Castello Cavalcanti, Wes Anderson, 2013
incerto
que hora foi essa
que saltou do ventre
dos relógios
como um garrote
de cinzas?
devo ainda
esperar por mim,
enlouquecer no regaço
das catedrais como
pingo de sol num
peito de viúva?
eu quero dançar
sobre as lâminas rombas
deste tempo
quero cortar-me até ao osso
porque só a dor
é capaz de nos revelar
a grande mentira
que há por detrás
de todas as coisas
tranquilo, assim sereno
de saber que nunca
a posterioridade se
interessará por mim
gil t. sousa
que saltou do ventre
dos relógios
como um garrote
de cinzas?
devo ainda
esperar por mim,
enlouquecer no regaço
das catedrais como
pingo de sol num
peito de viúva?
eu quero dançar
sobre as lâminas rombas
deste tempo
quero cortar-me até ao osso
porque só a dor
é capaz de nos revelar
a grande mentira
que há por detrás
de todas as coisas
tranquilo, assim sereno
de saber que nunca
a posterioridade se
interessará por mim
gil t. sousa
como o sol
como o sol
como a noite
como a vontade de comer
e o sono
como as preocupações
e o amor
e porque saio à rua
e trabalho
diariamente
Aos domingos
aos domingos o golo no estádio
chega até minha casa
e até ao mar
O próprio sol
é uma imagem de couro no espaço
a chuva
é uma imagem de redes batidas
Ah Que fazer
senão esperar pela semana
dormindo
O mesmo pensamento
a mesma ira
Para que serve a mão
Perde o sentido o próprio sofrimento
o coração
a lira
Desde quando amor
este segredo
e me vestir sem luz
sabendo que não dormes
atento a um ruído
mais claro
a um sorriso
e a uma lágrima
parada
Bate coração
no peito que te guarda
lâmpada
suspensa
fruto com cadência
estrela
em rotação pelos telhados
Bate coração
até as sombras se alongarem pelos braços
António Reis
como a noite
como a vontade de comer
e o sono
como as preocupações
e o amor
e porque saio à rua
e trabalho
diariamente
Aos domingos
aos domingos o golo no estádio
chega até minha casa
e até ao mar
O próprio sol
é uma imagem de couro no espaço
a chuva
é uma imagem de redes batidas
Ah Que fazer
senão esperar pela semana
dormindo
O mesmo pensamento
a mesma ira
Para que serve a mão
Perde o sentido o próprio sofrimento
o coração
a lira
Desde quando amor
este segredo
e me vestir sem luz
sabendo que não dormes
atento a um ruído
mais claro
a um sorriso
e a uma lágrima
parada
Bate coração
no peito que te guarda
lâmpada
suspensa
fruto com cadência
estrela
em rotação pelos telhados
Bate coração
até as sombras se alongarem pelos braços
António Reis
last blues, to be read some day
Foi só um flirt
e sabias, claro -
alguém foi ferido
há muito tempo.
Mas nada mudou
o tempo passou -
um dia chegaste
um dia morrerás.
Alguém morreu
há muito tempo -
alguém que queria
mas não sabia.
Cesare Pavese
e sabias, claro -
alguém foi ferido
há muito tempo.
Mas nada mudou
o tempo passou -
um dia chegaste
um dia morrerás.
Alguém morreu
há muito tempo -
alguém que queria
mas não sabia.
Cesare Pavese
as janelas
Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas ─ Uma janela
quando abrir será uma consolação. ─
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.
Kosntandinos Kavafis
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas ─ Uma janela
quando abrir será uma consolação. ─
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.
Kosntandinos Kavafis
manifesto
Eu gosto muito dos senhores que moram no meu prédio.
