Ao pôr do sol todas as cidades são maravilhosas, mas algumas são-no mais do que outras. Os relevos fazem-se mais brandos, as colunas mais redondas, os capitéis mais encaracolados, as cornijas mais resolutas, as flechas das torres mais nítidas, os nichos mais fundos, os discípulos mais bem togados, mais aéreos os anjos. Escurece nas ruas, mas continua a ser dia na Fondamenta e nesse gigantesco espelho líquido onde os barcos a motor, os vaporetti, as gôndolas, os batéis e as barcaças «como sapatos velhos em desordem» pisam diligentemente fachadas góticas e barrocas, não poupando também o nosso reflexo nem o da nuvem que passa. «Pinta», segreda-nos a luz de Inverno, detida no seu curso pela parede de tijolo de um hospital ou chegando ao destino, o paraíso do frontone de San Zaccaria, depois da sua longa travessia através do cosmos. E sentimos a fadiga dessa luz, que fica ainda a repousar, durante pouco mais de uma hora, nas conchas de mármore de San Zaccaria, enquanto a Terra oferece a sua outra face à luminária. Esta é a luz de Inverno no auge da sua pureza. Não traz consigo calor nem energia, tendo-os deixado pelo caminho algures no universo, ou nos cúmulos mais próximos. A única ambição das suas partículas é alcançar um objecto e, grande ou pequeno, torná-lo visível. É uma luz íntima, a luz de Giorgione ou Bellini, e não a de Tiepolo ou Tintoretto. E a cidade demora-se nela, saboreando o seu afago, a carícia do infinito de onde veio a luz. Um objecto é, afinal, aquilo que torna íntimo o infinito.
Joseph Brodsky
38:211
não uma e meia nem sete nem quatro, trinta e oito da madrugada, duzentas e onze da manhã, e uma escuridão infinita
António Lobo Antunes
António Lobo Antunes
his black hair
I am out of the dark forest of caresses, of smells, yearning to roll and bathe again in the smell of his black hair, to cover my face with it, to feel his skin, to drop into warmth, to float on worship, to swim and breathe in adoration, to put my hand around our kiss as if it is a little flame I am protecting from the wind; a mouth changing, so withdrawn at first, now flowering, filling, turning outward, hurt, melted, opened, wet. Changed the currents between the eyes, the currents between the mouths. Touched so many layers of the being, with fingers, mouths, and words. At first the eyes, lanterns and stars, candles, jungle and heaven, hell and desire.
The mouth alone touches the womb. Clouds of dreams, mists of diamond and sulfer from the eyes, but the mouth alone touches the womb, the mouth stirs, moves, flowers, the lips open, and there flows the breath of life and breathlessness of desire. The shape of the mouth shapes the currents of the blood, stirs, lifts, dissolves. To bathe, roll, turn over dizzy in a bed of warmth — no wamth like two bodies — this is the current of life.”
Anaïs Nin, Incest: From a Journal of Love
The mouth alone touches the womb. Clouds of dreams, mists of diamond and sulfer from the eyes, but the mouth alone touches the womb, the mouth stirs, moves, flowers, the lips open, and there flows the breath of life and breathlessness of desire. The shape of the mouth shapes the currents of the blood, stirs, lifts, dissolves. To bathe, roll, turn over dizzy in a bed of warmth — no wamth like two bodies — this is the current of life.”
Anaïs Nin, Incest: From a Journal of Love
The time you won your town the race
We chaired you through the market-place;
Man and boy stood cheering by,
And home we brought you shoulder-high.
To-day, the road all runners come,
Shoulder-high we bring you home,
And set you at your threshold down,
Townsman of a stiller town.
Smart lad, to slip betimes away
From fields were glory does not stay
And early though the laurel grows
It withers quicker than the rose.
Eyes the shady night has shut
Cannot see the record cut,
And silence sounds no worse than cheers
After earth has stopped the ears:
Now you will not swell the rout
Of lads that wore their honours out,
Runners whom renown outran
And the name died before the man.
