tão pouco/tão nada
Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco
Ernesto Sampaio, Feriados Nacionais
tão pouco sonho
tão pouco
Ernesto Sampaio, Feriados Nacionais
FUMAR MATA
procuro o maço de cigarros na carteira, fumar mata, em letras enormes, de um lado, do outro, fumar causa o envelhecimento da pele, se por um acaso não morrer, se me der para ser eterna, tenho direito a uma indemnização já que me asseguraram que fumar mata, desde quando é que todas as coisas desataram a falar, a estrada, conduza com prudência, respeite a margem de segurança, se conduzir não beba, imagino qualquer dia o hall de um prédio, se tiver uma vizinha boazona por favor não a apalpe, ou, apalpar vizinhas depende da autorização prévia do condomínio que reserva o direito de, outro aviso, quando pisar merda de cão na rua não limpe os sapatos no capacho do vizinho, procure antes os capachos de outros prédios, acendo o cigarro, hoje à tarde o banco, subscreva um plano poupança habitação, um plano poupança reforma, qualquer dia o banco, subscreva um plano infalível de assalto à mão armada, pode ainda subscrever os complementos especial perversidade, ou fuga para país tropical, a farmácia onde ontem fui comprar pingos para o nariz, já não se usa morrer de amor, use preservativo, vigie o seu colesterol, meça a sua tensão, beba um litro e meio de água por dia, evite as gorduras, faça exercício, a farmácia e o rol de conselhos, não acho bem que as estradas, os bancos, as farmácias, as roupas, tenham desatado a falar, os disparates dos falantes tradicionais chegavam.
Dulce Maria Cardoso
Dulce Maria Cardoso
uma tarde maria cristina
obrigou-me a comer osgas
e a repetir
com a boca cheia de osgas
as pessoas sensíveis
gostam de comer osgas
mas não gostam
de ver matar osgas
por isso têm de comer
as osgas vivas
se querem fazer na vida
aquilo de que gostam
Adília Lopes
e a repetir
com a boca cheia de osgas
as pessoas sensíveis
gostam de comer osgas
mas não gostam
de ver matar osgas
por isso têm de comer
as osgas vivas
se querem fazer na vida
aquilo de que gostam
Adília Lopes
cicatriz(es)
Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.
Luís Miguel Nava
Luís Miguel Nava
ao (des)abandono
Sento-me no café com o meu caderno de apontamentos e as ideias a girar. Está imenso frio e com o piloto automático ligado, abano o pequeno pacote que retiro do pires e o açúcar salta para cima de mim e gira à minha volta. Um casal de pé ao balcão farta-se de rir da minha figura a sacudir o açúcar por todo o lado. Deve andar por aí um anjo que me fura os pacotes porque me quer ver elegante e bonita.
Maria João Lopes Fernandes
Maria João Lopes Fernandes
os meus sentimentos
deviam guarda-los, ainda lhe podiam fazer falta, e a mim não me serviam de nada, devia tê-lo aconselhado a guardar os sentimentos, nunca sabemos quando precisamos dos sentimentos, da latinha de fermento que está há anos na despensa, da camisola de lã que não é vestida há mais de cinco Invernos, nunca se sabe quando precisamos de coisas mesmo se nunca as utilizamos, não fosse essa incerteza e punha um anúncio no jornal, vendem-se sentimentos, estado impecável, como novos, oportunidade única, motivo mudança de vida, bom preço.
Dulce Maria Cardoso
Dulce Maria Cardoso
se eu fosse uma música
i will take the train / leave the sun for the rain / and come downtown / I will spend money and time / loose friends and cry / more than motherless child / I will come downtown to you now
canção triste
Estou cansado.
Estou cansado de falar e de agir.
Se me encontrares um dia na rua
não me faças perguntas
só saberia dizer como me chamo
e o lugar de onde vim - mas também
isso basta. Já não importa se
o amanhã não chega, se esta for a última
noite e depois dela vier a manhã.
Estou cansado. Estou cansado de falar
e de agir. No mais íntimo do meu ser
está um punhado de pó. Toma-o
e sopra-o ao vento. Deixa o vento
levá-lo e ele estará em casa.