O prédio é alto e tem elevadores. Assim é melhor porque ninguém
tem que carregar ninguém às costas. Quer dizer, as pessoas
também podiam ir pelo seu próprio pé mas isso era se não houvesse
pessoas no meu prédio que precisam de favores. Precisam,
e depois pagam com as costas na subida - Ouvi dizer que há
pessoas no meu prédio que têm em casa florestas normandas (eu
cá só ervas daninhas!). É que o elevador do meu prédio avaria
muitas vezes. Avaria, e depois os senhores dos andares de cima
precisam de carregadores. As pessoas dos andares de baixo
começaram a nascer todos os dias com as costas mais
largas para poderem carregar melhor, e agora o elevador
avaria quase sempre. A minha sorte é eles saberem que
eu só tenho em casa ervas daninhas. Nunca me pedem para
os carregar nem sequer estacionam as suas árvores novas
a barrar-me a entrada de casa: têm medo de ser contaminados.
Agora são os senhores dos andares de cima que me pedem
favores: se posso mudar de casa, de prédio, que até me
oferecem uma casa com florestas normandas lá dentro.
Mas eu não quero. Estou bem aqui. As minhas ervas
chegam já ao primeiro andar. Às vezes subo por elas
e convidam-me para jantar. Falamos e rimos e quando
nos calamos o silêncio à volta é maior.
Até agora cresceram sempre frescas pelo seu pé acima.
Rui Costa
O prédio é alto e tem elevadores. Assim é melhor porque ninguém
tem que carregar ninguém às costas. Quer dizer, as pessoas
também podiam ir pelo seu próprio pé mas isso era se não houvesse
pessoas no meu prédio que precisam de favores. Precisam,
e depois pagam com as costas na subida - Ouvi dizer que há
pessoas no meu prédio que têm em casa florestas normandas (eu
cá só ervas daninhas!). É que o elevador do meu prédio avaria
muitas vezes. Avaria, e depois os senhores dos andares de cima
precisam de carregadores. As pessoas dos andares de baixo
começaram a nascer todos os dias com as costas mais
largas para poderem carregar melhor, e agora o elevador
avaria quase sempre. A minha sorte é eles saberem que
eu só tenho em casa ervas daninhas. Nunca me pedem para
os carregar nem sequer estacionam as suas árvores novas
a barrar-me a entrada de casa: têm medo de ser contaminados.
Agora são os senhores dos andares de cima que me pedem
favores: se posso mudar de casa, de prédio, que até me
oferecem uma casa com florestas normandas lá dentro.
Mas eu não quero. Estou bem aqui. As minhas ervas
chegam já ao primeiro andar. Às vezes subo por elas
e convidam-me para jantar. Falamos e rimos e quando
nos calamos o silêncio à volta é maior.
Até agora cresceram sempre frescas pelo seu pé acima.
Rui Costa
os paraísos artificiais
Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena
ó césar
não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soap
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer
Ana Paula Inácio
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soap
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer
Ana Paula Inácio
o lobo das estepes
Eu, lobo das estepes, corro, corro,
a neve cobre o mundo,
da bétula levanta voo o corvo,
mas nunca aparece uma lebre, nunca aparece um cervo.
E como eu amo os cervos!
Se acaso encontrasse algum,
prendia-o com garras e dentes:
é a coisa mais bela em que penso.
Com os sensíveis seria também sensível,
devorava-os todos de extremo a extremo,
bebia-lhes até ao fundo o sangue púrpura e espesso,
e solitariamente uivava pela noite dentro.
Contentava-me com uma lebre.
É tão doce à noite o sabor da sua carne quente.
Porventura foi-me negado tudo quanto possa, um pouco,
alegrar a vida, um pouco apenas?
A minha companheira, há muito que a não tenho,
o pêlo da minha cauda começa a ficar cor de cinza,
e só quando há bastante luz é que vejo.
Agora corro e sonho com cervos,
ouço o vento soprar nas grandes noites de inverno,
e a minha alma dolorosa, entrego-a eu ao demónio.
Hermann Hesse
a neve cobre o mundo,
da bétula levanta voo o corvo,
mas nunca aparece uma lebre, nunca aparece um cervo.
E como eu amo os cervos!