So set, before its echoes fade,
The fleet foot on the sill of shade,
And hold to the low lintel up
The still-defended challenge-cup.
And round that early-laurelled head
Will flock to gaze the strengthless dead,
And find unwithered on its curls
The garland briefer than a girl's.
A. E. Housman
tantas lembranças de que não me lembro
Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...
Manuel António Pina, Todas as Palavras
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...
Manuel António Pina, Todas as Palavras
um pouco mais
Um pouco mais
e veremos florescer as amendoeiras
os mármores brilharem ao sol
o mar a ondear
um pouco mais
para nos levantarmos um pouco mais alto.
Yorgos Seferis
e veremos florescer as amendoeiras
os mármores brilharem ao sol
o mar a ondear
um pouco mais
para nos levantarmos um pouco mais alto.
Yorgos Seferis
poema do gato
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge para a rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
Como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão, Novos poemas póstumos
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge para a rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
Como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão, Novos poemas póstumos
o herberto helder
O Herberto Helder tem duas
pernas e dois braços, dois olhos,
tem nariz e boca e come, vive
numa casa, espreita pelas janelas,
por vezes sai à rua, sozinho ou
acompanhado, a falar, apanha
chuva, liga a televisão, sabe onde
fica a França, lembra-se quando
era pequenino, inclusive
teve mãe e pai. É
impressionante o quanto um poeta
se pode assemelhar
às pessoas! A última vez que
falei com ele mandou-me um abraço.
valter hugo mãe
pernas e dois braços, dois olhos,
tem nariz e boca e come, vive
numa casa, espreita pelas janelas,
por vezes sai à rua, sozinho ou
acompanhado, a falar, apanha
chuva, liga a televisão, sabe onde
fica a França, lembra-se quando
era pequenino, inclusive
teve mãe e pai. É
impressionante o quanto um poeta
se pode assemelhar
às pessoas! A última vez que
falei com ele mandou-me um abraço.
valter hugo mãe
é preciso esquecer
Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
estou só a morrer em vão
Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.
Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.
(...)
Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.
Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.
(...)
Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
morremos sozinhos
E só nós sabemos
que morremos sozinhos.
(Ao menos escaparemos
à piedade dos vizinhos)
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
que morremos sozinhos.
(Ao menos escaparemos
à piedade dos vizinhos)
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
agora que não estou
Agora, se o telefone tocar,
diz que não estou.
Sem ironia, o meu coração teme a ironia
quase tanto como a perfeição;
e sem melancolia:
estávamos a precisar de solidão,
de silêncio, de geometria,
e as nossas lágrimas de uma grande razão.
Agora que não estou
(nem tu sabes quanto!)
tudo o que passou
sou eu regressando.
Os meus passos, não
os ouves nas escadas,
subindo as escadas
como os de um ladrão?
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
diz que não estou.
Sem ironia, o meu coração teme a ironia
quase tanto como a perfeição;
e sem melancolia:
estávamos a precisar de solidão,
de silêncio, de geometria,
e as nossas lágrimas de uma grande razão.
Agora que não estou
(nem tu sabes quanto!)
tudo o que passou
sou eu regressando.
Os meus passos, não
os ouves nas escadas,
subindo as escadas
como os de um ladrão?
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
(alguma coisa)
Agora estou voltado para cima,
para onde cantas ainda há muito tempo.
Se calhar isto (alguma coisa) vai demorar mas já não me impaciento.
Voltamos, tu eu, ao mesmo jardim desflorido
onde eu morro sozinho
e conversamos comigo
como com um desconhecido.
Que diremos agora um ao outro?
É tarde. Ainda há um momento
me apetecia conversar, agora estou outra vez cansado!
Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
para onde cantas ainda há muito tempo.
Se calhar isto (alguma coisa) vai demorar mas já não me impaciento.
