro rapaz que a beijara. Pouco se importava que João a entendesse ou não, mas ela é que não o compreendia, e senti-lo longe fazia-a sofrer. Exasperava-se contra o mundo turbilhonante e desconhecido que existia na cabeça dele. Não era só por sensualidade que desejava os abraços, os beijos, os longos silêncios inquietantes em que os olhos perturbados de ambos se encontravam: era porque só assim ele estava perto.

Quando à noite, sozinha no quarto, relembrava o rapaz, eram precisamente as enfadonhas tardes de leitura que recordava com mais ternura, como uma mãe que se enternece sobretudo com os disparates de um filho querido. Esta maneira de pensar é terrivelmente feminina: assim como uma mulher superior, apaixonada por um homem vulgar, acha graça e encanto às idiotices e vulgaridades desse homem, também Catarina, apaixonada por aquele adolescente semicaótico e desconhecido, descobria prazer nas longas horas em que, constrangida, ouvia falar de assuntos que para ela não tinham realidade.


Graça Pina de Morais, A Origem

ana joaquina

Ana Joaquina era magra, pequena e pálida; nos seus olhos cinzentos, miúdos e sem pestanas, luzia, invariavelmente, um brilho frio e duro. Tinha, contudo, qualidades. Era um objecto de casa, estava presa àquelas paredes, gastava toda a energia em servir aqueles que amava, porque se o seu ódio era apaixonado e terrível, também o amor tinha nela um carácter exagerado e fervoroso. Fora dos filhos da casa não gostava de mais ninguém.


Graça Pina de Morais, A Origem

o dr. eduardo

O Dr. Eduardo vinha todos os dias, não porque os seus serviços pudessem ser úteis, mas porque um estranho sentimento o prendia à bela agonizante, um sentimento doentio que parecia despropositado no homem que João classificara de vulgar. Era com uma mistura de medo e espanto assombrado que assistia à destruição de uma tão maravilhosa obra do Criador. Cedia à atracção ancestral e atávica que todo o ser humano sente por aquilo que é impossível e que vai acabar.

Por isso, também, vinha todos os dias até ao Outeiro porque lá, sob a ameaça da morte, a vida palpitava com uma intensidade lancinante.

Mas, aos poucos, o ambiente apaixonado que rodeava a moribunda foi-se infiltrando no espírito do Dr. Eduardo e este, esquecido do papel que tinha de desempenhar, começou a sentir os mesmos sobressaltos, o mesmo desvario da gente da Casa.


Graça Pina de Morais, A Origem

o padre josé

Na tarde em que o Padre José foi à Casa, João levou-o até ao quarto da tia. Maria Clara tinha adormecido. O Padre José transpôs a porta do quarto com a sua expressão tímida, os seus gestos desajeitados, e disse baixinho a João:
   - Não a acorde, por favor. Posso vê-la dormir durante um bocadinho?

Quanto tempo estiveram assim em silêncio, ouvindo apenas a respiração da doente, ligados por um sentimento comum e indefinível!?... Uma espécie de paz transitória suspendera-se sobre o medo e a dor. De onde vinha essa paz? Da mulher adormecida? Da tarde rosada que morria? Daquele homem que afinal era um desconhecido e chorava com os olhos abertos e ingénuos?


Graça Pina de Morais, A Origem

se eu fosse um vídeo

um poema para mim

O brilho do teu sorriso, é o pôr do sol de Monet
e o grito de Bacon,

o som que emana da tua boca,
é o cantar da sereia,
que me envolve nos teus longos e escuros cabelos
como de um mar revolto se tratasse.

Olho para os teus olhos castanhos,
são duas pérolas negras,
cuja profundidade é o céu nocturno sem estrelas,

que embala o mundo.


Man(u)el Tavares, para o dia 7/7

como um bálsamo sobre a cidade evanescente

Demorou-se lá uma semana, correndo as ruas onde os passos de ambos tinham ressoado juntos, na noite de Novembro, e visitando os lugares escusos aonde tinha ido no automóvel branco. Do mesmo modo que a casa dela sempre lhe tinha parecido mais alegre e misteriosa que as outras casas assim a ideia que ele fazia da cidade - embora ausente dela a Daisy - lhe parecia penetrada de uma melancólica beleza.
Saiu dali com a impressão de que se tivesse procurado mais e melhor a poderia ter encontrado - de que a deixava atrás de si. Na carruagem-salão (voltava sem um centavo de seu) abafava-se. Foi até à plataforma aberta e sentou-se numa cadeira dobradiça, a ver fugir a estação e as traseiras de casas desconhecidas. Depois perpassaram campos e subúrbios, com um eléctrico amarelo a correr a par do comboio por um minuto, cheio de pessoas que talvez algum dia tivessem entrevisto a pálida magia do rosto dela ao longo de uma rua de acaso...
Entrando numa curva, o comboio fugia agora do sol, que, ao descer para o horizonte, parecia derramar-se como um bálsamo sobre a cidade evanescente, onde ela tinha respirado. Gatsby estendeu a mão num gesto de desespero, como se quisesse agarrar um sopro desse ar, guardar uma relíquia dos lugares que ela tinha para sempre embelezado para ele. Mas tudo corria agora demasiado depressa aos seus olhos turvos, e ele percebeu que tinha perdido a primeira fase da partida, a mais fresca e a melhor - para sempre.


F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby

touch of evil

Touch of Evil, Alex Prager

o adorável inimigo

Aqui há dias fui à Baixa comprar sapatos. Ia cheia de pequeninos - e grandes - rancores contra o homem, o adorável inimigo. «Entro numa sapataria cheia de mulheres. Mulheres a comprarem, mulheres a venderem. Mulheres a «grasnarem». A empurrarem. A incomodarem. Gritando tanto, regateando tanto, maçando tanto, que o compreendi. Fui dali a correr sentar-me no café, onde elas não gostam de entrar». Homens casados com mulheres como as da sapataria, aqui fica a minha solidariedade.


Vera Lagoa, Bisbilhotices...

a madrugada ou a noite triste tocadas em trompete

do disco Entre nós e as palavras, Os Poetas, 1997

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Herberto Hélder

morrer de vez em quando

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma


Paulo Leminski

slowly sinking down

Only Lovers Left Alive, Jim Jarmusch, 2013

poemário daqui

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poemário dali

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