Tennessee Williams
Estou cansado de falar e de agir.
Se me encontrares um dia na rua
não me faças perguntas
só saberia dizer como me chamo
e o lugar de onde vim - mas também
isso basta. Já não importa se
o amanhã não chega, se esta for a última
noite e depois dela vier a manhã.
Estou cansado. Estou cansado de falar
e de agir. No mais íntimo do meu ser
está um punhado de pó. Toma-o
e sopra-o ao vento. Deixa o vento
levá-lo e ele estará em casa.
Tennessee Williams
quando for grande
Quando for grande, andarei sempre com um bloco de notas, um bloco bastante grande e com muitas páginas, todas metodicamente organizadas por ordem alfabética. Tomarei nota de todas as frases. Na letra B colocarei «pó de borboleta».
Virginia Wool, As Ondas
Virginia Wool, As Ondas
o sótão
O sótão: era ali
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.
Albano Martins
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.
Albano Martins
as trevas
Começam-nos as trevas a romper
a carne, comparáveis
a neve que do céu
caísse ensanguentada
ou pedra que, ao tombar
num lago, o abrisse
em sucessivos círculos, alguns
dos quais já fora de água, em plena vida,
alguém
no meio da paisagem
empunha um calorífico
enquanto eu, que de roupa
não trago mais que um lenço,
com ele cubro a cabeça para não morrer,
aqui ninguém ignora
que os lagos gelam a partir das margens
e o homem a partir do coração,
que a luz
ascende do vazio
e tudo o que nos resta mais não é
que um sol sem crédito
num céu desafectado,
envolvem-nos as trevas
os ossos, dir-se-ia
que a própria morte
nos serve aqui de pele, como a um morcego.
Luís Miguel Nava
a carne, comparáveis
a neve que do céu
caísse ensanguentada
ou pedra que, ao tombar
num lago, o abrisse
em sucessivos círculos, alguns
dos quais já fora de água, em plena vida,
alguém
no meio da paisagem
empunha um calorífico
enquanto eu, que de roupa
não trago mais que um lenço,
com ele cubro a cabeça para não morrer,
aqui ninguém ignora
que os lagos gelam a partir das margens
e o homem a partir do coração,
que a luz
ascende do vazio
e tudo o que nos resta mais não é
que um sol sem crédito
num céu desafectado,
envolvem-nos as trevas
os ossos, dir-se-ia
que a própria morte
nos serve aqui de pele, como a um morcego.
Luís Miguel Nava
ode rimbaud
eu sou absolutamente moderna, Rimbaud.
sei que nunca pensaste que uma rapariga de Portugal
se tornasse absolutamente moderna.
o caso é que nunca deitei o amor pela janela
mas a janela deitou-se pelo amor dentro.
não toco piano, não falo francês, nem faço fru-fru.
sou absolutamente moderna, Rimbaud.
tenho telemóvel, tenho blog, tenho carro
e até uma paixão que já não é platónica
agora para se ser absolutamente moderno
diz-se virtual, Rimbaud.
perdoa-me
dou-te a minha perna
um prato com bolinhos de canela
para te lembrares do tempo dela.
perdoa-me o sarcasmo, Rimbaud
o fatalismo azedo de rapariga absolutamente moderna
constructo humano, já não ser.
perdoa as minhas pernas a engordar de noite para noite
o fumo da chaminé comum do prédio
a minha imensa falta de árvores
a minha necessidade que devora um poema para o deitar fora.
perdoa-me não ter entendido uma única coisa que disseste
mesmo na tradução do Cesariny que é livre e bela
como uma rosa francesa desgrenhada em solo português.
perdoa-me escrever telegraficamente
ter deixado de respirar para todo o sempre
e continuar a pintar os lábios de vermelho
como se isso fosse possível num deserto sem beijos.
perdoa-me não ter consigo manter a tua palavra
perdoa-me ter falhado e ser erro.
p.s. - se quiseres regressar a terra
como o Cristo da literatura do não
tomas café comigo?