Voltamos, tu eu, ao mesmo jardim desflorido
onde eu morro sozinho
e conversamos comigo
como com um desconhecido.
Que diremos agora um ao outro?
É tarde. Ainda há um momento
me apetecia conversar, agora estou outra vez cansado!
Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?
Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal
devolve-me a minha vida e o meu tempo
Quanto mais longe, mais perto me sinto de ti, como se os teus passos estivessem aqui ao pé de mim e eu pudesse seguir-te e falar-te e dizer-te quanto te amo e como te procuro, no meio duma destas ruas em que te vejo, zangado de saudade, no céu claro, no dia frio. devolve-me a minha vida e o meu tempo. diz qualquer coisa a este coração palerma que não sabe nada de nada, que julga que andas aqui perto e chama sem parar por ti.
Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido
Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido
cigarettes are the perfect form of pleasure,
they are ephemeral and they leave us unsatisfied
Oscar Wilde
vamos caindo ao chão, apodrecidos
passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
falo de um espelho secreto entre os meus dedos
um espelho que reflecte múltiplas imagens
um espelho que
de cada vez que alguém chama por um nome inteiro
sucede nele um tremor de terra
e o espelho quebra
ficam então os estilhaços dele
entre os meus dedos
que entraram abruptamente no meu cérebro
vejo agora e de mais perto
um rapaz com asas e sem lágrimas:
um fantasma branco de nuvens e cabelos...
Maria Azenha
um espelho que
de cada vez que alguém chama por um nome inteiro
sucede nele um tremor de terra
e o espelho quebra
ficam então os estilhaços dele
entre os meus dedos
que entraram abruptamente no meu cérebro
vejo agora e de mais perto
um rapaz com asas e sem lágrimas:
um fantasma branco de nuvens e cabelos...
Maria Azenha
e por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Hélder
Herberto Hélder
E foram noites e foram dias
a vaguear em cegos labirintos,
caminhando descalços
por pradarias de vidro…
até chegar ao teu corpo.
Morder poemas, cores e cânticos
com a certeza do destino cumprido.
(Hoje assusta-me pensar
que podíamos não nos ter encontrado.)
Lourdes Espínola
caminhando descalços
por pradarias de vidro…
até chegar ao teu corpo.
Morder poemas, cores e cânticos
com a certeza do destino cumprido.
(Hoje assusta-me pensar
que podíamos não nos ter encontrado.)
Lourdes Espínola
voo estrelado
A Águia não consegue levantar voo do solo plano; tem de subir com grande esforço para um penhasco ou para o tronco de uma árvore: daí, porém, lança-se para as estrelas.
Hugo von Hofmannsthal
Hugo von Hofmannsthal
uma overdose de beleza
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse
solitário caçador
Al Berto, O Medo
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse
solitário caçador
Al Berto, O Medo
uma voz
Uma voz dizia que nos vinha a chuva
que mata, outra que abençoava a terra.
Uma palavra era sobre a água úbere,
outra sobre os lodos, limos e as regueiras.
Uma voz queria beber uma sede áspera,
outra clamava fogo, terra e água.
Fiama Hasse Pais Brandão, Três Rostos
que mata, outra que abençoava a terra.
Uma palavra era sobre a água úbere,
outra sobre os lodos, limos e as regueiras.
Uma voz queria beber uma sede áspera,
outra clamava fogo, terra e água.
