Talvez nada.

Tão mais incerta é a vida
Quanto a consciência que dela temos.

Levantarmo-nos é ir, a vaga
Sensação de ter ideias,

Sonhos, medo, um futuro.
Talvez o sem fundo de existir

Obrigue a deixar para os outros
O entretém de continuar a sentir

O vazio.


Rui Almeida

I’ll simulate a winter

From under what deaf ruins I speak rhyme,
From under what an avalanche cry out:
Like I am burning in the white quicklime
Under the volts of chambers underground.

I’ll simulate a winter, mute and lost,
And close, fast, the ever opened entrance,
But they will hear my alone voice,
And trust in it will be their final sentence.


Anna Akhmatova

What are days for?

Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?

Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.


Philip Larkin

death comes to me

Death comes to me again, a girl
in a cotton slip, barefoot, giggling.
It’s not so terrible she tells me,
not like you think, all darkness
and silence. There are windchimes
and the smell of lemons, some days
it rains, but more often the air is dry
and sweet. I sit beneath the staircase
built from hair and bone and listen
to the voices of the living. I like it,
she says, shaking the dust from her hair,
especially when they fight, and when they sing.


Dorianne Laux

se eu fosse árvore

Se eu fosse árvore crescia-te
numa mão cheia
se fosses o mar fazia-te
castelos brancos na areia.


Ulla Hahn

um pássaro na ponta da língua

na cama
quando me chego não percebes
que nada me deixa dormir
senão a proximidade do teu corpo
numa lenta água de barragem
que se encalha como um navio
sobre ondas cada vez maiores
que se fazem da inquietação
de um calor que se orvalha
entre cada pedaço que te toca
ah e pedir-te pedir-te até à exaustão
uma noite repetidamente lenta


Sofia Crespo

The rain whistled

A taxi brought me to your apartment building
And there I stood.

I had dreamed a dream
Of us in a bedroom.
The light shining upon us in white sheets.

You were singing me a song of your sailing days
And in the dream
I reached deep in you and pulled out a cardinal
Which in bright red
Flew out the window.


Dorothea Lasky, Love Poem

um dia destes

Um dia destes chamo-te
E gastamos um momento para fazer amor.
A ver se é verdade isso que dizia Cernuda
De que os corpos fazem um ruído muito triste
Quando se amam.

Manuel Arana

and though it seems absurd / I know we both won't say a word

Já não sei inventar os Domingos.

Pode-se inventar tudo menos os Domingos.


Rosa Alice Branco

há dias

Os anos passam. Soubéssemos nós passar também.


Bénédicte Houart

se eu fosse um vídeo

Camila

Só depois de ler
Barthes
é que Camila
ficou a saber
que o dedo da masturbação
é o médio
até aí tinha usado
sempre
o indicador
experimentou também
o polegar
e viu que todos serviam
meu menino
seu vizinho
pai de todos
fura bolos
mata piolhos
depois de perder a virgindade
experimentou
com um tubo de Cecrisina
metido num Durex Gossamer
também servia
mas isto nada
tem a ver com o amor
tem a ver com o escrever
e com o pintar
e dá menos satisfação
a menos que Camila
se lembre de Jénia
e da penetração
então usa
só os dedos
e serve
para adormecer


Adília Lopes

para que serve a poesia

Dizem que um poeta francês foi uma vez apresentado a um riquíssimo banqueiro. O apatacado personagem perguntou ao poeta:
- Para que serve a poesia?

E o poeta respondeu-lhe:
- Para o senhor, não serve para nada.

Tinha razão o poeta.Para muita gente ,tudo na vida deve ter uma utilidade. Para essa gente pretensiosa não adianta explicar certas coisas,elas não chegaram ainda a um desenvolvimento cultural suficiente para apreciar as coisas sem utilidade aparente.