Ana Salomé, Odes
sei que nunca pensaste que uma rapariga de Portugal
se tornasse absolutamente moderna.
o caso é que nunca deitei o amor pela janela
mas a janela deitou-se pelo amor dentro.
não toco piano, não falo francês, nem faço fru-fru.
sou absolutamente moderna, Rimbaud.
tenho telemóvel, tenho blog, tenho carro
e até uma paixão que já não é platónica
agora para se ser absolutamente moderno
diz-se virtual, Rimbaud.
perdoa-me
dou-te a minha perna
um prato com bolinhos de canela
para te lembrares do tempo dela.
perdoa-me o sarcasmo, Rimbaud
o fatalismo azedo de rapariga absolutamente moderna
constructo humano, já não ser.
perdoa as minhas pernas a engordar de noite para noite
o fumo da chaminé comum do prédio
a minha imensa falta de árvores
a minha necessidade que devora um poema para o deitar fora.
perdoa-me não ter entendido uma única coisa que disseste
mesmo na tradução do Cesariny que é livre e bela
como uma rosa francesa desgrenhada em solo português.
perdoa-me escrever telegraficamente
ter deixado de respirar para todo o sempre
e continuar a pintar os lábios de vermelho
como se isso fosse possível num deserto sem beijos.
perdoa-me não ter consigo manter a tua palavra
perdoa-me ter falhado e ser erro.
p.s. - se quiseres regressar a terra
como o Cristo da literatura do não
tomas café comigo?
Ana Salomé, Odes
a cabeça em ambulância
Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã
ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos
ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta
quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura, de infância.
Luiza Neto Jorge
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã
ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos
ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta
quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura, de infância.
Luiza Neto Jorge
se eu fosse um vídeo
lay with me, I'll lay with you / we'll do the things that lovers do / put the stars in our eyes / and with heart shaped bruises / and late night kisses / devine
os meus fantasmas
Uma caneta
que não escreve
no momento
que o poema
aperta
Cães a ladrar
para espantar a noite
que aperta contra
a caneta
que não escreve
na noite
onde cães ladram
para espantar
a caneta
que não escreve
o poema
que aperta
que me aperta
E a caneta
que não escreve
E os cães a ladrar
para espantar
a noite
para espantar
a caneta que mesmo
assim não escreve
o poema
que aperta
Manuel A. Domingos, Teorias
que não escreve
no momento
que o poema
aperta
Cães a ladrar
para espantar a noite
que aperta contra
a caneta
que não escreve
na noite
onde cães ladram
para espantar
a caneta
que não escreve
o poema
que aperta
que me aperta
E a caneta
que não escreve
E os cães a ladrar
para espantar
a noite
para espantar
a caneta que mesmo
assim não escreve
o poema
que aperta
Manuel A. Domingos, Teorias
o pânico
Dissolver
lentamente na boca
Saborear
como um aperitivo
O pânico
Rui Caeiro, Baba de Caracol
lentamente na boca
Saborear
como um aperitivo
O pânico
Rui Caeiro, Baba de Caracol
dentro da nossa casa
Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa.
José Tolentino Mendonça
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa.
José Tolentino Mendonça
homens que são como danos irreparáveis
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
Daniel Faria, Homens que são como Lugares Mal Situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar
Daniel Faria, Homens que são como Lugares Mal Situados
sem divisões
Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo
De o transformar. Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo
Na atenção.
E fico atento, fico deitado porque não sei crescer
Num terreno que se levante.
Cresço na clareira de um homem que é uma palavra
Na sua túnica inteira
Porque este é o sítio do dia sem horário
Sem divisões
E ponho-me de frente no seu lado,
Nos seus braços abertos para me unir
E entro pelo lado aberto e ardo – como Elias
Em chamas subindo para o céu.
Daniel Faria
silêncio
Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.
Vasco Gato
Vasco Gato
lérias
Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam de usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calharem em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc., são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não é particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.
Miguel Martins
Miguel Martins
humus
(...)
Se me perguntam o que é a vida - não sei o que é a vida. Sei que me devora - sei que tenho ao pé de mim a morte.
Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos a linhas essenciaes. Habitua-nos a viver, e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.
(...)
Raul Brandão
Se me perguntam o que é a vida - não sei o que é a vida. Sei que me devora - sei que tenho ao pé de mim a morte.
Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos a linhas essenciaes. Habitua-nos a viver, e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.