Fiama Hasse Pais Brandão, Três Rostos
shazam
Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas
pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas
em qualquer planeta verde a avançadíssimo
tu não me ligavas
estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma
tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio
fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado
mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia
Fernando Assis Pacheco
eu dizia shazam e tu não me ligavas
pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas
em qualquer planeta verde a avançadíssimo
tu não me ligavas
estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma
tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio
fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado
mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia
Fernando Assis Pacheco
pensava theodor
esboçava theodor um raciocínio cauteloso acerca da probabilidade de o desemprego ter efeito tanto no instinto de violência como no instinto oposto - o da bondade ou compaixão que se infiltra misteriosamente em determinadas pessoas, fazendo-as abandonar os seus projectos particulares para se dirigirem a causas gerais, altruístas; (...) formulava theodor a hipótese de que o bem e o mal têm origem na inactividade e no tédio, e que, portanto, a actividade concreta, especializada, dirigida individualmente, provocava, pelo contrário, uma atitude moralmente neutra em relação ao mundo; a actividade - o trabalho propriamente dito - poderia ser, então a forma de evitar os grandes horrores, os grandes massacres da história, aceitando-se porém, ao mesmo tempo, que também assim desapareceriam as condições para o aparecimento de grandes acções e de homens santos. sendo no entanto, para theodor, de uma absoluta evidência a reduzida importância dos actos bons, quando considerados num tempo longo, ao contrário dos actos de maldade pura, que se haviam transformado no verdadeiro motor da história. e este termo motor associava os factos a uma determinada velocidade, não existindo aqui qualquer consideração moral. não há motores morais ou imorais - pensava theodor -, há motores que funcionam e fazem avançar e há outros que não funcionam. a santidade, historicamente, não funcionava, e tal era, para ele, naquele momento, uma descoberta importante. o progresso depende apenas da velocidade do mal e das respostas que este provoca, murmurava para si próprio.
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém
XXI
Todos os dias, a toda a hora, uma após outra, cruzo-me na rua com mulheres que não conheço e nunca conhecerei. Algumas são lindas, outras atraentes, outras aparentam inteligência ou outra característica mental cativante, outras ainda parecem acumular tudo isso. Se, a cada vez que tal sucede, parasse e as parasse, lhes dissesse o que penso e que indícios me fazem pensá-lo (supondo que estivessem dispostas a ouvir-me), levaria uma eternidade a percorrer um quilómetro. Concluo: a vida, esta vida, apressada e inútil, feita de correrias rumo ao vazio, foi esquiçada ao arrepio da beleza e da sua contemplação. A vida é para os brutos. Para os cegos que, como diz o provérbio, não querem ver. A vida é uma moléstia ininterrupta. Ou, se calhar, viver é outra coisa que não isto, é darmo-nos o tempo de parar na rua para dizer às mulheres por que razão são lindas.
Miguel Martins, 1 Homem Sozinho
Miguel Martins, 1 Homem Sozinho
thunder
You will hear thunder and remember me,
And think: she wanted storms. The rim
Of the sky will be the colour of hard crimson,
And your heart, as it was then, will be on fire.
That day in Moscow, it will all come true,
when, for the last time, I take my leave,
And hasten to the heights that I have longed for,
Leaving my shadow still to be with you.
Anna Akhmatova
And think: she wanted storms. The rim
Of the sky will be the colour of hard crimson,
And your heart, as it was then, will be on fire.
That day in Moscow, it will all come true,
when, for the last time, I take my leave,
And hasten to the heights that I have longed for,
Leaving my shadow still to be with you.
Anna Akhmatova
waiting for you
Don't go far off, not even for a day, because --
because -- I don't know how to say it: a day is long
and I will be waiting for you, as in an empty station
when the trains are parked off somewhere else, asleep.
Pablo Neruda
because -- I don't know how to say it: a day is long
and I will be waiting for you, as in an empty station
when the trains are parked off somewhere else, asleep.
Pablo Neruda
um único extraordinário turbilhão
Lembra-te que há um querer doloroso
e de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direcção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?
Hilda Hilst
e de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direcção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Porque me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?
Hilda Hilst
esta noite chove
Ao mesmo tempo que já não te amo não amo mais nada, só a ti, ainda.
Esta noite chove. Chove em volta da casa e sobre o mar também. O filme vai ficar assim, como está. Não tenho mais imagens para lhe dar. Já não sei onde estamos, em que fim de que amor, em que recomeço de que outro amor, em que história nos perdemos. Sei apenas quanto ao filme. Apenas quanto ao filme, sei, sei que nenhuma imagem mais poderia prolongá-lo.