Rubens Borba de Moraes

o alex

vou chamar-lhe alex. o alex é um rapaz aqui da rua. às vezes quando chego a casa lá está ele, sentado na sua bicicleta, de fones nos ouvidos, a assobiar qualquer coisa indecifrável. sempre que passo por ele, o alex diz olá. o alex tem o cabelo estranhamente mal cortado e cheira muito a axe. dá-me a sensação que tem sempre a mesma blusa vestida, nunca sei bem.

tanto se me dá, tanto se me dá, é como disser

A sua pombinha era eu. Chamava-me, vem cá menina, e a voz antecipando-se amolecida, ou então agarrava-me quando passava por ele pelas esquinas da casa, puxava-me contra si, encostava-se todo, crescia, eu atirava a cabeça para trás a barriga para a frente, crescia com ele, e gostava. A sua pomba gostava.
Nem me recordo bem. Foi primeiro um empurrão, estava eu a comentar que o vizinho do terceiro tinha enviuvado, que desperdício, tão novo e bem parecido, logo havia de encontrar… e veio o empurrão. Não caí. Olhei para ele surpreendida, protestei, supliquei. Desculpou-se, ou em jeito de desculpa agarrou-me, encostou-se como de costume, suámos ambos, gememos ambos. Nem sequer perdoei. Esqueci.
A estalada chegou na semana seguinte. A propósito de… A sopa gelada? Demasiado salgada? Os vincos na camisa do escritório? A conversa com a D. Adelina do quiosque que atrasou o jantar? Um olhar de esguelha para o vizinho? Já não sei. Apanhou-me o olho direito. Levei a mão ao rosto. Encolhi-me. Foi só uma. Baixei a cabeça. Comecei a chorar, primeiro muito devagar, as lágrimas lentas, logo mais velozes, o olho que ardia, os dois olhos escorrendo, como se vazando-se, o corpo a estremecer, sacudindo-o os soluços. As pombas não choram. Esperou alguns segundos, parado a ver-me, como se. Como se certificando-se de que eram lágrimas verdadeiras, sentidas. Arrependida. E logo os mesmos gestos, a mansidão na voz, vem cá pequenina, o seu corpo tenso, teso, forte, os braços protegendo-me, de quê, de mim própria talvez, era isso que ele dizia, tu não sabes, tu és uma ingénua, se não fosse eu, tu, minha pombinha, anda cá que eu faço-te um filho, faço-te quantos quiseres, põe-te a jeito, isso, deixa-te cair, isso, que eu agarro-te, isso… Isso.
Um ano daquilo. Dois anos daquilo. Nenhum filho. Estaladas, sim, empurrões, sim, pontapés, sim. Eu continuava a baixar a cabeça, encolhendo-me, tornando-me pequena, a proteger o rosto com as mãos, mas perdia-lhe o medo. Ganhava-lhe ódio. E, quando se encostava a mim, a pombinha já não pedia mais, já não gemia, já não atirava a cabeça para trás. Já não gostava. E começava a criar garras.
Lembro-me de que dantes me enternecia quando atravessava a praça da figueira, lágrimas rasando os olhos, as pombas arrulhando, os velhos dando-lhes sobras de pão, as pombas arrulhando, e eu, eu, uma de entre elas, arrepiando-me toda, esfomeando-me, ansiosa por chegar a casa e deixar-me escorregar e cair.
Anos daquilo. Quando o eléctrico me deixava na praça, já sentia asco. Anos daquilo. Quando o eléctrico parava, eu descia e já não olhava, já não ouvia. Não sentia nada, nada, a não ser uma estranha força que se apoderava dos meus pulsos, dos meus dedos, das minhas unhas, tenso o corpo, teso, preparando-se sem saber. A pombinha estava morta. E eu já nem chorava, em silêncio cirandava afiando as garras nas esquinas da casa. E espreitava a oportunidade.
Há muito fora enterrada, a pombinha, quando me partiu um braço. Levou-me às urgências. Marido consciencioso, grande cabrão, todo falinhas mansas para as enfermeiras, despindo-as com os olhos, trincando-as, dizimando-as com as palavras, a mim já só se encostava por desfastio, e o seu desejo, vago, vezeiro, ia encorpando o meu ódio, escorregou a minha pombinha, vejam só, tão desastradazinha que ela é, sim, pois, nas escadas. As pombas mortas não escorregam. A casa não tem escadas. Tem esquinas.
Não, pois já se me tinha morrido, aquela brutalidade. Não, pois se eu própria também já tinha morrido. Os mortos não matam, apenas continuam morrendo. Que podem dois mortos um contra o outro?
A sua pomba era eu. Passava por mim ou procurava-me pela casa, ao virar de uma esquina, poucas, porque a casa era pequena, ainda assim mais do que bastante, agarrava-me pela cintura, enfiava as mãos na minha camisola, debaixo da minha saia, anda cá, anda cá, não fujas que eu sei que tu gostas, e eu a fingir, diz lá se não, diz lá que não, e eu que não que não, minha pombinha, vou dar-te a volta à cabeça, a esse corpinho tão jeitoso, ia falando e tirando a roupa, a minha, a dele, e depois, depois, se eu gostava, como eu gostava, o corpo dele metamorfoseando-se numa só mão, o meu também, as duas mãos de um só corpo, nosso ou nem sequer, uma onda de espuma que me entontecia, as pernas trôpegas, a boca cheia, a pele revirada, os olhos ardendo insones, os órgãos enlanguescendo-se. Sangue, silêncio, sémen.
Inocente e culpada, tanto se me dá, tanto se me dá. É como disser.
Senhor doutor juiz.