Se acaso encontrasse algum,
prendia-o com garras e dentes:
é a coisa mais bela em que penso.
Com os sensíveis seria também sensível,
devorava-os todos de extremo a extremo,
bebia-lhes até ao fundo o sangue púrpura e espesso,
e solitariamente uivava pela noite dentro.
Contentava-me com uma lebre.
É tão doce à noite o sabor da sua carne quente.
Porventura foi-me negado tudo quanto possa, um pouco,
alegrar a vida, um pouco apenas?
A minha companheira, há muito que a não tenho,
o pêlo da minha cauda começa a ficar cor de cinza,
e só quando há bastante luz é que vejo.
Agora corro e sonho com cervos,
ouço o vento soprar nas grandes noites de inverno,
e a minha alma dolorosa, entrego-a eu ao demónio.
Hermann Hesse
procura da poesia
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação
Que se dissipou, não era poesia
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação
Que se dissipou, não era poesia
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade
o menos possível
Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio
manual de instruções
Sentado à janela do edifício
Quem me dera não ter de escrever o manual de instruções sobre o uso de um
novo metal.
Olho para a rua e vejo gente, todos caminhando numa paz interior,
E invejo-os – estão tão longe de mim!
nenhum deles tem de se preocupar em entregar a tempo este manual.
E, como sempre, começo a sonhar, apoiando os cotovelos na secretária e
debruçando-me um pouco da janela,
Com a vaga Guadalajara! Cidade de flores da cor das rosas!
Cidade que mais queria ver e menos vi, no México!
Mas imagino ver, sob a pressão de ter de redigir o manual de instruções,
A tua praça pública, cidade, com o pequeno coreto rendilhado!
A banda toca a Xerazade de Rimsky-Korsakov.
Em volta, raparigas distribuem flores cor de rosa e de limão,
Todas atraentes nos seus vestidos de riscas cor-de-rosa e azuis (Oh, aqueles
tons de rosa e azul!),
E ali ao pé a pequena barraca branca onde mulheres de verde servem frutas
verdes e amarelas.
Os casais desfilam, todos com ar de festa.
À frente, abrindo o desfile, um janota
Vestido de azul escuro. Na cabeça pousa-lhe um chapéu branco
E usa bigode, aparado para esta ocasião.
A sua querida, a mulher, é jovem e bonita: traz um xaile malva, rosa e branco.
As chinelas são de verniz, à maneira americana,
E traz um leque, pois é modesta, e não quer que os outros lhe vejam muitas
vezes a cara.
Mas estando todos tão entretidos com as mulheres ou as namoradas
Duvido que reparassem na mulher do homem de bigode.
Aí vêm os rapazes! Vêm saltitando e atiram pequenas coisas para o passeio
De ladrilho cinzento. Um deles, um pouco mais velho, tem um palito nos dentes.
Está mais calado que os outros, e faz que não repara nas bonitas raparigas de
branco.
Mas os amigos reparam, e lançam chalaças às raparigas que riem.
Em breve, porém, tudo isto acabará, com o aprofundar dos anos,
E o amor os trará à parada por outras razões.
Mas perdi de vista o rapazola do palito.
Espera! Lá está ele, do outro lado do coreto,
Afastado dos amigos, em conversa séria com uma rapariga
De catorze ou quinze anos. Tento ouvir o que dizem,
Mas parece que apenas murmuram qualquer coisa – tímidas palavras de amor,
provavelmente.
Ela é um pouco mais alta, e desce o olhar sereno para os seus olhos sinceros.
Está vestida de branco. A brisa agita-lhe os cabelos pretos, finos e compridos
contra a face morena.
É claro que está apaixonada. O rapaz, o do palito, também ele está apaixonado;
Vê-se-lhe nos olhos. Afasto-me deste par
E vejo que há um intervalo no concerto.
Os que desfilaram descansam e bebem por palhinhas
(As bebidas são servidas dum grande jarro de vidro por uma senhora de azul
escuro),
E os músicos misturam-se com eles, nos seus uniformes de um branco-creme, e
fala.