(...)
Raul Brandão
um poema favorito para o aniv do Al Berto
escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer
táctica estética ou estava difícil
Segue-se uma estética
para chegar ao íntimo das coisas
e sugar-lhes o sumo
ou antes, o néctar,
ou melhor, o licor,
quero dizer, o elixir,
isto é, a essência,
porra, a poesia.
Tiago Gomes
para chegar ao íntimo das coisas
e sugar-lhes o sumo
ou antes, o néctar,
ou melhor, o licor,
quero dizer, o elixir,
isto é, a essência,
porra, a poesia.
Tiago Gomes
coração de bússola
É preciso arrancar as árvores,
impedir que a noite suba,
descalça, pelos seus ramos.
É preciso, e já.
Antes que a sombra se farte
e nos vomite nos olhos.
Albano Martins
impedir que a noite suba,
descalça, pelos seus ramos.
É preciso, e já.
Antes que a sombra se farte
e nos vomite nos olhos.
Albano Martins
ver os outros passar
Sentar-me e ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
João Luís Barreto Guimarães
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
João Luís Barreto Guimarães
vesti-me de sombra
Vesti-me de sombra e senti o silêncio pousar-me sobre o coração; pousou numa lápide marmórea e cantou na noite solitária. E os mortos ouviram aquele canto. O silêncio é a voz dos mortos e a sombra a sua luz. E eu não sou mais do que um morto condenado a viver, ou melhor, condenado a nascer e a morrer a cada instante!
Leitor, são os meus pecados que me pesam!
[...]
Vesti-me de sombra e senti o silêncio pousar-me no coração. Por isso, no mais profundo e nocturno do meu ser, brilha um sorriso astral, fiozinho de luz que ainda me prende à Fonte originária. E sei que ele se introduz em todas as lágrimas que choro.
Este misterioso sorriso é a própria essência da Dor, o seu núcleo lapidado, refulgindo a alegria de Deus....
[...]
Teixeira de Pascoaes, Poesia de Teixeira de Pascoaes
Leitor, são os meus pecados que me pesam!
[...]
Vesti-me de sombra e senti o silêncio pousar-me no coração. Por isso, no mais profundo e nocturno do meu ser, brilha um sorriso astral, fiozinho de luz que ainda me prende à Fonte originária. E sei que ele se introduz em todas as lágrimas que choro.
Este misterioso sorriso é a própria essência da Dor, o seu núcleo lapidado, refulgindo a alegria de Deus....
[...]
Teixeira de Pascoaes, Poesia de Teixeira de Pascoaes
the hireling shepherd
a veia poética secou
as luzes todas apagadas
o olhar vermelho do despertador
vou por onde não te encontras
outro dia que começa às duas
deprime o cheiro
que sai das casas históricas
ao sol do norte
tudo por exemplo ardido
recolher os dentes-de-leão na cinza
ou no incorpóreo da casa, coisas de vestir
onde vou não é comigo
nem como ganho o pão de cada dia
a constipação alastra
e por trás da caixa de registar
aguardam os comprimidos cor de rosa
para a febre e para a dor
João Almeida, A Formiga Argentina
as luzes todas apagadas
o olhar vermelho do despertador
vou por onde não te encontras
outro dia que começa às duas
deprime o cheiro
que sai das casas históricas
ao sol do norte
tudo por exemplo ardido
recolher os dentes-de-leão na cinza
ou no incorpóreo da casa, coisas de vestir
onde vou não é comigo
nem como ganho o pão de cada dia
a constipação alastra
e por trás da caixa de registar
aguardam os comprimidos cor de rosa
para a febre e para a dor
João Almeida, A Formiga Argentina
com uma venda
Cada vez mais, vejo gente
com uma venda
a tapar-lhes os olhos.
Até já vi gente que
afastando-lhes um pouco a venda
a voltaram a colocar correctamente.
Antonio Orihuela
com uma venda
a tapar-lhes os olhos.
Até já vi gente que
afastando-lhes um pouco a venda
a voltaram a colocar correctamente.
Antonio Orihuela
os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
© Lena Willard
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal.
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.