Bénédicte Houart

parlez-moi d'amour

eu vou viver sem você

the people you've been before / that you don't want around anymore



drink up one more time and I'll make you mine / keep you apart, deep in my heart / separate from the rest, where I like you the best / and keep the things you forgot

in a doorway in paris

Once, in a doorway in Paris, I saw
the most beautiful couple in the world.
They were each the single most beautiful thing in the world.
She could have been sixteen, perhaps; he twenty.
Their skin was the same shade of black: like a shiny Steinway.
And they stood there like a four-legged instrument
of a passion so grand one could barely imagine them
ever working, or eating, or reading magazine.
Even they could hardly believe it.
Her hands gripped his belt loops, as they found each other’s eyes,
because beauty like this must be held onto,
could easily run away on the power
of his long, lean thighs; or the tiny feet of her laughter.
I thought: now I will write a poem,
set in a doorway on the Boulevard du Mont Parnasse,
in which the brutishness of time
rates only a mention; I will say simply —
that if either one should ever love another,
a greater beauty shall not be the cause.

Mary Jo Salter, Boulevard du Montparnasse

justiça a uma obra de arte

A obra de arte é de uma solidão sem fim, e nada está mais longe de tocá-la do que a crítica. Só o amor poderá compreender e sustentar e fazer justiça a uma obra de arte.


Rainer Maria Rilke

the young girl's dream

© Duane Michals

se eu fosse ninfa

se eu fosse ninfa sugava-te
para o fundo do mar
se fosses estrela dava-te
um tiro para caíres do ar.


Ulla Hahn

winter nocturne

Mantled in grey, the dusk steals slowly in,
Crossing the dead, dull fields with footsteps cold.
The rain drips drearily; night's fingers spin
A web of drifting mist o'er wood and wold,
As quiet as death. The sky is silent too,
Hard as granite and as fixed as fate.
The pale pond stands; ringed round with rushes few
But for the coming of the winter night
Of deep December; blowing o'er the graves
Of faded summers, swift the wind in flight
Ripples its silent face with lapping waves.
The rain falls still: bowing, the woods bemoan;
Dark night creeps in, and leaves the world alone.


Philip Larkin

um dia / uma vez

Um dia o céu
veio pelo molhe até aos meus pés
e verde era o teu cabelo
como então ali
à noite o mar.

Uma vez era uma vez
a história
construía-se na areia
para sempre
com levíssimos
pés de mármore.


Cruzeiro Seixas

se eu fosse um vídeo

faz-me em braços

E eu digo: “abraça-me”. E os teus braços fazem-se.
E eu digo: “abrasa-me”. E tu fazes-te em braços.


Joana Serrado

O CINEMA É UMA DOENÇA

quando nos afecta o sangue passa a ser a hormona dominante. representa o lago da nossa psique, como para a heroína, o antídoto para o cinema é MAIS CINEMA.