Do tempo, talvez, ou de como os miúdos vão bem na escola.
Aproveitemos esta oportunidade para entrar pé-ante-pé numa das ruas laterais.
Cá está uma daquelas casas debruadas de verde,
Tão populares aqui. Olha – eu não te dizia?
Está fresco e escuro cá dentro, mas no pátio há sol.
Uma velha, de cinzento, ali sentada, abana-se com um leque de folha de
palmeira.
Recebe-nos no pátio e oferece-nos um refresco.
«O meu filho está na Cidade do México», diz ela. «Também os havia de receber
bem,
Se cá estivesse. Mas trabalha lá num banco.
Olhe, uma fotografia dele.»
E um rapaz de pele escura e dentes de pérola sorri para nós da moldura de
couro gasto.
Agradecemos-lhe a hospitalidade, porque se faz tarde
E nós precisamos de encontrar um ponto alto para ver bem a cidade, antes de
partir.
A torre da igreja serve – aquela ali, de rosa desmaiado, recortada no azul
violento do céu. Entramos devagar.
O sacristão, um velho vestido de castanho e cinzento, pergunta-nos há quanto
tempo estamos na cidade, e se gostamos dela.
A filha está a esfregar os degraus – acena-nos ao passarmos para a torre.
Em breve chegamos ao cimo e toda a malha da cidade se estende diante de
nós.
Lá está o bairro elegante, de casas pintadas de rosa e branco, com frondosos
terraços decrépitos.
Lá está o bairro popular, com casas de azul escuro.
Lá está o mercado, onde os homens vendem chapéus e enxotam moscas,
E a biblioteca pública, pintada em vários tons de verde pálido e beige.
Olha! Lá está a praça onde há pouco estivemos, com os passeantes.
Já são menos, agora que o dia aqueceu,
Mas o rapaz e a rapariga continuam escondidos pela sombra do coreto.
E lá está a casa da senhora velha –
Continua sentada no pátio a abanar-se.
Que limitada, e no entanto completa, foi a nossa experiência de Guadalajara!
Vimos amor de jovens, amor de casados, e o amor de uma mãe idosa pelo filho.
Provámos as bebidas, ouvimos música e vimos casas coloridas.
Que mais há a fazer, senão ficar? E isso é que não é possível.
E enquanto uma última brisa refresca o cimo da velha torre degradada, volto a
olhar
Para o manual de instruções que me fez sonhar com Guadalajara.
John Ashbery
Quem me dera não ter de escrever o manual de instruções sobre o uso de um
novo metal.
Olho para a rua e vejo gente, todos caminhando numa paz interior,
E invejo-os – estão tão longe de mim!
nenhum deles tem de se preocupar em entregar a tempo este manual.
E, como sempre, começo a sonhar, apoiando os cotovelos na secretária e
debruçando-me um pouco da janela,
Com a vaga Guadalajara! Cidade de flores da cor das rosas!
Cidade que mais queria ver e menos vi, no México!
Mas imagino ver, sob a pressão de ter de redigir o manual de instruções,
A tua praça pública, cidade, com o pequeno coreto rendilhado!
A banda toca a Xerazade de Rimsky-Korsakov.
Em volta, raparigas distribuem flores cor de rosa e de limão,
Todas atraentes nos seus vestidos de riscas cor-de-rosa e azuis (Oh, aqueles
tons de rosa e azul!),
E ali ao pé a pequena barraca branca onde mulheres de verde servem frutas
verdes e amarelas.
Os casais desfilam, todos com ar de festa.
À frente, abrindo o desfile, um janota
Vestido de azul escuro. Na cabeça pousa-lhe um chapéu branco
E usa bigode, aparado para esta ocasião.
A sua querida, a mulher, é jovem e bonita: traz um xaile malva, rosa e branco.
As chinelas são de verniz, à maneira americana,
E traz um leque, pois é modesta, e não quer que os outros lhe vejam muitas
vezes a cara.