O dia de hoje não amanheceu e não há o menor sopro no alto das florestas ou nos campos, nos vales. Não se sabe se é o verão ainda ou o fim do verão ou uma estação mentirosa, indecisa, horrível, sem nome.
Já não te amo como no primeiro dia. Já não te amo. No entanto continuam em volta dos teus olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no sono.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
Dizem que o tempo do pleno verão já se anuncia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, no fundo do parque. Que às vezes não são vistas por ninguém durante o tempo da sua vida e que ficam assim ali no seu perfume esquartejadas durante alguns dias e que depois se deixam cair.
Nunca vistas por esta mulher solitária que esquece. Nunca vistas por mim, morrem.
Estou num amor entre viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável.
É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
E tu não sabes.
Marguerite Duras, O Homem Atlântico
Esta noite chove. Chove em volta da casa e sobre o mar também. O filme vai ficar assim, como está. Não tenho mais imagens para lhe dar. Já não sei onde estamos, em que fim de que amor, em que recomeço de que outro amor, em que história nos perdemos. Sei apenas quanto ao filme. Apenas quanto ao filme, sei, sei que nenhuma imagem mais poderia prolongá-lo.
O dia de hoje não amanheceu e não há o menor sopro no alto das florestas ou nos campos, nos vales. Não se sabe se é o verão ainda ou o fim do verão ou uma estação mentirosa, indecisa, horrível, sem nome.
Já não te amo como no primeiro dia. Já não te amo. No entanto continuam em volta dos teus olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no sono.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
Dizem que o tempo do pleno verão já se anuncia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, no fundo do parque. Que às vezes não são vistas por ninguém durante o tempo da sua vida e que ficam assim ali no seu perfume esquartejadas durante alguns dias e que depois se deixam cair.
Nunca vistas por esta mulher solitária que esquece. Nunca vistas por mim, morrem.
Estou num amor entre viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável.
É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
E tu não sabes.
Marguerite Duras, O Homem Atlântico
afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.
Mário Cesariny
quando eu disser, atira-te
e cair verticalmente no vício.
Mário Cesariny
quando eu disser, atira-te
too young
She must have been kicked unseen or brushed by a car.
Too young to know much, she was beginning to learn
To use the newspapers spread on the kitchen floor
And to win, wetting there, the words, "Good dog! Good dog!"
We thought her shy malaise was a shot reaction.
The autopsy disclosed a rupture in her liver.
As we teased her with play, blood was filling her skin
And her heart was learning to lie down forever.
Monday morning, as the children were noisily fed
And sent to school, she crawled beneath the youngest's bed.
We found her twisted and limp but still alive.
In the car to the vet's, on my lap, she tried
To bite my hand and died. I stroked her warm fur
And my wife called in a voice imperious with tears.
Though surrounded by love that would have upheld her,
Nevertheless she sank and, stiffening, disappeared.
Back home, we found that in the night her frame,
Drawing near to dissolution, had endured the shame
Of diarrhoea and had dragged across the floor
To a newspaper carelessly left there. Good dog.
John Updike
Too young to know much, she was beginning to learn
To use the newspapers spread on the kitchen floor
And to win, wetting there, the words, "Good dog! Good dog!"
We thought her shy malaise was a shot reaction.
The autopsy disclosed a rupture in her liver.
As we teased her with play, blood was filling her skin
And her heart was learning to lie down forever.
Monday morning, as the children were noisily fed
And sent to school, she crawled beneath the youngest's bed.
We found her twisted and limp but still alive.
In the car to the vet's, on my lap, she tried
To bite my hand and died. I stroked her warm fur
And my wife called in a voice imperious with tears.
Though surrounded by love that would have upheld her,
Nevertheless she sank and, stiffening, disappeared.