Frank Capra

old love

© Nan Goldin, My Parents Kissing on their Bed, Salem, Massachusetts 2004

como eu gosto de ti, ninguém o entenderia

como eu gosto de ti, nem o mundo o aceitaria.

Alice Turvo

le snobisme,

c'est une bulle de champagne qui
hésite entre le rot et le pet.


Serge Gainsbourg

por favor

Por favor não me deixes o
tubo da pasta dos dentes premido
do lado da ponta.


João Luis Barreto Guimarães, Luz Ultima

memória / sofrimento

A minha memória não é uma fonte de sofrimento. Certas partes são como uma loja de penhores, outras como um aquário, outras como uma despensa. Julgo que há um sítio onde a memória se distorce como as imagens nos espelhos de feira e é essa a área que mais me interessa.


Tom Waits

serve para te dizer

serve para lhe dizer, senhor
a.n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes ultimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade


valter hugo mãe, folclore íntimo

the sound of water running

I suppose like others
I have come through fire and sword,
love gone wrong,
head-on crashes, drunk at sea,
and I have listened to the simple sound of water running
in tubs
and wished to drown


Charles Bukowski

tales of mere existence

Tales of Mere Existence, Lev Yilmaz

docemente dói

Fecho os olhos.
Dói, às vezes docemente, dói a vida.



José Agostinho Baptista

canto da minha nudez

Ardes-me no peito onde a custo
o meu amor perpassa, e vai até
às loucuras do corpo
e às agruras da alma.
Ardes-me no minuto, no segundo,
na hora amaciada por olhos entrevistos,
ardes-me no sangue obstruído
e na certeza muda que me diz
que o coração existe.


Pedro Tamen

another night in

© Dorthe Alstup

esta noite

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral

impossível

Impossível cantar-te
Como cantei o amor adolescente
Colorindo de ingenuidade
Paisagens e figuras reduzindo-o
À mesma atmosfera rarefeita
Do sonho sem percurso no real
Impossível tomar o íngreme caminho
Da aventura mental
Ou imaginar-te pelo fio estéril
Da solitária imaginação

Tão-pouco desenhar-te como estrela
Neste céu infame
Dizer-te em linguagem de jornal
Ou levar-te á emoção dos outros
Pela voz contrafeita da poesia

Impossível não tentar dizer-te
Com as poucas palavras que nos ficam
Da usura dos dias
Do grotesco discurso que escutamos
Proferimos
Transitos de sonho no ramal do tempo
Onde estamos como ervas
Pedrinhas
Coisas perfeitamente inúteis
Pequenas conversas de ferrugem de musgo
Queixas


Alexandre O’Neill

coração da noite

 Em ti é de noite. Em breve assistirás à corajosa exaltação do animal que és. Coração da noite, fala.

    Ter morrido em quem se era e em quem se amava, ter e não ter dado a volta como um céu ao mesmo tempo tormentoso e celeste.

    Tivesse desejado mais que isto e ao mesmo tempo nada.


Alejandra Pizarnik, Extracção da Pedra da Loucura

com um ar desprendido

Grandes nuvens de quando em quando.
Uma vasta ilha de sombra sobre o mar acompanha-as fielmente, e decerto também são fielmente seguidas por alguns peixes que gostam de sombra e de poucas profundidades. Mas o andamento é veloz e os peixes têm de dar o máximo com as barbatanas. Ficam rapidamente cansados. Alguns, fingindo achar a água fria de mais, depressa voltam para trás com um ar desprendido.