Mas estando todos tão entretidos com as mulheres ou as namoradas
Duvido que reparassem na mulher do homem de bigode.
Aí vêm os rapazes! Vêm saltitando e atiram pequenas coisas para o passeio
De ladrilho cinzento. Um deles, um pouco mais velho, tem um palito nos dentes.
Está mais calado que os outros, e faz que não repara nas bonitas raparigas de
branco.
Mas os amigos reparam, e lançam chalaças às raparigas que riem.
Em breve, porém, tudo isto acabará, com o aprofundar dos anos,
E o amor os trará à parada por outras razões.
Mas perdi de vista o rapazola do palito.
Espera! Lá está ele, do outro lado do coreto,
Afastado dos amigos, em conversa séria com uma rapariga
De catorze ou quinze anos. Tento ouvir o que dizem,
Mas parece que apenas murmuram qualquer coisa – tímidas palavras de amor,
provavelmente.
Ela é um pouco mais alta, e desce o olhar sereno para os seus olhos sinceros.
Está vestida de branco. A brisa agita-lhe os cabelos pretos, finos e compridos
contra a face morena.
É claro que está apaixonada. O rapaz, o do palito, também ele está apaixonado;
Vê-se-lhe nos olhos. Afasto-me deste par
E vejo que há um intervalo no concerto.
Os que desfilaram descansam e bebem por palhinhas
(As bebidas são servidas dum grande jarro de vidro por uma senhora de azul
escuro),
E os músicos misturam-se com eles, nos seus uniformes de um branco-creme, e
fala.
Do tempo, talvez, ou de como os miúdos vão bem na escola.
Aproveitemos esta oportunidade para entrar pé-ante-pé numa das ruas laterais.
Cá está uma daquelas casas debruadas de verde,
Tão populares aqui. Olha – eu não te dizia?
Está fresco e escuro cá dentro, mas no pátio há sol.
Uma velha, de cinzento, ali sentada, abana-se com um leque de folha de
palmeira.
Recebe-nos no pátio e oferece-nos um refresco.
«O meu filho está na Cidade do México», diz ela. «Também os havia de receber
bem,
Se cá estivesse. Mas trabalha lá num banco.
Olhe, uma fotografia dele.»
E um rapaz de pele escura e dentes de pérola sorri para nós da moldura de
couro gasto.
Agradecemos-lhe a hospitalidade, porque se faz tarde
E nós precisamos de encontrar um ponto alto para ver bem a cidade, antes de
partir.
A torre da igreja serve – aquela ali, de rosa desmaiado, recortada no azul
violento do céu. Entramos devagar.
O sacristão, um velho vestido de castanho e cinzento, pergunta-nos há quanto
tempo estamos na cidade, e se gostamos dela.
A filha está a esfregar os degraus – acena-nos ao passarmos para a torre.
Em breve chegamos ao cimo e toda a malha da cidade se estende diante de
nós.
Lá está o bairro elegante, de casas pintadas de rosa e branco, com frondosos
terraços decrépitos.
Lá está o bairro popular, com casas de azul escuro.
Lá está o mercado, onde os homens vendem chapéus e enxotam moscas,
E a biblioteca pública, pintada em vários tons de verde pálido e beige.
Olha! Lá está a praça onde há pouco estivemos, com os passeantes.
Já são menos, agora que o dia aqueceu,
Mas o rapaz e a rapariga continuam escondidos pela sombra do coreto.
E lá está a casa da senhora velha –
Continua sentada no pátio a abanar-se.
Que limitada, e no entanto completa, foi a nossa experiência de Guadalajara!
Vimos amor de jovens, amor de casados, e o amor de uma mãe idosa pelo filho.
Provámos as bebidas, ouvimos música e vimos casas coloridas.
Que mais há a fazer, senão ficar? E isso é que não é possível.
E enquanto uma última brisa refresca o cimo da velha torre degradada, volto a
olhar
Para o manual de instruções que me fez sonhar com Guadalajara.