Sophia de Mello Breyner Andresen
em cada cem pessoas:
sabendo de tudo mais do que os outros:
- cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
- quase todas as outras,
prontas a ajudar
desde que isso não lhes tome muito tempo:
- quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:
- quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
- dezoito,
induzidas em erro
por uma juventude afinal tão efémera:
- mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
- quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas
em relação a alguém ou a qualquer coisa
- setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
- no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas
mas selvagens quando em multidão:
- isso, o melhor é não tentar saber nem mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
- não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
- trinta, mas preferia estar enganada,
encurvadas, sofridas,
sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas
- mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas
- pelo menos trinta e cinco, o que já não é nada mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender
- três,
dignas de compaixão:
- noventa e nove,
mortais:
- cem por cento,
número que, de momento, não é possível alterar.
Wislawa Szymborska
- cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
- quase todas as outras,
prontas a ajudar
desde que isso não lhes tome muito tempo:
- quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:
- quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
- dezoito,
induzidas em erro
por uma juventude afinal tão efémera:
- mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
- quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas
em relação a alguém ou a qualquer coisa
- setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
- no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas
mas selvagens quando em multidão:
- isso, o melhor é não tentar saber nem mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
- não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
- trinta, mas preferia estar enganada,
encurvadas, sofridas,
sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas
- mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas
- pelo menos trinta e cinco, o que já não é nada mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender
- três,
dignas de compaixão:
- noventa e nove,
mortais:
- cem por cento,
número que, de momento, não é possível alterar.
Wislawa Szymborska
receita para fazer um herói
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intesa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto.
Reinaldo Ferreira, Um Voo Cego a Nada
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intesa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto.
Reinaldo Ferreira, Um Voo Cego a Nada
trocar de rosa
Onde vão os passo que se afastam e que escuto
Longe muito longe
Estamos sós a minha sombra e eu
A noite cai
Pierre Reverdy
Longe muito longe
Estamos sós a minha sombra e eu
A noite cai
Pierre Reverdy
deslumbramento
A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos calvários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousa...
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade …
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!Um grito
De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!
Teixeira de Pascoaes, antologia organizada por Mário Cesariny
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos calvários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousa...
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade …
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!Um grito
De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!
Teixeira de Pascoaes, antologia organizada por Mário Cesariny
pequenos trabalhos de domingo
não saio antes
que tudo esteja pronto
a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off
nessa hora em que
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua
sento-me num banco do jardim
mais próximo
onde (que perfeição)
nada acontece
Miguel-Manso, Santo Subito
que tudo esteja pronto
a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off
nessa hora em que
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua
sento-me num banco do jardim
mais próximo
onde (que perfeição)
nada acontece
Miguel-Manso, Santo Subito
quinta-feira
Amanhã é quinta-feira.
Se o mundo cumprir com suas obrigações,
Se o mundo cumprir com suas obrigações,
depois de amanhã será sexta.
Se não, talvez mesmo domingo
e nunca ninguém saberá
onde se extraviou nossa vida.
Piotr Sommer
não há verso capaz
(...)
Cortei-me e não há
verso capaz
de estancar o sangue
Manuel A. Domingos, Teorias
Cortei-me e não há
verso capaz
de estancar o sangue
Manuel A. Domingos, Teorias
ainda estou para entender, da morte, esta alquimia
Sentado próximo de um cadáver,
como uma perna de galinha
As carnes muito brancas,
os olhos muito abertos,
a língua dura e roxa,
o céu da boca azul:
não parece já, apetecer-lhe almoço
Passei à sobremesa,
em óptima melancia enterro o meu dente;
com a língua dou um estalo
o sabor é excelente
Daquele corpo pútrido,
o cheiro já mal aguento;
cuspo uma pevide,
acerto-lhe no ventre
Ainda estou para entender,
da morte, esta alquimia:
quando a sento à minha mesa,
a galinha sabe a faisão
e a melancia duplamente a melancia
João Damasceno, Sião
como uma perna de galinha
As carnes muito brancas,
os olhos muito abertos,
a língua dura e roxa,
o céu da boca azul:
não parece já, apetecer-lhe almoço
Passei à sobremesa,
em óptima melancia enterro o meu dente;
com a língua dou um estalo
o sabor é excelente
Daquele corpo pútrido,
o cheiro já mal aguento;
cuspo uma pevide,
acerto-lhe no ventre
Ainda estou para entender,
da morte, esta alquimia:
quando a sento à minha mesa,
a galinha sabe a faisão
e a melancia duplamente a melancia
João Damasceno, Sião
GIN BEIJOS
dizes-me que a cama do teu quarto
está por fazer que saíste e todas
as lojas estavam fechadas hoje
é domingo que ontem sábado dissemos
muitas coisas muito amor gin beijos
se terei um pouco de pão ou de ternura
para te emprestar
Pablo Garcia Casado, trad. Joaquim Manuel Magalhães
está por fazer que saíste e todas
as lojas estavam fechadas hoje
é domingo que ontem sábado dissemos
muitas coisas muito amor gin beijos
se terei um pouco de pão ou de ternura
para te emprestar
Pablo Garcia Casado, trad. Joaquim Manuel Magalhães
a alma e o caos
O molar solitário de uma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é da terra à terra deve voltar.