Henri Michaux, Equador

se eu fosse um vídeo




os teus olhos passaram por mim / eu tinha a vida a desesperar / e num instante o futuro decidi / ao não decidir, ao congelar

um brinde

Ghost World, Terry Zwigoff, 2001


a nós, a ti, a mim, ao primo, ao tio, ao pai, à madrinha, a londres, a paris, ao michael pitt e ao luis garrell, um brinde às blicas, um alcoolizado, outro com mais um pouco de alcool, um brinde à maddie, outro ao frederico lourenço, um ao valter hugo mãe e outro ao poe, mais um ao mec, outro ao buko, um ao cinema, outro à fome e ao contar tostões no futuro, um brinde aos aqua, outro à britney, outro à gwen e só mais um, a todos os que encontramos na rua e que tratam tão bem de nós

juliette

How delightful are the pleasures of the imagination! In those delectable moments, the whole world is ours; not a single creature resists us, we devastate the world, we repopulate it with new objects which, in turn, we immolate. The means to every crime is ours, and we employ them all, we multiply the horror a hundredfold.


Marquis de Sade

grief lessons

Come here, let me share a bit of wisdom with you.
Have you given much thought to our mortal condition?
Probably not. Why would you? Well, listen.
All mortals owe a debt to death.
There’s no one alive
who can say if he will be tomorrow.
Our fate moves invisibly! A mystery.
No one can teach it, no one can grasp it.
Accept this! Cheer up! Have a drink!
But don’t forget Aphrodite—that’s one sweet goddess.
You can let the rest go. Am I making sense?
I think so. How about a drink.
Put on a garland. I’m sure
the happy splash of wine will cure your mood.
We’re all mortal you know. Think mortal.
Because my theory is, there’s no such thing as life,
it’s just catastrophe.


Anne Carson, Grief Lessons: Four Plays

imagino eu

despem-se diante dos olhos dois corpos de luz
mas a inclinação da luz é rasa
é a fricção dos corpos que ilumina a biblioteca
dos livros perde-se a cor da antiguidade
dos sorrisos inverte-se a obliquidade das palavras
e em silêncio inveja-se a luz produzida
as página e os corpos tocam-se de perto
por desejo, imagino eu que leio só.


André Tomé, Insula

dizer um corpo / uma mente / um lugar

Dizer um corpo. Onde nenhum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Mover-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Não. Sair nenhum. Voltar nenhum. Só entrar. Ficar lá dentro. Em diante lá dentro. Parado.


Samuel Beckett, Pioravante Marche

entrava

o que dizia era uma algazarra de asas
entre copos miolos de pão
dava-se conta da janela a dividir a casa e o mundo
o pássaro ia batia contra o vidro
batia aninhava-se ao canto sem o mundo de fora à vista
agarrei-o
embrulhado nos dedos todo ele era coração e susto
aceitou depois as calmas
abri a janela a dar para o cheiro da hortelã
abri a mão caiu no céu


Abel Neves

angels and god

I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’ all right,
go ahead, enter their lives, I’ not jealous
because we’ never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame –– not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they’ told
us, but listening to you I wasn’ sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers,
editors, “ her, print her, she’ mad but she’
magic. there’ no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn’ happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn’ help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this.


Charles Bukowski

medo / angústia / desolação

Tens que ter sentido medo
angústia, desolação
pois para falar do amor
sem metáforas estivais
é preciso ter vivido em quartos lívidos,
onde um espelho,
um olhar de viés,
um sapato arremessado
prenunciam o poema.