John Ashbery
elogio da lembrança
Quando os desesperos nocturnos
pouco a pouco se amontoam em pânicos matinais
lembra.
O tempo em que, depois das aulas,
ias à janela e batias o apagador...
ficava sempre a marca de giz
na parede escura.
Quando aos fins de semana vais de carro ao campo,
a camisa imaculada, o olhar fatigado de vigiar as crianças,
lembra.
As longas caminhadas pelo monte,
o último encontro de futebol, findo o secundário,
a roupa amarrotada debaixo de uma pedra.
Quando já atravessas para o outro lado da rua
para não teres que falar com ninguém,
com pressa de chegar à casa que compraste
(estás a pagá-la todos os meses e um dia, dizem, será tua)
lembra.
O tempo em que ao cruzares com um polícia
dizias: «bom dia, minha senhora».
Lembra o rosto dos ausentes.
E essa palavra lançada ao rio pelo amigo.
Não olhes com sobranceria
o tempo em que à janela procuravas
responder e nunca o conseguias, à pergunta: «o que há entre
a escuridão lá fora e a minha alma aqui?»
Lembra.
Jorge Gomes Miranda
pouco a pouco se amontoam em pânicos matinais
lembra.
O tempo em que, depois das aulas,
ias à janela e batias o apagador...
ficava sempre a marca de giz
na parede escura.
Quando aos fins de semana vais de carro ao campo,
a camisa imaculada, o olhar fatigado de vigiar as crianças,
lembra.
As longas caminhadas pelo monte,
o último encontro de futebol, findo o secundário,
a roupa amarrotada debaixo de uma pedra.
Quando já atravessas para o outro lado da rua
para não teres que falar com ninguém,
com pressa de chegar à casa que compraste
(estás a pagá-la todos os meses e um dia, dizem, será tua)
lembra.
O tempo em que ao cruzares com um polícia
dizias: «bom dia, minha senhora».
Lembra o rosto dos ausentes.
E essa palavra lançada ao rio pelo amigo.
Não olhes com sobranceria
o tempo em que à janela procuravas
responder e nunca o conseguias, à pergunta: «o que há entre
a escuridão lá fora e a minha alma aqui?»
Lembra.
Jorge Gomes Miranda
7 tisanas inéditas
nº 237 - Parcialmente, a santidade consiste na capacidade de praticar transgressões bem orientadas. Por exemplo: matando em nós os fantasmas tutelares. Sem ternura. É assim que se atinge a múltipla orfandade.
nº 238 - O que pensará uma formiga ao ser contemplada por uma mosca poisada na parede? Quanto mais se pensa no sofrimento mais se compreende que tudo é devido a um incomensurável não-saber.
nº 239 - Tudo está aqui para alguma coisa, para desempenhar um papel, uma missão, pensamos utilitariamente. Eu, gosto das portas. A porta entreaberta, por exemplo: irá fechar-se? irá abrir-se? dar passagem? Oh subtil porta que tão indiferentemente abres-fechas: nem sei se olho para dentro ou de dentro.
nº 240 - Os livros quando são lidos por leitores apaixonados, alegres soltam suas folhas coloridas pelos ares da mente, guardião involuntário em todas as ocasiões. Este é um discurso cuja antiguidade reconstituo ludicamente enquanto escondo a ferida do tempo.
nº 241 - Era uma vez uma pessoa que andava sempre com uma palavra debaixo da língua. Quando a tinha na ponta falava, dando pequenos estalos de prazer. Depois lambia os beiços gulosamente. Estamos aqui à espera de quê? Imagina-acção.
nº 242 - Vou de comboio. Penso no terror que nos habita, que nos segue como imensa ignorada cauda. Chegando à estação vejo o meu rosto reflectido no vidro da janela. Olho fixamente o meu próprio rosto.
nº 243 - Ia pela rua fora, como de costume, quando vejo uma porta entreaberta que dava para um corredor muito comprido. Entro. No fundo há uma porta fechada. Bato à porta. Uma voz pergunta: quem é? Sou eu, digo. Eu quem? respondem. E não abrem a porta.