Back home, we found that in the night her frame,
Drawing near to dissolution, had endured the shame
Of diarrhoea and had dragged across the floor
To a newspaper carelessly left there. Good dog.
John Updike
letra a letra
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
the bridge
porque a loucura
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo
gil t. sousa
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo
gil t. sousa
hands
uma a uma, as coisas do mundo, as noites desarrumadas,
as mãos que as arrumam
entre chama e sono
Herberto Hélder
as mãos que as arrumam
entre chama e sono
Herberto Hélder
o último suspiro
Proferimos o amor
com verbos úteis:
fazer - ir - vir - andar -
e mudámos os outros:
estremecer - imaginar - ferir.
Nenhum Jacob servirá mais por
sete anos. Raquel aprendeu a gerir
rebanhos e o fogo hoje
arde para se ver.
As letras garrafais
dos maços de tabaco vendem
mais verbos úteis
à espécie: 'fumar
mata', 'pode prejudicar o esperma
e a fertilidade'.
Será que já ninguém falece?
Desce à última
morada ou se extingue?
O último suspiro
é o resto da travessa
de um doce caseiro. E o
Criador revela-se, como sempre,
um destinatário incerto
para enviar a alma.
Inês Lourenço
com verbos úteis:
fazer - ir - vir - andar -
e mudámos os outros:
estremecer - imaginar - ferir.
Nenhum Jacob servirá mais por
sete anos. Raquel aprendeu a gerir
rebanhos e o fogo hoje
arde para se ver.
As letras garrafais
dos maços de tabaco vendem
mais verbos úteis
à espécie: 'fumar
mata', 'pode prejudicar o esperma
e a fertilidade'.
Será que já ninguém falece?
Desce à última
morada ou se extingue?
O último suspiro
é o resto da travessa
de um doce caseiro. E o
Criador revela-se, como sempre,
um destinatário incerto
para enviar a alma.
Inês Lourenço
meu amor
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça?
Jorge de Sena
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça?
Jorge de Sena
hoje, aqui, neste momento ou nunca mais
Porque não vens agora, que te quero, E adias esta urgência? Prometes-me o futuro e eu desespero. O futuro é o disfarce da impotência... Hoje, aqui, neste momento ou nunca mais. A sombra do alento é o desalento... O desejo é o limite dos mortais.
Miguel Torga
Miguel Torga
o equilíbrio
O círculo é a única figura geométrica definida pelo seu centro. Não há galinha nem ovo neste caso, o centro apareceu primeiro, a circunferência a seguir. A Terra, por definição, tem um centro. E só o louco que sabe isto é que pode ir onde quer, porque sabe que o centro o irá reter, impedir que voe para fora de órbita. Mas quando muda a percepção do centro, e pela força centrífuga vem à superfície, vai-se o equilíbrio. O equilíbrio vai-se. O equilíbrio, minha linda, foi-se.
Sarah Kane, Teatro Completo
da lira solar
Todos os teus rostos
me verão chegar
ver-me-ás saciar
todos os teus gostos
alvuras e mostos
da lira solar
Mário Cesariny
me verão chegar
ver-me-ás saciar
todos os teus gostos
alvuras e mostos
da lira solar
Mário Cesariny
relatives
Just the thought of them makes your jawbone ache:
those turkey dinners, those holidays with
the air around the woodstove baked to a stupor,
and Aunt Lil's tablecloth stained by her girlhood's gravy.
A doggy wordless wisdom whimpers from
your uncles' collected eyes; their very jokes
creak with genetic sorrow, a strain
of common heritage that hurts the gut.
Sheer boredom and fascination! A spidering
of chromosomes webs even the infants in
and holds us fast around the spread
of rotting food, of too-sweet pie.
The cousins buzz, the nephews crawl;
to love one's self is to love them all.
John Updike
those turkey dinners, those holidays with
the air around the woodstove baked to a stupor,
and Aunt Lil's tablecloth stained by her girlhood's gravy.