Jorge Gomes Miranda

warning

© Hans Bellmer

poemário daqui

A. M. Pires Cabral Abel Neves Adília Lopes Adolfo Casais Monteiro Agustina Bessa-Luís Al Berto Albano Martins Alberto Pimenta Alexandra Malheiro Alexandre Nave Alexandre O'Neill Alice Turvo Alice Vieira Almada Negreiros Ana C. Ana Caeiro Ana Cristina César Ana Duarte Ana Hatherly Ana Luísa Amaral Ana Marques Gastão Ana Paula Inácio Ana Salomé Ana Tinoco André Tomé Andreia C. Faria Angélica Freitas Ângelo de Lima Aníbal Fernandes António Botto António Dacosta António Franco Alexandre António Gancho António Gedeão António Gregório António José Forte António Manuel Pires Cabral António Maria Lisboa António Mega Ferreira António Osório António Pedro António Quadros Ferro António Ramos Pereira António Ramos Rosa António Rebordão Navarro António Reis António S. Ribeiro Armando Baptista-Bastos Armando Silva Carvalho Artur do Cruzeiro Seixas Bénédicte Houart Bruno Béu Bruno Sousa Villar Camilo Castelo Branco Carlos Alberto Machado Carlos de Oliveira Carlos Eurico da Costa Carlos Mota de Oliveira Carlos Soares Casimiro de Brito Catarina Nunes de Almeida Cesário Verde Cláudia R. Sampaio Cruzeiro Seixas Daniel Faria Daniel Filipe David Mourão-Ferreira David Teles Pereira Delfim Lopes Dulce Maria Cardoso Eastwood da Silva Egito Gonçalves Ernesto Sampaio Eugénio de Andrade Eugénio Lisboa Fernando Assis Pacheco Fernando Esteves Pinto Fernando Lemos Fernando Pessoa Fernando Pinto do Amaral Fiama Hasse Pais Brandão Filipa Leal Filipe Homem Fonseca Florbela Espanca Frederico Pedreira gil t. sousa Golgona Anghel Gonçalo M. Tavares Helder Moura Pereira Helena Carvalho Helga Moreira Hélia Correia Henrique Manuel Bento Fialho Henrique Risques Pereira Herberto Hélder Inês Dias Inês Fonseca Santos Inês Lourenço Isabel Meyrelles Joana Serrado João Almeida João Bénard da Costa João Cabral de Melo Neto João Camilo João Damasceno João Ferreira Oliveira João Habitualmente João Luís Barreto Guimarães João Manuel Ribeiro João Pacheco João Pereira Coutinho João Rodrigues João Vasco Coelho Joaquim Manuel Magalhães Joaquim Pessoa Jorge de Sena Jorge Gomes Miranda Jorge Melícias Jorge Roque Jorge Sousa Braga José Agostinho Baptista José Alberto Oliveira José Amaro Dionísio José António Franco José Cardoso Pires José Carlos Barros José Carlos Soares José Efe José Gomes Ferreira José Manuel de Vasconcelos José Mário Silva José Miguel Silva José Ricardo Nunes José Rui Teixeira José Saramago José Sebag José Tolentino Mendonça Judith Teixeira Leitão de Barros Luís Miguel Nava Luís Quintais Luiza Neto Jorge Mafalda Gomes Manuel A. Domingos Manuel António Pina Manuel Cintra Manuel da Silva Ramos Manuel de Castro Manuel de Freitas Manuel Fúria Manuel Gusmão Marcelino Vespeira Margarida Vale de Gato Maria Ângela Alvim Maria Azenha Maria do Rosário Pedreira Maria Gabriela Llansol Maria João Lopes Fernandes Maria Judite de Carvalho Maria Keil Maria Sousa Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa Mário Cesariny Mário Contumélias Mário de Sá-Carneiro Mário Quintana Mário Rui de Oliveira Mário-Henrique Leiria Marta Chaves Matilde Campilho Miguel Cardoso Miguel Martins Miguel Sousa Tavares Miguel Torga Miguel-Manso Nuno Araújo Nuno Bragança Nuno Júdice Nuno Moura Nuno Ramos Nuno Travanca Paulo José Miranda Pedro Jordão Pedro Mexia Pedro Oom Pedro Santo Tirso Pedro Sena-Lino Pedro Tamen Piedade Araujo Sol Raquel Nobre Guerra Raul de Carvalho Regina Guimarães Reinaldo Ferreira Renata Correia Botelho Ricardo Adolfo Rosa Alice Branco Rui Almeida Rui Baião Rui Caeiro Rui Cóias Rui Costa Rui Knopfli Rui Manuel Amaral Rui Nunes Rui Pedro Gonçalves Rui Pires Cabral Rute Mota Ruy Belo Ruy Cinatti Ruy Ventura Samuel Úria Sandra Costa Sebastião Alba Sílvio Mendes Soares de Passos Sofia Crespo Sofia Leal Sophia de Mello Breyner Andresen Teixeira de Pascoaes Teresa Balté Tiago Gomes valter hugo mãe Vasco Gato Vasco Graça Moura Vítor Nogueira Yvette K. Centeno

poemário dali

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