Ana Hatherly
nº 238 - O que pensará uma formiga ao ser contemplada por uma mosca poisada na parede? Quanto mais se pensa no sofrimento mais se compreende que tudo é devido a um incomensurável não-saber.
nº 239 - Tudo está aqui para alguma coisa, para desempenhar um papel, uma missão, pensamos utilitariamente. Eu, gosto das portas. A porta entreaberta, por exemplo: irá fechar-se? irá abrir-se? dar passagem? Oh subtil porta que tão indiferentemente abres-fechas: nem sei se olho para dentro ou de dentro.
nº 240 - Os livros quando são lidos por leitores apaixonados, alegres soltam suas folhas coloridas pelos ares da mente, guardião involuntário em todas as ocasiões. Este é um discurso cuja antiguidade reconstituo ludicamente enquanto escondo a ferida do tempo.
nº 241 - Era uma vez uma pessoa que andava sempre com uma palavra debaixo da língua. Quando a tinha na ponta falava, dando pequenos estalos de prazer. Depois lambia os beiços gulosamente. Estamos aqui à espera de quê? Imagina-acção.
nº 242 - Vou de comboio. Penso no terror que nos habita, que nos segue como imensa ignorada cauda. Chegando à estação vejo o meu rosto reflectido no vidro da janela. Olho fixamente o meu próprio rosto.
nº 243 - Ia pela rua fora, como de costume, quando vejo uma porta entreaberta que dava para um corredor muito comprido. Entro. No fundo há uma porta fechada. Bato à porta. Uma voz pergunta: quem é? Sou eu, digo. Eu quem? respondem. E não abrem a porta.
Ana Hatherly
estudo
Há muito que suspeitava de mim mesmo
E hoje persegui-me durante todo o dia
A uma distância que evitasse suspeitas.
Pois sabei que sou mais perigoso do que imaginava.
Quando saio à rua, olho à direita e à esquerda
Como se fotografasse incessantemente
As casas, os homens, os postes telegráficos
E todas as riquezas.
Depois, sem reparar
(Talvez para não ser reconhecido)
Altero a expressão da alma.
O meu rosto é um verdadeiro alfabeto morse
Que transmite constantemente sabe-se lá que segredos
Aos homens da lua que apuram o ouvido para escutarem.
Quando estou sentado à mesa
Rasgo uma folha de papel
Em pedacinhos que, uma vez feitos numa bola,
São imediatamente arremessados ao esquecimento,
O que é muito estranho.
Esta noite descerei no meu sono
Por uma corda que levo para isso no bolso,
Par ver o que ali confessa o indivíduo,
De que se recorda espontaneamente
E ─ algo mais importante ─ quem é que
Lhe proporciona estas relações entre as coisas.
Depois disso tudo iniciarei
O preenchimento da ficha.
Marin Sorescu
E hoje persegui-me durante todo o dia
A uma distância que evitasse suspeitas.
Pois sabei que sou mais perigoso do que imaginava.
Quando saio à rua, olho à direita e à esquerda
Como se fotografasse incessantemente
As casas, os homens, os postes telegráficos
E todas as riquezas.
Depois, sem reparar
(Talvez para não ser reconhecido)
Altero a expressão da alma.
O meu rosto é um verdadeiro alfabeto morse
Que transmite constantemente sabe-se lá que segredos
Aos homens da lua que apuram o ouvido para escutarem.
Quando estou sentado à mesa
Rasgo uma folha de papel
Em pedacinhos que, uma vez feitos numa bola,
São imediatamente arremessados ao esquecimento,
O que é muito estranho.
Esta noite descerei no meu sono
Por uma corda que levo para isso no bolso,
Par ver o que ali confessa o indivíduo,
De que se recorda espontaneamente
E ─ algo mais importante ─ quem é que
Lhe proporciona estas relações entre as coisas.
Depois disso tudo iniciarei
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