A doggy wordless wisdom whimpers from
your uncles' collected eyes; their very jokes
creak with genetic sorrow, a strain
of common heritage that hurts the gut.
Sheer boredom and fascination! A spidering
of chromosomes webs even the infants in
and holds us fast around the spread
of rotting food, of too-sweet pie.
The cousins buzz, the nephews crawl;
to love one's self is to love them all.
John Updike
presentes raros
se eu pudesse enterraria os meus dedos no peito, arrancaria o meu coração e oferecia-to. além do meu coração, há outros orgãos que eu gostaria de te dar: glândulas, pancreas, carnes variadas...
ofereço-te estes presentes. presentes raros. sei que eles não são grande coisa em comparação com o que tu já me deste.
eu ouvi que estes orgãos não sobrevivem fora do corpo por mais de algumas horas. mas tentarei chegar aí o mais rápido possível. não importa, o que acontecer será por minha conta, no meu coração.
Jenny Schecter
ofereço-te estes presentes. presentes raros. sei que eles não são grande coisa em comparação com o que tu já me deste.
eu ouvi que estes orgãos não sobrevivem fora do corpo por mais de algumas horas. mas tentarei chegar aí o mais rápido possível. não importa, o que acontecer será por minha conta, no meu coração.
Jenny Schecter
vem
é rouca a minha voz
na madrugada,
por entre os sobressaltos do sono
a chamar-te,
vem.
amo-te,
murmura a tua minha voz
na alucinação da perda.
quero-te,
diz muito baixo o meu desespero,
nas horas em que me descuido.
Silvia Chueire
na madrugada,
por entre os sobressaltos do sono
a chamar-te,
vem.
amo-te,
murmura a tua minha voz
na alucinação da perda.
quero-te,
diz muito baixo o meu desespero,
nas horas em que me descuido.
Silvia Chueire
a distância da beleza
Tua beleza esquece-se
de mim.
Sou um marco da estrada:
tu passas, olhas e páras
apenas para medir a distância
que te separa do fim.
Tua beleza distrai-se
e concentra-se em mim.
Albano Martins
de mim.
Sou um marco da estrada:
tu passas, olhas e páras
apenas para medir a distância
que te separa do fim.
Tua beleza distrai-se
e concentra-se em mim.
Albano Martins
medo
o medo é uma mulher que caminha descalça sobre a neve, rezando, pedindo a deus de joelhos que NÃO HAJA SENTIDO
Leopoldo Maria Panero
Leopoldo Maria Panero
invisibles ojos
Este poema está vivo.
Tiene ojos.
Invisibles ojos, que sin verlos, te miran.
Lees y acaricias versos que se erizan.
Este poema está vivo,
quiere escucharte recitar en voz alta;
meterse en tu casa o quizá en tu cama;
curiosear tus estantes de discos y libros,
de fotos y cartas;
provocarte emociones y hurgar en tu vida:
¡Date prisa, pasa de página!
Antonio Pérez Morte
Tiene ojos.
Invisibles ojos, que sin verlos, te miran.
Lees y acaricias versos que se erizan.
Este poema está vivo,
quiere escucharte recitar en voz alta;
meterse en tu casa o quizá en tu cama;
curiosear tus estantes de discos y libros,
de fotos y cartas;
provocarte emociones y hurgar en tu vida:
¡Date prisa, pasa de página!
Antonio Pérez Morte
por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira
amor
Das palavras
que aprendeste
só uma
não tem tradução.
Quando traduzes
o amor, tu sabes
que é já outro o seu nome.
Assim são as algas
quando apodrecem.
Albano Martins
que aprendeste
só uma
não tem tradução.
Quando traduzes
o amor, tu sabes
que é já outro o seu nome.
Assim são as algas
quando apodrecem.
Albano Martins
escombros
O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisto. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido. (...) Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver num amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.
Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido
Miguel Esteves Cardoso, O Amor é Fodido
é lua nova
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
Hilda Hilst
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
Hilda Hilst
amor
Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.
Eugénio de Andrade
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.
Eugénio de Andrade
adivinha
Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
José Saramago
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
José Saramago
muito bem, cabrão, já chega
O medo caminha de cabeça erguida neste planeta. o medo quer, pode e manda, próspero e eminente. O medo tem-nos a todos presos por um fio aqui em baixo. É verdade, meu caro. Filha, não te faças de desentendida... Um dia destes vou fazer frente ao medo.Vou fazer-lhe frente. Alguém tem de o fazer. Vou enfrenta-lo e dizer: Muito bem, cabrão, já chega. Já nos andas a dar ordens há tempo de mais. Eis alguém que não te quer aturar mais. Acabou-se. Fora!
Martin Amis
Martin Amis
um lugar de silêncio
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder
que te demores
Que te demores, que me persigas
Como alguns perseguem as tulipas
Para prover o esquecimento de si.
Que te demores
Cobrindo-me de sumos e de tintas
Na minha noite de fomes.
Reflecte-me. Sou teu destino e poente.
Dorme.
Hilda Hilst
Como alguns perseguem as tulipas
Para prover o esquecimento de si.
Que te demores
Cobrindo-me de sumos e de tintas
Na minha noite de fomes.
Reflecte-me. Sou teu destino e poente.
Dorme.
Hilda Hilst
diálogos amorosos
- quando olho as pessoas vejo-as sempre mortas,
(pausa)
- entram no teu olhar e ficam vagarosas a morrer?
- não. É já mortas que as vejo
- mesmo as que amaste?
- nunca amei ninguém
- não acredito
- só poderia amar quem eu não visse morto.
E isso ainda não aconteceu.
Rui Nunes, A Boca na Cinza
(pausa)
- entram no teu olhar e ficam vagarosas a morrer?
- não. É já mortas que as vejo
- mesmo as que amaste?
- nunca amei ninguém
- não acredito
- só poderia amar quem eu não visse morto.
E isso ainda não aconteceu.
Rui Nunes, A Boca na Cinza
fraca, pesada, leve, confusa
o prazer, abandonarmo-nos a esta bem aventurada inconsciência, consentirmos em ser subtilmente mais fracos, mais pesados, mais leves e mais confusos que nós mesmos.
Marguerite Yourcenar
Marguerite Yourcenar
infinity
I write differently from the way I speak, I speak differently from the way I think, I think differently from the way I should think - and so it goes on into the darkest depths of infinity.
Franz Kafka, Letter to Ottla
Franz Kafka, Letter to Ottla
a solidão é nada
FALTA O INDULTO ESPECIAL DA TUA MÃO
E TU A DIZERES-ME, AGUDA E DE ASSALTO:
«a solidão é nada.»
José Sebag
E TU A DIZERES-ME, AGUDA E DE ASSALTO:
«a solidão é nada.»
José Sebag
este sentimento:
"Aqui não lançarei a âncora"
e imediatamente nos sentirmos envolvidos pelas vagas que ondulam e nos arrastam!
Franz Kafka
e imediatamente nos sentirmos envolvidos pelas vagas que ondulam e nos arrastam!
Franz Kafka
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Rosemarie Urquico
Rubens Borba de Moraes
Rudyard Kipling
Russell Edson
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Ryan Montanti
Saiónji Sanekane
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Sharon Olds
Shel Silverstein
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Simone de Beauvoir
Somerset Maugham
Stephen Crane
Stephen Wright
Steve Mccaffery
Stevie Smith
Stuart Dischell
Sue Goyette
Susana Cabuchi
Sylvia Plath
T. S. Eliot
Tai Fu Ku
Tanya Davis
Tati Bernard
Tatianna Rei Moonshadow
Tennessee Williams
Thom Gunn
Tiago Fabris Rendelli
Tilly Strauss
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