Gottfried Benn
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é da terra à terra deve voltar.
Gottfried Benn
elogio do príncipe da dinamarca
coitado do hamlet
assassinado
empurrado
para o sepulcro que é
oculto entre reposteiros
sem paixões
como os ladrões
que lucram trinta dinheiros
coitado do que ele vê
crimes
espectros
correctos
coitado do hamlet
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação
assassinado
empurrado
para o sepulcro que é
oculto entre reposteiros
sem paixões
como os ladrões
que lucram trinta dinheiros
coitado do que ele vê
crimes
espectros
correctos
coitado do hamlet
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação
o amor / a solidão e a loucura
Pedem tanto a quem ama: pedem o amor. Ainda pedem a solidão e a loucura.
Herberto Hélder
Herberto Hélder
Esta dor não passa quando adormeço
chora ao pé de mim
irremediável
alguém nos toca no ombro e
damos por nós mais sozinhos
o meu lugar na morte
é junto à janela
logo atrás de ti
Mário Rui de Oliveira
irremediável
alguém nos toca no ombro e
damos por nós mais sozinhos
o meu lugar na morte
é junto à janela
logo atrás de ti
Mário Rui de Oliveira
hipótese
que pus a hipótese
de não ser
afinal um sonho
mas de estar no cinema a ver
um filme japonês
com as máscaras
as cabeças rapadas
a guincharia
os cânticos
acompanhados
pelos sistros
ou então seria um filme
americano
eu tinha naturalmente adormecido
e agora
estava a sonhar
mas era um recitativo alto
e logo ali no cinema
não podia ser
só se o ruído da tosse
dos rebuçados e das conversas
para saber se o bacalhau
já estaria no ponto
permitissem
esta comunicação paralela
não sei
mas também não sei
se pus esta hipótese
mais tarde
já acordado
isto admitindo
que nalgum momento do sonho
eu acordei
ou agora mesmo que estou a dizê-lo
ou no momento
do sonho
caso isto fosse sonho
ou do filme
caso isto fosse filme
era inquietante
sem dúvida
porque o recitativo lembrava
digo eu agora
ou lembrou-me no sonho
ou no filme
um músico de Pergamo
Alberto Pimenta, Poemas com Cinema
de não ser
afinal um sonho
mas de estar no cinema a ver
um filme japonês
com as máscaras
as cabeças rapadas
a guincharia
os cânticos
acompanhados
pelos sistros
ou então seria um filme
americano
eu tinha naturalmente adormecido
e agora
estava a sonhar
mas era um recitativo alto
e logo ali no cinema
não podia ser
só se o ruído da tosse
dos rebuçados e das conversas
para saber se o bacalhau
já estaria no ponto
permitissem
esta comunicação paralela
não sei
mas também não sei
se pus esta hipótese
mais tarde
já acordado
isto admitindo
que nalgum momento do sonho
eu acordei
ou agora mesmo que estou a dizê-lo
ou no momento
do sonho
caso isto fosse sonho
ou do filme
caso isto fosse filme
era inquietante
sem dúvida
porque o recitativo lembrava
digo eu agora
ou lembrou-me no sonho
ou no filme
um músico de Pergamo
Alberto Pimenta, Poemas com Cinema
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Paul Éluard
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Paul Theroux
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Philip Larkin
Philip Roth
Pia Tafdrup
Pierre Reverdy
Piotr Sommer
Rafael Alberti
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Ramón Gómez de la Serna
Raymond Carver
Raymond Queneau
Reiner Kunze
Richard Brautigan
Richard Burton
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Robert Frost
Roberto Fernández Retamar
Roberto Juarroz
Roger Wolfe
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Rubens Borba de Moraes
Rudyard Kipling
Russell Edson
Ruth Stone
Salman Rushdie
Sam Shepard
Samuel Beckett
Sandro Penna
Santiago Nazarian
Serge Gainsbourg
Sharon Olds
Shel Silverstein
Silvia Chueire
Silvia Ugidos
Simone de Beauvoir
Somerset Maugham
Stephen Crane
Stephen Wright
Steve Mccaffery
Stevie Smith
Stuart Dischell
Sue Goyette
Susana Cabuchi
Sylvia Plath
T. S. Eliot
Tanya Davis
Tati Bernard
Tatianna Rei Moonshadow
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Tilly Strauss
Tom Baker
Tom Waits
Ulla Hahn
Valentine de Saint-Point
Vincenzo Cardarelli
Vinicius de Moraes
Vladimir Nabokov
W. H. Auden
Warsan Shire
William Blake
William Butler Yeats
William Carlos Williams
William Shakespeare
Winnie Meisler
Winona Baker
Wislawa Szymborska
Yehuda Amichai
Yohji Yamamoto
Yoko Ono
Yorgos Seferis
Zee Avi
livraria
. A Sul de Nenhum Norte .
. Granta .
Al Berto .
Alexandre O'Neill .
Algernon Blackwood .
Ali Smith .
Alice Munro .
Alice Turvo .
Almanaque do Dr. Thackery .
Anaïs Nin .
Anita Brookner .
Ann Beattie .
Annemarie Schwarzenbach .
Anton Tchekhov .
António Ferra .
António Lobo Antunes .
Arthur Miller .
Boris Vian .
Bret Easton Ellis .
Carlos de Oliveira .
Carson McCullers .
Charles Bukowski .
Chuck Palahniuk .
Clarice Lispector .
Conde de Lautréamont .
Cormac McCarthy .
Cristiane Lisbôa .
Donald Barthelme .
Doris Lessing .
Dulce Maria Cardoso .
Edith Wharton .
Eileen Chang .
Elena Ferrante .
Enrique Vila-Matas .
Erasmo de Roterdão .
Ernest Hemingway .
Ernesto Sampaio .
F. Scott Fitzgerald .
Fernando Pessoa .
Flannery O'Connor .
Florbela Espanca .
Françoise Sagan .
Franz Kafka .
Frida Kahlo .
Gabriel García Márquez .
Gonçalo M. Tavares .
Graça Pina de Morais .
Gustave Flaubert .
Guy de Maupassant .
Harold Pinter .
Haruki Murakami .
Henri Michaux .
Herberto Hélder .
Hunter S. Thompson .
Irene Lisboa .
Irène Némirovsky .
Italo Calvino .
J. D. Salinger .
Jack Kerouac .
James Joyce .
Jean Cocteau .
Jean Genet .
Jean Meckert .
Jean-Paul Sartre .
Jeffrey Eugenides .
Jim Cartwright .
Joan Didion .
John Cheever .
José Jorge Letria .
José Saramago .
Josep Pla .
Julian Barnes .
Julio Cortázar .
Karen Blixen .
Kate Chopin .
Katherine Mansfield .
Kurt Vonnegut .
Lázaro Covadlo .
Lillian Hellman .
Luís de Sttau Monteiro .
Luís Miguel Nava .
Luiz Pacheco .
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Malcolm Lowry .
Manuel Hermínio Monteiro .
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Margaret Atwood .
Marguerite Duras .
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Virginia Woolf .
Vladimir Nabokov .
William Faulkner .
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Yasunari Kawabata .
Yukio Mishima .










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